Índice de Capítulo

    Olá, pessoal! Autor aqui.

    Talvez alguns de vocês tenham sentido falta do capítulo de sábado (ou talvez não 😅). Passei apenas para avisar que o capítulo que fiquei devendo será publicado amanhã.

    Com isso, nesta semana teremos capítulos na terça (hoje), quarta, quinta e sábado.

    Agradeço de coração por estarem acompanhando a obra e peço desculpas por não ter conseguido publicar o capítulo no dia combinado. Espero que estejam aproveitando o final deste volume!

    Orson estava disposto a fazer qualquer coisa para trazer sua esposa de volta, ou assim pensou.

    “Eu… eu não consigo.”

    O resultado final de sua pesquisa era cruel demais até para ele.

    Orson concebeu versões de um feitiço chamado [Devorar Alma], do 1º ao 5º ciclo. O feitiço consumia uma alma e concedia inúmeros benefícios ao conjurador, entre eles o aumento da vida útil. Mas, em troca, a alma seria destruída. Isso significava encerrar uma vida definitivamente: uma vez consumida dessa forma, a alma não retornaria ao ciclo natural da vida e da morte para reencarnar.

    Como necromante de almas, Orson compreendia perfeitamente o peso disso. Sabia o quão cruel era. Sim, já havia feito inúmeras coisas horríveis para pesquisar necromancia da alma, mas, de todas as vidas que tirou, nenhuma havia sido encerrada definitivamente. É claro que ainda era assassinato. Ele estava encerrando aquela encarnação específica, mas a alma ainda voltaria ao ciclo natural de vida e morte para reencarnar.

    Ele manchara as próprias mãos de um modo que nem o tempo nem a lógica conseguiam limpar. Mas a alma, por mais ferida que saísse daquela vida, ainda pertenceria ao fluxo natural do mundo. 

    [Devorar Alma] ia além disso.

    E Orson, que pensara estar disposto a tudo por Grace, descobriu naquela noite que não era.

    Esse feitiço era um crime contra a própria vida, a própria existência.

    Portanto Orson decidiu fazer uma derivação.

    Orson refez diagramas inteiros. Removeu nós de compressão anímica. Alterou runas que serviam para desintegrar a estrutura espiritual e as substituiu por circuitos capazes de se prender ao elo entre corpo, alma e tempo vital. O novo objetivo não era moer uma alma até transformá-la em combustível, mas drenar apenas os anos ainda disponíveis àquela encarnação e transferi-los ao conjurador antes que se perdessem.

    O trabalho levou meses.

    Houve falhas.

    Em alguns testes, o alvo morria cedo demais, e o tempo extra escapava antes de ser estabilizado. Em outros, a vitalidade transferida se dissipava como vapor, porque a alma do conjurador não ancorava direito o que havia sido roubado. Orson persistiu. Refinou ângulos, cálculos e formas de contenção. Afinal, chegou a uma versão funcional.

    Batizou o feitiço de [Roubar Vida].

    Ainda era um feitiço cruel: reduziria a vida de alguém e a acrescentaria à sua. Mas a encarnação atual não seria encerrada, apenas reduzida, e a alma não seria destruída. Portanto, era um nível de crueldade abaixo do anterior.

    Orson tremeu ao pensar no resultado da pesquisa caindo nas mãos de outras pessoas. Com algumas modificações, seria possível mudar o alvo que receberia a vida útil. Portanto, caso quisesse, Orson poderia transferir a vida útil de uma pessoa para outra que não fosse ele. Isso seria absolutamente terrível caso vazasse, pois permitiria que qualquer mago que conhecesse o feitiço o usasse.

    Um nobre drenando servos para retardar a velhice.

    Um culto oferecendo vida útil a um líder enlouquecido.

    Ou algo ainda pior.

    Orson sentiu um calafrio real ao imaginar suas anotações nas mãos erradas.

    Necromancia da alma já era a mais rara entre as necromancias por um motivo. A alma parecia, para quase todos os estudiosos, mais um conceito teórico do que um objeto realmente manipulável. Era fácil falar sobre espírito em termos filosóficos. Outra coisa, completamente diferente, era localizar, tocar e interagir com a estrutura anímica de um ser vivo com precisão suficiente para construir magia sobre ela.

    Por isso existiam tão poucos necromantes de almas.

    Mas serem poucos não os tornava inofensivos.

    Algumas habilidades de assinatura dessa especialização consumiam vida útil do próprio usuário para produzir efeitos que outras escolas não conseguiam replicar. Certas manipulações de memória, contratos espirituais, imposições sobre almas resistentes e leituras profundas exigiam pagar com anos da própria existência. Para homens como ele, o resultado daquela pesquisa seria mais valioso do que ouro, títulos ou exércitos.

    Se [Roubar Vida] ou [Devorar Alma] vazassem, o mundo veria massacres.

    Orson não permitiria aquilo.

    Não por bondade repentina.

    Mas porque conhecia a natureza dos homens que desejariam esse poder e, acima de tudo, a do reino que o financiara durante tantos anos.

    Ele omitiu os resultados.

    Entregou resultados parciais e acreditou que aquilo bastaria.

    Pensou que ninguém descobriria a verdade até o dia em que ele mesmo decidisse revelá-la.

    Não contava com uma variável externa.

    Elias.

    Orson nunca o conhecera pessoalmente.

    Sabia apenas o nome, sussurrado com um respeito estranho entre figuras altas do reino. Elias pertencia à escola da adivinhação e era, muito provavelmente, o mago mais poderoso de Osteria. Havia alcançado o 6º ciclo.

    Isso, por si só, já o tornava uma aberração estatística.

    Um homem não chegava ao 6º ciclo apenas com estudo disciplinado ou boa instrução. Era preciso ser um gênio entre gênios. Era preciso possuir talento, compreensão e uma reserva de mana em um grau que poucas pessoas no mundo sequer conseguiam conceber.

    Ainda assim, o mais inquietante sobre Elias não era o poder.

    Era o fato de que quase ninguém o conhecia.

    Um mago desse nível deveria ser uma figura pública, cortejada por nobres, temida por generais, reconhecida em qualquer torre do continente. Elias, porém, permanecia quase invisível. Era como uma lâmina guardada tão fundo na bainha do reino que a maioria dos homens só se lembrava de sua existência quando alguém em posição alta pronunciava seu nome cautelosamente.

    Orson não conhecia Elias, mas Elias conhecia Orson.

    A pedido do rei, Elias voltou suas adivinhações para o necromante de almas que vinha alimentando a coroa com resultados parciais havia anos.

    E Orson foi decifrado.

    Mais tarde, ao remontar os movimentos do reino e compreender por que a tolerância silenciosa da coroa mudara de repente, Orson descobriria como tudo começou.

    Na sala do trono, diante do rei, Elias falou calmamente.

    Era um humano de pele morena e cabelos negros lisos. 

    “Meu rei, o necromante parece estar escondendo bons resultados. Temo que não pretenda entregá-los ao senhor.”

    Naquele instante, sem saber, Orson acabava de perder o controle sobre o destino da própria pesquisa.

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