Capítulo 32 — Alva — Conspirações
“Onde está aquele maldito aleijado, Astrid?!” Alva xingou alto, o que por si só já dizia mais do que gostaria. Desde que conhecera o jovem voroir, vinha perdendo a compostura com uma frequência que não condizia nem com seu nome nem com sua posição.
“No posto, minha senhora,” respondeu Astrid. “Ferido e dormindo, exatamente como constava no relatório.” concluiu. Pontuando com pouca delicadeza o quão idiota era a pergunta.
“Zombe de mim outra vez, serva, e eu farei você engolir sua língua.” Respondeu Alva, antes de voltar para a mesa e olhar o contrato, letra limpa e termos decididos sem sua participação e presumindo sua obediência.
Seu irmão mais novo, Hakon, aquela praga bem-nascida, enviara-lhe um contrato de casamento aos aposentos ontem. Até pouco tempo antes, o imbecil ainda rondava sua porta com a humildade dos mais novos, pedindo favores e pedindo dinheiro, até pedindo que ela falasse com o pai em seu lugar porque lhe faltava coragem para enfrentar o marquês sem tremer, agora vinha impor data, pretendente e utilidade.
Alva desejou matá-lo, ver ele duro e frio, com a surpresa ainda presa na cara lisa dele. Só não desejou ainda mais porque sabia que a ideia não fora dele, Hakon podia ser vaidoso, ambicioso até, mas lhe faltava coluna para uma decisão tão abrupta. Havia as mãos dos irmãos mais velhos, de conselheiros e talvez do próprio pai.
“Haverá tempo de sobra para o elevado acordar. Preocupar-se cedo demais é convidar o erro a tomar parte das decisões.” disse Astrid.
Alva não respondeu e riu apenas, um som curto e sem humor, sua mente continuou a girar. Derrubar o casamento era possível, difícil mas possível, sempre havia uma saída para quem pensasse cedo e sujo o bastante, o duelo era uma delas. Isso se Hrafn não estivesse deitado num posto de mina respirando com costelas partidas e sangue perdido. Seu irmão agora também era um voroir, já não bastava ser homem, jovem e favorecido, a Estrela ainda tocará ele. Assim como era também um guerreiro completo, com todos os membros onde deviam estar.
Alva tomou a carta outra vez, leu a linha do nome do pretendente como quem prova carne estragada, a união proposta também era boa demais para ser recusada sem custo político. Que casasse, diziam as entrelinhas, que parisse, se acomodasse, diziam para entregar com elegância e perfume, tudo o que vinha arrancando com dente, cálculo e horas de insônia, e enquanto pensava em todas as desgraças que ainda poderia causar ao próprio sangue, alguém bateu à porta.
Astrid foi atender. Falou baixo com quem estava do outro lado, ouviu a mensagem e fechou a porta com a mesma calma de sempre. Não disse nada de imediato e permitiu com uma maldade quase afetuosa, que Alva continuasse a afiar os próprios pensamentos até o ponto em que qualquer homem sensato teria começado a rezar pela segurança de Hakon.
Em vez de falar, Astrid serviu chá e srviu também pequenos bolos de nozes, e só então falou. “O voroir acordou, minha senhora.”
Alva parou e respirou fundo, ajeitando as dobras do vestido como se fosse possível retirar de si a raiva apenas alisando o tecido. Sentou-se, tomou a xícara conforme deixava o calor subir, pegou e comeu um pequeno pedaço de bolo, depois olhou pela janela .“Isso é bom, Astrid,” disse. “Devemos marcar o duelo o mais rápido possível.”
Astrid inclinou a cabeça, satisfeita por ouvir a conclusão à qual já chegara antes.
“Antes que Hakon cresça mais forte, e antes que entenda melhor o próprio milagre, mas…” continuou Alva, pousando a xícara, “não pretendo apostar todas as minhas fichas no duelo.”
“E o que teria em mente, minha senhora?”
Alva então estendeu a mão até o prato de bolos de nozes, escolheu um dos menores e levou-o até a altura dos olhos. “Hakon os adora, não é?” disse “Adora ao ponto de o marquês ter precisado restringir sua dieta quando mais novo, lembro-me bem. Ele comia como um porco pequeno e mimado.”
Astrid se remexeu de leve no banco. “Minha senhora não pode estar pensando…”
“Assassinar meu irmão mais novo?” Alva deixou um sorriso muito branco tocar-lhe a boca. “Um elevado pela Estrela e o filho favorito do meu pai. Com veneno, caso meu guerreiro perca…” ela abaixou o bolinho. “Claro que eu não faria isso, Astrid.”
Ela então voltou a olhar pela janela, antes de falar com a calma alegre de uma dama comentando um escândalo alheio durante o chá da tarde. “Você fará.”
“Minha senhora—”
“Ele gosta de você, basta ser gentil e doce.’’ disse, seu sorriso crescendo “Mate Hakon.”
Astrid a encarou primeiro com horror real e o rosto perdeu toda a cor, ali por um instante pareceu verdadeiramente o que ela deveria ser; uma criada promovida, e uma parente menor lembrada apenas quando convinha. Mas o instante passou conforme a expressão mudava, o horror cedendo terreno à consideração e ao cálculo.
E então, como a Estrela saindo por trás de nuvens muito escuras, um sorriso começou a nascer em seus lábios. “Minha senhora é muito cruel.”
“Só quando me convém.”
Astrid cruzou as mãos no colo, pensativa agora de um jeito quase elegante. “Se eu falhar, morro.”
“Sim.”
“Se eu for pega, morro pior.”
“Provavelmente.”
“Digamos que eu consiga. O seu irmão morre e a sua casa perde o herdeiro, seus outros irmãos se lançam uns contra os outros para aproveitar a brecha, o marquês provavelmente enlouquece’’. continuou.’’Ainda assim, a senhora talvez tenha de se casar.” concluiu.
“Talvez,” concedeu Alva. “Mas não com a agenda deles, como desejam me quebrar, irei sangrar esta casa antes de ir’’
Astrid sustentou-lhe o olhar por mais um momento.
“E o que ganho?
“Eu te elevo.”
“Elevar uma serva é fácil de prometer.”
“Não uma serva. Você.” Alva recostou-se na cadeira. “Eu lhe dou a terra e um novo nome, talvez um casamento menor se quiser ou independência se for mais ambiciosa do que feminina…” Ela colocou a palma da mão nos lábios avaliando. “Baroa cairia bem em você.”
Astrid sorriu.“E verdade, minha senhora, cairia-me muito bem.”
“Então estamos entendidas,” disse Alva.
“Estamos avaliando possibilidades,” corrigiu Astrid.
“Não seja tediosa.”
“Não seja precipitada.”
Alva soltou um ruído breve pelo nariz. “Providencie o duelo, eu quero a formalidade pronta antes do fim do dia.”
“E Hrafn?”
Alva pensou no plebeu elevado e maldito aleijado que lhe arrancara um grão de luz sem pestanejar. No rapaz que ainda assim permanecia, para o seu desgosto, a melhor peça disponível no tabuleiro que lhe haviam deixado.
Ela ergueu os olhos para a prima. “Preciso que ele vença, mas não posso apostar.” Alva pegou de novo o pequeno bolo de nozes. “Vá matar meu irmão, Astrid.”
Astrid levantou-se com a compostura impecável de sempre.
“Com prazer, minha senhora.”

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