Ola, queridos leitores! A obra vai entrar em hiato por um tempo, pouquinho, mas jaja volto, ainda estou escreveno!
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Capítulo 31. Hrafn. O nome da vida
Hrafn tinha de admitir; a risadinha era, ao menos, muito fofa.
A coisinha andava de um lado para o outro com uma felicidade tão simples que parecia satisfeita apenas por existir, e isso, ao que tudo indicava, fazia Edvard se arrepender profundamente de ainda estar vivo. A pequena mandrágora usava o velho como um parque ambulante, escalando-lhe os ombros, saltando de um lado a outro da cabeça e se agarrando ao robe com a intimidade de quem já se julgava em casa.
Hrafn ainda não tinha decidido o que sentir a respeito dela, estava surpreso, azedo e satisfeito, um misto estranho de emoções. Surpreso pois descobrira poucas horas antes que dormira por uma semana inteira depois da batalha. Estava azedo também, seu inestimável grão de luz agora era pouco mais do que um caroço seco e cinzento, sem o menor vestígio da megin ou da pequena divindade que antes carregava, mas apesar da perda estava satisfeito.
Porque a causa da perda parecia ter sido aquela coisinha. Uma criatura mística, rara ao ponto de nem Edvard conhecer algo semelhante, e que um dia talvez se tornasse muito poderosa. Hrafn sabia disso melhor do que ninguém, as duas mandrágoras contra as quais lutara haviam matado cinco bons guerreiros, Liv entre eles e mais dois durante a batalha, os outros dois nos dias seguintes, consumidos pelos ferimentos que a floresta lhes deixara de presente.
Era difícil conciliar as contas, difícil olhar para algo tão pequeno, tão alegre e tão estranhamente adorável e enxergar ali a promessa de galhos, ódio e violência. Ainda mais quando a pequena desgraça parecia vê-lo como alguma espécie de pai., ou mãe, Hrafn preferiu não pensar muito sobre essa parte.
Mas o vínculo estava ali e ele o sentia com clareza, era uma ligação fina, pela qual escapavam impulsos confusos vindos da criatura. Não pensamentos inteiros, nada tão humano, eram emoções, necessidades e vontades soltas sem linguagem. Hrafn começava a suspeitar de que a vida de voroir consistia em grande parte, a se adaptar a uma quantidade crescente de absurdos até que todos eles começassem a parecer normais.
Logo eles vieram novamente, uma grande quantia de alegria, muita curiosidade, pequenas doses de receio, apego e fome. Mal o pensamento se formou em sua cabeça e a coisinha pareceu senti-lo. Interrompeu suas peripécias sobre Edvard e correu de volta para a cama, para evidente alívio do mordomo, que soltou um suspiro discreto.
Ao chegar, a criatura tocou a pele de Hrafn, ele sentiu então uma pequena vontade tateando a entrada de algo que ele não sabia nomear, como dedos minúsculos buscando uma porta. Era outro daqueles fenômenos que ele compreendia quase por instinto, e que justamente por isso, o perturbavam mais do que deveriam.
Hrafn abriu a porta e a criatura bebeu da sua megin com avidez, pelo vínculo vieram alegria e deleite, depois veio saciedade, e por fim, o sono. A pequena mandrágora se enroscou ao lado dele e adormeceu quase no mesmo instante, enquanto a madeira de seu corpinho rangia de tempos em tempos, em algo que Hrafn pensou ser a respiração profunda de uma mandrágora.
“Meu senhor,” disse Edvard, já recomposto o bastante para voltar a ser ele mesmo. “Não me parece sábio permitir que essa criatura tome da sua essência dessa forma.”
“Ora, Ed,” respondeu Hrafn. “Não consigo imaginar por quê.” Mentiu.
Conseguia imaginar muito bem, ate mesmo imaginar em detalhes bastante vívidos como uma mandrágora podia matar um homem. Já tinha visto galhos atravessarem carne para partirem-se dentro dela, crescerem onde não deviam e deixarem para trás uma morte lenta. Ainda assim, o grão de luz estava perdido. Ele suspeitava que a criatura tenha usado a união entre a energia da relíquia e sua própria megin para completar o nascimento.
E Hrafn, sendo mesquinho como era, recusava-se a sair de uma desgraça com menos do que havia sofrido para ela, restava portanto, apostar na pequena mandrágora e torcer para que o vínculo bastasse para mantê-la sob controle.
Além disso, ela precisava de um nome. “O que você acha de Mavis, Ed?”
Edvard olhou primeiro para a criatura, depois para Hrafn. “Mavis?”
“Sim. Mavis.” Hrafn pousou a mão sobre a pequena. “Parece um bom nome.”
