Capítulo 207: Colheita
“Muito bem, se não há mais nada, estão dispensados!”
Leylin olhou para George, que parecia ter algo a dizer, mas sempre se continha, e depois para Bessita e os outros, que permaneciam em silêncio. Sentiu o entusiasmo se esvair.
Desde que havia avançado e se tornado um Mago oficial, parecia viver em um mundo diferente daquele de seus antigos círculos sociais.
Mesmo com seus velhos conhecidos bem diante dele, todos lhe pareciam incrivelmente estranhos, como se centenas de milhares de anos tivessem se passado.
“Entendido!”
Os acólitos sob seu comando se curvaram e se retiraram depressa.
Até George e Bessita deixaram o salão com cautela, depois de se curvarem.
Bessita, que foi a última a sair, lançou a Leylin um olhar indecifrável e se retirou às pressas.
No silêncio profundo da noite, depois de concluir uma rodada da técnica de meditação Pupila de Kemoyin, Leylin descansava deitado quando, de repente, abriu os olhos.
Logo em seguida, ouviu-se uma batida suave do lado de fora.
“Entre! A porta não está trancada!” Leylin se levantou e falou com indiferença.
A porta rangeu ao se abrir, e uma figura humana vestida com uma capa cinzenta entrou.
“Bessita! O que quer comigo?” Leylin lançou um olhar para a garota de cabelos branco-prateados, com um brilho malicioso nos olhos.
“Lorde Leylin, por favor, perdoe Bessita por suas ofensas anteriores!”
A voz de Bessita soou mansa e suave. Em seguida, ela retirou a capa que vestia, revelando por baixo um corpo completamente nu.
O corpo de Bessita havia amadurecido desde a última vez que ele a vira. Era extremamente voluptuoso, com a pele alva e impecável, tão macia que parecia verter água ao menor beliscão.
Bessita olhou para Leylin enquanto se ajoelhava devagar. Nos olhos vermelho-rubi, via-se uma súplica bajuladora, como se pedisse perdão com toda a sinceridade.
Qual seria a sensação de ter, ajoelhada à sua frente, completamente nua, uma garota bela e deslumbrante implorando por seu perdão, na calada da noite?
Naquele momento, Leylin havia experimentado isso por si mesmo.
Mesmo assim, sua expressão permaneceu serena, como se o corpo sedutor e delicado de Bessita não fosse mais que um esqueleto quebrado a seus olhos.
Leylin avaliou a garota: inteligente, mas também astuta.
“Você é esperta, mas às vezes é esperta demais para o próprio bem!”
Ele ergueu a mão direita, acariciou o rosto de Bessita e então a deixou descer até seus seios.
“Está tentando me seduzir? Só com esses dois pedaços de carne?”
A mão direita de Leylin apalpou sem cerimônia os seios macios de Bessita. A garota gemeu, o rosto contorcido de dor.
De repente, Bessita foi invadida por um pavor imenso.
Sua força como acólita de nível 3 não significava nada para Leylin. Ainda assim, era em sua beleza estonteante que ela realmente confiava.
No entanto, ao encarar o olhar gélido de Leylin, sentiu de repente que tudo o que acabara de fazer era vergonhoso e ridículo.
O olhar frio de Leylin a deixou sem ar.
Seu corpo tremia sem parar enquanto o suor frio escorria. Com o passar do tempo, seu corpo se ruborizou enquanto o rosto empalidecia. Era como se pudesse morrer por falta de ar a qualquer momento.
“No entanto! Alegre-se! Em memória do antigo ‘eu’, decidi lhe dar uma chance!”
No instante em que Bessita estava prestes a desmaiar, Leylin falou suavemente.
Só então ela voltou a si e começou a ofegar pesadamente. Até então, era como se uma mão gigantesca a estivesse estrangulando. A sensação de sufocamento desapareceu no instante em que Leylin falou.
Bessita puxou o ar fresco em grandes golfadas, com lágrimas prestes a cair.
Nunca antes ela havia considerado uma bênção poder respirar livremente.
“Venha comigo!”
Leylin balançou a cabeça e abriu a porta de um aposento separado.
Tremendo, Bessita apanhou a capa que estava no chão e cobriu o corpo delicado e nu.
Ela havia sido capaz de tentar seduzir Leylin sem sentir medo, mas agora só sentia vergonha. Aquela sensação estranha a fez corar até a raiz dos cabelos, desejando que se abrisse um buraco para engoli-la.
Depois de atravessar a porta, Bessita descobriu que havia entrado em uma sala secreta completamente vedada.
O cômodo era pequeno, e os contornos dos tijolos podiam ser vistos nas paredes.
No meio da sala secreta havia uma pesada mesa metálica, parecida com uma mesa de experimentos. Nos quatro cantos, havia algemas fixadas para mãos e pernas.
Ao olhar para aquela mesa de metal, o rosto de Bessita empalideceu.
Ela quis recuar, mas não ousou. Foi então que percebeu os objetos estranhos pendurados nas paredes da câmara.
Por exemplo, havia um bastão curto coberto de pequenas esferas na superfície.
Também havia uma seringa enorme recheada com várias pérolas de vidro, além de ventosas, cabos e outros apêndices esquisitos.
O coração de Bessita afundou como pedra.
Claro, ela sabia que muitos Magos oficiais tinham fetiches estranhos.
Já tinha até ouvido uma história sobre um professor de sua academia que comeu uma garota ainda viva depois de terminar de brincar com ela.
