Capítulo 23 │A Partida
Helga levantou-se.
Foi até o armário da cozinha. A porta de madeira rangeu — um rangido grave, diferente dos outros rangidos da casa. Era o rangido das dobradiças enferrujadas, das tábuas que empenaram com o tempo, do ferro que não via óleo há meses.
Ela começou a tirar coisas de dentro.
Uma sacola de couro. Não era nova — o couro estava escuro de uso, as costuras grossas e irregulares, algumas remendadas com barbante. Arin reconheceu a sacola. Era a mesma que Helga usava para levar comida para a estalagem nos dias em que não tinha tempo de voltar para casa.
Um pedaço de carne seca embrulhada em pano. O pano estava manchado — gordura, sangue seco, sal. A carne seca era escura, dura, com veias brancas de gordura.
Um punhado de ervas amarradas com barbante. Arin não sabia o que eram. Cheiravam a menta e alguma coisa amarga.
Uma faca pequena — não a faca de trabalho que Arin tinha no baú, mas uma faca de cozinha. Lâmina curta, ponta levemente curvada, cabo de madeira clara desgastado pelo uso.
Helga empurrou tudo para Arin.
— Leva isso.
— Mãe… — Arin começou.
— Não discute. — A voz dela estava calma, mas Arin ouviu o tremor escondido. — A carne seca dá para dois dias. As ervas são para chá. A faca é para cortar o que precisar.
— Eu já tenho uma faca.
— Leva duas.
Arin não discutiu. Guardou tudo na sacola de couro. Amarrou os cordões. Colocou no ombro. O peso era estranho. Não o peso dos objetos — o peso da despedida.
Helga olhou para Elena.
— Você tem armas? — perguntou.
— Tenho. — Elena foi até a mala enorme no canto da sala. A mala de couro, abarrotada, com fivelas de latão e roupas coloridas espiando pelas bordas. Ela abriu as fivelas — uma, duas, três — e levantou a tampa.
Dentro, roupas dobradas. Livros. Alguns papéis amassados. Uma bolsa pequena de moedas — vazia, Arin percebeu. E uma bainha de couro preto.
Ela tirou a bainha. Abriu. Dentro, três facas. Não eram facas de cozinha. Eram facas de arremesso. Lâminas finas, pontiagudas, com detalhes prateados nos cabos. O metal brilhou na luz da manhã — um brilho frio, preciso, mortal.
Helga examinou. Pegou uma, testou o peso na mão. Aprovou com um aceno.
— Pelo menos você não vai desarmada.
— Não vou. — Elena guardou as facas de volta na bainha. Fechou a mala. As fivelas de latão estalaram — clic, clic, clic.
Helga olhou para Arin novamente.
— O ferreiro ainda tem aquele cavalo velho?
— O Relâmpago? — Arin franziu a testa. — O Tiago não vai emprestar. Ele disse que o cavalo é a única herança que o pai deixou.
— Não é para emprestar. É para comprar.
Arin arregalou os olhos.
— Mãe…
— A gente tem dinheiro agora. — Helga foi até o baú dela — o baú pequeno, de madeira escura, com as dobradiças enferrujadas. Tirou uma chave do bolso do avental. Abriu o baú. Tirou algumas moedas de prata. — Das que sobraram da venda dos dentes.
Ela entregou as moedas para Arin. As moedas tilintaram na palma da mão dele — um som seco, metálico, definitivo.
— Compra o cavalo — Helga disse. — Vocês vão mais rápido. Menos tempo na estrada.
— Mãe, o Relâmpago é…
— Velho. Eu sei. — A voz dela não vacilou. — Mas ainda anda. E é manso. Não vai jogar vocês no chão.
Arin olhou para as moedas na palma da mão.
É o dinheiro que sobrou, pensou. O dinheiro que ia comprar telhas novas. O dinheiro que ia consertar o telhado.
Ela está dando tudo para mim. Ela está apostando tudo em mim.
Ele guardou as moedas no bolso. Não disse nada. Não havia o que dizer.
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A despedida do Tiago foi rápida.
O curral ficava nos fundos da vila, perto do início da floresta. A cerca baixa de madeira estava meio caída em um dos lados — um dos postes tinha apodrecido com a chuva, e Tiago ainda não tinha conseguido substituir.
Relâmpago estava no mesmo lugar de sempre. Pastando devagar. A crina grossa e embaraçada — cheia de nós, folhas secas, pequenos galhos. O pelo marrom-escuro estava manchado de terra em alguns lugares. A mancha branca no olho esquerdo observava o mundo com uma indiferença quase filosófica.
