A rua de terra estava mais movimentada agora.

    Quando Arin saiu de casa com Jasper, o sol já estava mais alto — não era mais nascer do sol, mas também não era meio-dia. Uma luz dourada, macia, cobria a vila.

    Arin parou na soleira da porta e olhou.

    Casas de madeira e pedra, uma ao lado da outra, formando duas fileiras ao longo da rua principal. Algumas tinham telhado de palha, outras de telha — as telhas eram mais caras, Arin sabia disso sem saber como sabia. A memória veio.

    Telhas são para os ricos. Palha é para os pobres. A casa dos Siegfried tem telhas. O pai deixou pago antes de morrer.

    Ele olhou para o chão. Terra batida, marrom-avermelhada, com marcas de rodas de carroça e pegadas — de pessoas, de animais, de todos os tamanhos. Arin sentiu a textura áspera da terra sob as solas das botas. Pequenas pedras soltas se moviam sob seu peso.

    Jasper já estava na frente, correndo, os pés descalços levantando uma pequena nuvem de poeira.

    — Vem, Nox! Devagar!

    Arin andou.

    A vila era pequena — talvez umas trinta casas, espalhadas sem muito planejamento. Umas de madeira escura, outras de pedra clara, algumas misturadas. Aqui e ali, galinhas ciscavam no meio da rua, indiferentes aos passos das pessoas. Um cachorro magro dormia embaixo de uma carroça abandonada.

    Ele passou por uma casa com uma placa de madeira na porta: “ESTALAGEM DO VIAJANTE”. O cheiro de cerveja e carne assada vinha de dentro, mesmo com a porta fechada.

    Helga trabalha ali. Helga trabalha ali e eu nunca a visitei. Nox nunca visitou a mãe no trabalho. Por quê?

    A memória não veio. Apenas um vazio, uma hesitação.

    Outra hora.

    ━═✧═━

    — Nox! — Jasper gritou. Ele estava parado na frente de uma construção maior, com uma placa pintada de azul desbotado: “VENDA DO ALDRIC”.

    Arin acelerou o passo.

    A venda era uma casa grande de pedra, com uma varanda na frente. Sacos de grãos estavam empilhados do lado de fora, cobertos com uma lona para proteger da chuva. Barris de madeira — alguns com vinho, outros com picles, outros com farinha — estavam alinhados contra a parede.

    O cheiro era forte: grãos, madeira velha, sal, couro, um toque de fumaça de cachimbo.

    Arin empurrou a porta de madeira. Ela rangeu — um rangido grave, familiar.

    ━═✧═━

    Dentro, a venda era escura.

    A luz entrava por duas janelas pequenas, com vidros grossos e sujos. O chão era de pedra, desgastado no centro por décadas de passos. Prateleiras de madeira cobriam as paredes, lotadas de potes de barro, sacos de pano, garrafas de vidro escuro, latas de metal enferrujado.

    No balcão, um homem.

    Velho. Barba branca e espessa, manchada de amarelo no canto da boca onde o cachimbo descansava. Olhos pequenos, escuros, mas brilhantes — inteligentes. Usava um avental de couro manchado de tudo quanto é coisa, e as mangas da camisa estavam arregaçadas até os cotovelos, mostrando braços finos, mas musculosos.

    Aldric.

    O velho sorriu quando viu os meninos. O cachimbo balançou no canto da boca.

    — Nox! Jasper! — a voz era rouca, mas calorosa. — A mãe de vocês mandou vocês, é?

    — Mandou — Arin respondeu. A voz saiu estável, calma. Nox.

    Aldric tirou o cachimbo da boca e bateu contra a palma da mão, tirando as cinzas.

    — Ela me avisou. Deixou uma lista. — Ele se abaixou atrás do balcão, mexendo em papéis. — Cadê… cadê… ah, aqui.

    Ele estendeu um pedaço de papel — não papel como Arin conhecia. Era um pergaminho fino, amarelado, com bordas irregulares. A escrita era torta, com manchas de tinta.

