CAPÍTULO 58 - ORSON (6)
O rei ordenou a execução de Orson.
Desde então, Victor e Alexander estavam em seu encalço.
Quando deixou o laboratório para trás, Orson já imaginou isso.
Sabia também de algo mais importante: estava morto.
Tudo o que veio depois não passou, a seus olhos, de tempo emprestado. Minutos roubados a uma sentença que já havia sido pronunciada. Ele continuava respirando, caminhando, planejando e conjurando, mas fazia hora extra naquele plano de existência.
Seria estupidez imaginar que Elias não tivesse considerado a possibilidade de sua fuga.
Orson conhecia o suficiente sobre o adivinho para não alimentar esse tipo de ilusão reconfortante. Um homem que alcançara o 6º ciclo na escola da adivinhação não deixaria de contemplar o cenário mais óbvio de todos: o pesquisador acuado tentando desaparecer antes do amanhecer.
Ainda assim, Orson escapara.
Fácil demais.
Aquilo o incomodou por algum tempo.
Talvez Elias simplesmente estivesse confiante demais. Talvez acreditasse que, com Victor e Alexander à disposição da coroa, nenhuma precaução extra fosse necessária. Talvez considerasse Orson um assunto já resolvido, alguém que podia correr o quanto quisesse antes de ser abatido. Ou talvez houvesse outro motivo, mais calculado, mais desagradável, algo que Orson não conseguia enxergar.
Ele não sabia.
E logo concluiu que pensar demais nisso seria inútil.
Orson precisava abrir distância.
Precisava sobreviver tempo suficiente para cumprir seu último objetivo.
Durante a fuga, passou por muitas vilas.
Dormiu em celeiros, ruínas, capelas abandonadas e matas frias. Trocou de estrada sem aviso, fez desvios que não faziam sentido para um homem comum e cruzou trechos inteiros de floresta apenas para reaparecer em rotas secundárias dias depois. Apagou rastros físicos quando pôde. Quando não pôde, cobriu a própria passagem com magia. Dissipou resíduos de mana, deixou assinaturas falsas, confundiu direções, atravessou riachos para quebrar rastreamentos e tomou caminhos mais longos do que qualquer fugitivo sensato escolheria.
Nada disso mudava o essencial.
Fugir não bastava.
O problema real era outro.
“Como eu vou encontrar um discípulo com talento para magia da alma?”
A pergunta o atormentava sempre que o corpo desacelerava o suficiente para a mente voltar a pensar.
Esse era o seu verdadeiro objetivo.
Ele queria transmitir os ensinamentos.
Queria garantir que a pesquisa sobrevivesse sem cair nas mãos da coroa, mas talento mágico já era raro, não era qualquer um que tinha potencial como mago.
Talento para necromancia da alma era mais raro ainda.
Não bastava encontrar uma criança inteligente, um aprendiz aplicado ou um mago promissor. Precisava ser alguém com afinidade real para aquela especialização maldita. Alguém capaz de compreender estruturas anímicas, suportar o peso conceitual daquilo e, acima de tudo, herdar um trabalho que quase nenhum outro estudioso no reino seria capaz de sequer ler corretamente.
Na prática, parecia impossível.
Ainda assim, Orson continuou.
Concentrou-se em abrir distância.
Fez uma rota quebrada e conturbada de propósito, uma trilha tão irregular que um observador externo pensaria estar acompanhando os movimentos de um homem febril, indeciso ou enlouquecido. Mas havia método naquilo. Cada retorno, cada curva desnecessária, cada pernoite em vila errada existia para atrasar os perseguidores e comprar um pouco mais de tempo.
Foi assim que, depois de muito tempo na estrada, chegou a Corval.
Para ele, Corval deveria ter sido apenas mais uma parada curta.
Uma vila pequena.
Um lugar para se misturar por alguns dias, recuperar fôlego, colher informações, observar pessoas e partir antes que alguém o notasse demais.