Tiago estava consertando a cerca — a parte que não tinha caído. Martelando um prego torto numa tábua frouxa. O martelo batia — TOC, TOC, TOC — um som seco, ritmado, que ecoava no pasto vazio.
— Nox — Tiago disse, sem se virar. — Veio ver o cavalo de novo?
— Vim comprar.
Tiago parou de martelar. Virou-se. Os olhos claros — azuis, quase transparentes, com rugas nos cantos de tanto apertar contra o sol — examinaram Arin de cima a baixo. Depois examinaram Elena. Depois voltaram para Arin.
— Com quê? — perguntou.
Arin mostrou as moedas.
Tiago olhou para as moedas. Olhou para o cavalo. Olhou para Elena novamente. Elena não se mexeu. Apenas cruzou os braços e sustentou o olhar.
— O cavalo é velho — Tiago disse.
— Eu sei.
— Manco.
— Eu sei.
— Não serve para guerra.
— Não quero guerra. — Arin apertou as moedas na mão. — Quero viagem.
Tiago ficou em silêncio por um longo momento. O vento balançou as folhas das árvores. O cavalo piscou lentamente.
— Pra onde? — Tiago perguntou.
— Graventhal.
Tiago assobiou baixo.
— Longe.
— Eu sei.
— O cavalo vai sofrer.
— A gente cuida dele.
Tiago olhou para Elena novamente.
— Você sabe cavalgar?
— Sei. — Elena respondeu sem hesitar.
— E você? — Tiago perguntou para Arin.
— Aprendo.
Tiago bufou. Não era um riso. Era uma concordância.
— Levem o cobertor — ele disse, apontando para uma manta de lã grossa jogada em cima da cerca. — Ele sente frio à noite. Velho, né.
— Obrigado — Arin disse.
— Não precisa agradecer. — Tiago guardou as moedas no bolso da calça. O couro da carteira rangeu. — Só não voltem com ele cansado demais. Se ele cair, não levanta mais.
Tiago voltou a martelar. TOC. TOC. TOC. O som ecoou no pasto vazio.
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Arin se aproximou do cavalo.
Relâmpago não se mexeu. Apenas virou a cabeça devagar — muito devagar, como se o movimento exigisse um esforço descomunal — e olhou para ele. A mancha branca no olho esquerdo parecia estar julgando. E desaprovando.
— Relâmpago — Arin chamou.
O cavalo não respondeu.
— Ele não gosta do nome — Tiago comentou, sem parar de martelar.
— Como você sabe? — Arin perguntou.
— Ele me contou.
Arin suspirou.
Mais um, pensou. Mais um que conversa com animais. Primeiro Jasper com as galinhas. Agora Tiago com o cavalo. Nessa vila, todo mundo é meio doido.
Ele pegou o cobertor — a manta de lã grossa, cheirando a fumaça e suor de cavalo — e colocou sobre o lombo do animal. O cavalo não reagiu. Apenas baixou a cabeça e continuou pastando.
Elena ajudou a prender a manta com as correias de couro. Os dedos dela se moviam rápidos, eficientes, como quem já fez isso mil vezes. Arin observou.
Ela cresceu no campo, pensou. Aprendeu a cavalgar com o tio. Aprendeu a jogar facas. Aprendeu a sobreviver.
O tio Albannir. Irmão do rei…
Será?
Arin guardou o pensamento. Não disse nada.
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Elena montou primeiro.
Colocou o pé esquerdo no estribo, impulsionou o corpo, e subiu na sela com um movimento fluido, contínuo, quase gracioso. O cavalo não se mexeu. Talvez estivesse acostumado. Talvez estivesse dormindo em pé.
Arin montou depois. Foi menos gracioso. Ele colocou o pé no estribo, puxou o corpo, e quase caiu do outro lado. Elena segurou o braço dele no último segundo.
— Segura firme — ela disse.
— Tô segurando.
— Mais firme.
Ele apertou. Os dedos dele cravaram na túnica de couro dela.
Elena tocou os calcanhares no flanco do cavalo. Relâmpago deu um passo. Depois outro. Depois começou a andar. Devagar. Muito devagar. Como se estivesse atravessando um campo de melado.
— Ele vai correr? — Arin perguntou.
— Talvez amanhã — Elena respondeu. — Se o vento estiver a favor.
