Índice de Capítulo

    O problema de gente ambiciosa era simples:

    quase todas acreditavam que conseguiam controlar a própria queda.

    E honestamente?

    Às vezes conseguiam.

    Talvez fosse exatamente por isso que Thamir ainda continuasse sentado ali em vez de simplesmente matar a garota.

    O pequeno depósito subterrâneo permanecia abafado pelo cheiro de ervas secas, fumaça e especiarias velhas. Do lado de fora, alarmes ainda ecoavam distantes por Elandor, mas ali dentro o silêncio tinha ficado mais perigoso que o caos da cidade.

    Naira permanecia encostada ao lado da porta, braços cruzados, observando a mulher como alguém avaliando se devia alimentar um animal ferido… ou terminar o trabalho logo.

    A garota sustentava o olhar dela sem abaixar a cabeça.

    Bom instinto de sobrevivência.

    Thamir girou lentamente a cadeira entre os dedos antes de falar:

    — Então deixa eu organizar essa bagunça.

    Ele apontou casualmente para ela.

    — Seu plano atual depende de roubar o último estoque estratégico de Elandor, entregar pros nômades do deserto e usar isso pra tomar controle do Véu de Safira…

    Fez uma pausa.

    — Nome continua horroroso, inclusive.

    Ela ignorou.

    Profissional mesmo.

    — …e depois disso você quer usar o colapso econômico pra construir uma rede centralizada de comércio ilegal antes que os reinos percebam que perderam o controle.

    — Resumindo de forma agressiva, sim.

    — Ótimo. Odeio ambiguidades.

    Naira finalmente descruzou os braços.

    — Você entende que isso provavelmente mataria milhares de pessoas.

    A garota não respondeu imediatamente.

    Ponto importante.

    Ela ainda escolhia quais verdades dizer.

    — Pessoas vão morrer — respondeu por fim. — A diferença é que alguém vai lucrar com isso de qualquer jeito.

    — Então agora entramos na parte filosófica da criminalidade.

    — Não estou justificando.

    Ela sustentou o olhar de Naira.

    — Estou descrevendo o que vai acontecer.

    O depósito ficou quieto outra vez.

    A pior parte era simples:

    ela provavelmente estava certa.

    Naira sabia.
    Thamir sabia.
    E ela sabia que os dois sabiam.

    Maravilhoso.

    — E onde exatamente entra a parte em que nós não matamos você agora? — perguntou Thamir.

    Ela olhou diretamente pra ele.

    Sem hesitar dessa vez.

    Finalmente.

    — Porque vocês precisam de mim.

    Naira soltou uma risada seca.

    Perigosa.

    — Cuidado.
    — Gente costuma morrer rápido quando fala isso com convicção errada.

    A garota assentiu devagar.

    — Então deixa eu corrigir:
    vocês precisam do que eu sei.

    Melhor resposta.

    Muito melhor.

    Ela começou a enumerar nos dedos.

    — Eu sei quais rotas ainda funcionam.

    Apontou discretamente pras caixas espalhadas pelo depósito.

    — Legais e ilegais.

    Depois olhou diretamente para Thamir.

    — Também sei quem ainda consegue negociar com os intermediários do deserto.

    Uma pausa curta.

    — E quais agentes do Véu continuam infiltrados em Elandor.

    Naira estreitou os olhos imediatamente.

    Essa última importava.

    — Você entregaria sua própria organização?

    A garota demorou um segundo.

    Só um.

    — Se eu continuar abaixo deles, morro de qualquer jeito.

    Honesta outra vez.

    Excelente.

    Thamir observou ela em silêncio por alguns segundos antes de perguntar:

    — Quantas pessoas acima de você?

    — Três.

    — E quantas você pretende matar?

    Ela sustentou o olhar dele sem piscar.

    — As necessárias.

    Naira soltou o ar lentamente pelo nariz.

    — Eu realmente odeio quando vocês dois começam a se entender.

    — Admito que ela tem potencial.

    — Ela é um desastre ambulante.

    — Exatamente.
    — Potencial.

    A garota claramente ainda não sabia se aquilo era elogio ou ameaça.

    Provavelmente porque era os dois.

    Naira se afastou da parede devagar e começou a andar pelo depósito.

    Pensando.

    Sempre perigoso quando ela fazia isso em silêncio.

    — Existe outro problema — disse por fim. — Mesmo que eu aceite essa insanidade…
    você ainda faz parte do Véu.

