CAPÍTULO 57 - ORSON (5)
O rei não gostou do que ouviu.
“Então podemos simplesmente eliminá-lo e tomar a pesquisa”, disse, sem rodeios.
Elias permaneceu imóvel diante do trono.
“Creio que não será tão simples, meu rei. Orson registrou resultados secundários, derivações e avanços úteis. Mas o que realmente importa ele não colocou no papel.” Sua voz saiu calma, quase desinteressada. “O resultado final deve estar guardado apenas na própria memória. E acessar isso à força não seria trivial, ainda menos no caso de um necromante de almas.”
O rei apoiou o braço no encosto e franziu a testa.
“Nem mesmo morto?”
“Morto, seria pior. Memórias se rompem, resíduos se desfazem, fragmentos se perdem. Podemos obter restos. Não a resposta inteira.” Elias fez uma breve pausa. “Se o senhor quer o resultado verdadeiro, o melhor caminho ainda é fazê-lo entregar por vontade própria. Ou pelo menos convencê-lo de que não tem outra escolha.”
O rei ficou alguns instantes em silêncio, pesando a irritação contra a utilidade de Orson.
“De que maneira podemos fazê-lo nos dar o resultado?”
“Vou conversar com ele.”
Naquela mesma noite, Elias foi ao laboratório de Orson.
Desde a morte de Grace, o lugar havia se tornado ainda mais silencioso. Antes, pelo menos, existiam dois ritmos ali dentro: o som das páginas viradas por ele e o ruído discreto das mãos dela organizando ingredientes, limpando instrumentos ou relendo anotações. Agora restava apenas Orson, e o laboratório parecia grande demais para um homem sozinho.
Ainda assim, ele mantinha tudo funcionando.
Era um mago de 5º ciclo. Não precisava mais consultar cada diagrama dez vezes antes de conduzir mana. Não hesitava diante de circuitos delicados, não tremia ao estabilizar matéria anímica, não dependia de outra pessoa para acompanhar experimentos complexos. O que antes exigia dupla conferência, ele executava sozinho e com eficiência fria.
Naquela noite, estava inclinado sobre uma bancada coberta por pergaminhos, frascos de vidro e placas de pedra rúnica. A luz das lâmpadas alquímicas projetava sombras alongadas pelo aposento. No centro da mesa, havia fórmulas inacabadas, correções, cálculos e uma página em branco que ele abrira sem coragem de preencher.
Era para ter começado ali.
A pesquisa para trazer Grace de volta.
Mas ainda não havia começado.
Primeiramente ele havia concluído o trabalho do mestre. Depois precisou ocultá-lo. Depois gastara tempo demais pensando em consequências, em riscos, em tudo o que poderia acontecer se a coroa descobrisse o que ele havia alcançado. E agora, quando finalmente estava diante do vazio onde deveria iniciar a única pesquisa que realmente importava para si, alguém abriu a porta do laboratório sem pedir licença.
Orson ergueu a cabeça de imediato.
As trancas estavam destravadas, mas isso pouco importava. Ninguém entrava ali sem autorização. Ninguém que prezasse a própria vida.
O homem que cruzou a porta não tinha a imponência espalhafatosa que Orson esperaria de alguém da corte. Tinha pele morena, cabelos negros lisos, postura reta e uma expressão controlada demais para ser casual. Vestia um robe luxuoso, de corte refinado, e portava um cajado incrustado com uma gema verde lapidada. Não havia necessidade de brasões visíveis. Só pela forma como se apresentava, já era possível concluir que se tratava de um mago ligado à realeza.
Mas havia algo nele que fez o estômago de Orson apertar antes mesmo da apresentação.
Presença.
Apenas alguém poderoso teria uma presença tão impactante, Orson conseguiu sentir isso.
“Quem é você?” Orson perguntou, endireitando o corpo. “O que faz aqui?”
Apesar do susto, reuniu toda a compostura que tinha. Ao longo dos anos, aprendera a mentir com o rosto quase tanto quanto com relatórios. Não podia demonstrar medo. Não podia demonstrar culpa. Não podia demonstrar que havia algo naquele laboratório que não deveria ser visto.
“Eu sou Elias”, respondeu o homem. “Conselheiro do rei. Vim em nome da coroa conversar com você.”
O nome atingiu Orson como um golpe seco.
Então era ele.
