Capítulo 172 - Cali... Alguma Coisa.
Os últimos trezentos metros finais se mostraram mais desafiadores do que o esperado.
Manter a camuflagem ativa para distorcer a luz ao redor da cauda exigia um fluxo constante de mana.
Uma reserva que ela simplesmente não tinha por causa dos ferimentos e desgaste dos ultimos dias. A cicatriz no braço direito queimava, um aviso físico de que sua energia estava no limite. Ela precisava de uma solução prática e física, não mágica. Precisava esconder o próprio corpo à moda antiga para estancar o gasto de energia.
A periferia da vila ofereceu a oportunidade. Ela se esgueirou para dentro de uma cabana cujo teto havia cedido parcialmente. O cheiro de mofo e abandono era forte, mas o lugar estava vazio.
Ela desativou a camuflagem imediatamente. O alívio foi instantâneo, embora a dor nas escamas feridas tenha voltado com força quando sua cauda verde-escura relaxou sobre o chão de terra batida. Ela vasculhou o ambiente com olhos rápidos e atentos. No canto da parede, arrancou uma cortina pesada de tecido rústico, desbotada pela umidade, mas inteira.
Com movimentos rápidos, ela limpou a lama superficial de uma parte limpa do chão para poder sentar e começou a prender o tecido firmemente ao redor da cintura. O pano grosso e escuro caía até o chão, cobrindo o volume de sua metade inferior. Se ficasse estática ou se movesse com lentidão calculada, pareceria apenas uma mulher vestindo saias pesadas e longas. Um disfarce rudimentar, mas que reduzia a quase zero a necessidade de gastar mana com ilusões visuais.
Ela encostou as costas contra a parede de madeira, respirando fundo enquanto a dor da cauda queimada se assentava.
— Livia as concessões territoriais foram assinadas em três cópias — a voz ecoou em sua mente, limpa, ressoando sob um teto de mármore que ela não conseguia ver. Havia o som de vinho sendo servido em cálices de bronze. O clã esperava a decisão dela. Ela tinha o selo na mão. Ela sabia exatamente qual general cederia primeiro se ela pressionasse a fronteira norte por mais dois dias…
Ela piscou, sacudindo a cabeça. A lembrança durou um estalo, deixando apenas a frustração de não conseguir reter os rostos mas o nome se repetiu em sua mente.
Livia
Ela fechou os dedos ao redor da cicatriz no braço. Foco. O presente importava mais.
Um ruído na entrada da cabana interrompeu seus pensamentos.
Passos leves, sem a cadência ou o peso de um guerreiro. Lívia tencionou os músculos sob o tecido da saia improvisada, a mão esquerda alcançando discretamente o galho afiado que trouxera da floresta. Através das frestas da porta arrombada, ela observou a intrusa.
Era uma menina. Não devia ter mais de seis anos, vestindo roupas grandes demais e carregando alguns gravetos grossos e pedaços de ripas de madeira nos braços. A criança não estava ali para caçar ou patrulhar; ela vasculhava o chão em busca de restos de madeira seca.
Lívia a avaliou em silêncio. Magra.
Roupa grande demais.
Lenha nos braços.
Nenhuma arma.
Ainda assim, bastava um grito para os adultos da vila arruinarem o descanso.
Para cortar qualquer chance de reação imprevisível, Lívia usou sua voz mais cortante, permitindo-se um sorriso sutil e gélido que costumava desarmar as pessoas antes que percebessem o perigo.
— Você faz muito barulho para quem está pegando o que não é seu — disse Lívia, a voz rouca, mas precisa. — Se der mais um passo, posso fazer você engolir essa madeira.
A provocação foi desenhada para assustar, para fazer a menina recuar ou congelar de medo. Lívia estava acostumada a ler o terror nos olhos humanos.
Mas a menina apenas parou por um segundo, piscou os olhos grandes e castanhos e olhou para Lívia. Não houve choro, nem o tremor esperado nas pernas. A criança ajeitou os gravetos nos braços, soltando um suspiro cansado que parecia velho demais para a idade dela.
