Capítulo 707 - Soureen
Ao notá-lo, a garota de cabelos azuis sentiu como se seu coração tivesse parado, quando apertou a mão do rapaz pálido com ainda mais força.
Fernando também estava assustado, mas ao vê-la desse jeito, tentou se manter calmo e tomou a frente, curvando-se levemente.
“É um prazer conhecer um renomado membro de Karmalía”, declarou, de forma respeitosa.
Lerona, que ouviu isso, ficou completamente chocada, quando olhou para o sujeito, instintivamente dando um passo para trás. Como ela estava fora, até então não sabia quem era essa pessoa ou de onde ela veio.
O sujeito alto e de olhos escuros teve um leve estranhamento com a forma de falar do rapaz.
“Você não sabe quem eu sou?”
O jovem Tenente balançou a cabeça.
“Desculpe, senhor, não estou habituado às Grandes Legiões”, respondeu, com honestidade. Além de Ferman, Magnólia, Eduardo e Wendy, não havia outras pessoas que ele conhecia.
Ao ouvir as palavras do rapaz e saber que ele sequer era de uma Grande Legião, a expressão do sujeito diminuiu, seu olhar indicava que não estava nem um pouco convencido.
“A quem você serve?”, Lehard indagou, com seus olhos negros focados no rapaz.
A expressão de Fernando manteve-se a mesma, mas internamente sua mente estava uma confusão. Ele não poderia dizer que servia aos Leões Dourados, afinal, se isso se tornasse de alguma forma em um conflito, eles seriam envolvidos. No entanto, sentiu que, se mentisse agora, essa pessoa certamente perceberia e sua morte seria certa.
Lerona, que estava ao lado, começou a preparar seu mana, pronta para tirar sua lança, mas mesmo que o sujeito não estivesse emitindo qualquer pressão ou demonstrasse abertamente sua força, ela sentia, instintivamente, um medo irracional desse homem.
“A criança está comigo”, uma voz idosa e pacífica soou, intervindo. Assim que viu a fonte, Fernando ficou surpreso, era Niesttra! “Algum problema aqui?”
Lehard olhou com alguma perplexidade ao ver essa pessoa se envolvendo, mas logo estreitou os olhos.
“Absolutamente nenhum, estávamos apenas nos conhecendo. Por que teria algum problema?” O homem perguntou de forma retórica, forçando um sorriso amigável, então seus olhos focaram-se nas outras duas mulheres, primeiro em Lerona e depois pousou em Wendy, que segurava a mão de Fernando com força, quase escondendo-se atrás do rapaz. “Apenas o rapaz, ou a mocinha aqui…”
Antes que o sujeito pudesse terminar, Niesttra se adiantou:
“Todos estão comigo”, declarou, com uma voz severa e imponente, muito diferente de seu jeito normal e amigável.
Vendo que o velho estava resoluto, Lehard parou por um momento, olhando uma última vez para a garota de cabelos azuis e o rapaz pálido, então desistiu. Ele não queria provocar essa pessoa.
“Sabe, não entendo por que alguém como você ainda mantém laços com uma legião medíocre como os Leões Dourados. O que te motiva? Algum tipo de dívida? Ou talvez apego emocional? Um Mestre tão digno como Niesttra Domus deveria ir para um lugar adequado ao seu nome.” Quando o homem disse isso, Lerona e Wendy ficaram completamente surpresas, mas por motivos diferentes.
A Capitã ruiva estava perplexa ao olhar para o velho e associá-lo àquela pessoa de quem tanto ouvia falar, alguém que era admirado mesmo pelos Generais. Um nome central dentro dos Leões Dourados e, mesmo sendo apenas ‘contratado’, era alguém que tinha voz e influência dentro do Conselho Dourado. Esse era o quanto Niesttra Domus era importante para os Leões Dourados.
Na verdade, a mulher sabia que, se não fosse por essa pessoa, os Leões Dourados talvez até tivessem deixado de existir após a rebelião de Kaisar, se fragmentando em grupos e indo para outras legiões, como normalmente acontecia com a maioria das legiões após um grande conflito interno. Foi unicamente graças à presença do grande Mestre Alquimista Niesttra Domus que muitos Generais permaneceram.
