Capítulo 176 | Fim da Noite
— Aleijado. — ela murmurou, tremendo com a dor, mas com uma frieza calculista. — Você não entende o que está segurando.
— Mines. — Lycomedes olhou para a moeda na palma da mão. Depois para ela. — Você tem muitas perguntas a responder.
— Devolva a moeda e eu poupo a vida de todos aqui presentes.
— Uma oferta generosa. — Lycomedes fechou os seis dedos ao redor da moeda. — Não.
Mnemósine ergueu a mão. Um brilho estranho e etéreo surgiu ao redor dela e se condensou.
Lycomedes ergueu a moeda.
A sombra de Mnemósine parou, ela arregalou os olhos, o brilho espairou e sumiu de repente. Depois se inverteu e recolheu-se na direção da moeda. A sombra se comprimiu ao redor de Mnemósine em vez de avançar, e em três segundos ela estava enclausurada numa forma escura que cobria os braços e as pernas e a mantinha no lugar.
Mnemósine ficou imóvel dentro do casulo.
Calixto chegou ao lado de Lycomedes.
— Como sabe usar isso. — Ela perguntou com o cenho crivado de um modo que poderia ser confundido com uma acusação.
— Aprendo rápido. — Lycomedes respondeu com um sorriso.
Calixto olhou para ele por um segundo. Depois para Mnemósine.
— Bom. Parece que temos uma prisioneira.
Mnemósine os encarou de dentro do casulo com os olhos gelados que não haviam mudado. Depois ela gargalhou.
Genuíno, escandaloso, bizarro.
— Mortais. — Disse. — Cada geração igual à anterior. Alguém ganha uma batalha e confunde com uma guerra. — olhou para a moeda na mão de Lycomedes. — Meu mestre tece fios que vossas mãos nunca tocarão. Memórias que ainda não existem. Memórias que serão o único passado que restará, quando ele terminar. — Uma pausa. — Vocês seguraram uma noite. Ele tem o poder de séculos na palma da mão.
Lycomedes não respondeu. Calixto tampouco. Ambos se entreolharam em descrença.
A gargalhada voltou, mais baixa desta vez. Então, virou um engasgo. Mnemósine revirou os olhos.

Os dois heróis Arcadianos franziram o cenho e recuaram um passo.
As pálpebras da deidade fecharam, e pelos lábios abertos escorreu uma substância que a luz da madrugada não conseguia iluminar. Os cabelos negros embranqueceram da raiz para as pontas em três segundos. Depois caíram. A pele contraiu sobre os ossos, depois sobre o que havia abaixo dos ossos, e os ossos estralam em sequência. O corpo de Mnemósine murchou dentro do casulo de sombras até que o que sobrou não se parecia com nada além de uma mancha.
O casulo se desfez.
No chão, o que havia sobrado cabia num espaço muito menor do que a mulher que havia estado ali.
Lycomedes e Calixto se entreolharam.
Nenhum dos dois disse nada por um momento.
— Ela fez isso sozinha. — Lycomedes disse para tirar de si a responsabilidade.
— Não sei se isso me conforta ou assusta. — Calixto olhou para a moeda na mão do colega. — Talvez não tenha sido ela quem fez…
Silvo desceu do ponto de tiro com o arco na mão e encontrou a sombra de Letônio na rua abaixo.
A forma havia mudado desde o início da noite. Estava menos coesa — as bordas que sempre haviam sido imprecisas agora tremiam, e havia transparência onde antes havia escuridão sólida. A moeda de Nix havia caído. O que havia sustentado a forma de Letônio naquele estado estava cedendo.
Silvo ficou de pé diante da sombra.
— Letônio.
A sombra ergueu a cabeça. Os pontos de ausência que serviam de olhos ficaram nele.
— Você acertou. — Silvo disse mais firme do que esperava ser capaz. — A moeda. Ela realmente acabou com o ataque. A noite acabou.
A forma de Letônio pareceu sorrir. Depois, com o custo de sempre, mais alto agora:
— Boa… — Um intervalo. — Boa mira.
Silvo riu. Foi um som curto e torto, com choro no meio que não conseguiu segurar.
— Você quem me ensinou. — Disse.
A sombra de Letônio ficou imóvel por um momento. Depois os braços se moveram, devagar, com o custo visível de cada centímetro, e algo passou de uma mão que estava desaparecendo para o espaço entre eles.
O apito.
O mesmo apito de bronze que Letônio havia levado para a floresta naquela noite, tinha uma mancha de sangue. Silvo fechou os dedos ao redor dele antes que caísse.
A sombra ficou olhando para ele.
— Letônio. — Os olhos do batedor ardiam. — Eu devia ter ido junto. Eu disse que a floresta não era ameaça. Eu disse…
— Silvo. — A voz saiu com menos custo do que nas horas anteriores, mais clara, mais próxima de voz real. — Você fez… certo.
— Não fiz.
— Fez. — Um intervalo. — A cidade… está de pé. — Outro intervalo. — Por causa de você.
Silvo apertou o apito na mão.
— Teríamos todos… Morrido na floresta… Se não… — Cada nova sílaba parecia custar mais que a anterior. — Fosse por… Você…
A sombra de Letônio abriu os braços.
Silvo foi para dentro deles. Não havia o calor que um abraço deveria ter, apenas a pressão tênue. Ele segurou assim mesmo. O choro que saiu foi ruidoso e desajeitado e ele não tentou controlá-lo.

