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    Niko assentiu, com o rosto endurecendo à medida que a conclusão se transformava em um novo objetivo. Aquela investigação, mais do que nunca, havia se tornado uma corrida contra o tempo.

    — Os outros operadores estão com Evelyn, Tsugumi, Matteo e Jakob. — disse ele, reorganizando mentalmente a posição de cada equipe enquanto falava. — A gente precisa encontrar o Navarra agora.

    Gwen cruzou os braços, o olhar fixo na rua escura do lado de fora, como se já estivesse tentando imaginar para onde um homem desesperado poderia ter ido no meio da madrugada.

    — E, se tem alguém que sabe sobre o dríade e os outros sapientes, é ele.

    O curto silêncio que veio depois não era mais de dúvida. Era de decisão. Niko foi o primeiro a se mover.

    — Então vamos encontrá-lo.

    Poucos instantes depois, os quatro já deixavam a residência pela mesma porta por onde somente dois haviam entrado. O ar frio da madrugada os recebeu imediatamente. As ruas continuavam vazias, iluminadas apenas pelas lanternas espalhadas entre as casas do bairro.

    Quando atravessaram o pequeno portão coberto por trepadeiras secas, Gwen notou um ponto importante para o objetivo atual. Assim que pisaram na calçada, a esotérica apontou para o outro lado da rua.

    — A luz daquela casa tá acesa. — disse ela, os braços cheios de tatuagens azuis atravessando o manto leve.

    Niko acompanhou a direção do dedo dela. Uma das janelas da casa em frente permanecia iluminada. A residência era simples, de fachada estreita e pintura vermelho borgonha, já um pouco gasta pelo tempo, com um pequeno jardim bem cuidado na frente.

    — Será que alguém daí pode ter visto alguma coisa importante? — perguntou Gabe.

    Gwen deu de ombros, como se aquilo não fosse exatamente uma surpresa para ninguém ali presente agora.

    — Vale a tentativa.

    Sem perder mais tempo, os quatro atravessaram a rua em silêncio. Niko parou diante da porta por um instante, avaliando a residência como se tentasse adivinhar, só pela aparência, que tipo de pessoa morava ali. Não chegou em nenhuma conclusão.

    Em seguida bateu na porta três vezes. Esperou alguns segundos e não recebeu nenhuma resposta. Então, bateu mais duas. Dessa vez, o grupo ouviu passos pesados ecoando de dentro da casa. O som atravessou o interior da residência antes de parar próximo à entrada.

    A porta se abriu apenas alguns centímetros. Um homem alto apareceu do outro lado. Os cabelos verdes estavam completamente bagunçados e a expressão dizia claramente que ele não estava feliz por estar sendo chamado naquele horário. Os olhos passaram pelo grupo inteiro antes de voltarem para Gabe.

    — Quem são vocês?

    A cautela dele era evidente, como se qualquer resposta errada pudesse transformar aquela conversa em um problema ainda maior para todos ali presentes naquela madrugada.

    Gabe já esperava aquilo. Antes de dizer qualquer coisa, retirou a identificação de Segurança do Festival do bolso interno do casaco — um distintivo com um escrito em luminárico e um brasão no centro, onde uma cruz oca e uma lua repousava entre os braços da cruz — e a ergueu na direção do homem.

    — Boa noite senhor. Somos da Segurança do Festival. Estamos investigando um problema envolvendo o seu vizinho da frente.

    O homem observou a credencial durante alguns segundos.

    — Problema?

    — Exatamente. Ele tem suspeita de participação em uma organização criminosa. Gostaríamos de fazer algumas perguntas se possível.

    A frase teve um efeito imediato. A porta abriu um pouco mais, revelando o rosto cansado do homem e um olhar ainda desconfiado, embora já menos hostil do que antes.

    — Ah, claro. Podem perguntar.

    Gabe guardou a credencial de volta no bolso interno do casaco e deu um passo à frente, assumindo o tom mais cordial possível.