    Arin pegou o papel. Leu.

    Farinha. Sal. Banha. Velas. Sabão.

    — Só isso? — ele perguntou.

    — Por enquanto. — Aldric colocou o cachimbo de volta na boca. — Sua mãe tá pagando as contas aos poucos. Não quero apertar ela.

    A frase trouxe uma pontada no peito de Arin. Não era dele — era de Nox.

    Dívidas. O pai morreu e deixou dívidas. Helga trabalha na estalagem para pagar. Nox trabalha na oficina para ajudar. Nunca é suficiente.

    ━═✧═━

    — Vou pegar as coisas — Arin disse, a voz mais baixa.

    Ele andou pela venda, os olhos percorrendo as prateleiras. Os dedos de Nox tocaram os sacos de farinha, sentindo a textura do pano e o peso dos grãos. O cheiro de sal grosso encheu as narinas quando ele passou por um barril aberto.

    Jasper estava grudado nele, os olhos castanhos brilhando.

    — Nox, olha — o menino sussurrou, apontando para um pote de vidro na prateleira mais alta.

    Dentro do pote, doces. Pequenos cubos amarelados, cobertos com uma camada fina de açúcar. Doces de mel.

    A memória veio.

    Jasper adora aqueles doces. Toda vez que vêm à venda, ele pede. Nox nunca compra. Não tem dinheiro. Mas Aldric, às vezes, dá um de graça.

    — Depois — Arin disse.

    — Você sempre fala depois.

    — É porque sempre tem um depois.

    Jasper bufou, mas não insistiu.

    Arin continuou pegando os mantimentos. Farinha — um saco pequeno, de uns dois quilos. Sal — um pacote de pano amarrado com barbante. Banha — um pote de barro com tampa de couro. Velas — três, enroladas em palha. Sabão — uma pedra esverdeada, áspera, que cheirava a cinza.

    Ele levou tudo até o balcão.

    Aldric foi somando. Os dedos do velho corriam rápidos sobre a madeira do balcão, contando nos nós dos dedos.

    — Vai dar três moedas de prata — ele disse. — Mas fala pra sua mãe que pode pagar na semana que vem.

    Arin olhou para o balcão. As mãos de Nox — as mãos dele agora — estavam apoiadas na madeira escura. Ele viu as marcas de faca na superfície, uma mancha escura de vinho seco, uma rachadura que começava na borda e ia até o meio.

    Nox nunca pagou nada. Nox não tem dinheiro. Helga tem. Mas Helga não tem muito.

    — Tá bom — Arin disse. — Eu falo.

    Ele começou a juntar os mantimentos para levar. Farinha num braço, os outros pacotes no outro. Jasper pegou as velas, cuidando para não amassar.

    — Nox — Aldric chamou.

    Arin olhou.

    O velho estava sério agora. O cachimbo parado no canto da boca, sem fumaça.

    — Sua mãe tá passando por um momento difícil. Você sabe.

    Arin engoliu em seco.

    — Sei.

    — Então toma cuidado. Não arruma confusão. Não dá motivo.

    Confusão? Motivo?

    A memória veio — incompleta, fragmentada, mas carregada de emoção.

    Homens. Soldados. Uniformes pretos. Capacete de ferro. Exigindo dinheiro. Helga tentando explicar. Um deles empurrando ela. Nox viu. Nox correu. Alguém segurou Nox. Alguém bateu em Nox.

    Arin sentiu o braço doer — o braço de Nox, onde uma cicatriz velha marcava a pele.

    O quê foi isso? Quando foi isso? O que aconteceu?

    — Nox? — Aldric chamou.

    Arin piscou.

    — Eu vou tomar cuidado — ele respondeu. A voz saiu estranha, distante.

    Aldric olhou por um momento, como se fosse dizer mais. Mas não disse. Apenas acenou com a cabeça.

    — Vão. E não deixa Jasper comer tudo no caminho.