Quando abriu os olhos, a sombra havia sumido.
Ele ficou de pé na rua vazia com o apito de bronze na mão e olhou para o ponto onde ela havia estado.
— Obrigado.
— LYCOMEDES! — A voz de Theo atravessou o campo de batalha. — CALIXTO! VENHAM AGORA!
Os dois correram.
Theo estava ajoelhado ao lado de Licaão com as mãos sobre o abdômen aberto. Pressionava com a única função de manter o que estava dentro onde deveria estar. Theo não tinha a expressão de quem ainda acredita que isso funcionaria.
— Ele está morrendo. — Theo berrou quando Lycomedes chegou ao nível dele. — O ferimento não vai fechar. Não vai durar o suficiente para um curandeiro tratar!
Licaão estava de costas no calçamento com os olhos abertos e a respiração que chegava em intervalos irregulares, cada intervalo um pouco mais largo que o anterior. A transformação havia encerrado — o corpo humano estava de volta à forma normal, mas os ferimentos eram os mesmos que o lobo havia acumulado, apenas em escala humana, e em escala humana pareciam piores.
Um grupo de soldados se aproximou.
Vieram atraídos pelo grito de Theo, ou pela cena, ou pela curiosidade de quem sobreviveu uma batalha sangrenta e ainda não havia processado o silêncio posterior. Ficaram de pé ao redor em semicírculo.
— Esse foi o que lutou como lobo? — Um deles perguntou.
— Acho que sim. — Outro respondeu. — Vi como ele murchou e virou homem depois da batalha. Pensei que esse tipo de coisas só existissem em lendas.
— Quem é ele?
— Não sei. Mas segurou aquele monstro tempo suficiente para a gente terminar o serviço.
— Ouvi ele dizer algo sobre seu povo…
— É um de nós?
— Parece que sim…
Silêncio por um momento.
— Vai morrer?
— Nesse ritmo…
Lycomedes olhou para a moeda na palma da mão. Depois para Theo e então para Calixto. Por último, para os soldados ao redor, com os rostos da batalha, com o cansaço da batalha, com os olhos que haviam visto o suficiente naquela noite para que mais uma coisa não os surpreendesse muito.
Olhou de novo para Licaão.
Para a barriga aberta. Para a respiração que chegava com intervalos cada vez maiores. Ouviu sua voz bestial rugindo para o monstro que ameaçava a existência de seu assentamento.
‘MEU POVO’
Lycomedes ergueu a moeda.

Com o único braço que tinha, estendeu-o acima da cabeça e abriu a mão com a moeda de Nix voltada para a lua. Silêncio total. Não havia nada a dizer que tornasse a situação mais clara ou mais legítima, ou mesmo mais fácil de digerir para todos os outros. Eles não entendiam o peso daquilo; mas ele sim.
Esse era o preço. O preço para manter aqueles pilares de pé. As ameaças distantes.
A sombra ao redor veio.
De todos os cantos do campo de batalha, dos becos e das ruas e dos ângulos onde a escuridão ainda existia mesmo com a noite de Nix rompida. As sombras que restavam foram sugadas para a moeda com a velocidade de vento que encontra um vácuo. A lua acima mudou; mais densa, a luz da madrugada pareceu se tornar mais palpável em contato com as trevas que se moviam.
Lycomedes abaixou o braço num só movimento e socou a moeda no peito de Licaão.
Veias negras saíram do ponto de impacto e se espalharam pelo tronco em todas as direções, sob a pele, visíveis, com a pulsação irregular. Os soldados ao redor recuaram dois passos. Theo e Calixto prenderam o ar.
A respiração de Licaão parou.
Lycomedes ficou de pé ao lado dele com a mão ainda aberta sobre o peito e olhou para o rosto do rei.
Não disse nada. Esperou.
Então, a boca de Licaão se abriu num estridor acompanhado de uma lufada de ar.

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