    A garota assentiu.

    — Sim.

    — Então nesse momento sua organização provavelmente já percebeu que você desapareceu depois da operação.

    — Sim.

    — E provavelmente assumiram fracasso.

    — Sim.

    — Então agora você é um risco pros dois lados.

    Ela ficou quieta.

    Porque não existia argumento contra aquilo.

    Thamir sorriu pequeno.

    — Ah… então finalmente chegamos na parte divertida.

    Naira ignorou ele.

    Natural.

    — Quanto tempo até colocarem sua cabeça a prêmio? — perguntou ela.

    — Se forem eficientes…
    algumas horas.

    — E são eficientes?

    A garota olhou diretamente pra Thamir antes de responder:

    — Bastante.

    Ele percebeu.

    Ela já tinha entendido quem naquela sala sorria quando alguém dizia algo ameaçador.

    Bom instinto outra vez.

    — Então temos pouco tempo — concluiu Naira.

    — Na verdade temos um problema melhor que isso — corrigiu Thamir, inclinando a cadeira pra frente outra vez. — Temos competição.

    A garota franziu levemente a testa.

    — Mael preparou uma armadilha elaborada, isolou liderança política, trancou rotas internas e ainda escondeu o último recurso estratégico do reino.

    O sorriso dele aumentou um pouco.

    — Honestamente? Agora virou questão de educação profissional descobrir onde ele escondeu isso.

    A garota observava Thamir com atenção total agora.

    Tentando entender até onde aquele interesse era humor… e até onde era perigo real.

    Naira passou a mão no rosto.

    — Eu odeio que isso faça sentido.

    — Você odeia muitas coisas.
    — É parte do seu charme.

    Ela ignorou.

    Relacionamento saudável.

    Então a garota falou algo pela primeira vez desde que acordou sem parecer defensiva:

    — O Véu já deve estar procurando o estoque também.

    Isso diminuiu o humor da sala imediatamente.

    Importante.

    — Eles têm infiltrados suficientes pra isso? — perguntou Naira.

    — Talvez não dentro do palácio.
    — Mas fora? Sim.

    E ali estava a verdadeira dimensão do problema.

    Não era mais sobre contrabando.

    Nem sobrevivência.

    Nem ascensão criminosa.

    Era sobre quem colocaria as mãos primeiro no recurso mais importante do continente inteiro.

    Naira ainda parecia dividida entre matar ela ou adotar ela como problema coletivo.

    Thamir observou as duas por um momento.

    Então sorriu devagar.

    — Certo.

    Apoiou os braços no encosto da cadeira.

    — Vamos discutir os detalhes dessa parceria.


    A carroça desceu o último trecho da trilha lentamente.

    As rodas rangiam contra pedra úmida enquanto o vale começava a surgir entre as montanhas.

    O ambiente era preenchido apenas pelo som irregular dos cavalos, vento atravessando árvores antigas e o ranger cansado da madeira da carroça.

    Depois do caos de Cervalhion, aquilo parecia errado.

    Nenhum cheiro de fumaça.
    Nenhum grito distante.
    Nenhum som de reconstrução.

    Aisha afastou levemente a lona lateral para observar o vale melhor.

    As montanhas cercavam a região quase completamente, deixando apenas uma passagem estreita por onde Kael conduzia os animais sem hesitação.

    Como alguém que conhecia cada pedra daquele caminho.

    Lysvallis permanecia sentada no canto oposto, os dedos ainda parcialmente enfaixados depois do excesso de mana usado em Cervalhion. O olhar dela percorria o vale em silêncio.

    Analisando.

    Maelis parecia diferente.

    Mais quieta que o normal.

    Os olhos dela voltavam constantemente para Ian desacordado na parte traseira da carroça.

    A respiração dele ainda era irregular.

    O braço queimado permanecia envolto em tecido escurecido pelas poções e pelas tentativas improvisadas de estabilização.

    Helena dormia encostada no ombro de Lucas.

    Ou fingia.

    As mãos pequenas ainda seguravam o galho de folhas que havia colocado sobre o peito de Ian horas antes.

    Lucas observava Kael pela abertura frontal da carroça.

    — Quanto falta?

    — Pouco.

    Resposta curta.

    Kael raramente desperdiçava palavras quando estava cansado.

    E naquele momento ele parecia exausto de um jeito pior que físico.

