Índice de Capítulo

    — Rápido! Se aquelas coisas chegarem aos abrigos…

    — Eu sei Plutarco! Eu sei! — Teseu rebateu e seguiu a passos largos.

    Sophia e o escriba já haviam ficado para trás, mas ainda gritavam vez ou outra para apressá-lo.

    A noite de Nix seguia firme sobre o acampamento. Mas aqui, no bloco próximo aos abrigos, as sombras haviam se concentrado. Uma dezena de formas golpeavam as construções com o que pareciam tentáculos de escuridão, e destruíam sistematicamente, parede por parede. A construção de pedra no centro do bloco era o abrigo. As sombras se aproximavam dela.

    Teseu avançou.

    A xiphos cortou o ar e atravessou a sombra mais próxima, um corte contra o vento. O metal passou pela forma sem resistência e sem efeito. A sombra não parou. Ele recuou, mudou o ângulo, desferiu dois golpes rápidos. O mesmo resultado.

    — Não funciona. — Sophia disse, atrás dele, recém chegada.

    — Percebi.

    Ele ficou parado com a espada levantada. As sombras continuavam a golpear a parede do abrigo. Fechou os olhos por um instante. Haviam raízes debaixo das pedras desta rua, que ele havia sentido durante a descida da encosta.

    — Sophia. — Falou com mais firmeza que o habitual. — Vocês dois vão para o abrigo. Tirem as pessoas de lá.

    — Eu posso ajudar aqui.

    — Não com isso. — Teseu mantinha os olhos nas sombras na parede do abrigo. — A flor que você tem, é necessária para proteger os civis. Vai ajudar na saída. Vá agora.

    — Teseu…

    — Agora, Sophia.

    Ela bufou e foi.

    Plutarco havia passado por ela antes mesmo de Teseu terminar de falar.

    Teseu fechou a mão em torno do cabo da xiphos. Buscou as raízes abaixo do calçamento — velhas, secas, antigas. Empurrou a energia da floresta pelos braços, pelos punhos, pelo metal.

    A lâmina ficou verde.

    Um verde fundo, que pulsava de forma irregular no metal. Teseu levantou a espada e avançou.


    Plutarco bateu três vezes na porta do abrigo.

    Nada.

    Ele bateu de novo.

    — Somos amigos. Eu guiei vocês até aqui. Precisam abrir.

    Sussurros irromperam de dentro, conflituosos. A conclusão que Plutarco ouviu do lado de fora não foi favorável.

    — Porque deveríamos acreditar em você quando nos disseram para não abrir para ninguém?

    — Porque se não confiarem em mim… — Plutarco hesitou e rangeu os dentes. — Precisam confiar em mim se quiserem sobreviver!

    Silêncio do outro lado.

    Mais silêncio.

    Sophia se inclinou para a frente.

    — É Sophia. Curandeira de Nova Arcádia. Eu tratei o filho de Menandro no mês passado, uma ferida no braço que havia inflamado. Ele está aí?

    Um momento de murmúrios.

    — Está aqui. — voz masculina, menos tensa.

    — Então pergunte a ele se reconhece a minha voz. Rápido, por favor.

    O ferrolho deslizou. A porta abriu dois palmos e um rosto no vão examinou os dois — Plutarco com a bolsa de pergaminhos no ombro e Sophia com a flor de erva-da-lua na mão. Depois a porta abriu mais.

    — Temos que sair? — A pergunta pertencia a um homem de quarenta anos com uma cicatriz antiga no queixo. 

    A resposta que esperava estava escrita no rosto dele antes de Sophia falar.

    — Sim. E precisa ser rápido.


    Trinta e oito pessoas. Plutarco contou por hábito enquanto os guiava para o corredor entre as construções. O homem da cicatriz saiu por último com dois filhos pequenos e fechou a porta do abrigo atrás de si.

    Na praça à frente do abrigo, Teseu lutava.

    Eles viram quando dobraram a esquina. A xiphos verde iluminava um círculo ao redor do herói, e dentro desse círculo as sombras recuavam, se contraíam, se desfaziam quando o metal as alcançava.

    Teseu tinha um corte aberto no braço esquerdo e sangue na comissura da boca, eles não viam isto, mas viam como cada golpe que desferia chegava em alguma coisa, e nenhuma sombra havia passado.

    — Deuses. — O homem da cicatriz parou no meio da rua.

    — Não pare agora. Eles não irão te ajudar. — Plutarco colocou a mão no ombro dele e o moveu para frente. — Continue andando.

    Sophia distribuiu as flores de erva-da-lua entre os civis. Cada um recebeu uma e a ergueu à frente de si. O brilho azul formou uma barreira tênue ao longo do grupo que manteve as sombras desta rua afastadas o suficiente para que o corredor ficasse aberto.