Durante anos, Orson ouvira Elias ser citado da mesma forma que estudiosos falavam sobre certos fenômenos raros: com cautela, com respeito e com a sensação incômoda de que se tratava de algo que não pertencia à vida comum. Nunca o vira pessoalmente. Parte dele quase acreditava que o homem era mais lenda do que realidade.
Agora a lenda estava dentro do seu laboratório.
“O que a coroa quer comigo?” Orson perguntou, medindo cada palavra. “Acredito estar entregando bons resultados.”
Ele suava frio por baixo do robe, mas o rosto permaneceu controlado.
Elias observou o ambiente antes de voltar os olhos para ele. Havia uma tranquilidade ofensiva naquele olhar.
“Bons resultados?” Elias repetiu, sem alterar o tom. “Sim, mas não os resultados completos.”
Orson sentiu a garganta secar.
Não perguntou do que ele estava falando. Não se fez de confuso. O instinto lhe disse, no mesmo instante, que seria inútil. Elias não estava blefando. Não estava tentando arrancar uma confissão usando um truque barato.
Ele sabia.
“Vou ser direto”, disse Elias. “Não tenho tempo a perder, e imagino que você também não. Por que não está entregando os resultados verdadeiros que obteve? Acha que isso é algum tipo de brincadeira? A coroa financia essa pesquisa há muitos anos. Não cabe a você decidir o que deve ou não deve ser entregue.”
Orson engoliu em seco.
Todos os cenários que imaginara ao longo dos últimos meses eram ruins, mas nenhum lhe parecera tão sufocante quanto aquele. Não havia abertura para negociação. Não havia espaço para mentiras. A simples forma como Elias falava deixava claro que a conversa já estava decidida antes de começar.
Ainda assim, Orson tentou ganhar um fôlego mínimo.
“Alguns resultados exigem validação mais cuidadosa”, disse. “Seria irresponsável apresentar certas hipóteses antes de consolidá-las.”
“Não.” Elias cortou a justificativa com a mesma calma. “Seria irresponsável escondê-las do rei.”
O silêncio que veio depois foi pesado.
Orson avaliou, por reflexo, a distância entre os dois. As ferramentas sobre a bancada. As runas entalhadas no chão. Os frascos ao alcance da mão. Avaliou tudo o que poderia usar se fosse necessário.
Então avaliou Elias outra vez.
A diferença de um ciclo parecia pequena apenas para quem nunca compreendera magia de verdade.
No papel, 5º e 6º ciclo podiam soar próximos.
Na prática, a diferença era grande demais.
Além disso, Orson sabia o suficiente sobre a escola da adivinhação para não subestimá-la. Pessoas ignorantes pensavam em combate apenas como magias de explosão e destruição visível. Mas um adivinho de 6º ciclo não era um estudioso indefeso. Homens desse nível chegavam à luta sabendo demais, vendo demais, antecipando demais. E Orson, embora também fosse perigoso, não alimentava nenhuma ilusão heroica.
Se precisasse lutar contra Elias ali dentro, morreria.
Talvez conseguisse feri-lo.
Talvez nem isso.
“Entregue os resultados até amanhã”, disse Elias. “Quero um relatório escrito, completo, de tudo o que descobriu e vem escondendo. Sem omissões.”
Deu um passo à frente. Não foi um movimento agressivo, não precisava ser.
“Se não compartilhar, pode se considerar um homem morto. Não precisamos de um pesquisador que escolhe o que esconder da coroa. E não pense que é insubstituível. Você não é.”
Orson abaixou a cabeça.
“Sim”, respondeu, sentindo a própria voz mais seca do que gostaria. “Vou entregar os resultados amanhã.”
“Ótimo.” Elias virou-se para sair. “E não pense que pode fugir. Nós o encontraríamos de qualquer forma.”
A porta se fechou atrás dele com um ruído leve.
Por alguns segundos, Orson permaneceu imóvel.
Então soltou o ar de uma vez, como se só agora tivesse permissão para respirar.
As pernas quase falharam quando ele se apoiou na mesa.
O laboratório seguia igual ao de antes. As lâmpadas alquímicas continuavam acesas. Os pergaminhos continuavam espalhados. O cheiro de reagentes, cera e pedra úmida continuava o mesmo. E, no entanto, tudo havia mudado.
Elias lhe dera até o dia seguinte.
Na prática, dera-lhe uma sentença de morte com prazo.
Orson fechou os olhos por um instante.