— A casa tá abandonada, então a madeira não é de ninguém — respondeu a menina, o tom de voz plano, quase entediado. — E eu preciso levar isso pro Eli. Se eu não levar lenha seca, ele não divide o ensopado.
Lívia ficou alguns segundos sem responder.
Aquela não era a reação correta.
Medo.
Hesitação.
Tentativa de fugir.
Qualquer uma delas faria sentido.
Discutir sopa não.
O silêncio que se seguiu foi interrompido por um som traidor.
O estômago de Lívia roncou, alto e prolongado, ecoando pelas paredes vazias da cabana. A denúncia física de sua fraqueza a fez enrijecer o maxilar. Ela odiava a vulnerabilidade, principalmente diante de uma testemunha.
A menina olhou para a barriga de Lívia, depois para o galho grosso e afiado que ela ainda segurava com firmeza.
— Se você levar isso pro Eli — a garota sugeriu, apontando com o queixo — Ele pode até te dar um ensopado.
Lívia arqueou uma sobrancelha, com um estalo da língua vindo à tona antes da resposta. Entregar sua única arma improvisada a um caçador desconhecido em troca da promessa de um ensopado trazido por uma criança? Uma troca logística deplorável.
— Nossa, mas que oferta tentadora… Mas não.
— Você que sabe moça.
— Apenas vá embora criança. — Lívia ordenou, o tom frio e definitivo, sem margem para discussão. — Agora.
A menina deu de ombros, sem parecer ofendida com a rejeição. Ajustou o fardo de gravetos nos braços, deu as costas e saiu da cabana com os mesmos passos calmos de antes.
Ela observou a garota sumir ao final da rua antes de voltar a focar no que realmente importava.
Estar em um ambiente seco mudava o cenário. Com a mão livre, ela afastou a camada de terra batida, areia e folhas podres do chão da cabana, revelando tábuas de madeira firme por baixo. Era melhor. Menos detritos significavam menos chances de infecção.
Ela voltou sua atenção para a cauda. Com paciência cruel, limpou a sujeira dos cortes mais profundos. A parte queimada ainda estava feia, mas a ausência da chuva fria permitia que seu corpo finalmente começasse a estabilizar o fluxo de mana para a regeneração natural. Não seria rápido, mas era um começo.
Ela avaliou a cabana.
O vento entrava forte pela porta arrombada. Ela se arrastou até o canto mais protegido, atrás do que restava de um armário tombado, se retirando do campo de visão de quem viesse pela rua.
Ela puxou o tecido rústico da cortina, cobrindo completamente a cauda ferida, imitando as dobras de um vestido longo e volumoso.
Exausta, com a cicatriz do braço dormente e a mente exaurida por dias de fuga, ela permitiu que os olhos pesassem em uma posição levemente desconfortável. Ela não poderia ter um sono profundo em território desconhecido, apenas um cochilo superficial, onde cada sentido continuava mapeando o ambiente.
Poucos minutos depois, um estalo na madeira a trouxe de volta à vigília total.
A mão de Lívia voou para o galho antes mesmo de abrir os olhos. Suas pupilas verticais focaram a entrada do armário.
Era ela. De novo.
A menina havia voltado, mas agora estava de mãos vazias, exceto por algo que segurava com cuidado entre os dedos pequenos. Ela se aproximou com passos deliberados e estendeu a mão na direção de Lívia.
Havia um pedaço de carne seca na mão dela. Era uma porção pequena, salgada e dura, mas era comida real.
— O Eli não quis o resto da lenha, disse que já tinha o bastante — a menina explicou, a voz baixa, quase um segredo. — Mas eu guardei isso aqui do meu almoço de ontem. Eu acho que você tá com mais fome.
Lívia encarou o pedaço de carne e depois os olhos castanhos da criança.
O cálculo mental dela falhou novamente. Pessoas não davam seus próprios recursos escassos sem esperar nada em troca, no mundo que Lívia lembrava, favores eram cobrados com juros ou com sangue. Aquela garota estava quebrando todas as regras de autopreservação que Lívia considerava universais.
