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    A lança de gelo disparou na direção de Orson.

    O velho nem sequer ergueu a mão.

    Também não precisou.

    Sem receber ordem alguma, a alma do dragão moveu o braço diante dele. A lança atingiu o antebraço translúcido e se partiu num estouro de gelo e névoa fria, espalhando fragmentos pelo quarto.

    Archibald terminou de se levantar.

    Sua respiração ainda estava descompassada por causa do golpe anterior, mas isso não o impediu de firmar os pés no chão e encarar Orson outra vez. Do outro lado do quarto, o necromante permanecia curvado e exausto. Atrás dele, porém, a alma do dragão pairava como uma calamidade contida por mera conveniência.

    A principal vantagem de almas em combate era simples: podiam atacar outras almas, enquanto armas mundanas eram inúteis contra elas. Aço comum atravessaria aquela forma espectral sem causar dano algum. Apenas magia ou itens mágicos eram capazes de feri-las de verdade.

    Em compensação, uma vez que esse limite fosse superado, almas costumavam ser frágeis. Sem carne, sem ossos e sem órgãos para distribuir impacto, elas podiam se romper com rapidez quando atingidas por algo que realmente as alcançasse.

    Dragões, no entanto, não respeitavam bem as regras do mundo.

    Mesmo sendo apenas uma alma, aquela criatura ainda se parecia mais com uma fera mágica completa do que com um espírito comum. Em vida, o jovem dragão já havia sido uma fera mágica de rank 5. Sua alma fora ferida inúmeras vezes durante os testes finais da pesquisa de Orson, mas a presença que pairava ali não demonstrava fraqueza alguma. Pelo contrário. Exibia um poder avassalador.

    Um dragão completo, corpo e alma reunidos, teria sido ainda mais aterrorizante.

    Mas aquilo já bastava.

    Aquela alma sozinha era muito mais poderosa do que a maioria das feras mágicas comuns de rank 5.

    Orson tossiu sangue outra vez.

    “Não sou inimigo de vocês”, disse, com a voz cansada. “Peço perdão por isso… mas não tive escolha senão fazer aquilo com o garoto. Cof… cof…”

    Archibald apanhou o cajado do chão e se pôs de pé por completo.

    Erina continuava no quarto, estava imóvel, reduzida ao papel de espectadora. Diante de um confronto daquele nível, ela era apenas uma civil comum. Tudo o que podia fazer era assistir, com o peito apertado e os dedos crispados, enquanto homens e monstros decidiam o destino de Oliver a poucos passos dela.

    Orson voltou os olhos para Archibald.

    “Vão embora. Como ato final, vou matar os executores reais, mas não posso ajudar mais do que isso. Vocês precisam quebrar a barreira e sair daqui.”

    Archibald não relaxou nem por um instante.

    Não abaixou a guarda.

    Não reduziu a mana circulando pelos meridianos.

    As palavras do necromante soavam sinceras, mas sinceridade não era o mesmo que segurança. Um homem que acabara de esmagar uma parede usando a alma de um dragão não se tornava confiável apenas porque dizia não ser inimigo.

    Sem insistir, Orson abaixou-se com dificuldade e colocou dois objetos no chão: a Gaiola de Almas e um anel.

    “Entregue isso ao garoto. Ele vai precisar.” Orson respirou fundo, contendo outra tosse. “E não pense que pode ficar com qualquer um desses itens. Seria inútil de qualquer forma. Somente Oliver saberá usá-los.”

    Archibald não respondeu.

    Seus olhos passaram depressa pelos dois itens, depois voltaram para Orson. Continuava avaliando distância, risco, tempo de conjuração e a chance de aquilo tudo ser algum tipo de armadilha final, mas o necromante já havia se virado.

    Orson desceu pelo buraco escancarado na parede, o mesmo rasgo de madeira e reboco por onde Eliandris fora arremessada instantes antes. A alma do dragão o acompanhou em silêncio. No lado de fora, ele montou sobre o pescoço da criatura espectral como se ainda estivesse lidando com uma besta de carne e osso.

    No instante seguinte, o dragão saltou, tanto ele quanto Orson sumiram da vista de Archibald.

    Zordhan estava exausto.

    Erguer a barreira que isolava Corval já teria sido um feito respeitável para qualquer infusor de rank 4. Fazer isso enquanto montava uma segunda formação de rank 5 era outra história.

    O draconato mantinha a postura ereta por disciplina, não por conforto. O suor descia entre as escamas verdes, e sua energia espiritual circulava no limite do que podia suportar sem sofrer danos reais.

    Infusores como ele não eram feitos para combate direto.

    Ao contrário de magos, que moldavam a própria mana para conjurar feitiços, ou artistas marciais, que refinavam o corpo por meio da aura, infusores utilizavam energia espiritual. Assim como a aura, ela era derivada da mana, mas possuía uma natureza mais adequada para manipular materiais, inscrições e a mana presente no ambiente.

    Zordhan era especializado em formações.

    Por isso, erguer barreiras estava dentro daquilo que fazia de melhor.

    Ainda assim, havia limites.

    Magos comuns não podiam simplesmente conjurar magias de um ciclo acima do próprio com magia regular. Infusores, por outro lado, não tinham exatamente a mesma limitação. Desde que tivessem os materiais corretos, o conhecimento necessário e tempo suficiente para trabalhar, ainda podiam produzir algo acima do próprio rank.

    Esse era o problema.

    Materiais de rank 5 não eram fáceis de manipular para alguém de rank 4, mas também não era impossível.

    Zordhan possuía os recursos necessários e forçou o próprio limite até o fim. Usou materiais de rank 5 para erguer a barreira que cobria toda a vila de Corval. Depois, usando o que ainda restava de concentração e energia espiritual, concluiu uma segunda formação.

    Essa, porém, era muito menor.

    Não se espalhava pelo céu, não fechava ruas, não selava uma região inteira.

    Cabia inteira no chão à frente dele.

    Um círculo mágico complexo, desenhado com precisão absoluta, pulsava em linhas amarelas sobre a terra. Quando a última infusão de energia espiritual foi concluída, a formação brilhou com mais intensidade.

    Então um homem se materializou dentro dela.

    Zordhan se ajoelhou imediatamente.

    “Senhor Elias, fiz conforme suas orientações.”

    O recém-chegado olhou ao redor uma única vez antes de responder.

    “Fez bem. Apenas me deixe entrar na barreira e pode descansar.”

    A segunda formação era uma formação de teleporte.

    Graças a ela, Elias atravessara a distância entre a capital, Eldravin, e a pequena vila de Corval em um único movimento.

    Agora, ele entraria na vila.

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