CAPÍTULO 21 - DESPERTAR
“Suficiente.”
Archibald encerrou a bateria de perguntas e recostou-se na cadeira. Por um momento ficou apenas olhando para Oliver, avaliando-o.
Oliver permaneceu em silêncio. As duas aulas prometidas haviam sido dadas. Ele absorveu tudo o que pôde, cada palavra, cada conceito, cada detalhe que Archibald deixou escapar entre uma explicação e outra.
Agora era hora de ir.
“Foi pouco,” pensou, enquanto se levantava, “mas ampliou meus horizontes mais do que 7 anos inteiros nessa vila.”
O muro invisível que durante anos barrava seu avanço com magia parecia finalmente ter rachaduras profundas o suficiente para ser derrubado. Faltava apenas um empurrão.
Do outro lado da mesa, Jonathan se levantou sem dizer nada. Não havia ódio em seu rosto, não dessa vez.
“Esse maldito mestiço é talentoso…” O pensamento se formava atrás dos olhos duros de Jonathan. “Mas eu vou ultrapassá-lo.”
A alma dele oscilava entre o laranja da ansiedade e o vermelho do rancor. Jonathan já começara a ver Oliver como um rival a ser superado, ele se levantou e partiu, sem pedir autorização de Archibald, diretamente para os aposentos mais internos de sua casa.
Oliver agradeceu Archibald com um aceno de cabeça e caminhou em direção à porta, ele também estava partindo. Estava a dois passos de sair quando a voz do mago o deteve.
“Espere.” Archibald não se levantou. “Fique mais um pouco. Vou te ensinar o método de visualização.”
Oliver parou e virou-se devagar.
“Sr. Archibald, o senhor não disse que me daria apenas duas aulas?”
Havia cautela na pergunta, não ingratidão. Oliver não queria dever nada a ninguém. Se Archibald cobrasse pelas aulas extras depois, ele não saberia como pagar. Já devia 45 peças de ouro a Grim, ou assim acreditava, sem saber que Eliandris havia quitado a dívida.
Archibald bateu os dedos na mesa, pensativo.
“Sim. Prometi à Erina que te daria duas aulas.” Fez uma pausa curta. “Mas você é talentoso, garoto. É um desperdício enorme parar seus ensinamentos aqui.” Ele se levantou e ajeitou o robe com um gesto mecânico. “Não vou te prover recurso nenhum. Sem livros, sem materiais, sem poções. Mas posso continuar te dando aulas teóricas uma vez por semana.”
Oliver o encarou em silêncio por um instante. A alma de Archibald não mentia: um tom amarelo genuíno, entusiasmo, algo que ele já havia aprendido a reconhecer como raro naquele homem.
“Obrigado, Sr. Archibald.”
Não disse mais nada, não precisava.
…
Archibald o levou para fora da casa.
O campo de treinamento ficava nos fundos da residência Venn, um espaço amplo cercado por árvores baixas e bem aparadas. Havia bancadas de madeira ao longo de uma das laterais e espantalhos de palha posicionados em intervalos regulares, alguns já destruídos, obra de Jonathan, provavelmente.
“Sente-se,” ordenou Archibald, indicando o centro do gramado.
Oliver obedeceu. Cruzou as pernas, ajeitou a postura e fechou os olhos.
Ele já sabia a teoria. O método de visualização consistia em perceber conscientemente o fluxo de mana pelo próprio corpo. Uma vez que o mago enxergava seus meridianos arcanos e seu coração de mana, o controle sobre a energia se tornava incomparavelmente mais preciso.
Concentrou-se e respirou fundo, tentou sentir algo.
Nada.
Era como tentar ouvir o próprio sangue circular. A informação estava lá, em algum lugar dentro dele, mas a percepção não alcançava. Oliver manteve os olhos fechados por mais alguns minutos, insistindo, buscando qualquer sinal, calor, pressão, movimento.
Silêncio interno.
“É possível aprender a sentir o fluxo de mana sozinho,” disse Archibald, como se já esperasse o resultado. “Mas demora semanas, às vezes meses. O jeito mais simples é receber uma injeção de mana externa. Conforme você sente a mana estrangeira percorrendo seu corpo, começa a perceber a sua própria por contraste.”
Oliver assentiu.
Archibald se posicionou atrás dele e colocou a mão na sua costa.