“Eu já não tenho tempo”, murmurou.
Não havia sequer começado a pesquisar uma forma de trazer Grace de volta.
Concluíra a pesquisa de seu mestre. Ocultara o resultado final. Sobrevivera tempo suficiente para acreditar que poderia, em algum momento, enfim voltar os próprios esforços para aquilo que realmente importava. Mas agora o reino vinha cobrar exatamente a única coisa que ele não podia entregar.
Se obedecesse, colocaria nas mãos da coroa um poder monstruoso.
Se recusasse, morreria.
Se fugisse, provavelmente também morreria.
Orson abriu os olhos.
E percebeu que, em poucas palavras, Elias já o havia matado.
Orson não entregaria a pesquisa.
Disso teve certeza quase imediatamente.
O medo era real, mas não suficiente para fazê-lo trair a última decisão do mestre e a própria consciência. [Roubar Vida] já era abominável o bastante. [Devorar Alma] era ainda pior. Se ambos caíssem nas mãos erradas, o reino não hesitaria. Nobres, oficiais, magos ambiciosos, homens desesperados por longevidade, todos encontrariam alguma justificativa para drenar outras vidas.
Ele conhecia a natureza dos poderosos há tempo demais para se enganar.
Portanto, se estava condenado de qualquer maneira, precisava ao menos decidir o que fazer com o pouco tempo restante.
Passou a noite inteira se organizando para fugir.
Não uma fuga cega, motivada apenas por pânico.
Era uma fuga com objetivo.
Precisava encontrar um discípulo. Alguém capaz de herdar a pesquisa sem entregá-la à coroa. Alguém que pudesse receber não só anotações, mas, se necessário, as próprias memórias que ele carregava. A habilidade de assinatura [Transferência de Memória] tornava isso possível. O problema não era o método. Era sobreviver o bastante para encontrar a pessoa certa.
E essa pessoa não poderia ser descoberta por Elias.
Esse ponto era inegociável.
Se o adivinho ligasse o nome do discípulo ao de Orson cedo demais, tudo estaria perdido. A pesquisa morreria com os dois ou, pior, seria capturada no instante da transmissão ou posteriormente a ela.
Então Orson trabalhou com uma rapidez amarga.
Separou alguns cadernos realmente úteis. Rasgou páginas inteiras de anotações secundárias. Reuniu materiais raros que não poderia substituir com facilidade. Escondeu fragmentos essenciais sob códigos que só ele saberia reconstruir depois. Em seguida, destruiu o que não podia levar.
Quebrou frascos de armazenamento anímico.
Apagou círculos rúnicos com as próprias mãos até a pele dos dedos arder.
Partiu instrumentos delicados contra o chão de pedra.
Desmontou conduítes, arruinou matrizes, embaralhou registros, incendiou estantes inteiras de material comprometedor. Cada destruição era calculada para atrasar qualquer tentativa de reconstruir seus avanços a partir dos restos.
Quando terminou, o laboratório já não parecia um centro de pesquisa.
Pouco antes do amanhecer, Orson lançou um último olhar ao lugar onde passara tantos anos da vida. Havia cinzas no chão. O ar estava pesado de fumaça e pó. Parte das inscrições nas paredes fora riscada até ficar irreconhecível.
Grace não estava ali.
Seu mestre não estava ali.
E agora ele também partiria.
Levando consigo apenas o que ainda podia proteger.
Orson deixou o laboratório naquela mesma noite.
Não foi uma partida digna. Não houve despedida nobre, juramento grandioso ou último olhar para a capital. Foi só um homem condenado saindo pelas sombras, com o coração apertado, os braços carregados de restos do próprio trabalho e a consciência de que, a partir dali, cada dia extra seria precioso.
À distância, Elias observou a fuga.
Não tentou impedi-la naquele instante.
Ficou apenas olhando a silhueta de Orson desaparecer na noite, como se confirmasse algo que já esperava havia horas.
“Eu realmente não gostaria que você fosse tomar essa decisão”, disse para ninguém. Depois desviou os olhos para a fumaça que escapava do laboratório. “Uma pena.”
Na manhã seguinte, a notícia chegou à coroa junto com a confirmação da destruição do laboratório.
Elias não precisou acrescentar muito.
O rei entendeu o bastante.
Victor e Alexander, executores reais, foram convocados para perseguir o necromante de almas na época, e foi assim que a caçada a Orson havia começado.

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