    Plutarco guiou. Sophia fechou o grupo.

    Nenhum dos dois olhou para trás.


    A energia nas raízes abaixo das pedras havia diminuído.

    Teseu havia drenado mais do que havia, puxado de raízes que não tinham mais o que dar e que cederam assim mesmo porque ele insistiu. O verde na lâmina oscilou. Uma sombra avançou no instante exato em que a luz vacilou e ele teve que recuar dois passos antes de empurrar mais energia para a espada.

    Uma pressão atrás dos olhos surgiu. Depois o ferro na garganta.

    Ele cuspiu sangue, limpou a boca com o punho e foi para a sombra que havia avançado. A lâmina acertou o centro da forma. A sombra se desfez. Outra avançou pelo ângulo que isso havia aberto. Ele girou e a acertou também. Uma terceira veio pela esquerda. O corte no braço aprofundou quando ele se virou para bloqueá-la.

    — Não vão tocar em nenhum deles. — A voz saiu funda e rouca. — Ouviram?

    As sombras não responderam. Ele avançou assim mesmo.


    Uma sombra monstruosa se materializou no alto da construção à sua esquerda.

    Teseu a viu pelo canto do olho e girou. Arregalou os olhos.

    Tinha a forma de um centauro; a largura de ombros, os contornos de quatro patas e tronco ereto, os limites da forma tremulavam como fumaça. Estava parada no alto da parede, a dois metros e meio acima do chão, com dois pontos de ausência mais fundos que o resto da forma no que seria o rosto voltados para baixo.

    As sombras menores ao redor também haviam parado.

    Teseu ficou no centro da praça com a xiphos esmeralda à frente. O sangue havia descido pelo queixo. O braço esquerdo latejava. Respirou uma vez, duas.

    — Vai ter que me colocar de joelhos. — Disse para a sombra no alto. — Se quiser passar.


    Três ruas adiante, Sophia parou e olhou para trás. O relevo de monte permitia uma vista parcial do combate que rolava atrás.

    Ela viu a luz verde resvalar numa sombra monstruosa e colossal. Viu o rapaz, pequeno frente ao inimigo. Viu-o avançar.

    — Preciso voltar. 

    — Não. — Plutarco não parou de caminhar. — Continue guiando.

    — Ele estava vomitando sangue quando saímos, e agora tem aquela coi…

    — Eu vi.

    — Então você entende que ele pode não…

    — Sophia. — Plutarco pausou e se voltou para ela. Atrás deles, o grupo de civis havia parado também, à espera. O escriba tinha um olhar pesaroso. — Eu o acompanho desde que ele era um caçador desconhecido com os pés em carne viva e uma xiphos emprestada. Eu vi ele levar golpes que derrubariam leões. Eu vi ele se levantar e derrubar leões. — Uma pausa. — Confie nele. Venha.

    Ela olhou para trás uma última vez. O rapaz seguia de pé. Fechou os olhos.

    Seguiu.


    A sombra escorregou pela alvenaria. Os quatro membros tocaram o calçamento de pedra de forma sequencial. O impacto do peso brutal fez o chão tremer sob os pés de Teseu. A criatura ergueu-se a dois metros de distância e sua forma maciça dominou a rua.

    Teseu manteve a posição e apertou o punho sobre o cabo da xiphos.

    A besta investiu com um giro do torso e as patas moveram-se rápido em uma manobra pelo flanco esquerdo. O herói saltou para a direita. A lâmina verde traçou um arco contra a lateral exposta do inimigo e o aço cortou a escuridão.

    A boca desforme do monstro se abriu.

    — Carne… Sangue… Quero…

    A aberração contraiu-se no ponto de contato e absorveu o golpe. Teseu recuou a tempo de evitar o contragolpe. O braço do monstro varreu o ar vazio. O vento do movimento empurrou o rapaz para o lado, e ele estabilizou a postura.

    As sombras menores aguardavam o momento certo com uma tática furtiva.

    Teseu trincou os dentes.

    — Argh!

    O corte antigo em seu braço esquerdo reabriu com o esforço súbito. O sangue escorreu pela pele suada.

    A monstruosidade sombria avançou com o corpo inteiro. Os cascos bateram contra a pedra e o tronco baixou em uma carga veloz e devastadora. Teseu esquivou-se pela esquerda e aproveitou a investida do ombro direito da fera para cravar a lâmina no flanco vulnerável da criatura no exato momento da passagem.

    O vulto bestial encolheu e retomou a caçada. O monstro tremeu e suas sílabas saíram distorcidas. 

    — Fim… inevitável.

