Capítulo 712 - Escudos
Certa vez, quando Fernando enfrentou o filhote de Obscuro e estava prestes a matá-lo, lembrava de ter visto algo semelhante.
Devido à intensidade da batalha e pelo fato de ter ficado à beira da morte, convenceu-se de que se tratava de algum tipo de alucinação momentânea ou que sua memória havia se misturado aos sonhos pós-batalha, mas agora começou a duvidar disso.
Lembrando-se do que ouviu dos Elfos Negros, sobre aqueles devorados por Obscuros não poderem descansar em paz, somado ao que viu agora, o fazia pensar a respeito.
Pode ser… que ainda existam resquícios daqueles que se tornaram essas monstruosidades? indagou-se, cheio de medo pela mera cogitação desse fato.
Ele não sabia muito a respeito de como as Criaturas das Trevas surgiam ou sequer o que elas, de fato, eram. Da perspectiva de alguém que veio da Terra, esses seres se assemelham a pesadelos vivos, vindos diretamente de filmes de terror ou fábulas antigas. No entanto, em Avalon, o terror contado em histórias não só era real, como espreitava sorrateiramente em cada pequeno canto daquele mundo.
Ele havia ouvido que algumas, como Carniçais, se ‘reproduziam’, usando restos mortais, a partir de parasitas que viviam em seus corpos. Mas não tinha ideia de como outras aumentavam seus números. No entanto, ao olhar para o corpo dos Murmuradores e pensar que aquelas coisas poderiam ter sido pessoas normais um dia e que agora eram monstros, com uma mente humana vivendo no fundo de suas consciências, fez todo seu corpo tremer. Se isso fosse verdade, esse definitivamente era um destino perturbador e muito pior que a própria morte.
Voltando seu olhar e ouvindo o Devorador, que era mais uma Criatura das Trevas que falava, sentiu-se mal.
“Estou com fome!” A coisa gritava sem parar.
Era difícil saber se isso era a coisa falando ou o que era antes de se transformar naquilo.
Enquanto o rapaz estava desatento, um Perseguidor Sombrio, que se espreitava entre alguns corpos, estava prestes a lançar um dos espinhos ocultos em sua língua em sua direção.
Pisca!
Oliver surgiu bem acima da mesma, sua mão descendo diretamente em direção às costas da coisa.
Perfura!
Com a mão direita nua, o sujeito gigante agarrou as costas da criatura, seus enormes dedos perfurando-a, então num movimento brutal, puxou tudo, arrancando a espinha dorsal do cão negro, que desabou em desalento, parecendo ainda estar vivo, mas sem conseguir se mexer.
“Tenente Fernando!” Oliver gritou, com uma expressão furiosa, quando jogou a espinha da coisa para o lado: “Foco! Se não quiser morrer! Não me faça ter que avisar ao Dimitri que seu protegido morreu na minha tutela!”
Ouvindo a bronca, o jovem Tenente ficou consternado com seu descuido, mas assentiu.
Preciso investigar isso melhor. Mas, independentemente do que seja, primeiro preciso me preocupar comigo mesmo, pensou, de forma decisiva.
Por mais que sua linha de raciocínio fosse tenebrosa, os mortos ainda estavam mortos e isso não mudaria. Ele e os demais precisavam cuidar de si mesmos, caso não quisessem acabar da mesma forma.
O Devorador, com seus longos membros, havia ficado furioso após ser ferido por Lerona, mas também ficou muito mais cuidadoso após isso. A coisa parecia não ter olhos, mas ainda podia ‘ver’, permitindo que outras Criaturas das Trevas avançassem à sua frente, enquanto ela analisava cuidadosamente as ações de suas refeições. Outros Devoradores mais atrasados pareceram sentir algo quando tomaram uma postura semelhante.
Tsk!
Estalando a língua, Lerona franziu o cenho. Apesar de não ser totalmente senciente, sabia que essas coisas tinham uma alta inteligência.
Bam! Bam! Rosna!
Carniçais, Chakais e Murmuradores avançaram sem medo contra a linha de Guardas. Criaturas das Trevas variadas, que normalmente caçavam umas às outras, agora estavam trabalhando juntas contra eles.
No alto do céu, Lehard tinha olhos calmos, analisando a situação com seus olhos negros.
Isso deve ser feito daquela coisa, concluiu, ao olhar para longe e observar o gigantesco Nidhogg, que continuava enrolado na muralha Sul.