A sensação foi imediata.
Uma corrente quente invadiu o corpo de Oliver pelas costas, como um rio forçando passagem por canais que ele não sabia que existiam. Não era dolorosa, mas era profundamente estranha. A mana de Archibald era densa, intensa, e se movia com autoridade.
Oliver cerrou os dentes e se concentrou.
Agora era diferente. Com a mana estrangeira funcionando como contraste, algo começou a se delinear. Primeiro foram os contornos, uma silhueta translúcida de si mesmo, como um esboço feito de luz opaca. Depois os detalhes foram emergindo, devagar.
30 minutos.
Oliver distinguiu os primeiros órgãos. Pulmões se expandindo e contraindo. Estômago. Fígado.
45 minutos.
Os canais apareceram. Finos no início, depois mais definidos, ramificações que percorriam seu corpo inteiro como raízes de uma árvore, transportando algo lento e fosco.
Os meridianos arcanos.
50 minutos.
E então ele viu.
Dois corações.
O primeiro era familiar: o coração de sangue, batendo com a cadência firme de sempre, ligado ao sistema circulatório que ele conhecia de outra vida.
O segundo estava logo ao lado. Menor, do tamanho do punho fechado de uma criança. Cinzento, opaco, pulsando num ritmo próprio que não acompanhava o primeiro. Dele saíam os meridianos arcanos, espalhando mana para o corpo inteiro numa corrente constante e silenciosa.
Oliver observou a própria mana. Era turva, acinzentada, sem qualquer brilho. Misturada a ela, fluindo com violência pelos mesmos canais, estava uma mana vermelha e densa que não lhe pertencia. A mana de Archibald ardia como metal quente nos meridianos, tão distinta da sua que a diferença era óbvia.
O contraste era exatamente o que precisava, agora conseguia ver tudo.
“Sr. Archibald.” Oliver abriu os olhos. “Já consegui visualizar, pode parar de injetar mana.”
O silêncio que se seguiu foi um pouco mais longo do que Oliver esperava.
“O quê?”
Archibald não removeu a mão imediatamente. Oliver sentiu a hesitação dele, mesmo sem vê-lo.
Com Jonathan, o método de visualização levara dias. Sessões de injeção de mana que duravam no mínimo três horas, repetidas ao longo de quase uma semana inteira. Era cansativo para ambos, o instrutor gastava mana, o aluno gastava paciência e energia mental. Mas aqui estava Oliver, com menos de uma hora de sessão, alegando que já conseguia enxergar.
“Sua mana é de cor vermelha,” disse Oliver, sem levantar o tom. “O senhor é um mago de 3º ciclo, Sr. Archibald.”
Archibald retirou a mão das costas dele.
Não havia como inventar aquilo. A cor da mana era algo que só a visualização revelava. Se Oliver sabia que era vermelha, significava que estava vendo o fluxo, não apenas o seu, mas o de Archibald também.
O mago ficou em silêncio por um momento, processando.
“E se eu for um passo além?” O pensamento se formou antes que pudesse contê-lo. Depois de semanas sofrendo com a lentidão de Jonathan, ter um aluno que absorvia conhecimento como uma esponja e agora dominava a visualização em menos de uma hora era quase cruel de tão reconfortante.
A decisão veio rápido.
“Garoto.” Archibald contornou Oliver e parou à sua frente, olhando-o de cima. “Você está pronto. Vamos iniciar seu processo de despertar.”
Oliver ergueu os olhos.
“Agora?”
“Agora.”
Oliver franziu a testa. “Sr. Archibald, eu sei o procedimento pela teoria. Mas o senhor vai acompanhar o processo?”
“Sim. Tecnicamente é possível despertar sozinho, mas é lento e pode ser perigoso. Com a minha supervisão, o risco é quase nulo.”
Oliver assentiu devagar. O procedimento já estava claro em sua mente pelos dias que havia passado com o livro: acelerar o coração de mana a um ritmo extremo até que fragmentos começassem a escapar dos meridianos arcanos e orbitassem o coração. Com fragmentos suficientes, eles colapsariam por conta própria e se fundiriam em um círculo mágico, o primeiro anel.
“É como um circuito elétrico,” pensou, a mente ainda ressoando com os conceitos que havia estudado com tanto afinco em outra vida. “Para aumentar a corrente, preciso de menos resistência ou de uma tensão maior. O coração de mana é a fonte. Os meridianos são os condutores, eu preciso forçar a fonte.”
