Capítulo 9 │O Peso do Presente (2)
Eldoria. O reino. As muralhas. O exército. O… o que aconteceu com Eldoria? O que foi que eu escrevi?
A imagem começou a se formar. Devagar, dolorosamente devagar.
Chamas. Muitas chamas. Castelos em ruínas. Corpos. Corpos nas ruas. Corpos dentro das casas. Corpos de crianças. Corpos de…
Arin abriu os olhos.
O coração estava acelerado. A respiração estava curta. O suor frio brotou na testa.
O que foi aquilo? O que eu vi? De onde veio isso?
Ele fechou os olhos novamente. Não queria. Mas precisava saber.
A memória veio de novo. Mais forte dessa vez.
━═✧═━
Não foi uma guerra. Não foi um cerco. Foi um massacre.
O reino de Eldoria foi completamente dizimado. Não sobrou ninguém. Não sobrou nada. As cidades foram queimadas. As vilas foram arrasadas. As florestas foram…
━═✧═━
Arin sentiu o estômago embrulhar.
Quando? Quando isso aconteceu?
Ele tentou puxar a data, o ano, qualquer referência.
Nada.
Eu não sei. Eu não sei em que ano estou. Eu não sei quanto tempo falta. Podem ser anos. Podem ser meses. Podem ser dias. Podem ser… Horas.
Ele abriu os olhos novamente. O teto de madeira continuava ali. As vigas escuras, as rachaduras, a infiltração no canto.
Este lugar. Oakhaven. O que aconteceu com Oakhaven quando o reino caiu?
A memória veio — não como um sussurro, como um grito.
━═✧═━
Oakhaven foi uma das primeiras vilas a cair. Os soldados do reino tentaram proteger. Falharam. Todos morreram. Helga. Jasper. Nox. Todos.
━═✧═━
Arin prendeu a respiração.
Não. Isso não pode estar certo. Eu não lembro direito. Os livros estão embaralhados. As datas estão todas misturadas. Talvez eu esteja enganado. Talvez não seja tão cedo. Talvez…
E se for? E se for amanhã? E se for na semana que vem? E se for no dia em que os soldados voltarem?
Ele sentiu o pânico subir. A respiração ficou mais rápida. O coração disparou.
Você precisa se acalmar. Você precisa pensar. Você é Arin. Você criou este mundo. Você pode mudar o que vai acontecer. Você pode salvar eles. Você…
Você não sabe como.
A verdade veio seca, dura.
Eu não sei como salvar ninguém. Eu só sei escrever. E agora… agora as palavras não são suficientes.
Ele ficou deitado por um longo tempo. A respiração foi voltando ao normal aos poucos. O coração foi desacelerando.
O baú. Teve um baú. Em algum lugar. Alguém escondeu. Antes da queda. Antes de morrer.
Onde foi que eu escrevi isso?
Ele tentou lembrar. Os livros desfilavam na mente dele — páginas amareladas, capas desgastadas, frases soltas.
Livro 2. Capítulo 7. Um diálogo. Um personagem mencionou.
“Dizem que um mercador escondeu um baú de prata na floresta ao norte de Oakhaven, mas morreu antes de contar para alguém.”
Era isso. Era só isso. Não tinha mapa, não tinha coordenadas, não tinha nada. Apenas “na floresta ao norte”.
Arin suspirou.
Floresta ao norte. É uma área enorme. Dias de caminhada. E eu tenho uma semana. E eu sou um garoto de quatorze anos. E eu não sei lutar. E eu não sei…
Não. Isso não importa. É a única ideia que eu tenho. É uma ideia ruim. Mas é alguma coisa. É melhor do que nada. É melhor do que esperar a morte.
━═✧═━
A porta rangeu.
Arin levantou a cabeça.
Uma sombra pequena estava na soleira.
— Nox?
Jasper. O menino estava de pijama — uma camisa de linho grossa, grande demais para ele (provavelmente era de Nox), e uma calça curta remendada. O cabelo loiro estava bagunçado, molhado em algumas mechas — ele tinha lavado o rosto antes de dormir.
Os olhos castanhos estavam vermelhos.
Ele chorou. Finalmente. Quando Helga não estava olhando. Quando ninguém estava vendo.
— Jasper — Arin sentou-se na cama. — O que foi?
O menino não respondeu. Apenas entrou no quarto. Os pés descalços fizeram tap, tap, tap no assoalho. Ele parou no meio do quarto. Olhou para Arin.