    — Eu não vou comer! — Jasper protestou.

    — Você sempre come.

    — Dessa vez não.

    — Dessa vez sim.

    Arin saiu da venda. Jasper atrás. A porta rangeu ao fechar.

    ━═✧═━

    O sol estava mais alto agora. A luz estava mais branca, mais quente. As sombras das casas encolheram contra as paredes.

    Arin andou em direção a casa. Os pés de Nox — as botas de couro — pisavam na terra batida com passadas firmes. O saco de farinha pesava no braço. Os outros pacotes balançavam.

    Jasper estava ao lado, quase colado, as velas enroladas em palha debaixo do braço.

    — Nox — o menino chamou.

    — Hum?

    — O que o Tio Aldric quis dizer? Com “tomar cuidado”?

    Arin não respondeu imediatamente. A memória ainda estava ali, latejando. Soldados. Uniformes pretos. Helga sendo empurrada. Nox correndo.

    O que aconteceu naquele dia? Por que eu não consigo lembrar direito?

    — Coisas de gente grande — Arin respondeu finalmente.

    Jasper fez careta.

    — Você sempre fala isso.

    — Porque é sempre verdade.

    Eles continuaram andando em silêncio. A vila passava ao redor deles — as casas, as galinhas, o cachorro magro debaixo da carroça, uma mulher pendurando roupas no varal, um homem consertando o telhado com martelo e pregos.

    O martelo bateu. TOC. TOC. TOC.

    O som ecoou na rua.

    Arin sentiu uma pontada na mão — a mão direita. Não dor, memória.

    O martelo. O ferro. A bigorna. O fogo da forja. Nox acertando o ferro, virando, acertando de novo. O suor escorrendo pela testa. As faíscas voando.

    Ele balançou a cabeça. As memórias vinham cada vez mais rápido, cada vez mais fortes.

    Eu preciso de tempo. Tempo para pensar. Tempo para entender.

    ━═✧═━

    A casa apareceu no final da rua.

    Mesma fachada de madeira escura. Mesma porta rangente. Mesma janela com vidro grosso.

    Mas alguma coisa estava diferente.

    Arin parou.

    Jasper parou ao lado.

    — Nox? — o menino chamou, a voz confusa. — Por que você parou?

    Arin não respondeu.

    Ele estava olhando para a porta da frente.

    A porta estava aberta.

    Não entreaberta. Não encostada. Aberta. Escancarada.

    Fechamos a porta quando saímos. Eu vi. Eu ouvi o rangido. Eu ouvi o trinco.

    Arin deixou os mantimentos caírem no chão. O saco de farinha bateu na terra com um som abafado. O pote de banha rolou. As velas caíram da mão de Jasper.

    — Nox? — Jasper chamou de novo, a voz começando a tremer.

    — Fica aqui — Arin disse.

    A voz não era dele. Não era de Arin. Não era de Nox. Era uma mistura, uma terceira voz, uma voz que não tinha medo.

    Onde eu ouvi essa voz antes? Nunca. Mas parece certa.

    Arin andou em direção à porta. Cada passo era pesado, ecoava no peito. O coração batia rápido — tão rápido que ele sentia nas têmporas, nos pulsos, na garganta.

    Ele chegou na porta.

    Olhou para dentro.

    ━═✧═━

    A sala estava bagunçada.

    A mesa estava virada, os bancos espalhados, o pão que sobrou do café estava no chão, pisado. A jarra de água tinha caído e quebrado, os cacos espalhados pelo chão de pedra.

    E Helga estava no meio da sala.

    Ela estava de joelhos. O cabelo loiro — antes preso no coque apertado — estava solto, bagunçado, caindo sobre o rosto. O avental estava rasgado no ombro.

    Na frente dela, três homens.

    Soldados.

    Uniformes pretos. Capacetes de ferro com a viseira levantada. Espadas na cintura. Botas altas de couro até o joelho.