    Teseu esperou o deslocamento do peso inimigo para as patas traseiras e avançou. A mão esquerda do rapaz fechou sobre o punho da xiphos para garantir firmeza. O golpe abriu uma fenda no centro do tronco da besta. A sombra emitiu um chiado agudo que esmagou os tímpanos de Teseu.

    O monstro reestruturou a própria forma e o centro do seu tronco solidificou-se. Teseu observou a mudança e circulou pela esquerda para testar a defesa. A criatura acompanhou o movimento e as patas traseiras reposicionaram-se com precisão. A besta assimilava o combate e registrava cada investida do herói.

    O rapaz parou a marcha lateral e avançou em linha reta.

    A falha na guarda inimiga durou apenas meio segundo. O herói mergulhou sob a envergadura do braço direito do oponente e ergueu a lâmina em direção ao pescoço escuro. O centauro empinou as patas dianteiras para afastá-lo e o jovem permaneceu na área de impacto.

    O casco maciço desceu sobre o ombro esquerdo de Teseu que sentiu o choque atingir o osso.

    — Gah!

    Girou o corpo para dissipar a força bruta. O movimento atirou o rapaz a dois metros de distância e colocou-o de joelhos sobre as pedras irregulares. O ombro latejou e a xiphos continuou firme em sua mão.

    Quando ergueu os olhos, o monstro tinha um sorriso grotesco de penumbra formado na superfície negra de seu rosto.

    — De… Joelhos…

    Teseu rangeu os dentes e levantou-se antes da nova investida.

    — MISERÁVEL! — Avançou com toda a vontade que tinha.

    A espada rasgou o joelho dianteiro da criatura. A fera perdeu o equilíbrio e o peso cedeu por um instante. Teseu usou a parede à esquerda como apoio e impulsionou o corpo com um pé na pedra. Cravou a arma no ombro do inimigo com um golpe vertical.

    A sombra girou o torso e arremessou o jovem no ar. Teseu atingiu a parede do abrigo e suas costas absorveram a brutalidade da colisão. Seu fôlego abandonou os pulmões e a lâmina caiu a um metro de distância. Rastejou pelas pedras e agarrou o cabo da arma.

    O rosto indefinido da sombra inclinou-se.

    — Você… quebra.

    O centauro estacou a três metros de distância. Os dois guerreiros permaneceram imóveis. Teseu cuspiu sangue e inspirou com dificuldade.

    — Cala a boca.

    Conectou a mente às raízes ocultas sob o solo. A primeira estava seca. A segunda também. Ele puxou a energia latente da terceira. O verde na lâmina incendiou. A luz estabilizou-se e queimou intensamente. As bordas escureceram até o limite do negro.

    A sombra cedeu um passo e Teseu avançou.

    O herói atacou em uma investida veloz e direta. Direcionou cada golpe para a falha no centro do tronco inimigo, a fenda cicatrizada e vulnerável. O monstro forçou recuos e manobras pelos flancos. Teseu manteve a pressão no centro da guarda da fera e usou o antebraço esquerdo para bloquear ataques pesados, alheio ao custo físico de cada defesa.

    A força da espada empurrou a criatura e o volume do centauro reduziu. Cada corte extirpava um pedaço da essência escura. Teseu mutilou o inimigo repetidas vezes e a fenda no tronco alargou-se a cada nova passagem do aço.

    A raiz exauriu a última gota de poder e a luz da lâmina vacilou.

    Foi quando o monstro avançou para a execução. Os lutadores cruzaram as linhas de ataque e Teseu desferiu um corte ascendente preciso. A energia da xiphos brilhou com intensidade absoluta e apagou no segundo seguinte.


    Quando voltaram, a praça estava silenciosa.

    As sombras haviam sumido. No chão ao redor do abrigo, corpos de soldados caídos durante a noite; corpos que as sombras haviam usado e que agora jaziam despidos do que os havia animado, carne fria e quieta no calçamento de pedra.

    Teseu estava de pé no centro da praça.

    De joelhos dobrados, o peso do corpo distribuído para a frente, a xiphos apoiada no chão à sua direita com o verde quase completamente apagado. A armadura amassada em diversos pontos, inclusive o abdômen. O quiton rasgado flamulava, repleto de manchas escuras. Parecia não respirar.

    Estava de pé. Joelhos dobrados, mas de pé.

    Ele ergueu os olhos quando Sophia dobrou a esquina.

    — Que bom. — A voz saiu rouca. Uma pausa curta. — Que bom que estão bem.

    Sophia correu.

    Plutarco foi atrás. Teseu largou a xiphos e desabou para o lado antes que qualquer um dos dois chegasse a tempo de segurar.

    A praça ficou em silêncio outra vez.

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