Normalmente, apenas Magos das Trevas eram capazes de comandar múltiplos tipos de Criaturas das Trevas, porém, como um dos servos mais poderosos do Rei da Eternidade, o Nidhogg ainda deveria possuir resquícios de sua autoridade e havia provavelmente influenciado a totalidade do Pântano Negro.
Felizmente, aquilo ainda parece não ter acordado direito. Se isso acontecer, vai ser um problema, o sujeito pensou, ao ver os olhos irregulares da gigantesca serpente, que parecia desorientada. Mas antes de sair desse lugar, acho que posso me divertir um pouco. Ao pensar nisso, os olhos negros do sujeito magro e estranho focaram num jovem rapaz pálido que lutava no solo.
Swish!
“Se juntem! Fiquem juntos! Se nos separarm-” Um dos Guardas gritava, desesperado, após matar um Murmurador, apenas para ter sua cabeça abocanhada por um enorme Chakal, que o rasgou em instantes.
“Não dá, vamos todos morrer! Temos que fugir!” Outro gritou, desesperado, quando largou sua arma e correu.
“C-comandante, onde você vai?!” Um Guarda exclamou, enquanto segurava um pequeno Carniçal.
Mesmo com o apoio preciso dos Magos, a quantidade de homens na linha de frente era simplesmente insuficiente. Conforme o número de Criaturas das Trevas chegando da ala sul da cidade aumentava, a situação tornava-se cada vez mais insustentável.
Desse jeito, não vamos durar muito, Fernando pensou, preocupado. Eles tinham poucos homens e seus números estavam caindo rapidamente. Além disso, o rapaz percebeu que essas pessoas simplesmente eram um desastre completo e mal eram capazes de formar uma linha defensiva adequada. Claramente, os Guardas não foram treinados para combates de larga escala como esse. Vamos precisar recuar? indagou-se, quando olhou para trás e viu as faces descontentes dos Magos que lançavam magias de ataque.
Ele sabia que essas pessoas só estavam lutando devido ao ‘lucro fácil’ prometido por Otelo Billiark, mas no momento em que a situação ficasse minimamente desfavorável, eles seriam os primeiros a abandonar suas posições, deixando todos os que lutavam em solo para morrer.
Bem quando o rapaz estava pensando nisso, um fulgor luminoso incendiou entre a parte mais avançada das tropas.
Swish! Bam!
Varrendo com sua lança, Lerona avançou em meio às Criaturas das Trevas, o brilho de sua Magia de Luz chamando a atenção de todos, ao mesmo tempo que atraía as coisas para si própria, dando tempo para que os Guardas ao seu redor respirassem e se reorganizassem.
A cada passo seu, o chão tremia e o balanço de sua lança era como um trovão, ceifando as Criaturas das Trevas em instantes. Seus movimentos eram contínuos, com ataques conectando-se uns aos outros.
Graças às luzes chamativas da mulher e ao fato de estar obliterando tantas Criaturas das Trevas, vários dos civis ao redor, que vinham do Sul, puderam chegar até os Guardas em segurança, passando por eles e correndo em direção à Casa de Leilões de Yandou.
Oliver, que lutava não muito longe, ficou impressionado ao ver isso.
Desde quando a Lança Boreal ficou tão forte? pensou, completamente surpreso.
Até onde ele sabia, a mulher estava presa no nível de uma Capitã há alguns anos. No entanto, agora, vendo sua enorme proeza no campo de batalha, sentiu que sua pressão não era inferior à de alguém que recentemente havia se tornado um Major!
Apertando os olhos, Oliver achou isso estranho, não só a força da mulher, mas também seus movimentos contínuos. Mesmo ele, não conseguia lutar sem fazer algumas pausas curtas para respirar, mas ela continuava atacando numa fúria sem fim, como se estivesse possuída!
Se eu não soubesse que ela é uma Maga, diria que estou vendo um Usuário de Habilidades… concluiu, chocado.
No entanto, Fernando, que observava isso de longe, sabia que a Capitã ruiva estava se contendo. Ela claramente estava usando a Habilidade Respiração Contínua, que poderia ser ocultada, mas evitava usar Passos de Mercúrio ou Pele de Aço, já que isso a denunciaria.
Mesmo nessa situação, a Capitã Lerona ainda está preocupada em não vazar informações para o Major… pensou consigo mesmo, tocado por quanto a mulher era esforçada.
Como uma Maga Pura extremamente conhecida, se a Lança Boreal começasse, de repente, a usar Habilidades, Oliver certamente saberia que há algo de errado com ela.