Arin suspirou.
Uma semana, pensou. Uma semana nesse cavalo. Vai ser longo.
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A casa apareceu no final da rua.
A mesma fachada de madeira escura. A mesma porta rangente. A mesma janela com vidro grosso.
Helga estava na porta. Os braços cruzados. O cabelo loiro preso no coque de sempre. O avental de couro ainda manchado de farinha.
Jasper estava ao lado dela. Descalço. A camisa para fora da calça. Os olhos castanhos vermelhos — não de choro, da ameaça de choro.
Arin desmontou. Os pés tocaram a terra batida. O barulho foi seco — toc. O cavalo não se mexeu. Apenas esperou.
Arin andou até a porta. Cada passo era pesado. Cada passo ecoava no peito. A rua de terra. As casas. O cachorro magro debaixo da carroça. As galinhas ciscando. O cheiro de terra molhada e madeira velha.
Ele chegou na porta.
Helga olhou para ele. Os olhos azuis escuros estavam secos. Ela não ia chorar. Não na frente dele.
— Vai — ela disse.
Não era um pedido. Era uma ordem.
— Mãe…
— Vai, Nox. — A voz dela falhou. Apenas um pouco. Apenas no final da palavra. — E volta. O mais rápido que puder.
— Vou.
Jasper se jogou no pescoço dele. Os braços magros apertaram com uma força que surpreendeu. O rosto do menino enterrou no ombro de Arin. O cabelo loiro bagunçado roçou no rosto de Arin — cheirava a sabão de cinza e sol e infância.
— Você prometeu — Jasper sussurrou. A voz estava abafada, trêmula.
— Prometi.
— Não quebra promessa.
— Nunca quebro.
Jasper apertou mais forte. Por um segundo, Arin achou que ele não ia soltar. Mas soltou. Se afastou. O rosto estava vermelho. Os olhos castanhos brilhavam. O queixo tremia. Mas ele não chorou.
Não chora, pensou Arin. Aprendeu com Helga. Todos eles aprenderam a não chorar.
Helga não disse nada. Apenas colocou a mão no ombro de Jasper e puxou ele para perto.
Arin montou no cavalo.
Elena tocou os calcanhares no flanco.
Relâmpago deu um passo. Depois outro.
Arin olhou para trás. Helga e Jasper ainda estavam na porta. Helga com o braço em volta do ombro de Jasper. Jasper com a mão erguida. Acenando.
Arin ergueu a mão. Acenou de volta.
A rua de terra ficou para trás. As casas ficaram para trás. O poço. A estalagem. A venda do Aldric. O curral do Tiago. Tudo ficou para trás.
Jasper ficou menor. E menor. E menor.
Até que a rua virou. E a casa desapareceu.
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O caminho para Graventhal passava pela floresta.
A mesma floresta onde Arin tinha enfrentado as serpentes. Onde tinha visto um homem ser comido vivo. Onde o garoto de branco tinha aparecido do nada e salvado a vida dele.
Agora a floresta estava silenciosa. Muito silenciosa.
As copas das árvores formavam um teto verde, denso, quase escuro. A luz dos dois sóis diminuía à medida que se aprofundavam. As sombras duplas dançavam no chão coberto de folhas — uma mais escura, outra mais clara, uma ligeiramente deslocada em relação à outra.
Arin ainda podia ver o rosto de Jasper acenando. Ainda podia sentir os braços magros apertando o pescoço.
Isso vai passar, pensou. A saudade. O aperto no peito. O medo. Vai passar. Tem que passar.
— Está nervoso? — Elena perguntou.
— Um pouco — Arin respondeu.
— Você não precisa fingir que não.
— Não estou fingindo.
— Está sim. Seu corpo está tenso.
Ela tinha razão. Arin sentiu os ombros rígidos, as mãos apertadas na cintura dela, os dedos dormentes de tanto segurar. Ele tentou relaxar. Não conseguiu.
A floresta se fechou ao redor deles. O silêncio apertou.
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Arin ficou em silêncio por um longo tempo. Apenas observando as árvores passarem. Os troncos grossos, cobertos de musgo verde e cinza. Os galhos retorcidos que pareciam braços. As sombras que se mexiam com o vento.
Preciso saber, pensou. Preciso saber em que ano estou. Quanto tempo falta. Se ainda dá tempo.
Ele olhou para a nuca de Elena. O cabelo loiro balançava no ritmo do cavalo. Ela não estava olhando para ele. Não podia ver o rosto dele. Não podia ver a expressão.
