Capítulo 169 - Memorias Solidas.
Até Helena pareceu entender o desconforto que havia tomado conta do corredor, mas foi Aisha quem primeiro decidiu mudar de assunto:
— Eu fico no da Naira.
— Certo.
Kael apontou para o quarto de Seiryu, algumas portas adiante.
— Lucas e Helen ficam no de Seiryu. É o maior.
Lucas olhou para a porta aberta.
— Tem certeza que nós dois podemos usar aquele?
— Pode.
Lucas olhou para o batente da porta mais alto que as outras em comparação, depois olhou de canto para Lys antes de voltar a atenção para Kael.
— Ele era alto?
Pela primeira vez surgiu algo próximo de um sorriso cansado no rosto de Kael.
— Muito.
— Faz sentido.
Lucas não fazia ideia do motivo, mas assentiu mesmo assim.
Enquanto isso, Lys observava o quarto de Thamir pela porta entreaberta. O interior parecia ter sido abandonado no meio de algum projeto: cordas enroladas sobre a mesa, mapas empilhados em estantes improvisadas, ferramentas espalhadas pelos cantos e anotações presas às paredes.
Um caos organizado.
— Eu fico com esse.
Kael apenas assentiu.
Maelis continuava parada no centro do corredor.
Sem escolher.
Ou talvez sem pensar nisso.
Kael percebeu.
— Você não precisa de quarto agora.
Ela ergueu uma sobrancelha.
— O quê?
— Preciso de um favor.
A expressão dele não mudou, mas o cansaço estava evidente demais para ser ignorado.
— Preciso sair.
— Sair?
— Procurar roupas.
O olhar dele passou por Lys antes de chegar até Maelis.
— Vocês duas são as únicas sem roupas suficientes para passar os próximos dias aqui.
Lys observou as próprias mangas.
Poeira.
Fuligem.
Algumas manchas de sangue já secas.
— Eu trouxe algumas mudas quando Elenys partiu.
— Então eu que estou sobrando. — Maelis suspirou.
— Posso te emprestar algumas.
— Ótimo. Um problema a menos.
Kael passou a mão pelos cabelos e soltou um suspiro.
— Vou verificar os depósitos. Se o desabamento não levou tudo, ainda deve existir alguma coisa aproveitável.
Ele caminhou até a porta do quarto de Ian.
Parou.
Por alguns segundos apenas observou o interior do cômodo.
Depois voltou os olhos para Maelis.
— Enquanto eu estiver fora…
Ela esperou.
— Você cuida dele.
A frase foi simples e direta.
Mas estranhamente pesada.
Maelis acompanhou o olhar dele até a cama.
Ian continuava imóvel. Pálido, a respiração ainda arrastada mas estável.
— Eu cuido.
Kael assentiu.
Pegou a mochila, algumas ferramentas e seguiu para a escada.
As luminárias espalhadas pelo corredor projetavam aquela luz amarelada e constante sobre as paredes de pedra, acompanhando seus passos até desaparecer no piso inferior.
Pouco depois veio o som distante da porta principal se abrindo.
Depois fechando.
O refúgio voltou a ficar silencioso.
Mas por pouco tempo.
— Vem, Helen. Hoje é o banho das garotas. — Aisha estendeu a mão para ela.
Curiosamente, dessa vez Helena não saiu correndo.
Ela se encolheu um pouco e apertou a mão de Lucas com força.
— Está tudo bem, Helen. — Lucas sorriu. — Eu vou estar aqui quando você voltar.
A garota hesitou por alguns segundos antes de finalmente soltar a mão dele.
— Você promete?
— Prometo.
Só então soltou a mão de Lucas e aceitou a mão de Aisha.
As duas seguiram pelo corredor em direção ao quarto de Naira, e o som dos passos foi desaparecendo pouco a pouco.
Lucas observou as duas irem embora.
Passou a mão pelos cabelos de forma distraída.
— Bom… eu vou dar uma olhada no quarto.
