Capítulo 35 — Hrafn — Casamento e uma Dor de Cabeça
O olho bom e castanho do hersir ainda estava sobre Hrafn, o outro estava coberto por um pano cheio de inscrições na língua do senhor. As notícias que Leif trouxera eram ruins, e pior porque ao que tudo indicava, Alva não sabia delas. O ódio nos olhos da jovem era quase tangível, e a única coisa impedindo que ela explodisse ali mesmo era a memória muito recente da presença esmagadora que desabara sobre todos no aposento.
Hrafn tinha de admitir; o sujeito era assustador.
A presença do rastejador, a dupla de mandrágoras, até a impressão deixada pelos muros de Sahirid, nada daquilo se comparava ao que acabara de sentir. O peso que Leif lançara sobre seu espírito fora tão grande que por um instante Hrafn quase apagará ali mesmo, mas ele era teimoso.
Também não gostava de ultimatos. “Acho que vou ficar com Lady Alva,” disse.
Leif não se moveu, mas o olho bom estreitou, Alva pareceu pega mais de surpresa do que o hersir. Hrafn ergueu de leve a taça, como se estivesse propondo um brinde particularmente ruim.
“Nanna dizia que palavra tem poder,” continuou. “E eu não pretendo quebrar a minha.”
A resposta teria parecido tolice a qualquer pessoa sensata, qualquer um com juízo aproveitaria a chance para fugir, e livrar-se da Coroa e da família errada antes que o custo do erro dobrasse de tamanho. Mas voltar atrás agora significaria outra coisa, significaria carregar o estigma de traidor. E Hrafn não sobrevivera até ali para trocar uma ‘’coleira’’ por outra.
Também não queria servir sob Leif, o hersir talvez achasse que Hrafn consideraria a proposta se fosse para servi-lo diretamente. Não poderia estar mais enganado, Hrafn sabia reconhecer um tipo quando o via. Toda aquela conversa de honra, dever e justiça era muito bonita de ser esculpida na pedra ou gritada em cerimônias. Mas ele via outra coisa ali, via um homem com um olho só, figurativamente e não só; a religião o cegara também. Leif era um fanático, do tipo que se mataria sem hesitar pela própria causa, e que mataria os outros com a mesma tranquilidade.
Era justamente por isso que Hrafn preferia o outro lado. A Coroa podia ser podre em vários pontos, mas a corrupção ao menos obedecia alguma lógica, por mais distorcida e falha que fosse, mas lógica ainda assim, a ganância, o egoísmo, uma boa conveniência, todas eram coisas que Hrafn entendia. Coisas com as quais se podia negociar, ou contornar, mas um homem como Leif? Um homem que acreditava estar certo diante da Estrela? Isso era bem pior.
O hesir continuou a encará-lo por mais alguns instantes, ponderando se valia a pena insistir, se valia a pena esmagar mais um pouco, talvez ate tentar dobrá-lo de outro jeito. No fim, o hersir recuou. “Decepcionante,” disse ele. Levantou-se e saiu.
Hrafn acompanhou-lhe as costas com um sorriso curto e satisfeito, ao lado, Alva soltou o ar que estava prendendo. “Por que recusou?” perguntou ela.
“Eu acabei de dizer.”
“Duvido que seja só por isso.”
“Não me importa.”
Ele então voltou sua atenção ao que realmente importava, começando a comer. Até aquele momento bebera mais do que comera, porque a presença de Leif deixava qualquer apetite parecido com má ideia, mas o hersir se fora e o estômago de Hrafn parecia disposto a compensar o atraso.
“Batalha de seis, então?” perguntou, já de boca cheia. E ao seu lado, Edvard teve um pequeno espasmo nervoso.
“Talvez seja só especulação,” respondeu Alva. Pegou a taça de vinho com dedos finos e controlados. “Nenhum voroir arriscaria a vida por assuntos que não lhe dizem respeito. Meu irmão é novo demais para mover tanta influência.”
“Mas não é o seu irmão, é?” respondeu Hrafn, pegando um pedaço de carne com a mão. “E também não há vida para ser arriscada, ao menos não na cabeça deles. Serão três voroirs contra um.”
“Não, não é meu irmão,” disse ela, respondendo primeiro à parte mais importante. “Ele é covarde demais para isso.” Provou o vinho, pensativa. “Na visão deles, você disse. Quer dizer que na sua, não seria tão simples?”
“É exatamente o que eu quis dizer.”
Ele não explicou, em vez disso levou mais comida à boca, mastigou com gosto e lançou um olhar breve ao mordomo. “A comida está fabulosa, Ed.”