“Não entenda mal, isso não é meu, mas um presente deixado pelo Mago anterior…”
Leylin tirou da parede um instrumento peculiar de imobilização feito de algodão e correntes metálicas. “Mas percebi que os gostos dele eram bem parecidos com os meus, no passado…”
Aqui, Leylin naturalmente se referia ao idiota azarado que tinha morrido e permitido que ele tomasse seu corpo.
Leylin não gostava de Bessita; afinal, antes ela havia se aproveitado dele. Por isso, planejava lhe dar uma lição que ela nunca esqueceria.
O antigo Leylin havia sofrido bastante nas mãos dos outros e, no fim, acabou morrendo.
Leylin acreditava que, já que tinha tomado tudo o que pertencia ao antigo Leylin, talvez fosse seu dever vingá-lo. De todo modo, não seria difícil.
“Esses itens aqui foram modificados e são exatamente do tipo que ‘eu’ gostava.”
Leylin lançou um olhar para Bessita, parada diante dele, e um sorriso maldoso se espalhou por seu rosto…
Depois que Leylin deu vazão ao que sentia, voltou ao normal na manhã seguinte e tratou dos assuntos da fortaleza.
Bessita, por outro lado, saiu da sala secreta cambaleando na segunda noite.
Seu rosto estava completamente pálido, e até os ossos pareciam entorpecidos. O cheiro de sangue era forte em seu corpo, e Bessita ficou de cama por uma semana inteira antes de conseguir se forçar a andar.
Se isso tivesse acontecido antes, os acólitos teriam protestado e reclamado.
Mas agora, mesmo que Bessita ficasse ausente por sete dias, eles só podiam tolerar aquele comportamento. Afinal, nem todo acólito podia ter relações com um Mago oficial, certo?
Ela sofreu as consequências daquele incidente, e toda vez que olhava para Leylin, suas pernas tremiam involuntariamente, como se tivesse visto um demônio.
É claro que Leylin não se importava com isso.
Depois de usar em Bessita todos os métodos que havia tirado das memórias do antigo Leylin, ele nunca mais a procurou.
O que fez com ela não teve origem em desejo algum nem em qualquer hobby perverso. Ele só queria puni-la e se vingar pelo Leylin Farlier original.
Por isso, depois de despejar completamente a própria raiva, deixou para trás tudo o que dizia respeito a Bessita.
Naquele momento, Leylin patrulhava o mar de Flores de Mandara Negras.
Essas flores negras tinham pétalas do tamanho de uma palma. No topo, havia manchas azuis como estrelas e, à noite, elas até emitiam raios de luz branco-leitosa.
A Flor de Mandara Negra era uma variedade da Flor de Mandara. Suas pétalas eram um recurso extremamente precioso para acólitos e até para Magos oficiais especializados em energia negativa.
No mundo exterior, uma pétala de Flor de Mandara Negra podia ser vendida por mais de 1.000 Cristais Mágicos, um valor assustador!
E aqui, o que Leylin tinha diante de si era um mar inteiro dessas flores!
“Os recursos do plano secreto das Planícies do Rio Eterno são tão abundantes que deixam qualquer um de cabelo em pé!” exclamou Leylin, embora não fosse a primeira vez que os via.
Uma pena que houvesse um feitiço de vigilância sobre esse mar de Flores de Mandara Negras. Antes de decidir dar as costas aos Magos da Luz, ele precisava reprimir, por enquanto, qualquer ideia de tomar aquelas flores para si.
Além do feitiço de vigilância, cada entrada do plano secreto também tinha formações mágicas de detecção intrincadas. Como transportar esses recursos para fora em segredo era um problema dos mais espinhosos.
Agora ele conseguia entender por que o Jardim das Quatro Estações queria erguer uma fortaleza nesta área.
Ocupar uma posição estratégica era só um dos motivos; o Jardim das Quatro Estações também não podia abrir mão daquele imenso mar de flores.
Embora o plano secreto das Planícies do Rio Eterno fosse extremamente vasto e rico em recursos, esse mar de Flores de Mandara Negras era extremamente valioso até mesmo entre os outros recursos dali.
Se não fosse por essa localização terrível, o Jardim das Quatro Estações muito provavelmente teria enviado um grande exército para defender esta área.
“Lorde! Nossa tarefa todos os dias é tentar colher o máximo possível dessas Flores de Mandara Negras e transportá-las antes que o inimigo chegue!”
Ao lado do mar de flores, um acólito seguia Leylin e lhe explicava os detalhes práticos.
“Que os Anéis Ennea nos abençoem! Desde que aqueles malditos Magos das Trevas descobriram várias áreas de recursos em grande escala, escaramuças começaram a surgir por toda parte. Muito provavelmente vamos enfrentar um grande contingente de forças dos Magos das Trevas… Ainda há alguns Magos das Trevas e acólitos que tentam romper as defesas de tempos em tempos para roubar recursos. Além disso, também temos de nos precaver contra certos Magos da Luz…”
O acólito sorriu amargamente.
“Entendo! Em todo caso, nossa missão é colher todas essas flores o mais rápido possível e repelir Magos e acólitos errantes. Se estivermos em apuros, temos de enviar um sinal. É isso?”
“Sim, é basicamente isso!” O sorriso do acólito ficou ainda mais amargo.
Uma tática dessas claramente jogava Leylin e seu grupo no fio da lâmina, trocando suas vidas por recursos.
“Entendi!” Leylin disse em tom solene depois de um momento de silêncio.

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