    Como alguém tentando atravessar memórias demais ao mesmo tempo.

    A trilha fez uma última curva antes da casa finalmente surgir entre as árvores.

    A primeira reação foi silêncio.

    Porque aquilo…

    não parecia uma casa de um Guardião.

    Muito menos de Ian.

    Era pequena.

    Velha.

    Nada parecida com a casa que Maelis viu nas lembranças.

    Parte do telhado havia cedido completamente de um dos lados e a madeira externa estava deformada pela chuva e pelo frio. O cercado lateral praticamente não existia mais e uma das colunas da varanda havia afundado torta no solo.

    Musgo cobria parte das paredes externas.

    Uma janela estava quebrada.

    Outra havia sido pregada por tábuas antigas muito tempo atrás.

    Era só…

    uma casa abandonada.

    Aisha piscou algumas vezes.

    — …É aqui?

    Kael desceu da carroça sem responder imediatamente.

    Os cavalos soltaram o ar pesado enquanto ele prendia as rédeas próximo da cerca destruída.

    Então olhou para a casa em silêncio por alguns segundos longos demais.

    Como alguém tentando decidir se ainda conseguia entrar ali.

    Lys percebeu.

    Maelis também.

    E pela primeira vez desde Cervalhion, nenhuma das duas fez pergunta alguma.

    Kael caminhou até a porta principal.

    A madeira rangeu forte quando ele empurrou.

    O interior estava escuro.

    Frio.

    Coberto por poeira grossa.

    Uma mesa quebrada.
    Prateleiras inclinadas.
    Tecido apodrecido acumulado em um canto.
    Partes do teto manchadas pela umidade.

    O cheiro de madeira velha e mofo tomou o ambiente imediatamente.

    Aisha franziu a testa.

    — Isso é um esconderijo?

    — Não — respondeu Kael calmamente.

    Então entrou.

    Os outros trocaram olhares antes de seguir atrás dele.

    Lucas ajudou Helena a descer enquanto Maelis e Lys carregavam parte dos suprimentos.

    Ian continuava desacordado.

    Kael atravessou a casa sem hesitação até ajoelhar próximo a uma estrutura de pedra parcialmente escondida sob tábuas caídas.

    Aisha observou ele remover duas peças específicas do chão.

    Clique.

    O som metálico ecoou baixo.

    Então parte da estrutura deslizou lateralmente.

    Lys imediatamente estreitou os olhos.

    Runas antigas.

    Ocultação.

    Não defesa.

    O corredor escondido abaixo da casa revelou uma escadaria descendo para a escuridão.

    Helena foi a primeira a arregalar os olhos.

    — …legal.

    Foi provavelmente a frase mais viva dita naquele dia inteiro.

    E pela primeira vez em horas, um pequeno sorriso cansado apareceu no canto da boca de Kael.

    — Pensei a mesma coisa quando encontrei isso pela primeira vez.

    Ele ergueu Ian nos braços novamente antes de começar a descer as escadas.

    Os outros seguiram atrás.

    E conforme avançavam corredor abaixo, a sensação da casa mudou completamente.

    O ar ficou mais quente.

    Mais limpo.

    As paredes internas eram de pedra lisa cuidadosamente trabalhada. Pequenos canais de água percorriam partes do corredor através de um sistema antigo de circulação contínua.

    Mas o que realmente chamava atenção era a iluminação.

    Nichos de metal haviam sido embutidos diretamente nas paredes de pedra. Dentro deles, pequenos minerais de tom âmbar ainda brilhavam suavemente, espalhando uma luz quente pelo corredor.

    Não pareciam velas.

    Nem cristais do Véu.

    A luz era constante.

    Silenciosa.

    Nem todos os nichos continuavam funcionando.

    Alguns haviam escurecido completamente.

    Outros continham apenas fragmentos opacos e rachados.

    Em certos pontos do corredor, marcas negras subiam pela pedra acima dos suportes metálicos.

    Lys percebeu primeiro.

    Os olhos dela percorreram os canos presos ao teto.

    Alguns estavam intactos.

    Outros apresentavam deformações estranhas.

    Metal arqueado.

    Junções parcialmente derretidas.

    Em um trecho, parte de um tubo simplesmente havia colapsado sobre si mesmo.

    Como se tivesse sido aquecido muito além do normal.

    Pequenas manchas de oxidação cercavam vários pontos da estrutura.