“Obrigado, meu senhor,”
Alva pegou um garfo pequeno, que era provavelmente o garfo certo para alguma comida certa, Hrafn preferia não saber, cortou um bife rosado com delicadeza estudada e levou-o à boca. Enquanto mastigava, ele quase podia ouvir as engrenagens trabalhando dentro dela. A cabeça da pequena nobre era uma sala cheia de portas, cofres e facas, disso ele tinha certeza.
“Não vai dizer, vai?” perguntou, depois de desistir de arrancar resposta do silêncio dele.
“E qual seria a graça?”
Ela soltou um riso curto e descrente. Por um momento pareceu menor do que já era, assim como cansada também. Muito cansada, mas logo o olhar voltou se afiar. “Mate Hakon, se puder, e se renda,” disse.
Hrafn ergueu as sobrancelhas. “Então quer mesmo se casar.”
“Não brinque.”
“Então não ama seu irmão?”
“Uma piada melhor que a outra.”
“Obrigado.”
Os dois se olharam com um veneno tão medido que quase podia ser chamado de humor. Alva suspirou e encostou a mão na testa antes de continuar. “Não me importa se você vence ou não,” disse. “Não sei o que lhe dá confiança para enfrentar três voroirs, e não me interessa. Mas, contanto que mate Hakon antes de se render, eu lhe darei tudo o que construí.”
Hrafn parou com o garfo no ar. “E se eu o matar e vencer?”
Ele continuou, saboreando a própria lógica tanto quanto a comida. “Veja bem, não me parece que você esteja exatamente incentivando a vitória aqui. Se eu matar seu irmão e perder, levo muita coisa. Se eu o matar e ainda vencer, você fica com as suas coisas, imagino.” Fez uma pausa curta. “Você é idiota?”
“Porque você não vai ganhar,” respondeu Alva, seca. “Mesmo que títulos mais altos não possam entrar na batalha, você acha mesmo que pode se comparar a voroirs mais velhos?”
“Quem sabe.” Hrafn deu de ombros. “Mas seria bom ter o prêmio em vista caso sim. Você sabe, incentivo e toda essa merda.” Cortou mais um pedaço de carne. “Além disso, não quero suas posses, pois daria trabalho demais.”
Alva franziu a testa. “E o que você quer?”
Hrafn mastigou devagar, limpou a boca com o pano sem nenhuma pressa, então falou sorrindo. “Case-se comigo.”
Alva o encarou como se não acreditasse no que ouvira, num primeiro momento tomou aquilo por outra piada absurda, mais uma provocação, outra perversidade do humor torto dele. Mas não era, os olhos de Hrafn continuavam sorrindo, mas havia neles a rigidez clara de quem estava falando sério.
“Quero matar meu irmão por causa de um casamento,” disse ela, cada sílaba vazando raiva e desgosto. “E você me pede em casamento?”
“Sim. Brilhante, não é? Eu sei que é.”
Tomou a taça com dois dedos, bebeu um gole de vinho e levantou os outros três num gesto que queria dizer; espere um pouco, ainda não acabei.
“Se você casar comigo,” disse, limpando os lábios, “não terá de casar com mais ninguém. Entende?”
Alva era esperta, e não levou muito tempo para enxergar a manobra, um casamento com Hrafn resolveria o problema mais imediato, esvaziaria a pressão imposta pela família. E daria a ela um marido que já estava sob acordo, um que não parecia ter qualquer interesse em comandar sua vida doméstica como um nobre de verdade faria.
“Mas o que você ganha com isso?” perguntou ela. “Sou a décima oitava filha.”
Hrafn virou a cabeça para o mordomo. “Ed, poderia?”
“Em um momento, meu senhor.” curvou-se e saiu.
“Nosso contrato atual é de quinze por cento, certo?” disse Hrafn, voltando-se para Alva. “Vamos mudar para trinta por cento para mim em todos os seus bens, e nos casamos. Mas há uma condição indispensável,” acrescentou ele. “Não quero lidar com burocracia nenhuma”
“Só isso?” perguntou ela, com desconfiança mais do que justa. “Você me venderia seu casamento, o de um voroir, por mais quinze por cento?”
“Por trinta em tudo,” corrigiu ele. “Veja bem. Eu não quero casar e você não quer casar. E antes que comecem a me pressionar por isso também, podemos simplesmente nos casar os dois e acabar com o assunto.” Deu mais um gole no vinho. “Parece ótimo para mim.”
Edvard voltou pouco depois com um novo contrato em mãos.
O texto mantinha quase todos os termos anteriores, e a principal mudança era clara; Hrafn não tocaria em parte administrativa alguma sob hipótese nenhuma, e passaria a receber trinta por cento de todos os bens de Alva, não apenas os quinze por cento de lucro das caravanas, como no acordo anterior.
Alva pegou o documento para ler, Hrafn observou o rosto dela enquanto isso, havia ali raiva ainda, desconfiança também. “Então,” disse ele, com um sorriso em que até os olhos participavam.
“negócio fechado?”

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