Enquanto Lerona pensava nisso, Wendy, por outro lado, ficou abismada ao descobrir que estava de frente para o famoso Mestre Alquimista, alguém constantemente mencionado em livros. Uma pessoa que havia colocado seu nome na história, tanto por suas contribuições aos Magistas e ao Conselho Superior, quanto por suas poções, pergaminhos e outros itens únicos.
Fernando suspirou por um momento, ele não havia revelado a identidade do velho, mas devido ao mesmo tentar ajudá-lo, acabou o envolvendo.
“Caso se interesse, Karmalía estaria mais do que feliz em recebê-lo. Não sei quanto recebe em seu acordo com sua atual legião, mas estamos dispostos a pagar dez vezes essa quantia!” Lehard afirmou, com confiança em suas palavras. Normalmente, simples Generais não tinham a autoridade para esse tipo de negociação de alto nível, mas como representante oficial de Karmalía, ele tinha esse direito.
Em resposta a isso, Niesttra apenas sorriu, parecendo já estar acostumado a ouvir esse tipo de proposta.
“Eu agradeço a oferta, vou considerá-la.”
Vendo que o sujeito não reagiu, Lehard diminuiu seu sorriso, olhando-o friamente com seus olhos negros.
O único motivo para ele respeitar e temer essa pessoa não era sua força, mas sua poderosa influência no Domínio Humano. Todo Mestre em alguma área era um indivíduo extremamente respeitado, sendo a nata que mantinha a sociedade humana em constante avanço. Seu nível de importância poderia ser comparado ou até maior que o de um Cavaleiro ou Grande Mago, mas Niesttra era alguém especial mesmo dentre os Mestres.
Alcançar esse nível era algo que poderia demandar toda uma vida de esforço, estudo e pesquisas intensas, no entanto, o velho à sua frente era Mestre em pelo menos três ofícios conhecidos, sendo estes Mestre Alquimista, Mestre Joalheiro e Mestre Escriba Mágico! Um verdadeiro Mestre entre os Mestres!
Além disso, havia rumores de que ele não estava muito longe de se tornar um Magista Decano. Se isso realmente fosse verdade, seu poder e influência seriam inimagináveis no Domínio Humano!
Lehard sabia que, ainda que não pudesse recrutá-lo, deveria ao menos evitar ofendê-lo. Mesmo os cabeças de Karmalía não o ajudariam caso se tornasse inimigo dessa pessoa.
Nesse momento, um poderoso mana espalhou-se por todo o local, surpreendendo a todos. Porém, não era como o ‘cumprimento’ costumeiro das Grandes Legiões, era mais como um perfume emitido de forma natural. Um aroma vivido e juvenil, mas ao mesmo tempo velho e pesado, numa estranha e incoerente mistura.
As pessoas imediatamente olharam para a entrada da sala de banquetes, surpresas ao sentir isso. Nela, um sujeito que aparentava estar na metade de seus trinta anos, com longos cabelos negros levemente bagunçados, óculos escuros em formato circular, tatuagens que desciam de seu rosto até o pescoço que lembravam algo tribal e um sobretudo negro chamativo, adentrou no local. Em seu peito havia um broche de Nº3, indicando que era o último membro das Salas VIPs.
Ao lado dele, o leiloeiro Otelo Biliark tinha um sorriso no rosto, enquanto esfregava as mãos de forma bajuladora.
“Como eu disse, temos todo tipo de especiarias exóticas, desde carne nobre de Bulai da raça Megamus, sobremesas raras, como caldo de Cereja Negra dos Altos Elfos e até vinho de Brombélias, colhidas cuidadosamente na última safra do norte. Por favor, sirva-se à vontade.”
O comportamento do sujeito de sobretudo era extremamente casual, aproximando-se de uma das mesas e montando um pequeno prato com alimentos diversos, sem se importar com Otelo ou qualquer outro convidado próximo.
Melanie imediatamente franziu a testa ao ver aquilo.
Eu achei que esse cara não gostava de lugares cheios, por que ele está aqui?
Mesmo Lehard parecia tenso ao ver aquela pessoa, seu olhar num misto de receio e surpresa.