Ninguém respondeu.
O que, de alguma forma, tornou aquilo mais constrangedor.
Lucas se virou e caminhou até a porta de Seiryu.
Estendeu a mão.
A esquerda.
Os dedos chegaram a fechar no vazio antes que ele percebesse.
O braço não estava mais lá.
Por um instante ele continuou sentindo os dedos.
Como se o braço ainda existisse.
O sorriso apareceu imediatamente.
Pequeno.
Constrangido.
— Certo…
Ele baixou o ombro e usou a outra mão.
— Ainda estou me acostumando.
Antes que alguém respondesse, abriu a porta e entrou rapidamente no quarto.
Fechando-a atrás de si.
Maelis permaneceu onde estava, próxima à porta do quarto de Ian.
Sem perceber, seus olhos acabaram voltando para o interior do cômodo.
A luz amarelada das luminárias iluminava apenas parte do quarto. O suficiente para revelar a cama, a mesa encostada na parede, a estante estreita e a cadeira posicionada ao lado da cama.
Só então ela percebeu algo.
Aquele quarto parecia realmente menor que todos os outros quartos daquele corredor. Não havia espaço desperdiçado, nenhum canto vazio, nenhuma tentativa de tornar o ambiente mais impressionante.
Apenas o necessário.
Maelis observou Ian por alguns segundos antes de entrar no quarto e se sentar na cadeira.
Aquilo até que fazia sentido para ela, mais do que deveria.
Uma batida leve interrompeu seus pensamentos.
Maelis ergueu os olhos.
Lysvallis estava parada na porta.
— Posso?
— Você já entrou.
Lys olhou para os próprios pés.
Ainda estavam do lado de fora.
— Tecnicamente, ainda não.
— Tecnicamente.
A rainha suspirou.
Então entrou.
A porta permaneceu parcialmente aberta atrás dela.
Por alguns instantes nenhuma das duas falou.
Lys caminhou devagar até a mesa olhando as anotações.
Passou os dedos pelo canto procurando poeira que ninguém ainda havia limpado.
Depois olhou para Ian.
Depois para o quarto.
Só então pareceu perceber a mesma coisa.
— Esse quarto é pequeno.
— Eu também achei.
— Menor que os outros.
— Bem menor.
Lys observou a cama.
A mesa.
A estante.
Tudo comprimido em um espaço que mal comportava o necessário para ela.
— Estranho.
— Por quê?
— Porque ele poderia escolher qualquer um.
Maelis acompanhou o olhar dela.
— E escolheu esse.
— Sim.
…
Lys caminhou pelo quarto acabou sentando na cadeira próxima à parede.
Por alguns segundos ficou observando as próprias mãos.
— Kael confiou isso a você.
— Parece que sim.
Quando voltou a falar, a voz saiu mais baixa.
— Eu queria pedir desculpas.
Maelis não respondeu imediatamente.
Já sabia sobre o que era.
Ainda assim perguntou:
— Pelo quê?
Uma pequena risada sem humor escapou de Lys.
— Você sabe. O baile. O plano. — Lys arrumou a postura — Eu sabia o que ele estava fazendo. E não impedi.
Maelis observou Ian por alguns segundos antes de responder.
— Só… esquece isso.
Ela desviou os olhos.
— Eu deveria ter feito alguma coisa.
— Por quê?
A pergunta fez a rainha erguer a cabeça.
— Porque era o certo.
— Você nem me conhecia, Lys.
— Isso não torna melhor.
— Não. — Ela concordou. — Mas também não torna você culpada por um cálculo que não foi seu.
Maelis voltou os olhos para Ian.
— Além disso… Eu teria feito o mesmo.
Lys abriu a boca.
Depois fechou novamente.
Porque não tinha resposta para aquilo.
O silêncio voltou ao quarto.
Não desconfortável.
Apenas pesado.
A respiração lenta de Ian preenchia os intervalos enquanto as duas permaneciam ali, cada uma perdida nos próprios pensamentos.