Mas Corval lhe ofereceu algo que nenhuma rota, nenhuma camuflagem e nenhuma magia havia sido capaz de entregar até então.
Oliver.
Oliver era um meio-elfo da alma.
Pessoas comuns não sabiam quase nada sobre elfos da alma. Para a maioria, se soubessem que a linhagem existia, isso já seria muito. Orson, no entanto, passara a vida inteira estudando a alma e tudo o que se aproximava dela. Sabia que elfos da alma eram uma variante raríssima entre os elfos, produzida por pura loteria genética, uma anomalia de linhagem que aparecia tão raramente que muitos estudiosos jamais viam um único exemplar durante toda a vida.
E havia um motivo para serem tão valiosos.
Elfos da alma possuíam talento excepcional para magia da alma.
Além disso, traziam consigo uma habilidade inata que, para quase qualquer necromante de almas, pareceria um presente dos deuses: enxergar a alma dos seres vivos.
Oliver não era um elfo da alma puro.
Mas isso pouco importou para Orson no instante em que o viu.
O cabelo roxo bastava como primeiro sinal. O modo como o garoto percebia nuances que pessoas comuns jamais perceberiam serviu como segundo indício. E, depois de observá-lo um pouco mais, a dúvida deixou de existir.
Mesmo tendo herdado apenas parte da linhagem, Oliver ainda carregava as capacidades essenciais de um elfo da alma.
Era perfeito demais.
Depois de tantos desvios e noites fugindo da própria execução, encontrar aquele garoto em uma vila como Corval foi como ganhar na loteria.
Orson esperou.
Não se lançou sobre a oportunidade como um animal faminto.
Aproximou-se devagar.
Observou.
Testou.
Falou pouco no começo.
Aceitou a carne de lobo que o garoto lhe ofereceu, sustentou a pose de mendigo, estudou seus hábitos, mediu sua inteligência, avaliou sua cautela e, acima de tudo, tentou entender se Oliver podia carregar algo daquela magnitude sem quebrar.
Pouco a pouco, conquistou a confiança da criança.
Não de uma vez.
Foi com constância. Conversas curtas. Presença repetida. Curiosidade mútua. Silêncios confortáveis o bastante para que Oliver deixasse de vê-lo como só mais um velho estranho encostado em uma parede.
Orson pretendia esperar mais.
Queria preparar melhor a transferência de memóira. Escolher o momento. Contar parte da verdade antes de despejar o peso completo do legado sobre o garoto. Idealmente, também queria observar se Oliver, por vontade própria, mostraria interesse suficiente para seguir por esse caminho.
Mas Orson não era um homem bondoso o bastante para depender apenas da vontade alheia.
Se Oliver recusasse, ele estava disposto a intervir.
Ajustaria memórias.
Inseriria inclinações.
Plantaria associações e prioridades que não existiam antes.
Não precisava destruir por completo a vontade do garoto. Bastava curvá-la o suficiente para que terminar a pesquisa também lhe parecesse um desejo próprio.
Era cruel.
Principalmente porque Oliver não tinha nem 10 anos.
Orson sabia disso.
Sabia também que estava disposto a fazê-lo mesmo assim.
Pela pesquisa.
Por Grace.
E para impedir que o trabalho caísse em mãos erradas.
Achou que teria mais tempo.
Errou.
Victor e Alexander o encontraram cedo demais.
Muito antes de ele preparar Oliver como queria. Muito antes de testar o quanto realmente podia ensinar sem recorrer a medidas extremas. Muito antes de decidir exatamente quanto da própria vida e quanto da própria mente colocaria sobre os ombros daquela criança.
Quando a caçada finalmente o alcançou em Corval, o tempo restante evaporou.
Orson ainda conseguiu comprar alguns minutos. Libertou inúmeras almas, escondeu-se entre elas, confundiu os executores, atacou por ângulos mortos e testou seus limites. Tudo isso tinha um único propósito: mantê-los ocupados enquanto buscava Oliver.