“Parece um nome,” respondeu Edvard. Hesitou por um instante antes de continuar. “Mas convém escolher bem, meu senhor, pois nomes têm poder. Minha ignorância não alcança o quanto, mas alcança o suficiente para entender que tem.”
Hrafn soltou um breve ruído pelo nariz. “Nanna dizia coisas parecidas.” Passou os olhos pelo quarto, pela criatura dormindo e pelo próprio estado miserável. “Traga-me café. Pensarei melhor acordado.”
“Não estou certo de que seria prudente deixá-lo sozinho com—”
“Sim, Ed, imagino.”
O mordomo ajustou a manga do robe, lançou mais um olhar de desgosto cauteloso para a mandrágora, outro para o senhor, curvou-se e saiu.
Hrafn ficou olhando para a criatura. A princípio quis descartar toda aquela importância dada aos nomes, soava muito com a espécie de conselho vago que gente supersticiosa gostava de oferecer sem jamais explicar direito, mas ele andava cada vez mais relutante em ignorar as lições de Nanna.
“Thora,” disse para si mesmo, tentando ver se o tom no nome o iluminava. “Como a forte.”
A pequena mandrágora se remexeu e emitiu algo muito próximo de um não.
Hrafn ergueu uma sobrancelha.
“Ingrid? Como a bela?”
Veio outro não.
“Helga?”
Não.
“Brynhild?”
Não.
“Sif?”
“Eydis?”
“Signy?”
A pequena parecia desaprovar todos com um desgosto surpreendentemente firme, e Hrafn já começava a ficar sem ideias quando a porta se abriu.
“Seu café, meu senhor,” anunciou Edvard, entrando com uma bandeja. Havia café, leite, pão e uma sopa de carne cujo cheiro quase fez o estômago de Hrafn rosnar como um animal malcriado.
“Muito bem, Ed,” disse.
“Ei, garoto.”
Outra voz atravessou o aposento antes mesmo que a bandeja chegasse até a cama. Dagny passou por Edvard sem pedir licença, cruzou os braços e encarou Hrafn com a familiar falta de reverência de sempre.
“Quando vai estar bom para ir?”
“Líder Dagny,” disse Edvard, num tom muito mais severo do que costumava usar. “Peço o devido respeito.”
Dagny lançou-lhe um olhar feio. “Já tive respeito por uma semana.” Então cuspiu no chão. “Uma semana esperando seu garoto voltar à vida.”
Vida. A palavra acendeu alguma coisa em Hrafn, ele virou um pouco a cabeça. “Qual era mesmo o nome da garota?” perguntou com leveza, em respeito a perda de Dagny. “A sua aprendiz.”
A mulher o observou com desconfiança antes de responder. “Liv.”
No mesmo instante, a pequena mandrágora despertou com um pulo, uma corrente de excitação atravessou o vínculo com tal intensidade que Hrafn quase a sentiu como sua. Ja Dagny reagiu como quem reconhece uma ameaça antes mesmo de entendê-la, a mão descendo até a espada curta em sua cintura.
“O que é isso?” perguntou, havia ódio em sua voz.
O tom bastou para assustar a criatura, que se encolheu e se escondeu atrás do corpo de Hrafn.
“Ainda estou tentando descobrir,” respondeu ele. “Mas é inofensiva.”
“Tão inofensiva quanto a outra que matou Liv?”
Dagny ainda não compreendia a situação inteira, mas compreender não era necessário para a raiva da guerreira, bastava ver ao lado do voroir uma criatura parecida demais com aquilo que lhes fez pagar um preço tão alto. A pequena mandrágora, porém, parecia mais confusa do que culpada, estava receosa, mas longe de ser hostil, e quando ouviu de novo o nome, animou-se.
“Liv,” repetiu Hrafn, testando.
A criatura saltitou, contente.
“Liv,” continuou ele, agora com mais certeza. “Como a que guarda. Liv, como a vida.”
A satisfação que veio pelo vínculo foi tão intensa que transbordou, a pequena mandrágora começou a se balançar de um lado para o outro, e risadinhas iguais às de uma criança vazaram pelo quarto. Nem Edvard nem Dagny precisavam compartilhar da ligação para perceber. A alegria da coisa era visível demais para isso.
Dagny ficou com a espada na mão por mais um momento, e seus olhos iam de Hrafn para a criatura e da criatura para Hrafn, como se calculassem o peso exato de cada escolha. Talvez pensasse em atacá-la, em buscar o machado, e talvez em matar ali mesmo aquela coisinha sorridente, aquele pequeno diabo vegetal, e aceitar depois a ira do voroir como parte do preço.
No fim, porém, ela suspirou e guardou a espada. “Temos que conversar, garoto.”

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