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    A trilha ficou mais larga conforme ela seguia para o sul. entrando em um terreno cada vez mais pantanoso.

    Ela reduziu o ritmo.

    Quando uma trilha ficava mais larga era porque quem circulava por ali era maior, ou porque havia mais de um andando ao mesmo tempo.

    O cheiro chegou antes da visão.

    Cheiro de pelo sujo e sangue seco.

    Ela parou completamente.

    Ficou imóvel sob a chuva fina.

    Esperando.

    O primeiro apareceu entre as árvores à esquerda.

    Ela o viu antes que ele a notasse. O corpo era o de um chacal mas a proporção estava errada. Patas dianteiras altas demais. Pescoço curto demais. Duas caudas longas que não acontecia em animal natural, normalmente tendo apenas uma.

    E os olhos.

    Olhos de um chacal eram mais fixos, mas aqueles olhos pareciam buscar a todo momento algo para rasgar.

    Uma besta.

    Ela registrou isso sem surpresa particular.

    Depois dos últimos dias, a surpresa viria se não fosse.

    O segundo apareceu à direita quase simultaneamente. Depois um terceiro mais atrás na trilha, bloqueando a direção de onde havia vindo. Movimento levemente coordenado, não o tipo que acontecia por instinto de bando.

    Ela avaliou o espaço disponível em menos de dois segundos.

    Floresta fechada nos flancos. Terreno irregular à frente com uma queda de nível que favorecia ela. Cauda ou não, altura elevada sobre oponentes menores era vantagem. O ferimento na cauda limitava velocidade mas não o alcance.

    O que estava mais a frente ergueu a cabeça cheirando o ar, o movimento dele foi espelhado pelo resto do bando, primeiro atacou antes que ela terminasse de analisar.

    Ela desviou para o lado.

    A camuflagem oscilou com o movimento brusco, pulsou visível por meio segundo antes de estabilizar. Ela sentiu o custo imediatamente. A mana que havia usado para compensar a oscilação era algo que não tinha mais disponível.

    A mandíbula do chacal fechou no vazio onde ela havia estado.

    Ela usou o impulso do desvio para se posicionar no terreno mais alto.

    O segundo atacou pelo flanco.

    A cauda dela se ergueu no reflexo chegou antes da decisão e o peso do impacto foi absorvido pelas escamas da parte não queimada. Doeu mesmo assim. A parte queimada ficou fora do ângulo por sorte ou por reflexo, ela não tinha certeza de qual dos dois. Ela aproveitou a abertura para morder a besta, injetando o seu veneno.

    O terceiro veio pela trilha de trás.

    Ela girou.

    A cauda varreu o espaço baixo, pegando nas patas do chacal que já vinha embalado. O impacto o tirou do chão, ela aproveitou a própria inércia do giro para desferir um segundo golpe descendente. A cauda pesada desceu como um martelo no crânio da besta. Um estalo seco ecoou sob a chuva, e o corpo desabou, inerte.

    À esquerda, a criatura envenenada cambaleou antes de desabar em espasmos. O primeiro chacal mudou de postura; em vez de atacar, ele rodeava, os olhos fixos nela. Ela recuou até bater as costas contra o tronco de uma árvore. Mantendo os olhos fixos na fera, ela tateou o chão com a cauda até sentir um galho longo e pesado caído na lama. Ela o puxou com a mão livre, erguendo a ponta estilhaçada como uma lança improvisada.

    O impasse durou pouco. O focinho do monstro virou na direção do companheiro agonizante. Movido por um instinto cruel, o chacal saltou não sobre ela, mas sobre o aliado, rasgando a carne do próprio bando.

    Ela não esperou o banquete terminar. Deixando a criatura para trás, limpou o suor da testa e se forçou continuar em movimento

    — Preciso de um arco… — murmurou.


    O quarto grupo apareceu algumas horas depois quando a chuva havia dado uma trégua.

    Eram Cinco dessa vez.

    Ela ficou parada no centro do terreno aberto com a respiração irregular e a chuva escorrendo pelos cabelos e pelo pedaço de madeira que já havia sido substituído duas vezes.

    Cinco.

    Ela calculou.

    Mana disponível estava reduzida. A camuflagem havia oscilado ao menos quatro vezes durante o primeiro combate e a cada combate elas aumentavam, as oscilações custavam reservas que não se recuperavam na velocidade normal por causa dos ferimentos.

    Os corte pioraram, a cauda havia absorvido impactos. Além da parte queimada agora haviam cortes que estava em contato com o solo em ângulo ruim. A cicatriz no braço direito latejava de forma diferente do resto a sensação específica de interferência no fluxo.

    Além da fome, presente há tempo suficiente para começar a afetar o raciocínio.

    Se deixasse eles cercarem, perderia.

    Mas cinco era um número que ela conseguia administrar.

    Ela foi para o primeiro antes que o grupo decidisse a formação.

    Ela continuou.

    O quinto grupo apareceu antes que a chuva parasse.

    O sexto veio quando ela finalmente encontrou um riacho.

    O sétimo apareceu enquanto tentava limpar os ferimentos.