    O que estava na frente, o mais alto, tinha uma cicatriz no rosto que ia da testa ao queixo, atravessando o olho esquerdo — um olho branco, cego.

    Ele segurava uma bolsa de couro. A bolsa de Helga. O dinheiro.

    — A taxa não foi paga — o homem disse. A voz era calma. Aterrorizantemente calma. — O prazo venceu.

    Helga não respondeu. A cabeça estava baixa. Os ombros tremiam.

    — Eu perguntei — o homem continuou. Ele se inclinou, pegou o queixo de Helga com os dedos enluvados de ferro, forçando ela a olhar para cima. — A taxa não foi paga. O que você tem a dizer?

    Helga abriu a boca. Nenhum som saiu.

    Arin sentiu o sangue ferver.

    Não era raiva de Arin. Não era raiva de Nox. Era uma raiva antiga, profunda, que vinha de algum lugar que ele não sabia que existia.

    Ele deu um passo para dentro da sala.

    O piso de pedra rangeu sob a bota.

    Os soldados se viraram.

    A cicatriz no rosto olhou para ele. O olho bom — o direito — estreitou.

    — E você é quem?

    Arin abriu a boca. O nome veio sozinho.

    — Nox. Nox Siegfried.

    O soldado olhou para ele de cima a baixo. A armadura preta brilhou na luz que entrava pela janela.

    — O filho do ferreiro?

    — O filho do homem que morreu na mina — Arin respondeu.

    A voz não tremeu.

    O soldado não esperava por isso. Ele piscou. Apenas uma vez. Mas foi o suficiente.

    — A taxa — ele repetiu. — Não foi paga.

    — Minha mãe vai pagar — Arin disse. — Só não esta semana.

    — Não esta semana? — O soldado riu. Não era um riso de humor. Era um riso de quem já ouviu essa desculpa mil vezes. — A taxa venceu há três semanas. O comandante não vai esperar mais.

    Ele jogou a bolsa de Helga no chão. As moedas tiniam — poucas, pouquíssimas.

    — Isso não cobre nem metade.

    Helga finalmente levantou a cabeça. O rosto dela estava vermelho, marcado. Uma mancha roxa já nascia na maçã do rosto direito.

    — Nox… — ela sussurrou. — Vai para o seu quarto.

    — Não — Arin respondeu.

    Helga arregalou os olhos.

    — Nox…

    — Eu disse não.

    Arin deu mais um passo. Agora estava a menos de dois metros dos soldados.

    A cicatriz no rosto olhou para ele. O olho cego brilhou na penumbra.

    — Você tem coragem, garoto. Ou é burrice.

    — Um pouco dos dois — Arin respondeu.

    O soldado riu novamente. Mas dessa vez o riso foi diferente. Menos certeiro.

    Ele se endireitou. A armadura rangeu.

    — Vou dar mais uma semana. — Ele olhou para Helga. — Uma semana. Se o dinheiro não estiver na fortaleza até o sétimo dia, vamos voltar. E não vamos pedir.

    Ele olhou para Arin.

    — Cuidado com quem você enfrenta, garoto. Ferro quente não para balestra.

    ━═✧═━

    Os soldados saíram.

    As botas pesadas bateram no chão de pedra — TOC. TOC. TOC. — até sumirem na rua. O barulho dos cascos dos cavalos — porque eles tinham cavalos, Arin viu agora, dois animais escuros amarrados num poste na frente da casa — foi ficando mais distante.

    O silêncio voltou.

    Arin ficou parado no meio da sala. O coração batia tão rápido que ele sentia nas têmporas, nos pulsos, na garganta. As mãos tremiam. O suor escorria pelas costas, frio, grudando a camisa de linho na pele.

    Eles poderiam ter matado ela. Eles poderiam ter matado todos nós.

    Helga continuava de joelhos. Os ombros tremiam. O cabelo loiro — antes preso num coque apertado — estava solto, bagunçado, caindo sobre o rosto. O avental estava rasgado no ombro. A mancha roxa na maçã do rosto direito já estava mais escura, quase preta.

