Índice de Capítulo

    O ar fora do refúgio era frio. A névoa das montanhas ainda não havia levantado completamente e o som do vento nas rochas preenchia os intervalos de silêncio com constância irritante.

    Kael ficou de costas para ela por alguns segundos.

    Olhando para os morros.

    Depois virou.

    — Vou ser direto com você Lys..

    Sem preparação.

    Sem introdução.

    — Ainda não sei exatamente o que aconteceu em Cervalhion para levar aquele confronto.

    Lys sustentou o olhar dele.

    — Foi um ataqu—

    Kael interrompeu levantando a mão.

    — Me deixe terminar antes ok?

    Kael abaixou a mão assumindo uma postura firme.

    — Lys eu te chamei aqui porque na ausência de Ian eu vou assumir o lugar dele te ajudando em resolver essa bagunça, mas antes disso eu preciso colocar as cartas na mesa.

    Ele se aproximou parando a três passos dela.

    — Primeiro ponto, não me confunda com meu irmão, Ian está a eras sobrevivente suprimindo tudo, e fez dele uma ótima pessoa para manobrar, mas não pense em me usar — Ele olhou para as colinas ao redor deles. — Eu odeio isso… Odeio estar sendo arrastado para essa merda, odeio o fato de ter que voltar a matar assim que reencontrei meu irmão, odeio ter que entrar em disputa politica novamente… mas acima de tudo Lys.

    Ele a olhou nos olhos.

    — Eu realmente esperava que a pessoa fazendo de tudo para mantê-lo vivo fosse você… e não a mulher que iria ser apenas usada para te proteger.

    — Kael—

    — O que?

    O vento passou entre os dois.

    — Me diz o que eu devia ter feito — disse Lys com cuidado. — Com a Unidade Negra no beco, com Aedin no controle do campo, com Ian com o corpo cheio de ordo. Me diz exatamente o que eu devia ter feito que eu não fiz.

    — Alguma coisa.

    — O que Kael?—

    — Qualquer coisa Lys, ele se abriu com você ao ponto de me pedir para te contar da ferida mais profunda dele.

    A palavra saiu limpa.

    Sem raiva visível.

    O que tornava pior.

    — Eu vi vocês nos meses anteriores — continuou ele. — Vi como você observava ele… Eu tinha esperança de que isso significasse alguma coisa quando importasse de verdade.

    Lys não respondeu imediatamente.

    Havia algo nessa frase que cortava diferente das anteriores.

    — Isso não é justo Kael.

    — Provavelmente não.

    — A situação era impossível.

    — Eu sei, você sabe e provavelmente aquela mulher lá dentro também sabia. — Ele voltou os olhos para ela. — E no entanto ela ainda estava lutando por ele.

    Lys sentiu o argumento fechar ao redor dela como estrutura sólida.

    Ela podia discordar.

    Podia apresentar contexto.

    Podia explicar cada decisão tomada no beco, na rua, na ponte.

    Mas Kael não estava pedindo explicação.

    Estava dizendo o que havia visto.

    E o que havia visto era real.

    — Um mago sem mana — continuou ela. — Você sabe o que isso significa para qualquer pessoa.

    Kael ficou imóvel.

    — Eu sei.

    — Então você entende que o que está acontecendo com ele não deveria se quer ser possível, deveríamos estar preparando um funeral mas ao invés estamos cuidando de um corpo sem nada de mana.

    — Eu entendo.

    — E mesmo assim você continua me cobrando uma reação que eu não tive tempo de calcular numa situação que ninguém havia previsto.

    Kael ficou em silêncio por um longo momento.

    O vento passou outra vez.

    — Sei que posso estar sendo injusto — disse ele por fim. — Mas não gosto de deixar esse tipo de coisa guardada.

    Lys olhou para ele.

    Kael olhou para o refúgio atrás dela.

    Por alguns segundos ele permaneceu em silêncio.

    Depois soltou um suspiro.

    — Certo.

    Lys esperou.

    — Isso resolve a parte pessoal.

    Ela cruzou os braços.

    — Resolve?

    — O suficiente.

    Abaixo deles, o terreno de treino se espalhava entre os morros como uma cicatriz esquecida. Memorias antigas dos momentos que havia passado naquele lugar. Antes um lugar cheio de vida. Agora só restavam pedras, grama alta e marcas apagadas pelo tempo.

    O vento voltou a atravessar o vale.