    Depois os números deixaram de importar.

    Os cortes pioraram.


    A chuva havia voltado densa, agora nem mesmo a mana conseguia espantar o frio, deixando os tremores constantes e os dedos dormentes.

    Continuou indo para o sul agora passando pelos corpos de duas bestas.

    Ela os eliminou com menos esforço do que esperava e ficou parada depois observando o resultado. enquanto voltava a controlar a respiração, as bandagens improvisadas feita de folhas sobre os cortes da cauda haviam soltado, voltando a acumular terra nas feridas.

    Mas havia algo além a incomodando.

    Os últimos grupos haviam recuado antes do ataque dela. Nada instintivo, como se algo tivessem recebido uma ordem para parar. Ela havia visto isso antes, não em bestas, mas em outras pessoas sob controle externo.

    Ela olhou para o próprio braço.

    Para a cicatriz.

    Para a runa rachada.

    O pensamento chegou antes que ela conseguisse impedir.

    E se não foram só os chacais que foram controlados.

    Ela ficou imóvel.

    A chuva continuava caindo, mas o cheiro de terra molhada desapareceu de repente, substituído pelo odor pesado de ferro e sangue que tomou conta do ar ao redor.

    A visão veio logo depois. Um campo de batalha, ou do que deveria ser um, Ela se jogou no chão ao ouvir um assovio de flecha chegando perto, ela olhou para cima e viu o céu avermelhado enquanto outra flecha passava por cima ela acompanhou com os olhos até que a ponta da flecha acertou a arvore e ela se desfez, voltando apenas o cheiro de terra molhada.

    Isso não era algo novo. Havia chegado em outras formas nas últimas horas. Mas agora estava completo e presente ela conseguia se lembrar do que viu.

    Ela passou a mão sobre a runa que havia controlado ela por tempo suficiente para deixar marcas.

    Ela não sabia o que havia feito sob controle que acreditava ser decisão própria. Não sabia onde terminava o que era dela e onde começava o que havia sido implantado. As memórias fragmentadas podiam ser passado genuíno tentando voltar. Podiam ser outra coisa.

    Ela não tinha como distinguir.

    E aquilo era o tipo de problema que ela não sabia como resolver.

    Ela fechou os dedos.

    A cicatriz tensionou.

    Doeu.

    Ela deixou doer por um momento, não como punição, só como confirmação de que o que estava sentindo era real e presente e não fragmento de memória chegando fora de ordem.

    Real.

    Presente.

    Ela soltou.

    Voltou a se movimentar.

    A floresta começou a rarear depois de mais uma hora.

    Ela passou por um dos corpos sem diminuir o ritmo.

    Deu mais três movimentos antes de parar.

    Voltou.

    O chacal estava parcialmente aberto onde a cauda havia acertado. O cheiro de sangue misturado à chuva era desagradável. Familiar também.

    Ela ficou observando por alguns segundos.

    Proteína.

    Gordura.

    Energia e os riscos.

    O estômago apertou antes que ela terminasse a avaliação.

    Agachou-se ao lado do cadáver.

    A mão chegou perto da carne.

    Parou.

    Os olhos desceram para a carne deformada ao redor do pescoço da criatura. Depois para as pupilas opacas. Depois para os dentes ainda expostos.

    Uma besta.

    Talvez corrompida.

    Talvez algo pior.

    Ela se levantou.

    Continuou andando.

    O estômago protestou imediatamente.

    Ela ignorou.

    Por enquanto.

    Após algumas horas ela já havia parado de contar os grupos, havia parado de contar muita coisa. A fome havia atingido o ponto em que deixava de ser desconforto e começava a ser problemático, ligeiramente embotando as bordas do cálculo, tornando cada avaliação um segundo mais lenta do que deveria ser.

    Ela notava isso.

    Notar era suficiente por enquanto.

    O terreno subiu gradualmente até formar uma colina baixa com pedras espalhadas no topo. Ela subiu devagar, a cauda arrastando mais do que pretendia, a camuflagem estável por falta de ameaça imediata mais do que por controle real.

    Do topo da colina a floresta terminava.

    E além dela.

    Uma vila.

    Pequena. Distante o suficiente para que os detalhes se perdessem na névoa do amanhecer. Mas presente. Real. Com luz fraca saindo de pelo menos duas janelas e uma coluna fina de fumaça subindo de alguma chaminé antes de se desfazer no ar úmido.

    Alguém ainda havia alimentado um fogo há pouco tempo.

    Ela ficou parada no topo da colina observando.

    Precisou olhar duas vezes para confirmar a distância.

    Isso normalmente não acontecia.

    A fumaça era o tipo que sai de fogo doméstico, madeira seca queimando devagar.

    Pessoas em rotina não prestavam atenção da mesma forma.

    Ela olhou para a cauda.

    Para os ferimentos abertos que a chuva havia piorado consistentemente nas últimas horas. Para as escamas faltando e a pele exposta em coloração que havia escurecido desde a última vez que havia verificado.

    Depois olhou para a fumaça.

    Ela desceu a colina em direção à vila.

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