O primeiro sinal de que algo estava errado foi o silêncio.

    Não o silêncio do apartamento — aquele Arin conhecia bem. A geladeira zumbindo, o cano pingando, o ronco de Tobias. Esse silêncio era diferente. Absoluto. Pesado. Como se o mundo tivesse sido enrolado em algodão e jogado dentro de um pote de vidro.

    O segundo sinal foi o cheiro.

    Cera de sebo. Palha úmida. Madeira mal tratada. E por baixo de tudo, um cheiro de fumaça velha, de lareira apagada há dias, impregnada nas paredes, nos lençóis, em tudo.

    Arin bocejou, ainda de olhos fechados. O corpo estava pesado, aquele peso gostoso de quem dormiu sem interrupção. Ele se espreguiçou e sentiu o lençol áspero contra a perna.

    Lençol áspero?

    Ele não tinha lençol áspero. A mãe dele tinha dado um jogo de lençóis de algodão egípcio no Natal passado. Macio. Azul marinho.

    Isso aqui parecia estopa, ou sarja, ou lã de carneiro mal fiada.

    Arin franziu a testa, ainda na névoa do sono. A mão direita se moveu lentamente, tateando o tecido. Tecido grosseiro, envelhecido, com pequenas bolinhas de uso e remendos mal feitos. Em um dos cantos, um rasgo mal costurado com linha de cor diferente.

    Estranho.

    Ele abriu os olhos.

    ━═✧═━

    O teto era de madeira.

    Não madeira bonita, trabalhada, como de casa de campo em filme. Madeira feia. Vigas tortas, escuras, cheias de nós e rachaduras, cortadas à machado — dava para ver as marcas irregulares. Entre as vigas, um reboco de barro e palha, descascando em vários lugares, deixando ver a taipa por baixo. Em um canto do teto, uma mancha escura de infiltração.

    Arin piscou.

    Isso parece…

    Ele se sentou de repente, o coração dando um salto errado no peito. A cama rangeu sob seu peso. Um rangido alto, agudo, mas não de molas. Não tinha molas. Era corda. Ele olhou para baixo. A cama era uma estrutura de madeira bruta, com cordas trançadas formando um tear rústico, e sobre as cordas, um colchão fino de palha. Palha. Ele estava dormindo em cima de palha.

    A cabeceira era baixa, sem ornamentos. Não tinha verniz, não tinha pintura. Apenas madeira escura, manchada de uso, com lascas soltas em alguns lugares.

    O quarto era pequeno — muito pequeno. Talvez dois metros por dois. O chão era de terra batida. Não madeira. Terra. Batida, compactada, mas terra. Com algumas pedras soltas e manchas mais escuras de umidade.

    Paredes de madeira bruta, sem reboco, com frestas por onde entrava uma luz pálida e um vento fino e frio. Pelos. Arin sentiu a pele arrepiar.

    Uma janela. Única. Pequena, retangular, sem vidro.

    Sem vidro.

    Uma abertura retangular na parede, tapada por uma cortina grossa de tecido escuro — não cortina, um pedaço de pano grosso, puído, pendurado num varão de ferro enferrujado. A luz que entrava vinha por baixo e pelas laterais do pano.

    Um lavabo no canto. Uma bacia de barro — barro simples, mal cozido, com manchas de umidade — apoiada num tripé de madeira. Uma jarra de água igualmente simples, sem tampa, com uma trinca no bico. Uma toalha de pano surrado pendurada num prego torto na parede.

    Um baú no outro canto. Madeira escura, simples, sem ornamentos. As dobradiças de ferro estavam enferrujadas, e uma delas estava solta. O ferrolho estava aberto.

    Uma mesa encostada na parede oposta à cama. Pequena, manchada de uso, com pernas desniveladas — uma delas tinha uma lasca de madeira presa embaixo para nivelar. Em cima dela, uma vela acesa — acesa — queimando baixo sobre um castiçal de ferro enferrujado. A cera, cera de sebo (Arin reconheceu pelo cheiro), escorria pelo lado, formando uma pequena poça amarelada na madeira.

    Uma vela acesa.

    Arin prendeu a respiração.

    O reconhecimento veio como um soco no estômago.

    Isso é medieval. Isso é um quarto medieval. Isso parece…

    Isso parece algo que eu escreveria.

    ━═✧═━

    Ele se levantou devagar. As pernas estavam moles, trêmulas. O pé descalço tocou a terra batida — fria, úmida, com uma textura granulada que grudou na sola. Arin olhou para baixo. Pequenos grãos de terra presos entre os dedos.

    Terra. Chão de terra. Eu estou pisando em terra.

    Ele andou até a janela — se é que se podia chamar aquilo de janela. A mão tocou o tecido grosso que servia de cortina. Era linho grosseiro, desfiado nas bordas, com manchas escuras de mofo.

    Arin puxou a cortina devagar.