    Dessa vez mais frio.

    Kael apoiou uma das mãos na cerca de pedra que delimitava o antigo campo de treino.

    — Agora vamos falar do problema que realmente importa.

    Lys já imaginava qual seria.

    — Cervalhion.

    — Cervalhion. Altheria e Elandor.

    Ela desviou os olhos para o horizonte.

    As montanhas escondiam o restante do continente, mas isso não mudava o fato de que todos os problemas continuavam lá.

    — O que você pretende fazer quando voltarmos?

    A pergunta veio dele de forma simples e direta.

    Como todas as outras.

    — Evitar uma guerra.

    Kael assentiu.

    — Tem alguma ideia de como?

    Ela soltou um pequeno suspiro.

    — Nenhum dos reinos está em posição de sustentar uma guerra agora.

    — Continue.

    — Cervalhion está sendo pressionada pelas rupturas na barreira e as bestas. Elandor já está desmoronando graças a Naira e Thamir. Altheria ainda não possui soberania alimentar, mesmo com poder militar ainda seria uma jogada arriscada já que Cervalhion cortaria os grãos, isso fora os problemas internos.

    O olhar dela permaneceu distante.

    — Uma guerra agora não produziria vencedores de fato.

    — Só reinos morinbudos.

    — Sim.

    Kael permaneceu alguns segundos observando ela.

    — Então você pretende negociar.

    Ela olhou para Kael com um leve sorriso.

    — Não apenas negociar, preciso infligir um dano em Cervalhion tão forte quanto a perca de Alexia de uma forma que impeça a situação de escalar.

    — E Aedin?

    Lys fechou os olhos por um instante.

    A pergunta veio rápido demais.

    — O que tem ele?

    — Acha que ele vai aceitar isso?

    O silêncio respondeu primeiro.

    Depois ela suspirou.

    — Provavelmente não, as pressões dos nobres vão ser grandes demais para a família real ceder.

    — Foi o que imaginei…. — Kael arrumou a manopla da armadura — Eu cuido de convencer os nobres.

    — O que?

    Lysvallis franziu a sobrancelha, enquanto se sentava em uma pedra plana que estava próxima a eles.

    — E como pretende fazer isso? os nobres de Cervalhion podem ter os seus problemas mas são orgulhoso demais para ceder a uma ameaça.

    Kael ficou alguns segundos observando as colinas.

    — Ótimo.

    — …O quê?

    — Pessoas orgulhosas costumam ser previsíveis.

    O vento passou pelas colinas.

    — Não entendi.

    — Eles vão recusar.

    — Quem?

    — Os nobres.

    Kael deu de ombros.

    — Vão recusar qualquer exigência séria que você apresentar.

    — Então qual é o plano?

    — Fazer eles recusarem a coisa certa.

    Lys ficou alguns segundos em silêncio.

    — Isso parece algo que Ian diria.

    — Passei tempo demais perto dele.

    Pela primeira vez surgiu um leve sorriso.

    Durou pouco.

    — Você vai exigir algo impossível primeiro.

    — Como o quê?

    — Território.

    Lys ergueu uma sobrancelha.

    — Território?

    — Muito território.

    — Quanto?

    — O suficiente para ofender metade do reino.

    Ela encarou Kael.

    — Isso não é uma negociação.

    — Claro que é.

    — Não. Isso é uma provocação.

    — Exatamente.

    O sorriso desapareceu.

    — Porque a partir do momento em que eles recusarem, a discussão deixa de ser se Cervalhion deve compensar Altheria.

    Kael cruzou os braços.

    — E passa a ser quanto.

    Lys ficou quieta.

    Porque aquilo fazia sentido.

    Mais sentido do que gostaria.

    — Mesmo que isso funcione… E depois?

    — Depois encontramos alguém para culpar.

    — Aedin.

    Kael não respondeu.

    O silêncio foi resposta suficiente.

    A face de Lys foi mudando conforme ela ia entendendo o que ele realmente queria fazer.

    — Você pretende jogar tudo nas costas dele.

    — Eu não pretendo jogar nada. — A voz dele saiu fria. — Ele tentou matar Ian.

    Uma rajada mais forte atravessou o vale, agitando o manto de Lys, Kael nem piscou.

    Pela primeira vez ela percebeu algo desconfortável.

    Ian sempre parecia controlar uma situação, mas Kael parecia disposto a quebrá-la.

