Índice de Capítulo

    Orson retornou na direção dos executores reais montado sobre a alma do dragão.

    No tempo em que esteve ausente, Victor e Alexander haviam limpado boa parte das centenas de almas libertadas pela Gaiola. Ainda restavam espíritos espalhados pela rua, flutuando entre casas destruídas, telhados partidos e manchas de fogo que ainda crepitavam em alguns pontos, mas o cerco estava se abrindo.

    “Onde ele está?” Victor manteve o cajado erguido, os olhos percorrendo cada sombra, cada movimento estranho, cada flutuação anormal entre as almas restantes.

    O necromante já o havia atacado várias vezes saindo do meio das almas. Quanto menos almas sobravam, menor era o número de pontos cegos à disposição de Orson. Ainda assim, Victor não relaxava.

    Também percebeu, na periferia da própria percepção, algum tipo de comoção em outro ponto da vila.

    Algo havia acontecido.

    Alguma onda de mana, choque ou ruptura chamara sua atenção por um instante.

    Mas ele não tinha margem para investigar. Toda a concentração de que dispunha estava voltada para a própria sobrevivência. Um único descuido diante de um necromante de almas poderia custar mais do que a vida.

    É claro que Victor poderia recorrer a feitiços mais destrutivos para varrer as almas que ainda restavam.

    Esse era justamente o problema.

    Orson vinha se escondendo entre elas desde o início da luta. Liberar uma magia ampla, pesada e com alto tempo de preparação abriria uma brecha perfeita para uma investida traiçoeira da [Lâmina das Sombras] ou algo ainda pior.

    “Aaaah!”

    Alexander rugiu enquanto girava a espada.

    Cada golpe carregado de aura atravessava meia dúzia de almas de uma vez. As formas espectrais se partiam como vidro sob impacto brutal, explodindo em fragmentos translúcidos antes de se dispersarem no ar. Nem Alexander nem Victor queriam ser atingidos por aqueles espíritos. Um ferimento na alma seria um problema sério mesmo para combatentes do nível deles.

    O combate prosseguiu por mais algum tempo.

    As almas diminuíam.

    O espaço ficava mais limpo.

    E foi então, quando os dois executores já estavam perto de eliminar os últimos remanescentes, que Victor viu algo gigantesco se aproximando pelo alto.

    Uma silhueta colossal, translúcida e majestosa.

    Um velho corcunda vinha montado nela.

    “Uma alma de dragão”, Victor afirmou, e sua voz saiu mais dura do que pretendia.

    Ele e Alexander já sabiam da existência daquela criatura. Desde o início da caçada, aquela alma era tratada como o recurso mais perigoso à disposição do necromante. Era justamente por isso que Victor vinha se contendo.

    “Ele veio da direção daquela comoção de antes”, Alexander constatou, sem desviar os olhos do alvo. “Pensei que estivesse escondido. Então só usou essas almas como distração.”

    Victor não respondeu de imediato.

    Seus olhos estavam em Orson.

    O homem parecia ainda pior do que antes.

    Quando o encontraram pela primeira vez, já tinha a aparência de alguém no fim da vida, um ancião que o tempo havia espremido até quase não sobrar nada. Agora, porém, a impressão era ainda mais severa. A pele parecia mais funda sobre os ossos. Os ombros estavam mais curvados. O simples ato de permanecer montado naquela alma colossal passava a sensação de esforço contínuo.

    Victor chegou à conclusão quase na hora.

    Onde quer que tivesse ido, Orson usara habilidades de assinatura ligadas à necromancia da alma.

    Habilidades desse tipo costumavam cobrar preços proporcionais ao que entregavam.

    “É nossa chance, Alexander”, disse Victor, com frieza. “Não se segure.”

    [MAGIA DE 5º CICLO – IDADE IMPOSTA]

    [1ª TÉCNICA DA ACADEMIA BERSERKER – CORTE]

    Os dois agiram ao mesmo tempo.

    A gema branca incrustada no topo do cajado de Victor acendeu com um brilho pálido. Não havia fogo, raio nem vento ao redor dele. A escola do tempo raramente se anunciava por violência visual imediata. Seu terror vinha de outro lugar.

    Círculos translúcidos se abriram no ar diante do mago, um atrás do outro, como mostradores sem números. Dentro deles, linhas finíssimas giraram em velocidades diferentes, imitando ponteiros que não obedeciam a relógio algum do mundo mortal. O ar ao redor perdeu ritmo. Poeira suspensa hesitou no espaço. Uma fagulha vinda de uma casa em chamas pareceu pairar imóvel por um breve instante antes de seguir viagem.

    [Idade Imposta] não feria o alvo da forma convencional.

    Ela agarrava a linha temporal de um corpo e puxava anos para cima do presente.

    Era um envelhecimento real, comprimido à força no intervalo de um único momento.

    Victor apontou o cajado para Orson, e os círculos translúcidos dispararam em sequência. Não viajaram como projéteis visíveis. Em vez disso, o espaço entre o conjurador e o alvo pareceu perder espessura, como se vários instantes tivessem sido dobrados e empurrados na direção do necromante.

    Ao mesmo tempo, Alexander avançou um passo e despejou na espada uma quantidade brutal de aura amarela.

    A lâmina vibrou.

    Runas gravadas ao longo do metal se incendiaram em laranja.

    Então ele desferiu um golpe no vazio.

    Não acertou Orson com o aço.