    Branco.

    Não a rua. Não o poste com a luz amarela. Não o prédio da vizinha.

    Branco.

    Uma extensão infinita de branco. Sem chão, sem céu, sem horizonte. A luz vinha de todos os lugares e de lugar nenhum, uniforme, implacável, silenciosa. Não dava para ver o chão lá fora — porque não havia chão. Não dava para ver o céu — porque não havia céu. Só branco.

    Branco até onde a vista alcançava. Branco além disso.

    Arin largou a cortina como se queimasse. O tecido caiu no lugar, escondendo o branco. Mas o branco continuava lá. Ele sabia.

    Branco. Tudo branco. Por que tudo está branco?

    Ele se afastou da janela, as costas batendo na parede oposta. A madeira bruta arranhou sua pele através da camisola fina.

    Isso não é possível. Isso é um sonho. Tem que ser um sonho.

    ━═✧═━

    Arin fechou os olhos com força.

    Acorda. Acorda agora. Vamos, Arin, acorda.

    Apertou as pálpebras. Os músculos do rosto doeram de tanta força. Ficou assim por cinco segundos, dez, quinze.

    Abriu os olhos.

    Madeira suja. Rachaduras. Mancha de infiltração.

    Não funcionou.

    Ele fechou novamente. Dessa vez, beliscou o próprio braço com força — torceu a pele entre os dedos até doer, até arder. A dor foi real, aguda, vermelha. Marcou.

    Abriu os olhos.

    Mesmo teto. Mesmo quarto. Mesmo cheiro de cera de sebo e terra úmida.

    — Não… — a voz saiu estranha, falhada, como se ele não a usasse há dias. — Não, não, não.

    Ele se beliscou de novo. No braço. Na coxa. Na barriga. Torceu, apertou, quase arrancou a pele.

    Dor. Dor real. Dor que latejava.

    Não é um sonho.

    O pensamento veio como um soco no estômago. Arin dobrou o corpo, as mãos nos joelhos, respirando fundo — tentando respirar fundo, mas o ar não entrava direito, como se os pulmões estivessem pequenos demais para o ar que ele precisava.

    Não é um sonho. Não é um sonho. Não é um sonho.

    A repetição não ajudou. Só piorou.

    ━═✧═━

    Ele levou algum tempo para se acalmar. Não sabe quanto. Minutos? Horas? Não tinha relógio. Não tinha celular. Não tinha nada. Apenas a vela queimando, a poça de cera crescendo, e o silêncio absoluto.

    Quando a respiração finalmente voltou ao normal, Arin se endireitou. Olhou ao redor outra vez. O quarto continuava ali. Feio. Pobre. Medieval. Ele sabia a palavra porque ele mesmo tinha descrito quartos assim dezenas de vezes em A Terra das Sombras. Tavernas baratas. Pousadas de beira de estrada. Aposentos de servos.

    Eu descrevi quartos assim. Eu escrevi sobre lugares assim. Isso é…

    Isso é algo que eu escrevi?

    O pensamento foi tão absurdo que ele quase riu. Quase.

    Ele olhou para a porta.

    Madeira escura. Simples. Sem pintura, sem verniz, cortada à mão — as marcas de serra ainda visíveis nas bordas. A maçaneta não era maçaneta. Era uma tranca de ferro, uma barra corrediça, dessas que se puxa para o lado para abrir. Enferrujada. Pesada.

    A porta estava fechada.

    ━═✧═━

    Arin hesitou por um longo tempo.

    Ele andou até a porta. Recuou. Andou novamente. Recuou. A vela queimava. O silêncio pressionava.

    O que tem do outro lado? O mesmo branco da janela? Ou algo pior?

    Ele lembrou da janela. O branco infinito. O vazio. A ausência de chão, de céu, de tudo.

    E se a porta der para o mesmo lugar? E se eu abrir e não tiver chão? E se eu abrir e o branco me engolir?

    O medo veio como uma onda. Não um medo racional — desses que se explica com palavras — mas um medo visceral, primitivo, que começou no estômago e subiu pelo peito, apertando a garganta, secando a boca. Ele sentiu as mãos tremerem, os joelhos amolecerem, o coração bater tão rápido que parecia que ia sair do peito.

    Você não pode ficar aqui para sempre. A vela vai acabar. E aí? Escuridão? Ou o branco vai iluminar mesmo sem vela?

    Ele não sabia. Não queria descobrir.

    Você precisa abrir a porta.

    O pensamento veio contra a vontade dele. Arin balançou a cabeça.

    Não. Não vou abrir.

    Você vai ficar aqui até morrer? Vai ficar esperando? Esperando o quê? Quem?

    Arin não respondeu.

    ━═✧═━

    A vela queimou mais um pouco. Mais baixa agora. A poça de cera escorreu pela mesa, começando a pingar no chão de terra.