    — Não é tão simples destronar um Rei.

    — Para mim é.

    — Mesmo que eu aceitasse isso…

    Kael interrompeu.

    — Ainda precisaríamos reunir os nobres certos e convencer eles. A questão agora é quantos?

    — Os importantes? — Ela pensou por alguns segundos. — Talvez uma dúzia.

    — Só isso?

    — Só.

    — Então não parece tão difícil.

    — Você não conhece os nobres de Cervalhion.

    — Eu conheço.

    — Então sabe que metade deles nem apareceria se eu convocasse uma reunião amanhã.

    Kael respirou fundo enquanto começava a caminhar em círculos ao redor de Lys.

    — Maelis era próxima deles?

    Lys piscou.

    — O quê?

    — Os nobres.

    — Ela era a Arquimaga de Cervalhion.

    Kael ficou em silêncio.

    O vento voltou a atravessar as colinas.

    Os dedos dele bateram uma vez contra a manopla.

    Depois outra.

    Como se estivesse organizando peças num tabuleiro invisível.

    — Quantos desses nobres receberam seus cargos durante o mandato dela?

    Lys franziu a testa.

    — Alguns.

    — Quantos?

    — Talvez metade.

    Kael assentiu lentamente.

    — E os outros alguma ligação?

    — Talvez, soube que os nobre a consultavam para melhorar suas magias.

    Lys ajeitou o vestido e cruzou os braços. observando Kael jogar o peso de uma perna para outra.

    — Então eles a conhecem.

    — Claro que conhecem.

    Kael ficou em silêncio.

    Lys também.

    E então ela percebeu, eles não precisamos reunir todos. Apenas os importantes e esses importantes conhecem Maelis.

    — Ah…

    Lys fechou os olhos.

    — Entendi.

    Kael assentiu.

    — Ela conhece os nomes certos.

    — Conhece.

    — Os aliados certos.

    Lys soltou um suspiro.

    — Isso ainda depende dela aceitar.

    Kael não respondeu imediatamente.

    Porque os dois sabiam disso.

    Maelis não era subordinada de nenhum deles.

    Nem súdita.

    Nem conselheira.

    Nem aliada.

    Pelo menos não oficialmente.

    — Você acha que ela vai ajudar?

    Kael observou o céu por alguns instantes.

    — Não faço ideia.

    A honestidade da resposta arrancou dela um olhar surpreso.

    — Nem um pouco?

    — Eu conheço meu irmão.

    O olhar dele permaneceu fixo no refúgio.

    — Ela eu ainda estou tentando entender.

    O vento atravessou as colinas mais uma vez.

    — E se ela recusar?

    — Então vamos pensar em outra coisa.

    — você está estranhamente calmo.

    Um sorriso pequeno apareceu no rosto dele.

    — Não cabe a nós decidir — Ele estendeu a mão oferecendo apoio para ela se levantar.

    — Vem temos uma Arquimaga para convencer.


    A chuva já caía havia horas.

    O som constante da água atingindo as pedras acima havia se tornado parte do ambiente, para ela era tão previsível como respiração, ignorável da mesma forma.

    A fenda entre as duas formações rochosas era estreita o suficiente para esconder o corpo dela da vista e larga o suficiente para que nenhuma besta maior decidisse investigar. Não era confortável. Conforto raramente participava das decisões dela.

    Mas dormir havia se tornado impossível.

    Pela terceira vez naquela noite os olhos se abriram antes que o descanso chegasse.

    A dor veio primeiro.

    Uma fisgada atravessando o lado direito do abdômen e se espalhando pelas costas como linha quente sob a pele. Ela soltou o ar pelo nariz. Afastou o tecido que protegia a região e passou os dedos sobre a cicatriz devagar.

    Nenhum inchaço. Nenhum sinal de infecção. A superfície parecia praticamente curada.

    Mas não estava.

    Ela sentia.

    Quando tentava conduzir mana para aquele ponto o fluxo desacelerava antes de alcançar a marca e se dispersava em direções diferentes, se recusando-se a seguir. Como estrada interrompida no meio. A região ao redor da cicatriz existia fora do alcance dela, desconectada do fluxo normal como se o golpe tivesse redesenhado alguma coisa interna que ela ainda não conseguia mapear completamente.

    Ela voltou os olhos para a cauda.

    Estava pior do que esperava.

