Capítulo 713 - Sobrevivendo
Dentro da casa de leilões de Yandou, a situação era caótica; havia tantas pessoas se aglomerando, desde os corredores até o anfiteatro, onde normalmente ocorria o leilão, que era difícil até de andar.
Alguns estavam sentados no chão, enquanto tremiam de medo.
“Meu irmão foi devorado, bem na minha frente… eu não pude fazer nada além de fugir. Por que isso está acontecendo? Por quê?” Um homem murmurou, em choque.
“Esse lugar é realmente seguro?” Uma mulher indagou ao marido.
“Não sei, mas é melhor do que se arriscar no inferno lá fora”, o sujeito respondeu, assustado.
Muitas pessoas conversavam, perguntando-se se as três empresas comerciais seriam capazes de protegê-los das Criaturas das Trevas.
Em meio a todos eles, próximos da saída, três pessoas, um homem de cabelos cinzentos, uma velha e uma garota de cabelos azuis, tinham expressões escuras, principalmente ao ver a ‘barreira humana’ na entrada, onde pessoas continuavam entrando num fluxo quase interminável, enquanto muitos dos que brigavam para sair já haviam desistido.
“Se continuarmos aqui, vamos morrer…” Magnólia murmurou, franzindo o cenho.
Mesmo que tenha se dirigido à saída assim que ouviu os tremores, não haviam conseguido sair a tempo, pois o caos já havia se instaurado e a passagem estava bloqueada.
Nesse ponto, ela já havia ouvido as notícias dos que vieram de fora, sobre um fluxo interminável de Criaturas das Trevas entrando na cidade e caçando as pessoas, além de uma gigantesca cobra negra que destruiu a muralha Sul.
“Senhora, eu deveria…” O Capitão Eduardo falou, quando colocou a mão na espada em sua cintura, seus olhos emitindo brutalidade enquanto olhava para a multidão, composta tanto de avalonianos quanto de Errantes que participaram do Leilão. Com um único movimento, ele poderia transformar todos eles em pedacinhos.
“Você se atreve?!” Wendy falou, com uma voz furiosa, enquanto olhava para o sujeito de forma repreensiva. Seu olhar dizia que, se o sujeito tentasse algo do tipo, ela o atacaria.
Em resposta a isso, ele tirou a mão de sua espada, abaixando a cabeça.
Vendo isso, Magnólia suspirou. Se dependesse dela, estava mais do que disposta a cometer um massacre, contanto que pudesse tirar Wendy dali. No entanto, conhecendo a personalidade de sua jovem senhorita, sabia que ela jamais concordaria com tal brutalidade direcionada a civis e poderia até mesmo abandonar a Legião no futuro.
Perder um gênio para outra Grande Legião era o pior cenário possível, afinal, cada um deles carregava grandes segredos e uma soma estrondosa de recursos gastos em seu desenvolvimento. Não só seria algo extremamente vexatório, como desmoralizante. Nesse cenário, era preferível que a garota morresse a deixar a Torre Branca.
De repente, a velha reconheceu um homem velho entre a multidão; era um dos que havia trazido alguns dos itens que ela comprou, sendo um funcionário do leilão. O sujeito andava a passos largos, enquanto olhava em volta de forma desconfiada, dirigindo-se ao interior da casa de leilões.
Vendo isso, os olhos de Magnólia se estreitaram.
“Se não podemos sair por aqui, vamos encontrar outra saída. Vamos!”
…
Em outro ponto da cidade, próximo à muralha Sul, um homem velho e gordo, de óculos escuros e roupões estranhos, estava escondido num beco, atrás de escombros, enquanto fazia o melhor para encolher sua enorme barriga. Não muito longe, um pequeno Carniçal cheirava o chão, feito um animal, parecia estar procurando algo.
Merda, merda, merda! Estou ferrado, muito ferrado! Que dia maldito é esse?! Aldebaran pensou, em pânico.
A cidade havia sido invadida, sua pousada, que era seu lar, havia sido tomada por Criaturas das Trevas, que se banquetearam com os Soldados lá hospedados. Felizmente, diferente daquelas pessoas, ele não pensou em lutar e fugiu por uma saída secreta assim que notou o perigo, escapando por pouco de se tornar refeição daquelas coisas. No entanto, quando saiu pelas ruas de Yandou, percebeu que estavam completamente tomadas! Não havia por onde fugir!
O que eu estou fazendo? Eu já fui membro dos Sarnentos! Não vou deixar essa maldita coisa bloquear meu caminho! Bisbilhotando a entrada do pequeno beco, o sujeito gordo estava decidido a atacar o Carniçal, no entanto, ao ver outros dois próximos, rapidamente encolheu-se novamente. Não dá, não dá, eu virei um covarde! Eu estou morto, eles vão me achar, vou virar jantar de monstro.
Nesse momento, o sujeito arrependeu-se de não ter treinado adequadamente por tantos anos. Em seus tempos de glória, mesmo que ele não pudesse matar três Carniçais sozinho, estaria confiante em lidar com ao menos um ou dois deles.