— Posso… posso dormir aqui?
A voz era pequena. Tão pequena.
Arin sentiu o peito apertar.
A memória veio.
━═✧═━
Jasper tem pesadelos. Sonha com o pai — com o pai preso dentro da mina, chamando por ele. Nessas noites, Jasper vai para a cama de Nox. Não pede permissão. Só entra, se enfia debaixo da coberta, e dorme encostado no ombro do irmão.
Nox nunca reclama. Nox deixa. É a única coisa que Nox sabe fazer pelo irmão.
━═✧═━
— Pode — Arin respondeu.
Jasper não esperou mais. Ele correu para a cama, se enfiou debaixo da coberta de lã, e colou o corpo no de Arin. Os pés do menino estavam gelados — Arin sentiu o frio contra a perna.
Ele estava com medo. Medo dos soldados. Medo de dormir sozinho. Medo de que eles voltassem.
Arin não disse nada. Apenas deitou novamente, com o braço esquerdo servindo de travesseiro, o direito apoiado no corpo de Jasper.
O menino cheirava a sabão de cinza e cabelo molhado. Cheiro de infância, cheiro de casa, cheiro de Nox.
Por um momento, ninguém falou. O silêncio encheu o quarto. Não o silêncio vazio do branco infinito — um silêncio cheio. A respiração de Jasper, o ranger da cama, o vento lá fora batendo nas telhas, os grilos começando a cantar.
Arin olhou para o teto. As vigas escuras, as rachaduras, a infiltração no canto.
Eu estou em A Terra das Sombras. Eu estou dentro do meu próprio livro.
Eu tenho uma semana. Jasper está dormindo ao meu lado. Helga está no quarto ao lado, machucada. Eu sou a única esperança deles.
E eu não faço ideia do que fazer.
Mas alguma coisa eu sei. Sei que o reino vai cair. Sei que todo mundo aqui vai morrer. Se eu não fizer nada.
Então vou fazer alguma coisa. Mesmo que não saiba o quê. Mesmo que seja uma ideia ruim. Mesmo que eu não saiba onde fica o baú. Mesmo que a floresta seja perigosa. Mesmo que eu possa morrer.
Não importa. Eu não vou deixar eles morrerem. Eu não vou deixar Jasper ter pesadelos com o pai e com os soldados. Eu não vou deixar Helga chorar sozinha no escuro. Eu não vou deixar.
Não.
Jasper se mexeu. O menino estava quase dormindo — Arin sentiu o corpo dele relaxar, a respiração ficar mais lenta.
— Nox… — Jasper murmurou, a voz pastosa de sono.
— Hum?
— Você não vai deixar eles voltarem, vai?
A pergunta foi um soco no estômago.
Arin abriu a boca. O que eu digo? O que eu posso dizer? Não posso prometer. Não posso garantir. Os soldados são muitos. O reino vai cair. Todo mundo vai morrer. Talvez até eu. Talvez até Jasper.
Talvez…
Não. Não. Isso não vai acontecer. Eu não vou deixar.
Ele fechou a boca. Abriu de novo.
— Não — a voz saiu mais firme do que ele esperava, mais firme do que ele se sentia. — Não vou deixar.
Jasper não respondeu. Já estava dormindo.
Arin ficou acordado por mais algum tempo. O teto de madeira olhou para ele. As vigas escuras, as rachaduras, a infiltração no canto.
Uma semana. Sete dias. E eu não faço ideia do que fazer. Mas vou descobrir. Preciso descobrir. Não tenho escolha.
Se não fizer nada, eles vão morrer. Se não fizer nada, todo mundo vai morrer.
Quando o reino cair. Quando a dizimação acontecer. Eu não sei quando.
Mas não vou estar aqui para ver. Ou vou. E se eu estiver…
Vou lutar.
Ele fechou os olhos. O sono veio devagar — como uma maré enchendo, como um cobertor pesado sendo puxado sobre ele.
E antes de apagar completamente, Arin teve um pensamento.
O baú. É a única ideia. É uma ideia ruim. Mas é uma ideia. Talvez seja o suficiente. Talvez não. Mas não tenho outra.
━═✧═━

Regras dos Comentários:
Para receber notificações por e-mail quando seu comentário for respondido, ative o sininho ao lado do botão de Publicar Comentário.