“Com licença”, falou, de forma educada, a Niesttra, quando se afastou, caminhando em direção àquela pessoa. Nesse momento, mesmo o famoso Alquimista não era tão importante quanto esse indivíduo.
Melanie, a Donzela de Falcon, que estava se divertindo ao ser bajulada pelas pessoas, fez relutantemente o mesmo.
Vendo o homem alto e de olhos negros sair, Fernando respirou fundo, aliviado, enquanto Wendy, que estava ao seu lado, estava suada, como se estivesse à beira de uma crise de nervos.
“Senhor Niesttra, obrig-”, Fernando estava prestes a agradecer, quando o velho homem o parou, fazendo uma indicação de silêncio. O jovem Tenente ficou confuso por um instante, mas logo entendeu.
Atualmente, eles estavam num lugar com muitas pessoas poderosas, super-humanos com Físicos extremamente altos, comparáveis a bestas que poderiam facilmente ouvir ruídos distantes. Normalmente, com tanto barulho e pessoas conversando simultaneamente, seria difícil alguém bisbilhotar a conversa alheia, mas agora que Lehard, a Coruja, estava prestando atenção neles, era difícil saber se o homem não estava espionando e ouvindo suas conversas.
Nesse momento, Wendy recebeu uma mensagem em seu Cubo Comunicador, o que a fez olhar para a esquerda. Lá, ela viu Magnólia a observando com cautela, sem se atrever a se aproximar da garota.
“Até retornarmos à nossa sala, não se aproxime de mim!” A mensagem dizia, com um claro teor de urgência.
A pequena gênio da Torre Branca não precisou de muito mais para entender sua situação. Olhando para o velho Mestre Alquimista que havia espantado Lehard e então para o rapaz pálido, que parecia, de alguma forma, próximo dele, soube imediatamente o que tinha que fazer. Se ela queria continuar viva, não deveria sair de perto dele!
Sentindo um forte aperto em sua mão, Fernando olhou para o lado, apenas para ver a garota de cabelos azuis com seu braço enrolado ao seu, como uma pequena preguiça presa a uma árvore.
O jovem Tenente apenas revirou os olhos ao ver isso.
Para quem me chamou de tarado, ela não parece ter nenhum problema em ter contato físico comigo… pensou, irritado, mas, ao mesmo tempo, incomodado consigo mesmo, pois a sensação do toque de sua pele e seu corpo quente fizeram seu corpo reagir mais uma vez. Maldita Sopa de Delgnor! amaldiçoou em sua mente, tentando desviar sua atenção, afinal, se ele a deixasse agora, seria difícil saber o que aconteceria.
Logo, Melanie e Lehard chegaram próximos do sujeito de sobretudo, parando a poucos passos dele. Seus olhares sérios e confrontadores.
Todas as conversas e burburinhos no local diminuíram, com pessoas apenas murmurando e falando baixo.
Vendo isso, Fernando imediatamente ficou em alerta, isso parecia um mau sinal.
“Uma luta vai começar?” indagou, com a voz baixa e tensa, ao ver que o homem e a mulher de Karmalía e Falcon, respectivamente, pareciam estranhos.
Se uma luta entre membros das Grandes Legiões explodisse ali, seria algo perigoso para pessoas fracas como ele.
Ouvindo isso, Niesttra, que estava bem ao seu lado, sorriu.
“Uma luta? Isso nunca vai acontecer”, falou, com confiança. “Está mais para algo como… mostrar respeito para alguém superior a você.”
A expressão do jovem Tenente mudou ao ouvir isso. Ele achou que Lehard e Melanie eram poderosos Generais das Grandes Legiões, mas havia alguém ainda mais poderoso?
Essa pessoa, ele é um Grande Mago?! pensou, assustado. Sem hesitar, voltou-se para Niesttra.
“Quem é ele?” indagou, com alguma curiosidade.
Nesse momento, Wendy interviu, com seu rosto assustado, principalmente ao ver as estranhas tatuagens que desciam pelo pescoço do sujeito, tatuagens que lembravam uma espécie de dragão tribal.
“Eu não o reconheci de imediato, mas aquela pessoa só pode ser… Soureen, o Mago do Tempo, o único membro externo da Legião Lothar e o único Mago de Tempo-Vida de toda Avalon!!”

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