Índice de Capítulo

    Teseu abriu os olhos. O ar escapou de seus pulmões em um tranco violento e seu corpo projetou-se para frente. O pesadelo ainda queimava em sua mente, um labirinto de dentes, sangue escuro e sombras disformes. O instinto de sobrevivência dominou seus sentidos. Suas mãos avançaram e agarraram a coisa mais próxima.

    Foi firme. A respiração do jovem herói soava pesada e irregular no silêncio da tenda. Seus olhos demoraram a focar na luz fraca das lucernas. Aos poucos, a visão turva clareou e a silhueta da aberração transformou-se no rosto assustado de Sophia.

    O calor subiu pelo pescoço de Teseu e tingiu suas bochechas. Ele soltou os braços da moça imediatamente e recuou contra a estrutura da enxerga.

    — Perdoe-me. Eu… Eu não queria.

    Sophia ajeitou o tecido do vestido nos ombros. Sua expressão endureceu. Ela cruzou os braços e o encarou com os olhos cerrados, mas manteve os pés firmes no chão.

    — Você toma proveito de seus ferimentos para agir como um abusado.

    Teseu ergueu as mãos em um gesto defensivo.

    — Eu juro pelos deuses que não fiz de propósito. Os sonhos…

    Sophia descruzou os braços e avançou um passo. Ela espalmou as duas mãos no peitoral nu do rapaz e o empurrou contra a cama improvisada. A força aplicada foi exata para forçar a submissão do corpo debilitado.

    — Fique deitado. Você abriu três pontos nas costelas apenas com esse salto inconsequente.

    As costas de Teseu tocaram o tecido rústico da enxerga e a dor finalmente o alcançou. Uma queimação aguda irradiou de seu flanco direito. Seus músculos protestaram contra o movimento brusco. Ele cerrou os dentes e obedeceu.

    Sophia puxou um pequeno banco de madeira e acomodou-se ao lado da cama. Ela mergulhou um pedaço de linho limpo em uma bacia com água morna e ervas. Com movimentos precisos, a moça começou a limpar o sangue seco ao redor do abdômen do herói.

    — Quanto tempo eu estive fora? — Teseu perguntou. Ele acompanhava o trabalho cuidadoso das mãos femininas.

    — Três dias completos. O curandeiro temeu pela sua vida na primeira noite. A febre consumiu seu corpo de uma forma que nunca havia visto.

    Teseu processou a informação. O tempo perdido pesou em sua mente. Ele buscou as lembranças anteriores à batalha. Uma conversa com Plutarco ressurgiu.

    “Três dias…”

    — Hoje é o dia do meu nascimento.

    Sophia parou a limpeza por um instante. Seus olhos encontraram os do jovem. Ela molhou o pano novamente e retomou a higienização das feridas.

    — Você tem um gênio e tanto para alguém tão jovem. Lutou bravamente para defender as pessoas deste assentamento. Derramou seu sangue por almas que não viviam ao seu lado e por rostos que você sequer conhecia.

    — Eu conhecia muitos deles.

    A resposta de Teseu soou firme. Sophia parou e ergueu uma sobrancelha.

    — Eu cresci nas minas dos Kratos — o rapaz explicou. A voz baixou de volume. — Acostumado à poeira de carvão nos pulmões. Conhecia o olhar de desespero de cada homem e mulher que você abriga hoje. Pessoas como Lycomedes, Theo, Callisto… Eles dividiram o pão mofado comigo na escuridão. Eu não lutei por estranhos, Sophia.

    A moça permaneceu em silêncio. Seus olhos varreram o rosto cansado do guerreiro e absorveram a revelação.

    — Bem… — Seu olhar voltou ao pano. — Isso é um pouco menos heróico mas…

    — Como é? — O olhar do rapaz se apertou, exaltado.

    Ela logo mostrou um sorriso de zombaria e continuou seu serviço.

    — Eu julguei mal a sua origem — admitiu sem a aspereza habitual. — Quando você chegou com aquela armadura de bronze e a espada na cintura, pensei que fosse um soldado desertor ou um mercenário em busca de glória. Nunca imaginei que a mesma corrente que prendeu o nosso povo também marcou os seus pulsos.

    O clima na tenda suavizou. O peso do passado deu lugar a um entendimento mútuo. Eles conversaram sobre os detalhes da vida no assentamento e sobre as peculiaridades dos moradores de Nova Arcádia. Teseu contou sobre uma tentativa desastrosa de roubar o pão de um guarda nas minas quando mais novo, e Sophia deixou escapar uma risada genuína. O som preencheu o espaço pequeno com uma leveza rara.

    — Preciso que você se sente. Tratarei suas costas agora — ela instruiu e apontou para o tecido machado sob o rapaz.

    Teseu usou os cotovelos para erguer o torso. Sophia sentou-se na beira da enxerga para alcançar os cortes nas omoplatas do guerreiro. O movimento aproximou os dois corpos de forma repentina.

    O olhar do jovem encontrou os olhos de Sophia. O espaço entre eles reduziu-se a uma respiração. O cheiro de ervas medicinais misturou-se ao aroma natural da pele da moça. Teseu sentiu o próprio coração acelerar e a batida ressoou em seus tímpanos. O ar na tenda pareceu estagnar.

    Uma cacofonia de vozes infantis quebrou o feitiço.

    A porta de tecido da tenda foi puxada para o lado. Um grupo de quatro crianças invadiu o espaço com passos desordenados. Calixto caminhava logo atrás, o arco pendurado de forma displicente no ombro.

    — Sophia! O herói já despertou? — Um garoto magro e de cabelos encaracolados perguntou em voz alta. Seu nome era Hélio.

    Sophia engoliu em seco. Ela e Teseu recuaram no mesmo instante e a distância entre os dois retomou a formalidade. A moça levantou-se da enxerga e espanou o próprio vestido em um movimento rápido para disfarçar o nervosismo.

    — Sim, Hélio. O paciente despertou e apresenta melhoras.

    — Quem é paciente? — Hélio pulava com um olhar confuso.

    Ela juntou a bacia e os panos manchados. Os passos em direção à saída foram apressados. Teseu acompanhou a fuga com o olhar confuso.

    — O que foi isso?

    Sophia parou na entrada da tenda. Ela virou o rosto por sobre o ombro e um pequeno sorriso desenhou seus lábios.

    — Você realmente achou que continuaria no anonimato depois daquela performance nos portões? Descanse… Herói.

    O murmúrio final soou doce. Ela desapareceu pelo tecido da tenda.

    Calixto cruzou os braços e apoiou o peso do corpo em uma perna. O sorriso zombeteiro em seu rosto era inconfundível.

    — Vejo que o grande matador de monstros precisa de cuidados especiais. Tenha cuidado para não sangrar até a morte com arranhões tão profundos, Teseu. As crianças ficariam desoladas.

    O grupo infantil riu em uníssono. Teseu bufou e encostou as costas no suporte da cama.

    Regras dos Comentários:

    • ‣ Seja respeitoso e gentil com os outros leitores.
    • ‣ Evite spoilers do capítulo ou da história.
    • ‣ Comentários ofensivos serão removidos.
    AVALIE ESTE CONTEÚDO
    Avaliação: 0% (0 votos)

    Nota