Lerona também sabia que ainda não era a hora de revelar isso, caso acontecesse, todos os planos de Fernando poderiam acabar desmoronando quando investigações começassem a ocorrer.
Somente quando Zado ascendesse a Grande Mago, é que eles poderiam finalmente se revelar, até lá o fato de ela ter entrado no Sistema de Habilidades e se tornado uma Usuária precisava continuar sendo um segredo absoluto!
“Sigam a mulher ruiva!” Um dos Guardas gritou, inspirado por Lerona, quando empurrou sua espada em um Carniçal que passou por ela, sendo arremessado para o alto e caindo em cima da coisa. Não se deixando abalar, ele a esfaqueou repetidamente entre as juntas. Os outros ao redor não perderam tempo, empurrando suas armas contra a coisa, suas lâminas afiadas ficando-se nas juntas e evitando a pele dura, até que ela finalmente desabasse no chão.
Vendo isso, Fernando ficou sem palavras. Apesar de os homens de Yandou serem péssimos em guerrear, pareciam estar muito habituados às fraquezas das Criaturas das Trevas, provavelmente devido a viverem próximos ao Pântano Negro.
Entendendo isso, o jovem Tenente sabia que, se quisesse sobreviver até que Raul chegasse, precisariam fazer esses Guardas lutarem adequadamente.
Vendo três homens ao lado batendo e empurrando alguns Murmuradores com dificuldades, ele franziu o cenho.
“Formação! Ataquem e defendam em conjunto, usem seus escudos para isso!” gritou, em direção aos homens, que quase saltaram de susto.
“Que porra você está falando, seu cuzão?! Quer me matar do coração?” Antes que o sujeito pudesse dizer mais, Fernando correu até ele, batendo pesadamente com seu ombro contra o sujeito, derrubando-o violentamente no chão. “Seu fudido, você está morto, eu vou….”
Perfura! Perfura!
As palavras do homem imediatamente morreram na metade, ao ver alguns espinhos acertando o exato local em que ele estava, só então percebeu um Perseguidor Sombrio caído entre os corpos mortos.
Movendo a mão esquerda, Fernando rapidamente criou uma Flecha de Fogo, arremessando-a em direção à coisa.
Swish! Bang!
Em meio a grunhidos, o pequeno cão negro queimou, quando a magia o atravessou completamente.
Os outros dois ficaram assustados e impressionados ao verem isso.
Com um rosto inexpressivo, o rapaz pálido olhou na direção deles.
“Escudos! Entrem em formação!” repetiu, com uma voz gelada.
Dessa vez, nenhum dos homens ousou retrucar ou reclamar. Mesmo aquele caído rapidamente levantou-se, então todos os três retiraram escudos e colocaram à frente de seus corpos.
Fernando assentiu, quando fez o mesmo. Movendo o pulso, retirou um escudo de aço retangular guardado em sua pulseira.
Apesar de não ser exatamente seu estilo de combate, entendeu que precisavam de alguém para liderar a linha de defesa no solo. Já haviam Lerona, Oliver e muitos outros que lidariam com a ofensiva, enquanto isso, alguém precisava assumir o fardo de meramente ser um escudo de carne e metal para os Magos e civis.
Indo ao centro, Fernando ergueu seu escudo até a altura do ombro, enquanto apoiava sua Espada Formek pelo lado direito acima dele, ao mesmo tempo assumiu uma postura baixa, de modo que menos partes vulneráveis ficassem expostas.
Mesmo não sendo proficiente em lutas com escudo, ele já havia treinado muitas vezes com Noah e os outros e havia aprendido ao menos o básico, além disso, já havia usado alguns antes em batalha.
Vendo isso, os três homens ao lado tentaram copiá-lo, com o que havia caído antes ficando do lado esquerdo dele e os outros dois do lado direito.
Nesse momento, um Carniçal maior avançou em sua direção, derrubando vários Guardas no caminho.
“Erguer escudos!” gritou, quando os quatro, ao mesmo tempo, levantaram-no acima de suas cabeças no último momento.
Bam!
A coisa se jogou de forma espalhafatosa acima deles, tentando bagunçar sua formação de modo que pudesse agarrar um deles com suas garras afiadas, mas a defesa dos escudos se manteve sólida, com os quatro suportando o enorme peso da coisa.
“Merda, essa maldita coisa pesa mais que minha sogra!” Um deles gritou, rangendo os dentes.
