Notas de Aviso

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    Com o selo de luz, iluminou a completa escuridão. Ao centro da sala, um pedestal marmóreo elevava-se e um orbe da altura de seu peito estava ali fixado. O cristal cinzento reluziu refratando a luz que recebeu. Uma esfera do tamanho de uma cabeça humana, o centro conector que interligava a Casa da Moeda à Central Monetária do Reino Antigo, que, nesse caso, se localizava literalmente ao lado.

    O Banco Central do Reino estava a menos de uma milha de distância, instalado em algum lugar dentro da estrutura predial do secto dos magos no terreno do Palácio Real de Palard.

    Benk só conseguia imaginar a dificuldade que seria invadir a sede das cédulas de propriedade mães, instaladas ao lado. Que bom que o acesso é controlado e o registro acontece fora dos muros palacianos.

    Falando em registros, puxou da bolsa os formulários de requisição, já adequadamente preenchidos, um com os dados dele e outro com os de Pelk.

    Lidava diariamente com esses papéis que eram enviados de todas as partes do continente. O padrão era o mesmo: nome, características familiares, local aproximado ou fixo de moradia, declaração de posses passíveis de averiguação e outros detalhes individuais, como idade aproximada.

    Por sorte, a parte de verificação da fidelidade das informações prestadas carecia de empenho governamental, pois muitos aventureiros, comerciantes, religiosos ou políticos não possuíam residência física. Rastreá-los pelo território era um dispêndio financeiro negligenciado pelo Estado. Eles confiavam na veracidade e no manuseio dos recursos registrados nos documentos de posse, o que, no fim das contas, fazia todo sentido; poucos eram loucos o suficiente para andar carregando as riquezas nas costas. A maioria as escondia em algum buraco qualquer que encontrasse.

    Benk vestiu uma luva especialmente comprada para coletar o sangue de Pelk. O mago não gostou muito da ideia de cortar a mão para sangrar sobre o tecido, mas Benk prontamente o acalmou. Relaxa, você é destro. É só cortar a mão esquerda.

    Tocou o orbe com a luva e posteriormente pressionou o formulário contra o cristal, especialmente a parte onde os fios de cabelo de Pelk estavam colados. Uma luz fulgurante reluziu no interior do objeto e Benk sentiu o calor, a vibração e uma energia transpassar o seu corpo.

    Como já estava ciente desse procedimento, pois o presenciara na época de treinamento, ele não se assustou. Ao menos não ao ponto de desmaiar, como acontecia com alguns tementes à magia.

    Depois de alguns instantes, a luz retornou ao centro do núcleo cinzento. Benk observou o formulário e notou os contornos ao redor do local onde o cabelo de Pelk estava colado. De modo semelhante ao carimbo, um arco de validação moldou os fios. Cada arco era único e ele já havia lidado com eles milhares de vezes.

    Retirou a luva de sangue seco e colocou a própria mão na superfície cristalina; pegou o formulário que estava identificado com uma mecha de seus próprios cabelos e repetiu o procedimento. Pronto, estavam registrados no sistema monetário do Reino Antigo, oficialmente donos de contas abertas em nomes que não lhes pertenciam, mas por meio das quais, a partir de agora, administrariam toda e qualquer riqueza que desejassem manejar.

    A etapa final seria a confecção dos títulos de posse que, fortuitamente, ele mesmo era o responsável por elaborar, ainda mais quando estes chegavam endereçados como pertencentes ao Estado de Norgta, ou a ele vinculados como cidadãos consanguíneos, o que agora era o caso dos recém-descobertos irmãos bastardos, filhos do saudoso Bontek.

    — Como bem dizem, se está registrado no sistema, mentira não é — sussurrou o escriba enquanto guardava as folhas na bolsa.

    O próximo passo agora era colocar os documentos no setor de despacho. E nessa etapa o maior risco seria que os formulários caíssem acidentalmente nas mãos de outro escriba que não ele, mas como especialista sênior do departamento no dialeto de Norgta, e com descrições propositalmente elaboradas nessa língua nos formulários, esse risco era praticamente inexistente.

    Uma vez que o formulário estivesse em suas mãos, ainda existia mais um problema a ser superado: ativar os documentos adulterados de posse por conta própria e inseri-los no setor de encaminhamento à matriz monetária, e também, obviamente, assegurar os documentos de posse-filhos, não os encaminhando para o setor de envio ao solicitante da Câmara Forte.

    Benk sorriu satisfeito, limpou com zelo o orbe cristalino, saiu da sala, pressionou o selo silenciador e o de abertura contra a superfície maciça, inverteu a posição de face e o ângulo para que o selo de abertura espelhasse o efeito contrário e trancou a porta.

    Ele descobriu essa técnica de inversão ao testar e quebrar o mecanismo da porta do alojamento em sua quarta tentativa. O metal obedece. No fim das contas, uma fechadura nunca tem real ciência de estar aberta ou fechada. Ao inverter o comando angular e não usar as costas da folha, mas sim a sua face, ou seja, escolher usar a parte da frente, onde as runas habitam, ao invés da parte de trás do papel e ativar o selo, a porta se fecha.

    Enquanto investigava o interior do prédio, sob a tênue luz, Benk notou uma placa indicando que o setor de despacho se localizava no segundo andar, um lance de escadas acima, mas no fim não muito distante da sala que acabara de trancar. E no caminho, mais uma porta que precisava ser transposta para entrar no setor, mas dessa vez as hastes metálicas deram conta do serviço sem grandes dificuldades.