Fechou os olhos. A visualização voltou imediatamente, nítida, como se nunca tivesse sido perdida.
Oliver focou no coração de mana. O pequeno órgão cinzento batia no seu ritmo constante e preguiçoso, empurrando mana turva pelos meridianos com a mesma cadência de sempre. Oliver imaginou algo diferente. Imaginou o fluxo acelerando.
O coração respondeu.
A batida ganhou velocidade. Primeiro suave, depois mais firme, depois com uma insistência que começou a doer.
Archibald colocou a mão nas costas de Oliver novamente.
A mana vermelha invadiu o corpo dele. Era densa, quente e brutal, pressionando o coração de mana como se o apertasse com as duas mãos, forçando-o a trabalhar mais rápido, mais forte.
A dor chegou.
Começou como uma pontada aguda no centro do peito e se espalhou para os braços, para a coluna e para a nuca. Oliver rangeu os dentes. O mundo tremeu dentro da visualização, as bordas do esboço translúcido oscilando.
Ele não parou.
Os primeiros fragmentos apareceram.
Pequenos estilhaços cristalinos escaparam dos meridianos arcanos e começaram a flutuar ao redor do coração de mana, girando em órbitas lentas e erráticas. Cada fragmento que se desprendia trazia consigo uma nova onda de dor, como se algo estivesse sendo arrancado de dentro dele.
Oliver aguentou.
O procedimento avançou. 10 minutos, 20 minutos, 30 minutos. Os fragmentos se acumulavam, a órbita ficava mais densa, o brilho aumentava. A dor se tornava constante.
“Boa tolerância à dor,” pensou Archibald, observando o processo pelo fluxo de mana que injetava. “Bom controle. Não preciso guiar o procedimento, ele está conduzindo sozinho. Eu só estou acelerando.”
40 minutos… 50 minutos.
Com uma hora de duração, os fragmentos eram incontáveis. Orbitavam o coração de mana de Oliver como uma nuvem de poeira cósmica, cada pedaço brilhando com uma luz azulada tênue.
Um último fragmento se formou, escapando do coração de mana com um estalo que Oliver sentiu ressoar por todo o corpo.
Então os fragmentos começaram a colapsar.
Como se puxados por uma gravidade que não existia no mundo físico, os estilhaços convergiram. Pequeno pedaço depois de pequeno pedaço, a velocidade aumentando até que tudo se movimentava num borrão. Oliver observava com os olhos internos arregalados enquanto os fragmentos se fundiam, solidificando numa estrutura que ganhava forma com cada segundo que passava.
Um anel.
Sólido, brilhando num azul profundo, com inscrições rúnicas correndo ao longo de sua superfície em padrões que Oliver não reconhecia. O anel se encaixou ao redor do coração de mana com precisão.

E o coração mudou.
A massa cinzenta e opaca que havia pulsado dentro dele por 7 anos começou a brilhar. A cor turva recuou, dando lugar a um azul fraco que foi se intensificando até estabilizar num tom constante e vivo.
“Parece um anel de Júpiter…” Oliver conseguiu pensar.
Foi o último pensamento antes que a agonia o consumisse.
Seu peito apertou como se uma mão invisível estivesse esmagando ambos os corações ao mesmo tempo. A garganta se fechou. Os pulmões se recusaram a trabalhar. A visualização se desfez em pedaços e Oliver foi arrancado de volta para o mundo real com violência.
Seu estômago se revirou. Seu corpo inteiro protestava contra o que havia sido feito com ele.
“MUAAAAA—”
Oliver vomitou sangue fervendo na grama. Borbulhante e fumegante, tão quente que queimou sua boca e seus lábios. Depois tombou para o lado e ficou imóvel.
Inconsciente.
Archibald olhou para a cena com uma expressão que ficava entre o alívio e a satisfação.
“Ainda bem que trouxe ele pra fora dessa vez,” murmurou, enquanto se abaixava para pegar o garoto. “Odiaria sujar meu robe de novo.”
Carregou Oliver para dentro da casa e o deitou no sofá da sala de estudos.
O procedimento havia sido concluído com sucesso.
Oliver era um mago de 1º ciclo!

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