    E em alguns lugares a água sequer corria mais.

    O corredor se abriu lentamente até revelar o interior principal da construção subterrânea.

    Um salão amplo dividido em dois andares.

    Escadas laterais levavam ao piso superior onde vários corredores estreitos desapareciam entre portas fechadas.

    O andar térreo parecia uma mistura improvisada de oficina, cozinha, depósito e laboratório doméstico.

    Mas o tempo tinha passado ali também.

    E passado forte.

    Lençóis dobrados haviam endurecido pela umidade.

    Livros inchados deformavam prateleiras inteiras.

    Alguns papéis praticamente desfaziam nas bordas.

    Ferramentas estavam cobertas por ferrugem.

    Partes do teto apresentavam infiltração constante.

    Canos metálicos atravessavam a pedra acima deles.

    Em alguns pontos água pingava lentamente.

    Toc.

    Toc.

    Toc.

    Aisha diminuiu o passo observando ao redor.

    Confusa.

    Aquilo não parecia uma base secreta.

    Parecia uma casa que alguém tentou manter funcionando por tempo demais.

    Lys percebeu então que vários dos canos mais antigos convergiam para os nichos luminosos espalhados pelas paredes.

    Ela acompanhou o trajeto com os olhos.

    Depois olhou novamente para os minerais brilhando dentro das estruturas metálicas.

    A expressão dela mudou.

    Não para compreensão.

    Mas para curiosidade.

    Porque claramente existia alguma lógica ali.

    — Água quente?… — murmurou.

    Até Maelis pareceu surpresa.

    Kael respondeu sem olhar para trás:

    — Ian odiava carregar balde no inverno.

    Ele subiu as escadas carregando Ian enquanto pequenas partículas de poeira caiam das estruturas antigas a cada passo mais pesado.

    O corredor superior estava em condição pior.

    Parte da madeira rangia perigosamente.
    Uma porta havia cedido completamente.
    Tecidos antigos pendiam rasgados em alguns cantos.

    Kael seguiu até a última porta do corredor e abriu ela com o ombro.

    O quarto era pequeno.

    Simples demais para alguém como Ian.

    Uma cama encostada na parede de pedra.
    Uma mesa tomada por peças metálicas desmontadas.
    Livros espalhados.
    Papéis antigos presos sob ferramentas.
    Um casaco pesado abandonado sobre uma cadeira.

    Como se alguém tivesse saído dali esperando voltar alguns dias depois.

    Mas o tempo denunciava a verdade.

    A poeira acumulada era grossa.
    Parte dos livros havia empenado pela umidade.
    O tecido do casaco estava ressecado nas bordas.
    Algumas páginas já tinham manchas escuras de mofo.

    Séculos.

    Kael colocou Ian na cama com cuidado.

    O colchão afundou sob o peso dele enquanto a respiração irregular continuava preenchendo o silêncio do quarto.

    Por alguns segundos ninguém falou nada.

    Aisha observou o quarto em silêncio.

    Não havia troféus.
    Nem armas decorativas.
    Nem símbolos de prestígio.

    Kael puxou um pano velho da mesa e começou a limpar a poeira ao redor da cama sem dizer nada.

    Movimentos automáticos.

    Então um vazamento começou a pingar do teto no canto do quarto.

    Kael olhou pra cima.

    Silêncio.

    — Certo.
    — Isso é novo.

    Finalmente um traço real de irritação apareceu no rosto dele.

    Maelis soltou a respiração baixa pelo nariz.

    Kael passou a mão no rosto antes de se virar pra eles.

    — Os quartos do corredor oeste ainda devem estar utilizáveis.
    — Evitem o lado norte e não mecham no quarto trancado..

    Lucas franziu a testa.

    — Tem certeza que é seguro?

    — Não é.
    — Mas também não vai desabar hoje.
    Provavelmente.

    — “Provavelmente” é uma palavra péssima.

    — Você vai sobreviver.

    Helena desceu do colo de Lucas naquele momento.

    Olhou em volta sonolenta.

    Depois pro teto cheio de canos.

    — Parece uma toca.

    Kael ficou alguns segundos olhando pra ela.

    Então assentiu lentamente.

    — É.
    — Bastante preciso, na verdade.

    Kael passou a mão no rosto.

    Depois se virou para o grupo.

    — Vão ficar parados até quando?

    Uma pausa.

    — Tem muita coisa para limpar.

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