Foi um som vindo do corredor que quebrou o momento.
Uma porta abrindo.
Passos rápidos.
Depois uma gargalhada.
Helena.
Maelis ergueu uma sobrancelha.
Lys fechou os olhos por um instante.
— Eu tinha já tinha esquecido dela.
A gargalhada veio de novo.
Mais próxima.
Seguido pela voz de Aisha.
— Helen, devagar!
— NÃO!
As duas trocaram um olhar.
Então saíram do quarto.
No corredor encontraram Helena praticamente correndo na direção delas.
Os cabelos ainda úmidos.
Pequenas nuvens de vapor escapavam dos fios.
Atrás dela vinha Aisha.
Muito mais devagar.
Também com os cabelos molhados.
E exatamente o mesmo vapor subindo dos ombros.
Maelis piscou.
Lys franziu a testa.
— O que aconteceu com vocês?
Helena abriu os braços.
— Água quente!
— Água quente? — repetiu Maelis.
— Quente mesmo! — Helena respondeu. — E não acaba!
Aisha soltou uma pequena risada.
— Foi mais ou menos essa minha reação.
Lys observou o vapor saindo dos cabelos das duas.
Depois olhou para o teto, pensativa.
— Kael aqueceu a água?
— O quê? — perguntou Aisha.
— Os canos.
Lys apontou para a parede.
— Ele passou a tarde inteira mexendo neles.
Maelis considerou a possibilidade.
Fazia sentido.
— Talvez.
Aisha apenas sorriu.
— Entrem lá primeiro. Depois vocês tiram as próprias conclusões.
Elas caminharam até o quarto Naira.
Aisha empurrou a porta e entrou.
Maelis a seguiu.
Parou logo na entrada.
O quarto era diferente.
Maior.
Não mais luxuoso.
Mas diferente.
O quarto de Thamir parecia um local de trabalho abandonado.
O de Ian parecia um espaço ocupado apenas porque alguém precisava dormir em algum lugar.
Ali não.
A colcha possuía bordados delicados nas extremidades.
Pequenos vasos de cerâmica ocupavam uma das prateleiras, intercalados com minerais.
Havia até mesmo um quadro apoiado próximo à janela retratando uma visão do cume do que parecia uma montanha.
Desbotado pelo tempo.
O ambiente inteiro carregava uma sensação difícil de explicar.
Calor.
Não físico.
Humano.
Como se a pessoa que havia morado ali tivesse deixado parte de si espalhada pelo quarto.
— Parece que Naira gostava de plantas. — comentou Aisha observando os vasos.
— Como sabe? — perguntou Maelis.
— Olha a quantidade de vasos.
— Argumento impressionante.
— Obrigada.
Lys passou os olhos pelo quarto.
Demorando alguns segundos a mais sobre os minerais.
— Ela era organizado.
— Muito mais do que o Thamir. — respondeu Aisha.
— Isso não é muito difícil.
Aisha riu.
— Justo.
Só então Helena puxou a mão de Maelis.
— Não é aqui.
— Não?
— É ali.
Ela apontou para uma porta menor ao lado da estante.
Maelis franziu a testa.
Não tinha prestado atenção nela antes.
Aisha abriu a porta.
Uma luz amarelada iluminou o interior.
— Bem-vindas ao maior mistério desse lugar.
Maelis entrou primeiro.
Parou.
Piscou.
Depois olhou novamente.
— O que é isso?
Lys entrou logo atrás.
Sua reação foi praticamente a mesma.
— Eu ia perguntar exatamente isso.
O cômodo era pequeno.
Pedra clara.
Prateleiras.
Um espelho preso à parede.
Uma bancada.
Uma estrutura de porcelana branca que nenhuma das duas reconheceu.
E mais ao fundo…
Um compartimento fechado por uma cortina.
— Certo. — disse Maelis. — Porque ele colocaria uma latrina dentro do quarto?.
Aisha apontou para a estrutura branca.