Ela recolheu a carne seca com cuidado, mantendo os olhos fixos na garota.
— Essa carne não é sua, não é?
A garota travou. mudando a respiração.
— N-não moça, é minha.
— Criança…
O sorriso apareceu por um instante.
— Tenta outra vez.
Livia parou a centímetros da garota.
Sorriu.
Apenas o suficiente para mostrar a ponta das presas.
— Vou te dar uma nova chance… A carne… é sua?
A garota fez uma cara de choro.
— N-não..
— Olha só, agora a avançamos.. de quem é essa carne?
— Do Eli.. eu peguei da dispensa…
— Ora…
O sorriso voltou.
— Então temos uma pequena ladra.
O interesse de Lívia foi fisgado, não apenas pela comida, mas pela anomalia que aquela criança representava no tabuleiro.
— Qual é o seu nome? — Lívia perguntou, a voz menos cortante do que antes, restando apenas uma curiosidade fria.
— Calistrelia.
…
— Isso é um nome?
— Todo mundo me chama de Cali.
Lívia mastigou o pedaço da carne seca devagar enquanto observava a criança.
A garota continuava parada na entrada do armário tombado com aquela expressão que não era medo ou confiança, como alguém esperando a conversa terminar para poder ir embora ou continuar, dependendo do que fosse mais interessante.
Lívia ignorou ela por um momento.
Precisava pensar.
Afinal agora ela tinha um problema e tinha que resolver.
A primeira opção era a mais simples.
Afastar a criança de forma definitiva, um aviso real ou da um sumiço permanente na criança.
Se fosse tenta um ameaça teria que ser algo que garantisse que ela não voltasse e não comentasse, o que definitivamente não aconteceria final a garota parecia alheia a ameaças.
O que a deixava com a possibilidade de só eliminar a garota.
Descartou antes de terminar de formular.
Crianças de vila pequena não sumiam silenciosamente. Alguém sempre notava. E se a garota mencionasse alguma coisa antes e ela mencionaria, já que crianças mencionavam tudo para todo mundo. Alguém viria verificar a casa abandonada no limite norte. Com os ferimentos no estado atual qualquer confronto que exigisse mobilidade real era risco que ela não conseguia absorver.
A segunda opção era fugir agora.
Sair enquanto ainda havia tempo, encontrar outro abrigo antes que a vila tivesse chance de organizar uma reação.
Ela avaliou o próprio corpo com a mesma frieza que avaliava qualquer outro problema.
A cauda sangrava em dois pontos que não haviam fechado desde ontem. A pele exposta onde as escamas haviam se soltado continuava naquele tom que precedia infecção quando ignorado tempo demais. A mana ainda oscilava em torno da cicatriz do braço sem conseguir estabilizar completamente. Mais um dia sem descanso real, sem alimentação adequada, sob chuva… o corpo não aguentaria o ritmo que fuga exigia.
Fugir agora não era prudência.
Era suicídio lento com a aparência de decisão estratégica.
Restava a terceira opção.
Que era a que ela menos gostava.
Permanecer.
Não escondida — isso já havia se mostrado impossível com uma criança que vasculhava casas abandonadas em busca de lenha sem nenhum respeito por território. Mas presente de forma controlada. Útil o suficiente para que a existência dela parecesse vantagem em vez de problema. Vilas enfraquecidas aceitavam ajuda de formas que vilas prósperas nunca aceitariam.
Era o que tinha.
E era suficiente por enquanto.
Ela precisava de tempo. Tempo para os ferimentos fecharem. Tempo para a mana se reorganizar. Tempo para entender o que os fragmentos de memória estavam tentando reconstruir.
A vila poderia oferecer isso.
Desde que ela gerenciasse a exposição com cuidado.
E então percebeu que já tinha a desculpa perfeita para começar.
Lívia olhou para a menina.
Para os pés descalços na terra batida.
Para as roupas grandes demais.
Para os olhos castanhos que continuavam observando sem nenhum traço do medo que deveria estar ali.
