Índice de Capítulo

    Ola, queridos leitores! A obra vai entrar em hiato por um tempo, pouquinho, mas jaja volto, ainda estou escreveno!

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    O cavalo de guerra bufava sob ele com uma paciência cada vez menor.

    Em circunstâncias melhores, o animal teria lidado bem com o peso, fora criado para aquilo, mas o posto de mina não era exatamente um lugar onde se encontrava boa ração, e o inverno também não ajudava ninguém. Para sua sorte, as muralhas já se aproximavam e a volta fora tranquila. Depois de tudo o que a mina lhes cobrara, o caminho de retorno decidirá se comportar como uma estrada comum. Nenhum Caído vagante, nenhum grito na noite, houve apenas o frio.

    Atrás dele vinham Edvard, alguns servos e os guerreiros de Dagny, todos pareciam gastos, não fora uma viagem longa, mas fora miserável o bastante para parecer maior do que de fato tinha sido. Conforme se aproximavam do portão, Sahirid voltava a se erguer diante dele, como sempre bela, ampla e impossível.

    À distância, a cidade ainda podia passar por alguma espécie de conto bonito, um daqueles que Nanna teria lido para ele numa noite de chuva, com o fogo baixo e uma voz cansada. Mas as coisas sempre cavavam mais fundo do que os olhos podiam ver. Na entrada, um comerciante de rosto vermelho discutia com um guarda, ele passou por eles a tempo de sentir a mão do guarda se estender com quase nenhuma descrição. O comerciante ergueu uma sobrancelha, soltou um suspiro resignado e tirou das vestes uma pequena bolsa destinada ao suborno. 

    Ao longo do caminho, cenas parecidas se repetiam com pequenas variações. Homens discutindo por moedas que mal valiam o esforço do punho fechado, mulheres se vendendo por menos do que mereciam e mais do que podiam recusar, assim como crianças entregues à própria sorte, correndo entre adultos ocupados demais para notá-los. Para ele a cidade ainda cheirava a sal e  mar, mas agora também parecia cheirar a outra coisa; era corrupção.

    Logo atravessaram o segundo anel, e ali era melhor, ou ao menos parecia, as ruas eram mais limpas, as roupas mais caras, e as desgraças eram escondidas melhor. Mas Hrafn quase preferia a honestidade brutal do anel externo, onde a vida te mordia na canela e seguia em frente, no segundo anel ela sorria primeiro e te mordia pior.

    Os cavalos enfim pararam diante de um grande portão de ferro, logo atrás dele havia uma mansão de dois andares, jardim bem cuidado, pedra clara e linhas elegantes com um ar geral de nobreza, esta era sua nova propriedade, ainda que não por completo. O acordo não lhe entregava posse imediata, apenas poder para uso, mas isso já era mais do que Hrafn teria sido capaz de imaginar poucas estações antes. Entre o fim do outono e o começo do inverno, sua vida parecera mudar mais do que nos anos anteriores inteiros.

    Dagny não disse muito ao acompanhá-lo até ali, assentiu apenas do alto do cavalo, seca como sempre, e seguiu com seus homens sem desperdiçar palavras. Os servos que vieram com ele desmontaram e abriram o portão, lá dentro já havia outros esperando, muito bem alinhados e bem vestidos. Um presente de Alva, sem dúvida, e como quase todos os presentes dela deviam vir com um preço.

    Eram Informantes provavelmente. Cogitou dispensá-los, mas a ideia durou pouco, pois ele mesmo sabia o que era a vida de um comum. Além disso, não guardava tantos segredos assim, fora que levando em conta a bênção, talvez aqueles mesmos olhos e ouvidos acabassem servindo a ele sem nem perceber.

    Logo ele entrou, e a primeira coisa que o recebeu foi o cheiro de perfume e limpeza. A madeira no interior não era escurecida como nas casas do anel externo. Era marrom escura, polida e talvez até tratada por alquimia, também havia colunas, trechos em pedra e móveis de mármore exibidos como status. Um lustre pendia no teto do hall, provavelmente mais caro que a casa antiga de Hrafn inteira.

    Ele lançou um olhar ao redor. “O que acha, Ed?”

    “Parece bom, meu senhor,” respondeu Edvard.

    “E como se sente sobre este acordo?”

    O mordomo havia sido parte dos negocios. Até então Edvard servira sob a asa da Hird, mas Alva, com seu sangue antigo e a autoridade apropriada, conseguiu arrancá-lo de lá e trazê-lo para a esfera da coroa. Hrafn suspeitava que aquilo não saíra barato, ele sabia que Edvard valia demais para ter sido movido sem custo.

    “Como antes, meu senhor,” respondeu o velho, curvando-se. “Sinto-me honrado.”

    Hrafn deixou a resposta passar, pois nunca entenderia completamente homens como Edvard. Havia nele uma devoção ao ofício que beirava o entusiasmo, e Hrafn não sabia se aquilo era virtude, loucura ou apenas habito. Ele próprio jamais seria capaz de viver assim, mas as pessoas escolhiam para si propósitos estranhos. O dele também não era grandioso, so queria continuar vivendo de maneira minimamente decente e morrer de velhice, de preferência dormindo. O que a essa altura, já começava a parecer uma ambição grande demais.

    “Vamos subir, Ed—”

    “Elevado voroir,” chamou um servo, curvando-se.

    Hrafn voltou o rosto para ele, fazendo o sujeito tremer um bocado.

    “Há um hersir à porta. Leif. Ele deseja vê-lo.”

    Hrafn ficou em silêncio por um instante, antes de afundar levemente na bênção. A presença do hersir veio clara entre as demais, pesada e opressiva, enquanto esperava la fora. Hrafn forçou um pouco mais o sentido para avaliar melhor e se arrependeu no mesmo instante, sua cabeça latejou, com sua mente sendo torcida ao tentar empurrar seus dons sobre o Hesir.

    “Elevado voroir,” chamou outro servo.

    Mas Hrafn levantou a mão antes que ele completasse a sentença, já sabia do que se tratava. Outras presenças haviam surgido do lado de fora do portão, eram mais fracas e mais comuns, porem confiantes demais nos próprios passos para serem simples plebeus, e ele suspeitava saber quem era.

    “Não poderiam ter me deixado descansar um pouco?” perguntou.

    “Parece que não, meu senhor,” respondeu Edvard.

    O mordomo já estava em movimento antes mesmo de terminar a frase, virou-se para os servos, deu ordens rápidas com o olhar e começou a organizar, em poucos gestos, toda a cortesia que um hersir da Hird e uma dama nobre julgariam devida. Hrafn observou a velocidade com que o homem transformava invasão em recepção e concluiu, não pela primeira vez, que Edvard provavelmente conseguiria servir chá com elegância no meio de um incêndio.

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