Mais um mês havia se passado, e Oliver seguia sua rotina com diligência.

    Orson não avançara em seus ensinamentos de magia. O velho estava completamente focado em ensinar dracônico a Oliver.

    Archibald, por outro lado, ensinava uma magia nova a cada semana.

    Com apenas algumas horas de prática, Oliver conseguia dominar cada uma delas sem grandes complicações.

    Ainda assim, agora que seu repertório estava aumentando, ele percebeu um problema que antes não existia.

    “É difícil lembrar de todas…”

    Quando conhecia apenas uma magia regular, era simples se recordar dos gestos e das palavras necessárias para conjurá-la. Mas, conforme aprendia mais, Oliver começou a sentir dificuldade para manter tudo organizado na mente.

    Naquele momento, ele já conhecia 6 magias.

    A primeira era sua magia autoral, [Relâmpago].

    Depois, Orson lhe ensinara [Armadura Arcana].

    Em seguida, Archibald ensinara [Escudo de Força].

    Outras 4 magias também tinham vindo de Archibald. Ironicamente, uma delas era [Armadura Arcana] novamente, o que significava que seu repertório real não era tão variado quanto parecia à primeira vista.

    “Realmente… parece que os magos seguem algum tipo de convenção na escolha das magias.”

    Oliver concluiu, ainda que apenas parcialmente, que devia existir um conjunto básico de magias que todo mago aprendia, algo comum independentemente da especialização de cada um.

    Naquele dia em específico, havia algo interessante ocupando a atenção da cidade.

    O grande edifício que vinha sendo construído na avenida principal de Corval estava finalmente pronto e prestes a ser inaugurado.

    Oliver ficou admirado com a velocidade da construção. Mesmo que a arquitetura e a engenharia civil daquele mundo não parecessem estar no mesmo nível do planeta Terra, ainda assim era algo impressionante.

    Corval era uma cidade pacata, sem grandes formas de entretenimento. Por isso, a inauguração de um novo estabelecimento era, de longe, o acontecimento mais interessante do momento.

    Praticamente a cidade inteira estava presente, aguardando com ansiedade.

    Um palanque havia sido preparado para que o Orador da cidade fizesse um discurso.

    Um Orador era, em essência, uma espécie de prefeito, a autoridade política máxima de uma cidade.

    Mesmo uma cidade pequena como Corval tinha um.

    Silas Greymark era um homem baixo e roliço, com um bigode longo e curvado.

    À primeira vista, parecia carismático e claramente possuía a aprovação do público. Ainda assim, desde que despertara, a intuição de Oliver se tornara muito aguçada. E, por alguma razão, ela lhe dizia que não devia confiar demais naquele homem.

    Silas subiu em um banquinho preparado especialmente para ele e se apoiou no púlpito. Ao seu lado, um homem alto e loiro, vestido com roupas luxuosas, permaneceu de pé com postura impecável. Infelizmente para Silas, o banquinho não bastava para compensar a diferença de altura entre ele e Balthazar Venn.

    Oliver teve de conter uma leve vontade de rir ao olhar para a cena.

    Aparentemente, os dois fariam um discurso e explicariam o que exatamente era aquele novo estabelecimento.

    “Eu vou toda semana para a casa dele, mas nunca o vi uma única vez sequer…”, Oliver pensou enquanto observava Balthazar Venn no meio da multidão.

    Então seus olhos encontraram, mais ao fundo do palco, o serviçal de Balthazar que batera em sua mãe e provocara toda aquela confusão algum tempo atrás.

    Oliver encarou Garet intensamente. Se olhar matasse, o homem teria caído morto ali mesmo, diante de todos.

    Mesmo que toda a situação tivesse sido resolvida, Oliver ainda guardava rancor. Não perdoaria aquele homem com facilidade e, se tivesse oportunidade, gostaria de lhe devolver o que fizera.

    Silas pigarreou e começou a falar:

    “Caros moradores de Corval, é com muita alegria que venho aqui hoje, junto de meu amigo de longa data, Balthazar Venn, fazer um anúncio. Como todos vocês devem ter percebido, um novo estabelecimento esteve em construção nos últimos meses. E agora, finalmente, ele está pronto para ser inaugurado. Balthazar é o dono e vai explicar melhor para vocês do que se trata.”