    — Você percebeu alguma movimentação estranha hoje?

    O homem pensou por alguns segundos, e então balançou a cabeça para os lados.

    — Sinceramente? Não. — ele apoiou um dos braços no batente da porta. — É um pouco complicado falar de movimentação estranha quando se trata do Eloi. ELe sempre foi meio complicado.

    O nome chamou a atenção de Niko de imediato. Eloi. Era uma informação pequena, mas útil — uma direção concreta em meio a tantas suposições. Agora que sabiam o primeiro nome de Navarra, talvez a investigação poderia se tornar ainda mais rápida.

    — Complicado como? — continuou Gabe.

    — Solitário. Quase nunca falava com ninguém.

    O homem apontou com o polegar para a residência atrás deles.

    — Se não tava em casa, tava trabalhando. Se não tava trabalhando, tava no bar.

    Ele deu de ombros.

    — É uma vida bem padrão de um cinquentão solteiro. Algumas pessoas do bairro até brincavam dizendo que era mais capaz de um burro criar asas do que ele se casar.

    Enquanto a conversa continuava, Niko acabou se afastando alguns passos. Seu olhar percorreu para dentro da residência. Foi então que percebeu uma criança observando o grupo de dentro da casa. Era uma garota pequena. Talvez sete ou oito anos. Com cabelos também verdes. Ela espiava atrás de uma parede do corredor, usando o próprio pai como escudo enquanto observava aqueles estranhos reunidos na porta.

    Assim que percebeu que Niko tinha notado sua presença, desapareceu imediatamente para trás da parede. O albocerno continuou distante durante alguns segundos, focando o olhar logo depois de novo para o homem.

    — Só mais uma coisa. — disse Gabe, já puxando um bloco de notas do bolso enquanto o homem voltava a atenção para ele. — Qual é a aparência física do Eloi?

    Por alguns segundos, o homem permaneceu em silêncio, coçando a barba por fazer enquanto tentava puxar da memória a imagem do vizinho. O olhar dele se perdeu para o lado, como se estivesse comparando o rosto de Navarra com alguma lembrança antiga.

    — Uhmm… — murmurou, esfregando os olhos com a mão livre. — Ele é alto, magro, cabelo meio grisalho, barba rala… sempre com uma cara de quem não dormia direito. Devia ter uns cinquenta e poucos anos, talvez mais. E, sinceramente? Parecia meio bêbado quase sempre. Ou cansado demais pra se importar com qualquer coisa.

    Enquanto falava, o homem apoiou o peso do corpo no batente da porta, como se já estivesse perdendo a batalha contra o sono. A voz vinha arrastada, mas ainda assim ele parecia disposto a ajudar. De vez em quando, coçava a nuca ou passava a mão pelo rosto, tentando organizar as lembranças da noite.

    — Ele também tinha aquele jeito de quem já tava de saco cheio da própria vida. Sempre anda de cara fechada também. — acrescentou, dando de ombros. — Acho que é só isso.

    Enquanto o vizinho falava, Gabe anotava tudo com rapidez e, entre uma informação e outra, rabiscava um desenho simples no papel. Quando terminou, arrancou a folha do bloco e a ergueu na direção do vizinho.

    — Seria algo assim?

    O homem inclinou a cabeça, observando o esboço por alguns segundos.

    — Até que tá parecido sim.

    Gabe assentiu satisfeito.

    — Ótimo. Obrigado pela ajuda.

    O “líder” agradeceu o homem antes de se despedir, com o grupo seguindo adiante a investigação. A porta se fechou devagar atrás deles, e o silêncio da rua voltou a engolir tudo ao redor. Niko lançou um último olhar para a janela iluminada da casa antes de se virar para os outros. Ainda não era muito, mas já tinham uma imagem mais clara de Eloi Navarra — e, naquela altura, qualquer detalhe podia fazer diferença.

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