    Os arquivos eram armazenados em estantes adequadamente etiquetadas, e mesmo que a luz do selo de iluminação tivesse chegado ao fim, ele prontamente ativou outro, encontrando o que procurava rapidamente. Inseriu os formulários no arquivo na posição adequada, junto aos demais protocolados na suposta data de entrada que preenchera no livro de abertura no andar abaixo. Retirou-se, trancou a porta e, com completo entusiasmo reverberando por todo o corpo, sentiu que a missão estava concluída.

    Ao menos a parte mais importante; agora era o momento de fugir dali imediatamente.

    Caminhou de volta ao local por onde invadira o prédio. Chegou próximo da porta que dava acesso ao portão de carga e descarga, mas antes mesmo que precisasse concentrar os sentidos, percebeu a movimentação na região. Os guardas conversavam, inquietos.

    — O que você acha? — perguntou a voz abafada de um homem.

    — Não sei, podemos entrar no prédio e verificar se tem alguma coisa estranha — sugeriu o guarda.
    Benk recuou um passo. Alguma coisa deu errado.

    — Pode ser só nossa imaginação pregando peças.

    — Sim, mas como é que isso veio parar aqui?

    — Não sei. A porta estava trancada, não encontrei nada de suspeito.

    As palavras do guarda trouxeram à sua lembrança a recente queda: alguma coisa tinha se prendido e em seguida se soltou, mas, na adrenalina, acabou ignorando esse evento. Seu estômago congelou.

    — Você lembra de ter visto isso quando começamos o turno?

    — Não, também te surpreendeu, certo?

    Era o suficiente. O escriba retornou ao interior do prédio. Será que deixei algo cair? Questionou-se, verificando o conteúdo da bolsa e apalpando os bolsos. À primeira vista, tudo parecia normal, mas enquanto analisava a capa que vestia, compreendeu com pesar o que tinha acontecido.

    O selo silenciador protegeu-o completamente, ao ponto de anular o ruído do tecido rasgado da bainha da vestimenta.

    A maldita porta! Ficou preso na maldita porta! Constatou cerrando os dentes.

    Benk olhou ao redor; precisava sair dali e suas alternativas naufragavam uma a uma.

    Não que fosse a ideia mais genial do mundo encarar as costas dos guardas, escalar uma parede e se esgueirar pelas ruas. Ele sabia que tanto a porta da frente quanto a de trás guardavam o desafio de não chamar a atenção e clamar para as sombras o camuflarem nas arestas das estátuas e pontos cegos nos ângulos das paredes.

    Com os guardas eufóricos, essa rota caiu por terra.

    Quais outras saídas existiam no local? O setor de cunhagem abaixo? Beco sem saída, sem chance. Ficar escondido até o prédio abrir? Claro, amigo, sou um móvel, não vê que sempre estive aqui?

    Se fosse capturado, todo o plano, tudo o que ele e Pelk concretizaram no decorrer de tantos anos, desabaria instantaneamente.

    O que poderia esperar eram apenas as adoráveis férias atrás das grades por mais da metade de sua vida, ou coisa pior. Isso se conseguisse proteger seu melhor amigo de amargar um destino equivalente.

    Sem contar o inquérito do secto mágico. Runas interessantes, jovem. E no dormitório. Maravilhoso livro, onde comprou? E esse conversor. É herança?

    Benk controlou a acidez corrosiva que entretinha sua ansiedade encurralada.

    Pense, seu Dedo Dourado estúpido.

    Respirando com calma, organizou os instintos. A prioridade era desaparecer. Puxou da bolsa os selos de recarga e, um por um, contando em absoluta concentração, recarregou os selos silenciadores. A última recarga. Fixou novamente os selos, atentando-se para que tudo o que pudesse produzir qualquer ruído, por mínimo que fosse, estivesse adequadamente neutralizado.

    O térreo, onde estava, era hermético, mas o primeiro e o segundo andar, assim como os acima destes, possuíam janelas. Talvez alguma delas fosse mais do que um maldito enfeite de vidro reforçado feito para permitir a iluminação do interior do prédio!

    O escriba esgueirou-se, examinando cada uma delas. Constatou que eram sólidas armações com lentes transparentes perfeitamente fechadas. A circulação interna de ar. Como mantém esse sarcófago financeiro arejado?
    Os cristais de luz internos do prédio estavam desligados, mas, além deles, forçando a vista para o teto, Benk percebeu algo peculiar. Cristais de ventilação.

    Mentalmente e por conhecimento arrancado às custas de noites mal dormidas dos livros que emprestara da biblioteca do secto mágico, lembrou-se de algo importante: a convivência dos cristais com o ambiente exigia certas peculiaridades arquitetônicas.

    Cristais de aquecimento e de luz podiam ser tranquilamente utilizados em pequenos ambientes fechados… mas, em ambientes tão vastos como aqueles salões burocráticos, com janelas de enfeite que não permitiam a circulação do ar… Isso. Os cristais de ventilação exigiriam algum tipo de conexão e fluxo com o lado exterior. Caso contrário, sua eficiência seria pífia.

    Certo, Benk, a pergunta agora é: onde está esse suposto duto de ventilação? indagou o escriba sondando o teto que mal podia enxergar.

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