    Arin levantou. As pernas ainda tremiam, mas ele se forçou a ficar de pé. Andou até a porta. Encostou a mão na madeira. A textura era áspera, com lascas soltas.

    Ele tocou a tranca de ferro. Fria. Pesada.

    Você está com medo de uma porta, Arin. Você está com medo de uma PORTA.

    O pensamento o fez rir. Foi um riso nervoso, curto, quase uma tosse.

    — Eu estou com medo de uma porta — disse em voz alta. A voz soou estranha no silêncio. Pequena. Perdida. Ecoou um pouco nas paredes de madeira.

    Ele riu de novo.

    — Eu estou com medo de uma porta — repetiu, mais alto. — Eu, Arin, escritor de A Terra das Sombras, criei portais mágicos, passagens secretas, portas para outros reinos, e estou com medo de uma PORTA DE MADEIRA COM UMA TRANCA ENFERRUJADA.

    O absurdo da situação bateu com força. Ele riu mais uma vez — um riso mais longo, mais louco, que doeu na garganta.

    — Isso é loucura — ele disse, ainda rindo. — Isso é completamente louco.

    O riso passou. O silêncio voltou, mais pesado do que antes.

    Arin olhou para a tranca.

    Respirou fundo.

    Você consegue. Você consegue. Você…

    Ele deslizou a tranca para o lado.

    O metal rangeu — um som seco, áspero, que ecoou no silêncio como um tiro.

    A porta não estava mais trancada.

    Arin empurrou.

    ━═✧═━

    A porta abriu.

    O vazio o encarou de volta.

    Não um corredor. Não um apartamento. Não paredes, chão, teto ou qualquer forma de arquitetura humana.

    Branco.

    O mesmo branco infinito da janela. A mesma extensão sem fim. Sem horizonte. Sem sombra. Sem profundidade. A luz vinha de todos os lugares e de lugar nenhum, uniforme, implacável, silenciosa.

    Arin congelou.

    Os dedos ainda seguravam a madeira da porta, os nós tão brancos quanto a coisa lá fora. Ele olhou para o chão do quarto. Terra batida. Chão sólido. Real.

    Olhou para o lado de fora.

    Nada.

    Não tinha chão. Não tinha parede. Não tinha teto. Não tinha nada. Apenas branco.

    Se eu der um passo… O que acontece? Eu caio? Eu flutuo? Eu simplesmente… desapareço?

    Ele não sabia.

    Mas a vela estava queimando. Mais baixa a cada minuto. Quando a vela acabasse, o quarto ficaria escuro. E aí? O branco ainda estaria lá? Ou seria pior?

    Você não tem escolha. Você nunca teve escolha.

    Arin fechou os olhos.

    Deu um passo.

    ━═✧═━

    O pé não encontrou chão.

    Mas também não caiu.

    Foi como pisar em nada — mas o nada sustentava. Uma superfície invisível, sólida, mas sem textura, sem temperatura, sem nada. Arin abriu os olhos.

    Ele estava fora do quarto.

    De pé sobre o branco.

    O pé — descalço, sujo de terra — parecia flutuar sobre uma superfície que não existia. Mas ele não afundava. Não caía. Simplesmente… estava ali.

    Arin olhou para trás.

    A porta ainda estava aberta. O quarto ainda estava lá. Ele conseguia ver a cama de palha, a mesa, a vela queimando, o chão de terra batida.

    Você pode voltar. Dá tempo. Entra de novo. Fecha a porta. Espera.

    Ele deu um passo em direção ao quarto.

    E a porta se fechou sozinha.

    Não com violência. Não com pressa. Simplesmente… fechou. Como se alguém tivesse empurrado devagar. A madeira encaixou no batente. A tranca — que ele tinha puxado — estava fechada novamente.

    Arin correu.

    Seus pés bateram no nada sólido. Chegou na porta. Empurrou.

    Não abriu.

    Empurrou de novo. Com mais força. Com o ombro.

    Nada.

    — NÃO! — ele gritou. O som não ecoou. Foi engolido pelo branco. — NÃO, NÃO, NÃO!

    Arin bateu na porta com os punhos. A madeira doeu nos ossos. Mas a porta não cedeu. Não fez barulho. Não tremeu. Nada.

    Ele se afastou um passo. Dois.

    Olhou para a porta. Para a parede ao redor — se é que dava para chamar aquilo de parede. A madeira do quarto simplesmente… terminava. Como se tivesse sido recortada do nada. Do lado de fora, não havia parede. Havia apenas a porta, isolada, flutuando no branco, com um pedaço de madeira em volta — uns trinta centímetros de cada lado — e depois nada.

    O quarto não existia mais.

    Apenas a porta.

    Uma porta flutuante no meio do vazio infinito.

    Arin recuou mais um passo. Depois outro.

    A porta foi ficando pequena. Distante.

    Ele parou.

    O que eu faço agora?

    ━═✧═━

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