Orson havia decidido.

    Completaria a pesquisa do mestre.

    E iria além.

    Não por Osteria ou pelo rei. Não pelo legado da torre, nem pela curiosidade acadêmica que o guiara por tantos anos. Faria aquilo por Grace.

    Sua alma permanecia selada na Gaiola de Almas, arrancada do fluxo natural da morte por um ato que ele ainda não sabia se chamaria de amor ou profanação. Talvez fosse ambos. De uma forma ou de outra, ela ainda estava ali. Enquanto estivesse, existia uma possibilidade.

    Orson se agarrou a essa possibilidade com a mesma ferocidade com que um homem se agarra à borda de um precipício.

    Voltou às anotações do mestre. Releu pergaminhos até os olhos arderem. Separou diagramas incompletos, comparou versões descartadas, reconstituiu cálculos escondidos em margens e códigos pessoais. Aos poucos, a estrutura real da pesquisa se revelou por inteiro diante dele.

    O último estágio exigia materiais demais.

    Metais ritualísticos capazes de conduzir mana sem se romper. Essências alquímicas extraídas de monstros raros. Pedras espirituais lapidadas para retenção anímica. Sangue de criaturas poderosas. Órgãos preservados com precisão absoluta. Catalisadores que custavam fortunas e preparações que levavam semanas para não estragarem.

    Nada daquilo era simples.

    Mas o problema verdadeiro não estava nos materiais.

    Estava na alma.

    Para sustentar as etapas mais violentas da pesquisa, ele precisava de uma alma especialmente resistente, densa o bastante para não se desfazer quando submetida a compressões, torções e leituras repetidas. Almas humanas quebravam cedo demais. Almas de bestas comuns eram instáveis ou simples demais. Ele precisava de algo superior.

    Precisava de um dragão.

    O pedido que apresentou ao rei foi técnico, limpo e calculado. Orson falou apenas de avanços estratégicos para o reino, de uma oportunidade rara e de uma necessidade experimental incontornável. Solicitou que uma expedição fosse preparada para subjugar um dragão juvenil.

    O rei aceitou.

    Aceitaria de qualquer forma.

    Um dragão, mesmo jovem, valia mais do que a maioria dos tesouros que um pequeno nobre exibiria ao longo de toda a vida. O sangue era valioso para alquimistas. Os órgãos interessavam a pesquisadores e curandeiros. Escamas e ossos podiam ser transformados em equipamentos excepcionais. E, se Orson realmente conseguisse extrair daquilo algum avanço para a coroa, melhor ainda.

    Dragões eram classificados por conveniência como feras mágicas, mas essa definição sempre gerou discussão entre estudiosos. Feras mágicas podiam ser perigosas, astutas e dotadas de habilidades extraordinárias, porém ainda assim operavam dentro de uma lógica bestial. Dragões eram outra coisa.

    Eram inteligentes.

    Não inteligentes no sentido superficial de reconhecer padrões ou emboscar presas. Inteligentes como povos racionais eram inteligentes. Compreendiam linguagem, formulavam estratégias, acumulavam memória, orgulho e vontade própria. Além disso, possuíam corpos absurdamente poderosos e uma afinidade natural com seu elemento principal. Alguns exalavam fogo. Outros gelo. Outros ácido. Havia relatos de espécimes ligados a raio, veneno, fumaça e até propriedades mais raras. Alguns ainda possuíam magia inata, enquanto outros estudavam por conta própria e se tornavam magos no sentido mais literal do termo.

    Eram criaturas aterrorizantes desde o nascimento.

    Quando alcançavam a maturidade plena, tornavam-se existências de rank 7.

    O rank 7 representava uma mudança qualitativa tão brutal que a diferença para os ranks inferiores parecia a diferença entre o céu e a terra. Uma entidade adulta desse nível deixava de ser um problema local e passava a ser uma calamidade.

    Um dragão adulto podia destruir muralhas, arrasar companhias inteiras e transformar uma cidade despreparada em ruínas fumegantes.

    Portanto, o grupo de caça montado pelo reino jamais poderia mirar um dragão adulto.

    O alvo precisaria ser juvenil. Ainda assim, isso não tornava a tarefa segura. Tornava-a apenas possível.

    A expedição reuniu cavaleiros experientes e arqueiros, todos artistas marciais, dois magos de combate, um especialista em rastreamento e o próprio Orson. A criatura havia sido avistada nas montanhas rochosas ao norte, numa região de ravinas estreitas, árvores enegrecidas e encostas marcadas por sulcos que não pareciam naturais. O rastro era impossível de confundir. Havia ossos carbonizados e pedras rachadas por calor excessivo.

