Capítulo 222 - Ação III
O sorriso de canto permaneceu no rosto de Gwen por apenas alguns segundos antes de desaparecer novamente.
O silêncio voltou a ocupar a residência. O silêncio de duas pessoas que já tinham chegado a uma conclusão. Navarra havia fugido e, muito provavelmente, fugido sozinho.
Niko soltou o ar lentamente pelo nariz. Então levou uma das mãos ao bolso interno do colete.
— Ainda assim, eu quero ter certeza.
— Hum? — Gwen arqueou uma sobrancelha.
O albocerno retirou Niko retirou dois pequenos pedaços de papel. Sobre a superfície de cada um havia o símbolo que usava para ancorar sua Alma.
— Se os outros operadores realmente continuarem nos respectivos endereços, a gente vai descobrir agora.
A esotérica observou o selo por um instante. Então seus olhos voltaram para o rosto dele.
— Ahhh… dizia enquanto um sorriso divertido surgiu lentamente no rosto. — Você vai chamar o pessoal.
— Isso mesmo.
— Mas… vai chamar todo mundo?
— Não.
A resposta veio imediata. Niko já estava analisando aquilo antes mesmo de retirar o papel do bolso.
— Não faz sentido interromper todas as investigações. Se a gente puxar seis pessoas pra cá, ninguém vai continuar verificando os outros endereços. — Explicou Niko. — Além disso, muito provavelmente os operadores que foram interceptados fugiriam. Isso seria uma dor de cabeça ainda maior.
— Justo.
Gwen apoiou um dos ombros na parede, como se estivesse cansada o suficiente para sentar em algo, mas ativa o bastante para continuar de pé.
— Então quem são os sortudos?
Niko demorou alguns segundos para responder. Não porque estivesse indeciso, mas porque estava reorganizando mentalmente a posição de cada equipe.
Brigitte e Evelyn tinham ficado responsáveis pelo supervisor. Gabe e Matteo estavam verificando o endereço do auxiliar. Os dois locais ficavam relativamente próximos da Praça das Lanternas Velhas. Muito mais próximos do centro da cidade do que aquela região afastada onde ele e Gwen estavam agora. Além disso, ambos os grupos possuíam dois investigadores. Puxar uma pessoa de cada equipe não comprometeria a missão. Tsugumi e Jakob estavam sozinhos. Removê-los dos próprios endereços significaria abandonar completamente aquelas investigações.
— Brigitte e Gabe.
Gwen assentiu imediatamente.
— É, faz sentido.
Em seguida, deixou ambos caírem sobre o chão de madeira da sala. Gwen observou o gesto em silêncio. Então Niko fechou os olhos.
Por alguns segundos, permaneceu completamente imóvel. A Alma se estendeu para além daquela residência, atravessando ruas, quarteirões e bairros inteiros até encontrar as duas âncoras que havia deixado com os companheiros mais cedo naquela noite. Uma estava com Brigitte. A outra com Gabe. Assim que as encontrou, puxou.
O ar ao redor deles se distorceu, como se o espaço estivesse sendo dobrado sobre si mesmo. Então duas fissuras surgiram na realidade.
No instante seguinte, uma garota de pele escura usando dois rabos de cavalo e de braços cruzados surgiu. Era Brigitte. A luminar surgiu exatamente sobre um dos papéis, equilibrando-se sem qualquer dificuldade. Ela piscou algumas vezes. Olhou para a sala. Depois para Niko. Depois para Gwen.
— Certo. — disse ela, descruzando os braços. — Eu tenho várias perguntas.
Antes que a garota pudesse continuar falando, uma voz a interrompeu.
— Eu juro que vo-!
Um homem de cabelos escuros surgiu através da distorção, falando alto, em seguida se agachou rápido demais, como se estivesse concentrado em algo totalmente diferente. No movimento, acabou encontrando a cabeça contra um dos móveis da sala.
Toc. O impacto ecoou alto e o fez perder o equilíbrio e cair para trás. Ele levou uma das mãos ao local da batida imediatamente, massageando a cabeça enquanto fazia uma careta de dor.
— Ai, ai, ai, ai, ai, aiii!!! Que dooorrr!! Ai, ai, ai, ai, ai!!!
Silêncio. Brigitte fechou os olhos. Gabe continuou esfregando a testa por alguns segundos antes de franzir a testa.
— Espera. O que aconteceu? Por que eu tô aqui?
— Ah, nada demais. — respondeu Gwen com um tom seco. — Nós só encontramos uma casa vazia no meio de uma investigação, então decidimos interromper seu trabalho para admirar suas habilidades de locomoção.
— Mas sem nem avisar?!
Brigitte franziu a testa.
— Como eles iam fazer isso?
Gabe abriu a boca para responder. Então fechou.
— Eu… Tá, eu não pensei nessa parte.
Ele soltou um suspiro, apoiou uma das mãos no móvel que havia atingido e se levantou devagar, virando os olhos para Niko.
— Se você chamou a gente para cá então aconteceu alguma coisa.
Gwen precisou esconder um sorriso. Enquanto Gabe ainda massageava a própria testa, Niko decidiu ir direto ao assunto.
— Navarra desapareceu.
A frase foi suficiente para apagar qualquer resquício de humor. Brigitte ficou séria imediatamente e Gabe também.
— Desapareceu como? — perguntou a luminar.
— Quando a gente chegou aqui a casa já estava vazia.
— Então ele fugiu?
— Parece que sim.
O olhar dela percorreu rapidamente a sala de estar. O sofá. As poltronas. A mesa de centro. A estante encostada na parede. Tudo continuava ali. Nada parecia fora do lugar
— Bem… não pareceu ser uma fuga planejada.
— Foi exatamente o que pensamos. — respondeu Gwen.
Niko voltou os olhos para os dois.
— Por isso eu chamei vocês. — disse ele, se virando para os dois. — Os operadores que vocês estavam investigando continuaram em casa?
A resposta veio quase imediatamente.
— Sim. — respondeu Brigitte. — O supervisor tava lá. A gente acordou ele, inclusive. Parecia mais irritado por ter sido acordado no meio da noite do que pela sua casa ter sido invadida. Inclusive, eu perguntei sobre o dríade e os sapientes e o cara não sabia de nada.
— Com o nosso foi a mesma coisa. — acrescentou Gabe. — Ele não tava preparando as malas ou coisa assim. Parecia bem tranquilo na verdade. E quando a gente falou sobre o esquema, ele se fez de zonzo. Quando fui interrogar ele, boom, apareci aqui.
O silêncio retornou. Dessa vez, apenas por alguns segundos. Porque a conclusão surgiu praticamente sozinha. Niko observou os três. Depois voltou os olhos para o corredor escuro da residência.
— Então não foi uma retirada organizada em grupo.
Ninguém discordou.
— Se fosse, eles teriam desaparecido juntos.
— Exatamente. — respondeu Gwen.
— O que significa que Navarra fugiu sozinho mesmo. — completou Brigitte.
— Ou pelo menos antes dos outros. — disse Gabe.
A frase pairou no ar por alguns segundos. Naquele momento, todos entenderam o que ela implicava. Se Navarra havia fugido sozinho, então tinham que alcançá-lo antes que encontrasse um esconderijo ou deixasse a cidade. Quanto mais tempo passasse, menores seriam as chances de encontrá-lo. Agora que tinham certeza de que ele era a peça fora do lugar, precisavam localizá-lo o mais rápido possível.

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