“Não vamos aguentar desse jeito!” Outro falou, apreensivo, vendo pelas frestas dos escudos outras criaturas se preparando para rodear suas defesas e atacá-los pelos lados.
Mesmo assim, Fernando não teve qualquer mudança de expressão, seu olhar focado na coisa à frente. No instante em que o enorme Carniçal se apoiou em suas duas pernas traseiras, preparando-se para erguer-se como um humano e abriu sua enorme boca para tentar mordê-los, seus olhos se estreitaram.
“Ataquem!”
Os três homens foram pegos de surpresa com o comando repentino, mas agiram instintivamente, empurrando suas lâminas para frente ao mesmo tempo.
Perfura! Perfura Perfura!
As quatro espadas entraram na boca da coisa que ainda não havia se erguido totalmente, fincando-se no interior e fazendo o enorme ser emitir um rugido grotesco, quando caiu para trás, esmagando alguns Murmuradores e outros dois Carniçais menores.
Vendo isso, o jovem pálido sorriu levemente.
Parece que isso pode funcionar, pensou, ao ver como os três homens sabiam exatamente onde deveriam atacar, mesmo que ele não tivesse ordenado. A falta de experiência dos homens de Yandou em batalhas e formações poderia ser compensada por sua própria experiência com as Criaturas das Trevas do Pântano Negro!
Bam! Bam! Bam!
Outro Carniçal menor chocou-se contra o escudo, mas não conseguiu nada além de bater sua cabeça e garras contra o metal.
“Um passo à frente e ataquem!” Fernando repetiu, quando mais uma vez os quatro fizeram o mesmo.
Ting! Perfura! Ting! Perfura!
Duas espadas se chocaram contra a pele dura da coisa, enquanto as outras duas perfuraram-na, derrubando-a também.
Fernando tinha um olhar focado ao analisar a última investida. Mesmo que não tivesse sido perfeita e alguns não tivessem passado pela pele dura, havia surtido efeito.
Dois de quatro ataques é um bom número.
Vendo isso, os três homens ficaram completamente chocados. Eles haviam realmente matado dois Carniçais seguidos, um após o outro, incluindo um dos grandes, com apenas quatro homens?! Normalmente, eles precisariam de quatro apenas para lidar com o pequeno e o dobro ou triplo disso para derrotar o grande!
Enquanto os homens estavam atordoados, Fernando assentiu. Ele mesmo poderia ter lidado sozinho com os dois Carniçais, incluindo o maior, mas se ele o fizesse, essas pessoas simplesmente não o ouviriam e apenas esperariam que ele lidasse com tudo.
No lugar de usar força bruta, ou tentar impor autoridade sobre tropas que não lhe pertenciam e que dificilmente o ouviriam se o fizesse, parecia mais sensato usar a abordagem de ‘aprender na prática’.
Sua ideia parecia ter funcionado, já que os três homens estavam completamente convencidos. Não só isso, como os demais Guardas ao redor, que lutavam de forma bagunçada e desordenada, se esforçando apenas para sobreviver, ficaram completamente impressionados.
“Formação!” gritou novamente, quando começou a bater com sua espada contra seu escudo.
Bam! Bam! Bam!
Os três homens inicialmente pareciam confusos com as ações estranhas do garoto, mas logo entenderam as intenções dele, quando copiaram suas batidas.
Bam! Bam! Bam!
“Formação!” O jovem pálido repetiu, gritando alto.
“Formação!” Os três homens repetiram.
Os Guardas ao redor, que lutavam numa formação aos frangalhos, que só continuava de pé até aquele momento devido ao apoio dos Magos na retaguarda, olharam para isso hesitantes.
Normalmente, obedecer ordens de tropas estrangeiras, principalmente militares, era uma afronta para pessoas como eles, que serviam como tropas particulares. No entanto, nesse momento, a maior parte dos comandantes estavam mortos, haviam fugido por suas vidas ou simplesmente não sabiam como reagir a essa situação maluca. Como exatamente Guardas, que lidavam com ladrões, prostitutas e mercenários, deveriam estar prontos para enfrentar uma horda de Criaturas das Trevas?
Sem escolhas, alguns dos Guardas recuaram, enquanto outros avançaram, retirando escudos de metal, madeira e tudo que pudesse ser usado, alinharam-se, colocando-se lado a lado com os demais.
Logo, os quatro homens iniciais com seus escudos haviam se tornado dez, então quinze e logo vinte.
Vendo isso, Fernando olhou para os lados, quando sentiu que era suficiente.
“Erguer escudos!”

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