    Jasper apareceu na porta. Os olhos castanhos estavam cheios de lágrimas, mas ele não chorava. O queixo tremia. As velas de palha ainda estavam apertadas contra o peito, como se fossem um escudo.

    — Mãe… — o menino sussurrou.

    Helga não respondeu.

    Arin olhou para a porta aberta, para a rua de terra, para o fim da rua, onde os soldados tinham virado a esquina.

    Ele ia ajudar Helga a levantar. Ia falar alguma coisa. Ia dizer que estava tudo bem, que eles foram embora, que ninguém estava morto.

    Mas ele não fez nada disso.

    Porque foi nesse momento que ele viu.

    ━═✧═━

    No chão, perto da porta, alguma coisa tinha caído.

    Uma luva.

    Uma luva de couro preto, com detalhes em prata nas costas. Devia ter caído do cinto de um dos soldados quando eles saíram — ou talvez tivesse caído durante a confusão. Não importava.

    Arin se aproximou. Agachou-se. Pegou a luva.

    O couro era macio, bem tratado — não era couro comum. Era couro de alta qualidade, costurado à mão com linha grossa e resistente. O cheiro era forte — couro, graxa, suor, e algo metálico, como sangue seco.

    Ele virou a luva.

    No dorso, gravado na prata, um emblema.

    Uma águia de duas cabeças. Acima da águia, uma coroa. Abaixo, uma espada cruzada com um cetro.

    Eu conheço esse emblema.

    O pensamento veio rápido, antes que ele pudesse controlar.

    Eu conheço esse emblema. Eu…

    A memória não veio como as outras — fragmentada, confusa, aos pedaços. Veio completa. Clara. Absolutamente nítida.

    ━═✧═━

    Arin, sentado no computador. Madrugada. O café já estava frio. A tela do monitor brilhava no escuro. Ele estava desenhando — não com o mouse, com uma caneta digital, num tablet velho que ganhou de Rheiner num aniversário. O desenho era um emblema. Uma águia de duas cabeças, uma coroa, uma espada cruzada com um cetro.

    “É o emblema do Reino de Eldoria”, ele murmurou para si mesmo, enquanto salvava o arquivo. “Os soldados do exército regular usam no peito e nas luvas.”

    ━═✧═━

    Arin soltou a luva como se queimasse.

    Ela caiu no chão de pedra com um som seco — PLOC.

    Ele recuou um passo. Depois outro. As botas de couro bateram no chão. O calcanhar esfregou contra a sola.

    O Reino de Eldoria. Eu criei o Reino de Eldoria. Eu criei a águia de duas cabeças. Eu criei os soldados. Eu criei as roupas. Eu criei…

    Espere. Espere. Isso não significa nada. Eu posso ter criado, mas isso não significa que…

    Ele não terminou o pensamento.

    Porque Helga se mexeu.

    Ela levantou a cabeça. O olho direito — o que não estava roxo — olhou para ele.

    — Nox? — a voz dela era um sussurro rouco. — O que foi? Você está branco.

    Arin não respondeu.

    Ele virou as costas para ela, para Jasper, para a sala bagunçada, para a mesa virada, para o pão pisado no chão.

    Andou até a porta.

    A luz do lado de fora era forte — mais forte do que antes. O sol estava alto. Quase meio-dia.

    Ele saiu.

    A rua de terra estava vazia. As pessoas tinham se escondido quando os soldados chegaram. As portas estavam fechadas. As janelas, tapadas. Ninguém queria ver. Ninguém queria testemunhar.

    Arin levantou a cabeça.

    E olhou para o céu.

    ━═✧═━

    O céu estava azul.

    Não azul como o céu do Brasil. Não aquele azul claro, quase branco nos dias quentes de verão.

    Era um azul diferente. Mais profundo, mais denso. Como tinta.

    E no meio daquele azul…

    Dois sóis.