Porra, se eu soubesse que ia morrer hoje, não teria começado aquela maldita dieta no início do mês! Um mês inteiro comendo planta para nada! Tornei minha carne saudável apenas para esses desgraçados aproveitarem meu esforço! pensou, arrependido dos doces que não comeu e do vinho que não bebeu.
Enquanto dava uma última checada na situação, Aldebaran viu uma pessoa escondida no lado oposto da rua, num beco do outro lado. Seus olhares assustados se cruzaram por um momento. A pessoa parecia ser um homem velho, com barba desgrenhada e roupas sujas, parecendo ser um mendigo que vivia nas ruas de Yandou.
De repente, o homem, silenciosamente, se abaixou, pegando uma pedra no chão. Quando olhou mais uma vez para Aldebaran, seu olhar assustado encheu-se de coragem e uma mistura de crueldade.
Espera, espera, não faz isso, seu fodido! O sujeito gordo gritou em sua mente, entendendo imediatamente as intenções do homem, que queria usá-lo como isca.
Assim que o velho mendigo ergueu o braço para arremessar a pedra, um zunido soou no ar.
Swish! Perfura!
“Ah!”
O mendigo gritou de dor quando uma faca o acertou no tríceps de seu braço direito, impedindo-o de concluir o movimento de arremesso. No entanto, a dor não era o pior, seu grito imediatamente revelou sua posição, e os três Carniçais avançaram na direção do pequeno beco.
“Não!” O homem gritou quando tentou correr, mas as coisas rapidamente o alcançaram, derrubando-o, e imediatamente começaram a devorar suas pernas, arrancando grandes pedaços de carne enquanto ele se debatia. “Maldito! Você vai pagar por isso, você vai queimar no inferno! Você vai queimar!” O velho amaldiçoou, seus gritos cheios de rancor e horror, enquanto olhava na direção do beco oposto.
Encolhendo-se de volta em seu esconderijo, enquanto tinha duas outras pequenas facas entre os dedos, Aldebaran tinha uma expressão complicada.
Não me culpe, velhote. Você tentou me ferrar primeiro! pensou, irritado, enquanto ouvia os gritos do homem. Vendo que os três Carniçais começaram a brigar pelo sujeito no pequeno beco, ele tomou uma decisão. É a minha chance!
O sujeito gordo disparou na direção da rua, sua velocidade era muito mais rápida do que se imaginaria para alguém de seu porte físico.
Assim que ele correu, um dos Carniçais que brigava para se espremer no beco desistiu quando disparou em perseguição.
Sha! Sha! Sha!
Ouvindo os passos pesados da coisa, em alta velocidade logo atrás dele, Aldebaran sentiu como se a própria morte estivesse o perseguindo. Ele não precisou ir muito longe para perceber que não havia como fugir, o Carniçal era muito mais rápido que ele e estava rapidamente diminuindo a distância.
Merda, que se foda! gritou em sua mente, quando seu enorme corpo gorduroso parou bruscamente, virando-se. Movendo os pulsos, mais pequenas facas apareceram entre seus dedos quando ele as atirou em direção à coisa que vinha até ele como um tanque imparável.
Swish! Ting! Swish! Ting! Perfura!
Das oito facas arremessadas, apenas três afundaram na carne dela, incluindo uma que acertou o olho da coisa.
Bang! Bam
O Carniçal chocou-se desajeitadamente em algumas bancas de alimentos, enquanto tentava enxergar o caminho.
Aldebaran não parou para ver o resultado e voltou a correr. À frente, ficava uma curva para a rua principal. Se ele seguisse por ali, poderia chegar ao centro da cidade mais rapidamente.
Assim que virou à direita, dobrando a esquina, estava prestes a dar um suspiro de alívio, acreditando que estaria seguro, mas, assim que o fez, todo seu corpo congelou, quando sua expressão mudou completamente.
Na rua principal, uma verdadeira cena de horror estava disposta. Centenas de corpos estavam espalhados por todos os lados, enquanto inúmeras Criaturas das Trevas, de todos os tipos, se banqueteavam. Gritos e lamentos abafados podiam ser ouvidos, pois algumas espécies de Criaturas das Trevas preferiam se alimentar de presas vivas.
Então, é aqui que acaba? Minha futura esposa, que eu nunca conheci, irá se tornar viúva… pensou consigo mesmo, suspirando, aceitando seu destino.
De repente, algo o agarrou bruscamente pelo pescoço, fazendo-o entrar em pânico. Pensando na sensação dolorosa de ser devorado vivo, o sujeito moveu o pulso, retirou uma faca e segurou-a firmemente; então, num movimento rápido, a ergueu em direção à sua têmpora. Se ele iria morrer de qualquer forma, preferia que fosse rápido.
No entanto, uma mão segurou seu pulso.
Espera, o quê?
Antes que ele pudesse pensar direito, foi puxado para trás, em direção à rua da qual veio. Lá, o corpo do Carniçal que ele havia ferido estava estirado ao chão.
“Não sabia que você era do tipo suicida. Se fosse nos velhos tempos, você teria lutado até o último pedaço. Você mudou na velhice, Aldebaran.” Uma voz baixa soou em seu ouvido, fazendo o sujeito gordo e de óculos escuros redondos ficar perplexo, reconhecendo a voz.

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