    Encontraram o dragão ao amanhecer do terceiro dia.

    Era juvenil, sim.

    E ainda assim enorme.

    O pescoço era comprido, as asas largas demais para aquele vale estreito e o corpo coberto por escamas vermelhas espessas que refletiam a luz da manhã com um brilho duro, quase metálico. Quando a criatura ergueu a cabeça e os observou, não havia estupidez alguma em seus olhos. Havia irritação.

    Como se considerasse a própria presença daqueles homens uma insolência imperdoável.

    O combate foi brutal.

    Quando o último golpe veio, a vida do dragão se encerrou. Orson já estava pronto antes mesmo do sangue terminar de se espalhar entre as pedras.

    Ele abriu a Gaiola de Almas.

    Capturar a alma de um dragão não se parecia com capturar a de um homem. A resistência era incomparavelmente maior. A essência da criatura se debatia com violência, como se o próprio conceito de submissão lhe fosse insuportável. Orson sentiu a pressão atravessar seus braços, a mana vibrar em protesto, o item fantástico ranger sob uma carga para a qual poucos recipientes no mundo seriam adequados.

    Ainda assim, ele não soltou.

    Conduziu a alma para dentro da gaiola à força, comprimindo aquela presença imensa em um espaço que não deveria comportá-la. Por um instante, ouviu um eco parecido com um rugido dentro da própria mente. Depois a tampa se fechou, os selos se estabilizaram e a coisa terminou.

    Orson observou a Gaiola de Almas em silêncio por alguns segundos.

    Ali estava mais uma alma aprisionada, mas dessa vez, a alma de um dragão.

    Ninguém na expedição desperdiçou tempo.

    O aproveitamento do corpo começou quase imediatamente.

    Todo o dragão foi utilizado. O sangue foi recolhido em recipientes preparados com runas de conservação e separado para alquimistas. Cada órgão foi removido com cuidado e catalogado de acordo com sua função e valor. Certas glândulas serviriam para venenos, reagentes ou combustíveis arcanos. O coração e partes do aparelho respiratório interessavam a pesquisadores. Garras, presas, escamas e ossos seriam transformados em materiais preciosos para armas, armaduras, focos mágicos e instrumentos ritualísticos.

    Nada foi desperdiçado.

    Nem a carne.

    Nem os ossos.

    Nem a alma.

    Quando Orson retornou a Osteria com a Gaiola de Almas presa à cintura e carroças carregadas com partes do dragão seguindo atrás, sentiu que havia abandonado de vez qualquer possibilidade de retorno.

    Depois disso, os meses se dissolveram em trabalho.

    Ele pesquisava durante o dia, durante a noite e durante as horas indefinidas em que o corpo já não sabia mais distinguir uma da outra. Refinou diagramas, testou compatibilidades entre alma e mana, usou a alma dracônica como matriz de estabilidade nos ensaios finais e reconstituiu, camada por camada, o ponto em que o mestre deliberadamente interrompera o próprio avanço.

    Foi nesse processo que Orson rompeu para o 5º ciclo.

    Não houve celebração nem nenhum senso de realização verdadeira. 

    Dois anos depois de Grace partir, ele enfim concluiu a pesquisa do mestre.

    E entendeu por que o velho recuara.

    O resultado final não era um feitiço de cura.

    Não era um método de ressurreição.

    Não era um milagre produzido por mãos humanas.

    Era algo terrível.

    A pesquisa culminava em um feitiço cruel, concebido para roubar a vida de um alvo e adicioná-la à do conjurador. Anos arrancados de uma existência para serem enxertados em outra por meio de um processo violento de extração vital, estabilização anímica e transferência.

    Era por isso que o rei financiara tudo em segredo.

    Era por isso que seu mestre temera a conclusão.

    Osteria não buscava apenas entender a alma.

    Buscava longevidade!

    Orson permaneceu muito tempo olhando para o diagrama final.

    Aquilo não traria Grace de volta.

    Mas lhe daria algo que, naquele momento, valia quase tanto quanto uma resposta.

    Tempo.

    Tempo para continuar pesquisando.

    Tempo para impedir que a alma dela se perdesse.

    Tempo para ir além do mestre, além do reino, além do limite que qualquer consciência saudável aceitaria.

    Se o impossível exigisse décadas, ele as tomaria.

    Se exigisse mais, Orson pagaria o preço.

    Ou faria o mundo pagá-lo por ele.

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