Capítulo 175 | O Povo e o Rei
Foi quando tudo tremulou. A energia sombria que fluía da moeda de Nix para a Hefos começou a ruir, as sombras nas ruas tremularam, os céus racharam em diversos cacos de tons enegrecidos que se diferenciavam apenas como a umbra e a penumbra.
Hefos tremulou nas mãos de Nesso, instável. Seus dedos se forçaram para garantir o fechamento do aperto contra o cabo tanto quanto sua boca se abriu em surpresa com o fluxo repentino de poder descontrolado. Seu equilíbrio vacilou.
As garras saíram do chão.
Licaão agarrou Nesso pelas costas com o abdômen completamente aberto contra o ar, a carne exposta e o sangue escorrendo pelo calçamento, e os dentes fecharam no pescoço do centauro com a força que restava multiplicada pela recusa de parar.
O centauro berrou.
O corte desceu num arco descontrolado, o impacto da mordida no pescoço deslocou o golpe para o lado onde alcançou o chão e a energia carmesim se dispersou nas pedras sem destino.
Houve uma fração em que os que podiam ouvir ficaram imóveis por meio segundo.
A voz que saiu da garganta do lobo era gutural, deformada pela estrutura da mandíbula, com as consoantes arrastadas e as vogais alargadas e alagadas pelo seu próprio sangue.
— MEU POVO NÃO SERÁ LEVADO À RUÍNA OUTRA VEZ!
Calixto baixou o arco.
Theo parou com o escudo levantado.
Os soldados ao redor, cada um preso no meio de qualquer coisa que estivesse fazendo, ficaram imóveis por aquele meio segundo.
O centauro urrou, esticou seu braço em direção às costas num movimento de chicote que parecia impossível e arrancou do pescoço a mordida numa força que rasgou um pedaço da própria nuca. O sangue do centauro havia chegado ao calçamento. Ele olhou para Licaão com os olhos vermelhos e as sobrancelhas erguidas em desprezo
— Tolo.
Ergueu a espada outra vez, e uma luz cegante atingiu seus olhos.
Numa sequência de estalos a noite de Nix se desfez.
Rompeu, toda de uma vez, o véu que havia coberto Nova Arcádia desde que Mnemósine erguera a moeda horas atrás. A luz da madrugada entrou pelo campo de batalha entre as rachaduras nas trevas de forma que parecia violenta depois de tantas horas de escuridão absoluta. Os olhos levaram um segundo para ajustar.
Os corpos controlados pelas sombras caíram.
As formas dentro deles se dispersaram sem a moeda para sustentá-las e os corpos foram ao chão como sacos de grãos. Os soldados de Nova Arcádia restaram de pé entre os corpos de seus companheiros e respiraram.
O Centauro urrou quando outra vez sentiu as presas do inimigo se fecharem em suas costas.
— MALDITO! SOLTE-ME DE UMA VEZ! — Suas ordens já não transpareciam mais a mesma raiva de antes; parecia mais com… Desespero.
Na mão de Nesso, a Hefos pesou.
Sua energia carmesim havia sumido com a moeda. O que ficou foi o artefato sozinho, sem a força das sombras para complementar, e o artefato em si pesava de uma forma que parecia uma enorme barra de ferro maciço. Nesso sentiu a diferença. O braço que erguia a espada desceu dois centímetros. Depois mais dois.
— Solte. — Nesso ordenou para o lobo que ainda prendia o pescoço. — Solte agora.
Licaão apertou mais.
O sangue do centauro havia chegado ao peito do lobo. O abdômen de Licaão estava completamente aberto, a carne exposta a cada respiração, e ele apertava assim mesmo. Os olhos amarelos não se fecharam.
Nesso se debateu aos berros. Foi quando chegaram as duas flechas de Calixto e se fincaram nos seus dois olhos.
Nesso rugiu e os braços foram ao rosto por instinto, a espada desceu com eles.
Theo já estava à espera e correu.
Usou a perna equina de Nesso como primeiro ponto de impulso, o pé na altura do joelho da pata dianteira, o joelho na altura do flanco, a mão na espádua, e escalou com a velocidade de quem praticava. A mão direita fechou na empunhadura da Hefos no mesmo instante em que a garra de Licaão desceu sobre os dedos de Nesso e os forçou a se abrirem.
Theo puxou e a espada saiu da mão de Nesso.
Ele a reverteu no ar — empunhadura para baixo, lâmina para cima, e depois a reverteu de novo no segundo e meio que o peso da descida ofereceu — e quando os pés encontraram o chão a espada estava na posição certa.
A estocada foi direta. A lâmina entrou no peito de Nesso pelo centro.

A monstruosidade gritou. Urrou. Veio do tronco humano e do corpo equino ao mesmo tempo, as duas naturezas da criatura expressas num único volume. Os cascos bateram no calçamento em sequência desordenada. Os braços desceram e subiram sem direção. A espada vibrou com o movimento do corpo em torno dela e afastou com choques os braços que se aproximavam para tentar retirá-la.
Veias carmesins se pronunciaram na pele do torso humano do monstroe fizeram seus caminhos até o ponto de invasão da lâmina. A energia vital de Nesso estava sendo absorvida pela espada.
Seu corpo tremeu, secou, perdeu o equilíbrio e tombou. Então, Nesso parou.
O estrondo quando o corpo atingiu o chão alcançou o outro lado do assentamento.
Theo ficou de pé ao lado do corpo com as mãos abertas ao lado do corpo. Respirou uma vez, duas. Depois olhou para Calixto.
Ela já havia se virado para o campo.
O lobo soltou o pescoço de Nesso e ficou de pé por um momento ao lado do corpo.
Depois a transformação começou a reverter.
A pelagem recuou em ondas irregulares, a estrutura óssea se reorganizou com os estalos secos de antes, os membros voltaram às proporções humanas devagar, passo por passo, com a lentidão de coisa que estava custando mais do que tinha disponível.
Quando Licaão chegou à forma humana, a barriga estava aberta da mesma maneira que na forma do lobo. A ferida apenas mudara de escala.
Caiu ao lado do corpo de Nesso.
Na periferia do campo, Mnemósine corria ao ponto onde a moeda havia caído. Os olhos varriam o campo de batalha e os espaços entre os corpos jogados, ansiosos.
Quando um vácuo de escuridão atingiu seus olhos, escondido por baixo de um capacete, seus lábios se reabriram em um sorriso. Ela correu e esticou a mão.
Uma flecha a atingiu no exato instante e ela urrou. Caiu de joelhos com a dor.
— Gargh! — Seus olhos viajaram pelo campo de batalha e encontraram Silvo, ainda em sua posição estratégica sobre uma mureta, que acenou positivamente com um sorriso.
A mulher rangeu os dentes mas engoliu a dor e se voltou outra vez para seu objetivo. Esticou a mão em direção à moeda, mas algo chegou antes.
Uma perna tapou a sua visão.
Lycomedes.
Ele apanhou o artefato do chão com a mão que lhe restava e ficou de pé à frente dela com uma expressão curiosa. Mnemósine o encarava ajoelhada e estupefata.

Regras dos Comentários:
Para receber notificações por e-mail quando seu comentário for respondido, ative o sininho ao lado do botão de Publicar Comentário.