Uma criança que roubava comida da despensa de um homem chamado Eli e distribuía para estranhas feridas em casas abandonadas era criança que não tinha estrutura de proteção real. Ninguém com proteção adequada precisava roubar ensopado. Ninguém com adultos funcionais a volta deixaria uma menina dessa idade vasculhar casas sozinha.
Informação útil.
— Devo te chamar de Calistrelia?
— Cali.
Lívia repetiu o nome internamente.
Cali.
— Certo, Calialgumacoisa.
Ela se ajustou contra a parede, o tecido da saia improvisada escondendo o movimento da cauda.
— Vamos fazer um acordo.
A menina inclinou a cabeça.
— É Cali…Que acordo?
— Você me apresenta pra o pessoal da vila como alguem que te salvou.
Pausa.
— Em troca eu apareço de vez em quando para ajudar com o que for necessário. Lenha. Caça. Qualquer coisa que a vila precise.
— Por quê você ia fazer isso?
A pergunta veio sem desconfiança e sem entusiasmo.
Só curiosidade direta.
Lívia considerou a resposta verdadeira por um segundo.
Descartou.
— Porque é mais simples assim.
Cali ficou olhando para ela com a expressão de alguém processando se aquilo fazia sentido o suficiente para aceitar. Ela olhou pra os lados, depois para a própria roupa rasgada.
Então encarrou Lívia, antes de desviar o olhar falando enquanto olhava para o chão.
— N-não…
— Não concordo em você ajudar a vila..
Livia inclinou a cabeça.
— Então o que propõe?
Ela olhou para Livia.
— Cuida de mim, ao invez da vila.
Lívia ficou observando por um momento a criança e a audácia do acordo da garota, pedir para uma estranha cuidar dela, quando ela trouxe comida para a estranha faminta… A pequena ladra parecia não entender como as coisas funcionvam.
Mas até que era uma proposta interessante, cuidar de uma criança seria mais fácil que cuidar de uma vila com varias pessoas, retiraria varias vaiáveis enquanto agora teria uma que ela poderia usar.
— Você é engraçada… — Ela deslizou ao redor da garota mantendo cauda escondida — Definitivamente não tem juízo nenhum, mas eu gosto disso.
A garota ergueu os olhos.
— Então—
— Sim… Enquanto eu estiver aqui… você fica comigo.
A criança aceitou com a mesma facilidade displicente com que havia oferecido a carne roubada, como se acordos com estranhas feridas em casas abandonadas fossem parte normal da rotina dela.
Havia algo perturbadoramente simples naquilo.
Ela estava acostumada a negociações que tinham custo oculto, concessões que eram armadilhas disfarçadas, acordos que precisavam ser lidos nas entrelinhas antes de serem aceitos. Décadas — ou o que quer que fosse o tempo que ela não conseguia medir completamente — construindo reflexos específicos para ambientes onde nada era gratuito.
E Cali havia mudado um acordo algo que parecia razoável.
Sem agenda.
Sem tenta obriga-la a trabalhar para a vila.
Só porque sim.
Lívia desviou o olhar para a entrada da cabana.
A luz havia mudado lá fora a luz da tarde já havia substituindo a manhã, o tipo de mudança que ela normalmente mapeava automaticamente, e que havia passado sem que percebesse enquanto estava ocupada com carne seca e crianças imprevisíveis.
Isso não era bom.
Perder rastro do tempo era sintoma de exaustão além do tolerável.
Ela precisava descansar de verdade.
— Cali.
— Hm.
— O que acha de a partir de hoje você vai dormir aqui?
A menina considerou isso com seriedade desproporcional para a pergunta.
— Depende.
— Do quê?
— O Eli vai vir atrás.
Lívia ficou olhando para ela.
— Da comida roubada.
Ela confirmou com a cabeça.
— Então se sente criança e me diga o que sabe sobe esse fim de mundo.
Cali sorriu pela primeira vez desde que entrara na cabana.
Lívia percebeu.
Não gostou da sensação de ter perdido uma negociação para uma criança de seis anos.

Regras dos Comentários:
Para receber notificações por e-mail quando seu comentário for respondido, ative o sininho ao lado do botão de Publicar Comentário.