— Elena — ele chamou.
— Hum?
— Em que ano estamos?
Ela demorou um pouco para responder. Não porque não soubesse — porque a pergunta era estranha. Quem não sabe em que ano está?
— Por que você quer saber? — ela perguntou, sem se virar.
— Só… curiosidade. — A mentira saiu fraca, mas era a única que ele tinha. — Nunca saí de Oakhaven. Nunca precisei saber o ano.
Ela ficou em silêncio por um momento. Arin sentiu os ombros dela relaxarem ligeiramente — ela aceitou a explicação.
— Estamos no ano 1327 da Era dos Reinos — disse. — Pelo menos é o que consta nos documentos do meu tio. Por quê?
1327.
O número não significou nada para Arin — não de imediato. Mas algo na mente dele, alguma memória enterrada dos livros que ele mesmo tinha escrito, começou a se mover.
1327. Ele conhecia aquela data.
Ele fechou os olhos. Deixou as memórias virem.
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Arin, sentado no computador. Madrugada. O café já estava frio há horas. Anotações espalhadas pela mesa — páginas amareladas, post-its colados no monitor, um calendário rabiscado com caneta vermelha. Ele está planejando a linha do tempo.
O lápis na mão. A borracha ao lado. O gráfico de eventos que ele desenhou num papel almaço. “A queda de Eldoria” está escrito no centro, em letras maiúsculas, sublinhado três vezes.
Ele traça setas. Liga eventos. Calcula anos.
“Eldoria cai em 1328.”
Ele escreve a data. Sublinha novamente. “Não é no meio da saga. É antes. Muito antes. É o evento que desencadeia tudo.”
Ele faz uma pausa. Lê de novo. Anota ao lado: “Os invasores vêm do norte. O reino inimigo ataca sem aviso. Eldoria não está preparada. Ninguém está preparado.”
“Em 1327, os soldados inimigos já estão se infiltrando. Já estão matando. Já estão queimando vilas no interior. Ninguém sabe. Ninguém vê. O reino está dormindo.”
Ele vira a página. Desenha uma linha do tempo. “1327 → invasões começam (em segredo).” “1328 → queda de Eldoria (massacre total).”
Ele faz uma pausa. Olha para o calendário na parede. Conta os meses.
“De agora até o massacre… faltam sete meses.”
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Arin abriu os olhos.
O coração estava acelerado. A respiração estava curta. O suor frio brotou na testa — mesmo com o vento fresco da floresta batendo no rosto.
Sete meses. Faltam sete meses.
Ele não sentiu o cavalo andar. Não sentiu o vento. Não sentiu os galhos roçando nos ombros. Só sentiu o peso da informação.
Sete meses. Não anos. Não décadas. Sete meses.
Todo mundo vai morrer. Helga. Jasper. O Tiago. O Aldric. A mulher da fonte. O homem do forcado. As crianças que correm atrás da bola de couro esfarrapada.
Todos.
Arin apertou as mãos na cintura de Elena. Os dedos cravaram na túnica de couro.
— Nox? — Elena chamou, sentindo a pressão. — Está tudo bem?
— Tudo — ele respondeu. A voz saiu estranha, distante, rouca. — Só… só pensando.
— Pensando no quê?
— No futuro.
Ela não perguntou mais.
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A floresta continuava ao redor deles. As árvores passavam. As sombras duplas dançavam no chão.
Arin não via mais nada. Via apenas as memórias.
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Arin, sentado no computador. Diferente da outra vez. Agora ele está pesquisando. Lendo os próprios livros. Relendo passagens que ele mesmo escreveu anos atrás.
A Expedição do Norte. A Busca pelo Artefato. O Massacre de Oakhaven.
Ele lê em voz baixa, a tela do monitor iluminando o rosto.
“Oakhaven foi uma das primeiras vilas a cair. Os soldados do reino inimigo chegaram ao amanhecer. Queimaram as plantações. Invadiram as casas. Mataram todos que encontraram.”
Ele vira a página. “Não houve sobreviventes. Homens, mulheres, crianças — todos foram mortos. As famílias que ali viviam há gerações foram exterminadas em poucas horas.”
Ele para. Respira fundo. “Relatos dão conta de que algumas crianças tentaram se esconder. Foram encontradas dias depois, mortas de fome e medo, abraçadas umas às outras nos porões e baús das casas destruídas.”
Arin sentou na cadeira. Apoiou a cabeça nas mãos.