— Pensei a mesma coisa quando vi, mas você percebeu?.
Silêncio.
— O quê?
— Não tem fedor.
…
— Verdade…
— A agua leva tudo embora!
— O que? Como?
Helena apontou imediatamente.
— É onde você faz cocô.
…
O silêncio seguinte foi absoluto.
Lys fechou os olhos.
Aisha cobriu o rosto.
Maelis apenas ficou encarando a estrutura.
— Vamos ter que falar com Kael, assim que ele voltar.
— Isso não faz sentido — completou Lys. — Não tem nem sinal de runas.
— Exatamente.
— Eu achei que fosse algum artefato.
— Eu também.
— Na verdade a agua ajuda a transportar matéria orgânica através de um sistema hidráulico subterrâneo.
As três olharam para Aisha.
— O quê?
— Kael explicou.
— Quando?
— Na casa dele, tinha uma dessa.
— Mas Tia, lá não tinha agua quente — Helena falou voltando a correr pro quarto.
— Isso é verdade
Lys massageou a testa.
— Mas que lugar é esse?!…
Helena já havia voltado e avançado para o fundo do banheiro.
— O melhor é isso!
Ela puxou a cortina.
O compartimento revelado era simples.
Pedra.
Canos.
Uma válvula metálica.
Nada especialmente impressionante.
Até Helena girar a alavanca.
Um jato de água caiu imediatamente do alto.
Maelis deu um passo para trás.
Lys ergueu as sobrancelhas.
A água continuou caindo.
Constante.
Sem interrupção.
Sem reservatório visível.
Sem círculo mágico aparente.
Sem ninguém alimentando mana.
— Certo. — disse Maelis. — Isso é interessante.
Aisha cruzou os braços.
— Espera.
Helena girou outra válvula.
O vapor surgiu quase imediatamente.
A água tornou-se quente.
Muito quente.
O banheiro começou a encher-se de névoa em poucos segundos.
Maelis ficou imóvel.
Lys também.
— A agua não acaba?
— Foi exatamente o que pensei. — respondeu Aisha.
— Não.
Maelis aproximou-se.
Estendeu a mão.
A água quente atingiu seus dedos.
Constante.
Abundante.
Sem oscilação.
Como se estivesse sendo produzida naquele exato instante.
— Isso não faz sentido. — murmurou Lys.
Pela primeira vez desde que haviam entrado no banheiro, a voz dela carregava algo próximo de genuína confusão.
— Quanto de energia isso consome?
Ninguém respondeu.
Porque ninguém sabia.
Maelis observou o fluxo contínuo.
Depois olhou para os canos embutidos na parede.
Então para o vapor ainda preenchendo o ambiente.
A conclusão surgiu naturalmente.
Kael.
Tinha que ser.
Depois de tudo que ele havia feito naquele dia, aquecer água para todos parecia apenas mais uma tarefa impossível colocada sobre os ombros dele.
— Vou agradecer quando ele voltar — disse ela.
O som de passos no corredor chegou antes que alguém respondesse.
Pesados.
Constantes.
O som fez com que todos saíssem do quarto.
Kael apareceu na entrada do corredor superior com uma mochila nova nas costas e uma armadura que não havia levado quando saiu, couro reforçado, sem ostentação, o tipo que permite movimento sem sacrificar proteção.
Maelis falou primeiro.
— Obrigada.
Kael pausou.
— Pelo quê?
— Pela água quente.
Ele ficou em silêncio por um segundo.
— Não fui eu.
Maelis piscou.
— O quê?
— O sistema já funcionava assim. — Ele continuou andando pelo corredor. — Sempre funcionou.
Ela ficou parada na entrada do banheiro por um momento.
Olhou para os canos na parede.
Para o vapor ainda preenchendo o ambiente.
Para o fluxo que não oscilava.
Kael parou na frente da porta de Ian sem olhar para trás.
Depois voltou os olhos para Lys.
— Precisamos conversar.

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