    A umidade constante e o atrito com o solo haviam reaberto ferimentos que deveriam ter fechado dois dias atrás. Parte das escamas havia se soltado e a pele exposta abaixo tinha aquela coloração branca que precedia infecção quando ignorada tempo demais.

    Ela tinha ignorado tempo demais.

    Fechou os olhos por um instante e reconstruiu o momento mentalmente.

    A floresta.

    O calor súbito.

    A velocidade impossível do homem antes que ela conseguisse processar de onde vinha.

    A hidra se desfazendo como se fosse feita de pó.

    E depois o golpe.

    Era isso que continuava sem explicação. Força podia ser compreendida. Velocidade podia ser treinada. Mas havia algo naquele ataque que ela ainda não conseguia classificar, como se ele não tivesse atingido o corpo dela diretamente, mas convencido alguma coisa dentro do corpo de que devia parar de funcionar. O ar ao redor havia ficado diferente antes do impacto. Mais seco. Quente mas de uma forma que não era temperatura.

    Ela ainda estava tentando nomear aquilo quando a memória chegou.

    Cheiro primeiro.

    Fumaça de madeira específica, não qualquer madeira, um tipo denso que demorava para pegar e durava. O cheiro existiu por um segundo antes que qualquer imagem chegasse junto, e desapareceu antes que ela conseguisse segurar.

    Ela ficou imóvel.

    Esperou.

    Depois o som.

    Vozes sobrepostas sem palavras distinguíveis, o ritmo coletivo de várias pessoas num mesmo espaço, confortáveis o suficiente para não baixar o volume. Instrumentos de fundo. Alguma coisa sendo servida, o som específico de líquido em recipiente de metal.

    Então uma voz mais próxima.

    Não as palavras.

    Só a qualidade da voz, o timbre, o ritmo. Como reconhecer uma pessoa antes de ver o rosto.

    E antes que pudesse acompanhar até alguma imagem concreta, foi embora.

    O silêncio da gruta voltou.

    Só a chuva.

    Ela ficou parada por alguns segundos com os olhos abertos no teto irregular de pedra.

    Esses fragmentos haviam começado há pouco tempo. Chegavam sem ordem, sem contexto suficiente para serem úteis. Cheiro primeiro. Depois som. Às vezes só a sensação física de um espaço sem nenhuma imagem acompanhando, calor de fogueira, textura de superfície, o peso específico do ar num ambiente fechado com muitas pessoas.

    Nunca completo.

    Nunca o suficiente para entender o que estava tentando lembrar.

    O problema com memória incompleta não era a lacuna em si.

    Era não saber o tamanho da lacuna.

    Ela não sabia quanto havia perdido porque não sabia o que deveria estar lá. E aquilo era um tipo de problema diferente dos que ela sabia resolver.

    Com um movimento lento ela começou a se erguer.

    A musculatura protestou.

    A cicatriz queimou.

    Ela ignorou os dois.

    Ficar parada ali era contraproducente, o frio e a umidade continuariam deteriorando os ferimentos da cauda enquanto ela permanecesse imóvel, e ela precisava de cobertura melhor antes que a chuva piorasse.

    Do lado de fora a água caía sobre a floresta escura criando pequenos córregos entre as raízes. Ela observou por alguns segundos antes de sair, ajustando a camuflagem instável, como sempre agora, pulsando de forma irregular enquanto a mana tentava compensar a desconexão na cicatriz.

    Ela se moveu para o sul.

    Foi quando notou a trilha.

    Estreita, aberta pelo uso repetido, com marcas de pegadas que ela reconheceu sem precisar se abaixar para examinar.

    Não animais.

    O padrão estava errado para animal. Muito regular. Bem distribuído.

    Ela ficou parada observando a direção da trilha por um momento.

    Calculando.

    Um bando nessa região significava território marcado, rotas conhecidas, presença constante. Significava que ela havia entrado num espaço que alguém já considerava seu sem perceber.

    Significava também que havia uma vila próxima.

    Bandos desse tipo se formavam próximos a assentamentos, onde havia lixo, sobras, gente suficientemente descuidada para deixar recursos acessíveis. Sem vila não havia bando. Sem bando não havia trilha.

    Ela olhou para a cauda.

    Para os ferimentos abertos.

    Para a pele exposta sem escamas que continuava em coloração errada.

    Depois olhou para a trilha.

    A vila estava na mesma direção do sul.

    Ela continuou andando.

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