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A memória doeu mais do que Arin esperava.
Porque agora não eram palavras em uma página. Eram pessoas. Famílias.
Ele pensou em Helga — a mulher que trabalhava até cair, que limpava o sangue do rosto do filho sem chorar, que dormia com o joelho machucado e não reclamava.
Ele pensou em Jasper — o menino de oito anos que corria descalço na rua de terra, que ria com a boca cheia de pão, que se enfiava debaixo da coberta de Nox nas noites de pesadelo.
Ele pensou em todas as outras famílias da vila. O Tiago, com seu cavalo velho e seu senso de humor seco. O Aldric, com o cachimbo no canto da boca e os doces de mel que dava de graça para o Jasper. A mulher da fonte, com o balde de madeira na mão. O homem do forcado, que enfrentou os soldados com uma ferramenta de fazenda.
Todas aquelas famílias anônimas que ele tinha descrito em uma frase, pensou Arin. “Homens, mulheres, crianças — todos foram mortos.”
Era só uma frase. Uma frase de impacto. Uma frase para mostrar a crueldade do inimigo. Uma frase para motivar os heróis.
E agora ele estava dentro daquela frase.
E as famílias anônimas tinham nomes. Tinham rostos. Tinham vozes. Tinham medo.
E iam morrer. Em sete meses.
E ninguém sabia. Ninguém, exceto ele.
Ele apertou os braços em volta da cintura de Elena.
— Mais firme? — ela perguntou.
— Mais firme.
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O silêncio se estendeu.
A floresta continuava ao redor. As árvores. As sombras. O caminho de terra batida que se perdia no horizonte.
Arin pensou na Expedição do Norte. O primeiro evento principal da saga.
Dez anos, pensou. A saga principal acontece dez anos depois. Em 1337. Aquele reino vai se reunir. Eles vão viajar para o norte. Vão lutar contra o inimigo. Vão…
Mas Eldoria vai cair antes.
Em 1328. Sete meses.
Oakhaven vai ser destruída. Famílias inteiras vão ser exterminadas. Crianças vão se esconder em porões e baús. Vão morrer de fome e medo. Abraçadas umas às outras. Como ele tinha escrito. Como ele tinha imaginado.
E agora ele ia ver. Ia estar lá. Ia ouvir os gritos. Ia sentir o cheiro da fumaça. Ia ver os corpos.
Não importa o que os heróis façam depois. Não importa se eles vencem. Não importa se o mundo é salvo. Porque, para as pessoas desta vila, o fim chega em sete meses. E ninguém sabe. Ninguém, exceto ele.
Ele, o criador. O escritor. O deus esquecido dentro do próprio livro.
O que ele podia fazer? Ele não era um herói. Não tinha uma espada mágica. Não tinha um exército. Não tinha poder.
Mas ele tinha informação. Sabia o que ia acontecer. Sabia quando ia acontecer. Sabia onde os invasores iam atacar primeiro.
E isso… isso tinha que servir para alguma coisa. Não podia ser só para tortura. Não podia ser só para ele saber e não poder fazer nada.
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— Nox? — Elena chamou. — Você está muito quieto.
— Estou pensando.
— Pensando no quê?
— No que vem depois.
Ela não perguntou o que significava “depois”. Apenas assentiu, os ombros relaxando ligeiramente.
— Vai dar certo — ela disse.
— Como você sabe?
— Não sei. — Elena olhou para o céu, para os dois sóis que começavam a descer no horizonte. — Mas tenho que acreditar. Se não, para que continuar?
Arin não respondeu.
Ela tem razão, pensou. Se não acreditar, para que continuar? Sete meses. É tempo suficiente. Tem que ser.
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O sol maior começava a se pôr quando a floresta começou a rarear.
As árvores ficaram mais espaçadas. A luz ficou mais forte. As sombras duplas ficaram mais nítidas no chão.
A estrada se abriu à frente — um caminho de terra batida, ladeado por campos vazios, com montanhas recortadas no horizonte.
Graventhal ficava do outro lado daquelas montanhas. Longe. Mas mais perto do que antes.
Arin olhou para trás. Oakhaven já não era visível. Apenas a floresta, as árvores, as sombras.
Vamos, pensou. Vamos em frente. Não tem volta. Não agora.
Ele apertou os braços em volta da cintura de Elena mais uma vez. Não por medo. Por determinação.
Sete meses, pensou. Vamos tentar salvar o que der.
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