    Acertou o ar.

    Isso bastou.

    Uma lâmina de aura nasceu do movimento e se projetou para a frente, larga, densa e devastadora. O corte viajou rasgando a rua inteira, arrancando telhas, despedaçando fachadas e reduzindo em estilhaços duas casas que estavam no caminho. O impacto da técnica apareceu primeiro como som: um estrondo seco, seguido pelo grito da própria matéria cedendo à força bruta.

    Victor manteve os olhos em Orson.

    A magia estava funcionando.

    Por um instante, viu o resultado começar a aparecer.

    O manto velho do necromante perdeu ainda mais cor. A pele exposta de suas mãos pareceu ressecar diante de seus olhos. As marcas do tempo, já profundas, cavaram-se mais. O ar ao redor de Orson deu a impressão de girar fora de compasso, como se sua presença ocupasse um trecho do mundo onde os segundos haviam ficado doentes.

    Mais um instante, e [Idade Imposta] se fecharia sobre ele por completo.

    Mais um instante, e talvez Orson simplesmente ruísse.

    Mas foi nesse ponto que algo saiu do eixo.

    Victor sentiu primeiro.

    Uma interferência.

    Não externa.

    Não vinda de outro conjurador.

    Veio do próprio alvo.

    A alma de Orson se inflamou.

    [HABILIDADE DE ASSINATURA – ASSIMILAÇÃO DE ALMA]

    Não houve cântico ou gesto elaborado.

    Habilidades de assinatura não precisavam disso.

    O corpo físico de Orson permaneceu onde estava, curvado sobre o pescoço do dragão espectral, mas algo saiu dele no mesmo instante. A forma anímica do necromante emergiu por cima da carne como uma sobreposição arrancada à força do próprio corpo.

    Victor já havia visto almas antes.

    Muitas.

    Mas a de Orson era perturbadora.

    Mantinha formato humanoide, sim, porém condensado de um jeito antinatural, como se cada parte tivesse sido comprimida inúmeras vezes ao longo dos anos. Havia nela marcas, costuras, densidades e deformações que nenhum espírito comum deveria carregar. Parecia uma alma que passara a vida inteira sendo forçada além dos próprios limites.

    Então ela tocou a alma do dragão.

    O dragão não recuou ou resistiu.

    Ele Obedeceu.

    As duas existências começaram a se fundir.

    Não foi um simples brilho cobrindo o corpo de Orson.

    Foi uma incorporação violenta.

    As patas dianteiras da alma dracônica se desfizeram primeiro, transformando-se em correntes espessas de essência espectral que se enrolaram nos braços e no tórax do necromante. Em seguida vieram as costelas, largas, curvas, monstruosas, fechando-se sobre suas costas como a armação de uma criatura que decidisse nascer por fora da carne.

    As asas perderam forma e viraram mantos de luz azulada, estendendo-se atrás dele antes de encolherem e aderirem à sua silhueta. Escamas translúcidas surgiram aos milhares, não pousando sobre a pele como armadura, mas atravessando-a e se encaixando nela, fundindo matéria, mana e alma num mesmo arranjo profano.

    O pescoço do dragão desceu por último.

    A cabeça espectral avançou por cima de Orson como se fosse engoli-lo inteiro. No instante do contato, não houve devoração. O crânio dracônico se desmanchou em linhas de essência e colapsou sobre o velho, formando chifres recurvos, uma mandíbula fantasmagórica ao redor do rosto e duas fendas luminosas onde antes havia apenas olhos humanos afundados pelo cansaço.

    O processo inteiro levou menos de um segundo.

    Quando terminou, Orson já não parecia um homem montando uma alma.

    Parecia o ponto de encontro entre os dois.

    Um híbrido anímico grotesco.

    Um necromante coberto por uma estrutura dracônica que não era bem armadura, nem corpo, nem espírito isolado, mas a fusão instável de tudo isso.

    Foi nesse exato instante que [Idade Imposta] falhou.

    Os círculos translúcidos de Victor vacilaram no ar.

    As linhas que imitavam ponteiros perderam o alvo.

    Magias temporais exigiam continuidade, uma linha coerente sobre a qual impor passado, presente ou futuro. O que existia à frente dele deixou de ser um alvo simples no momento da assimilação. A idade de Orson, a persistência anímica do dragão e aquela fusão monstruosa colidiram num arranjo que a magia não conseguiu estabilizar.

    O feitiço tremeu.

    Rachou.

    E se desfez em partículas de luz pálida antes de completar o ciclo.

    Os olhos de Victor se arregalaram.

    Alexander, porém, já não tinha como parar o próprio ataque.

    A lâmina de aura continuava avançando.

    Rasgava o caminho entre ruínas e destroços, veloz como uma sentença.

    Orson ergueu a cabeça.

    Os restos das almas dispersas ao redor estremeceram com a pressão emanada daquela nova existência.

    E então o golpe de Alexander chegou.

    Orson ergueu uma das mãos. Só isso. A estrutura dracônica que revestia seu braço se adensou num instante, e os dedos espectrais se fecharam sobre a lâmina de aura no exato momento do impacto. O choque foi brutal. O ar explodiu para os lados, o chão rachou sob seus pés e os destroços espalhados pela rua foram arremessados para longe, mas Orson não cedeu um único passo. Diante dos olhos de Victor e Alexander, ele havia parado com uma única mão a técnica de um artista marcial de rank 5.

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