    Depois disso, Silas desceu do púlpito e cedeu a palavra a Balthazar.

    Balthazar se adiantou e falou:

    “Senhoras e senhores, a vila de vocês recebe todos os dias inúmeros viajantes que passam por aqui e não permanecem, pois sequer há uma pousada em Corval. Este novo estabelecimento será uma pousada e também uma loja de equipamentos. Como muitos dos viajantes são aventureiros, ter uma loja desse tipo é extremamente conveniente. E, claro, vocês também se beneficiam disso. Com mais pessoas permanecendo na vila, os negócios locais tendem a prosperar.”

    Com um discurso simples e direto, Balthazar encerrou sua fala e desceu do palco.

    A plateia respondeu com aplausos animados.

    Em seguida, Balthazar caminhou até a frente do edifício, onde um pano cobria a fachada.

    Com um único puxão, revelou o nome do estabelecimento.

    Arsenal do Viajante.

    Algumas pessoas entraram na loja, curiosas para ver como ela era.

    Oliver as acompanhou.

    O Arsenal do Viajante era o maior estabelecimento de Corval, e isso ficava evidente antes mesmo de atravessar a entrada.

    A fachada de pedra e madeira escura ocupava quase metade do quarteirão da rua principal. Duas janelas largas, uma de cada lado da porta, exibiam amostras do que havia lá dentro: uma armadura de couro exposta sobre um suporte de ferro, alguns frascos coloridos alinhados em uma prateleira e uma espada curta pendurada na horizontal. Acima da porta, uma placa de madeira entalhada trazia o nome do estabelecimento em letras profundas, ladeado por um escudo e uma bota de viagem esculpidos na madeira.

    Por dentro, o estabelecimento se abria em uma sala ampla e bem iluminada, com janelas altas e candelabros de ferro pendurados no teto de vigas expostas. O cheiro era uma mistura de couro tratado, cera de armadura, ervas secas e o odor metálico característico de aço bem conservado.

    As prateleiras ocupavam todas as paredes, do chão ao teto, organizadas por categoria com uma lógica que deixava claro que alguém havia pensado muito antes de montar tudo ali. Havia poções de cura em frascos padronizados, alinhadas por tamanho. Pergaminhos enrolados e etiquetados descansavam em caixas de madeira com tampa de vidro. Cordas, lanternas, cantis, rações comprimidas de viagem, kits de primeiros socorros e ferramentas de acampamento completavam o restante.

    No centro da sala, mesas baixas exibiam armas: espadas curtas e longas, machados de uma e duas mãos, bestas desmontadas e arcos de diferentes tamanhos, com as cordas embaladas separadamente. Cada item tinha uma etiqueta de couro com o preço e uma breve descrição gravada a ferro quente.

    A escada para o primeiro andar ficava no fundo do térreo. Era larga, com corrimão de ferro forjado e degraus que não rangiam. No topo, o ambiente mudava completamente. O piso de pedra dava lugar a tábuas de madeira enceradas, o teto ficava um pouco mais baixo, e as arandelas nas paredes lançavam uma luz mais quente e íntima. O cheiro de couro e metal ficava para trás. Ali, o ar cheirava a madeira e cera de vela.

    Um balcão de recepção ficava no topo da escada, com um livro de registros aberto e uma fileira de chaves penduradas em ganchos numerados na parede. À esquerda, uma sala comum com mesas longas de carvalho e bancos corridos servia como refeitório durante as refeições e como sala de estar no restante do tempo. 

    Os quartos se abriam para um corredor estreito que percorria todo o comprimento do prédio. Eram simples, mas limpos, com cama, janela com veneziana, bacia, jarro de água e um gancho na parede para pendurar equipamentos. Os quartos maiores possuíam uma segunda cama e um baú com cadeado embutido no rodapé.

    No fundo da sala comum, uma porta levava à cozinha, de onde vinham sons e aromas de uma operação que já funcionava. O cardápio não era extenso, ensopados, pão, carne assada e cerveja local, mas parecia consistente.

    Oliver percorreu o estabelecimento com o olhar e ficou impressionado ao ver tantos funcionários já trabalhando. O lugar estava movimentado desde a inauguração e tudo indicava que continuaria assim por muito tempo.tinuaria assim por muito tempo.

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