Capítulo 198: Jamu
O céu azul-anil estava coberto de nuvens brancas, e aquela paisagem magnífica parecia não ter fim.
Ao lado de uma estrada reta corria um riacho límpido e sinuoso. Em seu leito, viam-se com clareza seixos brancos e peixes verdes.
“Contanto que atravessemos Pome Alley, chegaremos ao nosso destino. Ali fica uma entrada para o Plano Secreto do Rio Eterno, no Cânion Marat. A viagem até lá leva só um dia, então podemos ir sem pressa! Que tal acharmos um lugar para descansar um pouco?”
George baixou os olhos para o mapa amarelado desenhado no pergaminho e tirou uma bússola. Conferiu a direção e falou com Leylin e os outros por cima do ombro.
“Parar? Se é tão perto assim, não seria melhor irmos até lá e descansarmos lá mesmo?”
Sheira fulminou George com o olhar.
Aquela cena já tinha se repetido várias vezes naquele pequeno grupo. Sempre que George fazia uma sugestão, Sheira a rebatia sem piedade, e ele desistia na mesma hora.
Aquilo já era tão frequente que até Leylin tinha se acostumado.
Talvez só uma mulher daquele tipo conseguisse manter um mulherengo como George sob controle. Leylin percebeu que George parecia até gostar da situação.
Bessita, por outro lado, tinha passado o tempo todo calada. Não opinava sobre nada e, se não fosse a única acólita de nível 3 da Academia dos Jardins das Terras Úmidas, talvez já tivessem se esquecido dela.
“Tudo bem, tudo bem! Vamos seguir caminho!” Como era de se esperar, ao ouvir a voz de Sheira, George ergueu depressa as duas mãos em rendição. Leylin revirou os olhos para ele.
Leylin ficou um pouco surpreso ao olhar para o outro caminho adiante.
Com sua força espiritual atual, Leylin percebeu que, não muito longe dali, havia um grupo de acólitos. Eles vinham avançando depressa na direção deles e pareciam também estar indo para o Cânion Marat.
Naquele ritmo, parecia que logo encontrariam o grupo de Leylin.
A força deles superava a do grupo de George em um ou dois níveis. Leylin também conseguia sentir as ondulações de um Artefato Mágico vindas do corpo do líder.
Embora fosse só um Artefato Mágico de baixo grau, isso por si só já era extremamente valioso.
Só acólitos realmente talentosos e herdeiros de grandes famílias possuíam Artefatos Mágicos. O poder de combate daqueles acólitos já estava no auge do nível 3 e, fora os Magos oficiais, eles não temiam ninguém!
Cerca de três minutos depois, o semblante de Sheira mudou.
“Cuidado! Bourbon avistou acólitos se aproximando de nós!”
Como responsável pelos ataques de longo alcance, Sheira também cuidava da vigilância. Bourbon era uma coruja incomum que ela criava e que, dentro de certo alcance, podia compartilhar o campo de visão com ela.
“Acólitos?”
A expressão de George se fechou, e ele praguejou. “Merda! Espero que a nossa sorte não seja tão ruim assim. Alerta!”
Encontrar acólitos de fora em campo aberto não era algo que pudesse ser ignorado. Havia a possibilidade de conflito entre eles e, numa situação dessas, o lado mais fraco normalmente acabava sendo a vítima.
George deu a ordem; Bessita e os outros logo entenderam o perigo.
Eles se reuniram, e alguns montaram uma formação de feitiço defensiva simples. Tudo transcorreu com fluidez, o que indicava que já tinham se preparado e treinado antes.
Enquanto os acólitos aguardavam, tensos, uma nuvem de poeira se aproximava deles.
Tac! Tac!
Junto com o som dos cascos de vários cavalos, um grupo de cinco pessoas entrou no campo de visão de Leylin.
O líder vestia um manto branco e carregava uma espada larga nas costas. Leylin percebeu que as ondulações do Artefato Mágico vinham daquela espada enorme.
“É um Artefato Mágico enorme. Interessante!” Leylin acariciou o queixo.
Normalmente, os Artefatos Mágicos eram bem menores, por causa dos recursos preciosos necessários para construí-los. Embora aquele enorme Artefato Mágico fosse apenas de baixo grau, era a primeira vez que Leylin via um tão grande.
Depois de reconhecerem aquele objeto tão chamativo, Bessita e os outros dois acólitos da Academia dos Jardins das Terras Úmidas primeiro ficaram incrédulos e depois gritaram: “É Jamu! É o veterano Jamu!”
“Oh! Vocês são acólitos da Academia dos Jardins das Terras Úmidas?” Ao ouvir aquilo, Leylin olhou para os três acólitos que tinham saído da formação de feitiço defensiva para receber os recém-chegados.
Um leve sorriso surgiu no rosto de Bessita.
Com a beleza natural de Bessita, aquele sorriso deixou os acólitos atrás de Jamu aturdidos por um instante.
Tocotó! Tocotó!
O grupo puxou as rédeas e, a um gesto do líder, os cinco desmontaram; seus movimentos eram precisos, como se tivessem treinamento militar.
“Vocês são acólitos da academia?”
Jamu era um homem alto, de pele clara. Tinha pelo menos uma cabeça a mais que George e cabelos azuis. Havia uma pinta vermelha entre as sobrancelhas.
“Sim! Veterano Jamu, nós até nos encontramos uma vez no coquetel do Professor Clarentino…”
Ao ver alguém tão famoso, Alexander e Lana ficaram sem palavras e só conseguiram se esconder atrás de Bessita.