    Não um. Dois.

    Um maior, dourado, ofuscante, exatamente onde o sol deveria estar. O outro, menor, mais pálido, quase branco, deslocado para a esquerda, como se tivesse se atrasado para o encontro.

    Arin arregalou os olhos. A boca se abriu. Fechou. Abriu de novo.

    Dois sóis. Dois sóis. Isso não é possível. Isso não existe. Isso não…

    Ele forçou os olhos a se ajustarem. A luz dos dois sóis era estranha — as sombras eram duplas, desencontradas, como se o mundo estivesse ligeiramente fora de foco. A rua de terra tinha duas sombras de cada objeto — uma mais escura, outra mais clara, uma ligeiramente deslocada em relação à outra.

    Ele olhou para cima novamente.

    Entre os dois sóis, tênues, quase invisíveis contra o azul profundo, ele viu as luas.

    Três.

    Três luas.

    Não eram círculos perfeitos como a lua que ele conhecia. Eram formas irregulares — uma redonda, outra oval, outra quase triangular — todas pálidas, todas vazias, todas observando.

    Três luas. Dois sóis. Isso não é a Terra. Isso não é o Brasil. Isso não é nenhum lugar que eu conheço.

    Isso é…

    O pensamento veio como um trovão.

    ━═✧═━

    “O céu de A Terra das Sombras tem dois sóis e três luas. O maior sol é chamado Ael. O menor, Solis. As luas são Nyx, Selene e Eos. Nyx é a redonda. Selene é a oval. Eos é a quase triangular.”

    Arin tinha escrito isso. Há anos, no primeiro livro, na descrição do mundo. Tinha passado horas pesquisando como seriam dois sóis no céu, como as sombras se comportariam, como as estações funcionariam. Tinha lido artigos, visto simulações, feito anotações.

    E agora estava vendo.

    Com os próprios olhos. Com os olhos de Nox.

    ━═✧═━

    O coração de Arin parou por um segundo.

    Não de medo. De compreensão.

    Dois sóis. Três luas. Soldados com o emblema que eu desenhei. Roupas que eu criei. Um reino que eu inventei. Uma taxa que eu escrevi no enredo.

    Eu estou em A Terra das Sombras. Eu estou dentro do meu próprio livro.

    A certeza veio como uma avalanche. Pesada, devastadora, irreversível.

    Ele não sabia como, não sabia por quê, não sabia se era real ou loucura ou um sonho dentro de um pesadelo.

    Mas sabia que era verdade.

    Arin olhou para as próprias mãos. As mãos de Nox. Calejadas, sujas, pequenas demais para serem as dele.

    Eu não sou Nox. Eu sou Arin. Eu sou Arin dentro de Nox. Dentro de A Terra das Sombras. Dentro do mundo que eu criei.

    Ele riu.

    Foi um riso baixo, quase inaudível. Um riso de quem está à beira de enlouquecer.

    — Nox? — a voz de Jasper veio de trás. — O que você está olhando?

    Arin não respondeu.

    Ele continuou olhando para o céu. Para os dois sóis. Para as três luas.

    Eu escrevi isso. Cada estrela, cada nuvem, cada sombra dupla no chão. Eu inventei tudo.

    E agora eu estou aqui.

    Por quê? Como? Para quê?

    A esfera disse alguma coisa. No branco infinito, antes da escuridão.

    “Essa seria a sua chance. De fazer a vida que você realmente gostaria de ter.”

    Arin fechou os olhos.

    A vida que ele realmente gostaria de ter. O que eu realmente quero? Eu nunca soube.

    Talvez seja hora de descobrir.

    Ele abriu os olhos.

    O céu com dois sóis e três luas continuava lá. Imutável, indiferente, real demais para ser um sonho, absurdo demais para ser verdade.

    Eu estou em A Terra das Sombras. Eu estou dentro do meu próprio livro.

    E a única maneira de sobreviver…

    …é usando o que eu sei.

    ━═✧═━

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