Porque, a essa altura, fugir já não importava mais.
Só havia uma tarefa restante.
Então apressou os planos.
Não houve explicação longa.
Não houve conversa limpa.
Não houve herança elegante, passada de mestre para discípulo em um laboratório silencioso.
Houve desespero.
Forçou as próprias memórias em Oliver através da habilidade de assinatura [Transferência de Memória].
No instante em que sua mão tocou a testa do garoto, Orson escolheu tudo o que julgava relevante.
Sua infância.
Seu mestre.
Grace.
Os anos de pesquisa.
Os crimes.
As descobertas.
Os feitiços.
Os medos.
Os cálculos.
As razões pelas quais escondera o resultado final da coroa.
Oliver recebeu tudo o que Orson considerou necessário.
Agora ele sabia.
Sabia de onde Orson viera, o que fizera, o que perdera e por que aquela pesquisa jamais deveria cair nas mãos erradas.
Mas [Transferência de Memória] nunca foi um processo gentil.
Alimentar uma alma com uma quantidade absurda de recordações causava uma sobrecarga brutal. Do lado de fora, a técnica durava apenas um instante. Do lado de dentro, não.
Do lado de dentro, Oliver foi arrastado através de anos inteiros de vida alheia.
Passou por torres, corredores, laboratórios e noites de estudo. Viu a ascensão de Orson, conheceu seu mestre, amou Grace, perdeu Grace, pesquisou magia da alma, matou, hesitou, calculou e suportou o peso de decisões que não pertenciam a uma criança.
Oliver gritou durante todo o processo.
Para qualquer observador externo, foi só um único instante de dor.
Para Oliver, porém, pareceu uma eternidade comprimida em violência pura.
Quando terminou, caiu no chão desacordado.
Orson também pagou o preço imediatamente.
Vomitou sangue.
O gosto metálico encheu sua boca e desceu quente pela garganta. Seu corpo cedeu, e ele precisou se apoiar sobre um joelho para não tombar de vez.
Seu semblante mudou diante dos olhos de quem pudesse observar com atenção.
Parecia ainda mais velho do que antes.
Quando Oliver o conhecera, Orson já parecia um homem na casa dos setenta. Agora, depois da transferência, sua aparência externa era a de um velho decrépito de noventa anos, alguém que o tempo deveria ter derrubado fazia muito.
A aparência, porém, mentia.
Sua idade real girava em torno dos quarenta.
Inúmeras habilidades de assinatura da necromancia da alma consumiam vida útil para funcionar, e Orson vinha pagando esse preço havia anos. Cada técnica mais profunda cobrava um pedaço concreto da própria existência. O que restava de juventude em seu corpo já tinha sido queimado pouco a pouco em nome da pesquisa.
Ele possuía [Roubar Vida].
Possuía [Devorar Alma].
Se quisesse, ainda poderia tentar arrancar anos de outra pessoa e prolongar a própria permanência naquele mundo por mais algum tempo.
Mas não queria.
Já se considerava um homem morto.
E, se possível, não desejava ferir mais ninguém.
Não Oliver.
Não Archibald.
Não qualquer outro azarado de Corval que tivesse o infortúnio de cruzar seu caminho naquela hora.
Foi então que percebeu que o perigo imediato ainda não havia terminado.
Archibald continuava caído no chão.
Mesmo atordoado, o mago não havia desistido. Seus lábios ainda se moviam em um cântico baixo, e seus dedos seguiam desenhando gestos arcanos com disciplina teimosa.
Orson virou o rosto na direção dele no exato instante em que a conjuração se completou.
O ar do quarto esfriou abruptamente.
Um ponto de gelo se formou diante do mago, condensando umidade em velocidade absurda. A estrutura alongou-se em um segundo, ganhou ponta, corpo e peso, transformando-se em uma lança translúcida e letal.
[MAGIA DE 2º CICLO – LANÇA DE GELO]

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