Bessita, por outro lado, mostrou grande entusiasmo e conversou com Jamu, apontando de vez em quando para Leylin e George.
Uns dez minutos depois, Jamu se aproximou de George e Leylin.
“George! E esta é Sheira…?”
Jamu ergueu o queixo, com arrogância estampada nos olhos. “Ouvi falar de vocês por Bessita. Em retribuição pela ajuda que lhes deram, permito que sigam atrás de nós até o Cânion Marat.”
Jamu os fitou de cima para baixo, como se tivesse pena deles.
“O veterano Jamu está entre os dez mais fortes da academia em poder de combate! Com ele por perto, não precisamos nos preocupar com a nossa segurança!”
Bessita exaltava a força dele ao lado, com o corpo quase colado ao de Jamu.
“Você…” George ainda tinha seu próprio orgulho e quis responder na mesma hora, mas Sheira o impediu.
“Ele tem razão! Pome Alley sempre foi uma área onde bandidos aparecem com frequência. Sem Bessita e os outros, duvido que consigamos atravessar em segurança.” Sheira murmurou no ouvido de George.
Ao ouvir as palavras da amada, George se abateu e, por fim, forçou um sorriso. “Nesse caso, obrigado, veterano Jamu!”
Hmpf!
Jamu apenas acenou com a cabeça, de forma contida, e olhou para Leylin.
“Quanto a você, aquele Mago das Trevas de antes! Em tempos tão delicados, nosso grupo não o aceita!”
“Você não pode fazer isso! Leylin é um acólito do Jardim das Quatro Estações e já rompeu todos os laços com a Academia da Floresta de Ossos Abissal!” George se apressou em dizer.
“Que credibilidade podem ter magos criados num ambiente daqueles? Quem sabe o status dele como acólito do Jardim das Quatro Estações não foi obtido por meios escusos!”
Jamu riu friamente.
“Eu realmente acho que há uma grande chance de ele ser um espião enviado pelos Magos das Trevas, e precisamos revistar seus pertences!”
Um acólito sardento gritou atrás de Jamu.
“Bessita! O que você acha?”
Leylin a observou com leve interesse.
“Sinto muito, Leylin! Embora um dia tenhamos trilhado o mesmo caminho, a segurança dos nossos companheiros vem primeiro agora.”
Bessita parecia dividida ao tomar aquela decisão.
“Tem mais alguma coisa a dizer?” Jamu cruzou os braços.
Embora Alexander e Lana não vissem Leylin como um inimigo, diante de Jamu não ousaram dizer nada.
Quanto a George, Sheira já o havia puxado para trás.
“Por uma vingança inútil?” Leylin fitou Bessita. “Que estupidez!”
“Mas, pelo visto, não vou precisar lidar com você pessoalmente!”
“O que quer dizer com isso?” Jamu não entendeu as palavras de Leylin, e a atitude dele o irritou. Um brilho mágico intenso irrompeu de seu corpo no mesmo instante, tornando a atmosfera tensa.
Fuuush!
Um dardo ácido cortou o ar e atingiu o arrogante acólito sardento.
Sssii!
Junto com o som aterrorizante da corrosão, o acólito derreteu e se transformou numa pilha de carne e líquido vermelho e verde, sob os olhares dos acólitos ao redor.
No meio da pilha de carne, vários fragmentos de osso quebrados ficaram espetados de pé.
“Ataque inimigo!” A voz aflita de Bessita ecoou; tão aguda que saiu um pouco rouca.
Zás! Zás! Zás!
Num instante, Jamu, Leylin e todos os outros se viram cercados por cerca de vinte bandidos.
“Akai!” “Seu bruto maldito!” “Vou matá-lo!”
Os três acólitos atrás de Jamu ficaram furiosos ao ver o companheiro morrer de forma tão trágica. Várias ondas de magia foram lançadas contra os bandidos de túnica.
Hmpf!
O líder dos bandidos deu um passo à frente, e um anel de luz negra se espalhou ao redor de seu corpo.
Pa! Pa!
Os acólitos lançaram seus feitiços contra aquela luz negra, mas, como bolhas de sabão ao se chocarem e estourarem, todos foram rechaçados.
“Um Artefato Mágico! Um Artefato Mágico defensivo!”
Jamu estreitou os olhos ao perceber isso e se colocou diante dos três acólitos, protegendo-os.
“Eles não são adversários com quem vocês possam lidar. Recuem primeiro!”
“Eu sou Jamu! Qual é o seu nome?”
Clangue! O metal raspou contra o metal quando Jamu puxou a espada larga das costas. Empunhando-a com um braço, encarou o líder dos bandidos de túnica e perguntou o nome do inimigo.
“Hehe…”
Em meio a risadinhas estranhas, o líder entrou em ação.
Bum! Uma camada do chão se soltou; terra e pedras ficaram suspensas no ar e convergiram para a forma de uma besta. Com as mandíbulas escancaradas, ela tentou morder Jamu.
“Hah!”
Uma luz branco-prateada riscou o ar quando Jamu fez um movimento com a mão.
Um único traço cortou em direção à besta!
A vegetação ao redor foi destruída num instante; uma abertura dividiu as árvores em dois lados.

Regras dos Comentários:
Para receber notificações por e-mail quando seu comentário for respondido, ative o sininho ao lado do botão de Publicar Comentário.