Capítulo 25 │Eu, Ela e o Caçador
Os passos não eram apressados.
Eram medidos. Calculados. Uma pausa entre um e outro, como se quem caminhasse estivesse escutando também.
Arin se levantou devagar. A mão foi para a faca no cinto. O couro da bainha rangeu — um som pequeno, mas que na floresta silenciosa pareceu um trovão.
Elena também se levantou. Os olhos azuis estavam fixos na direção do som. A mão dela foi para a capa, onde as facas de arremesso estavam escondidas.
— Se for animal, não corre — ela sussurrou. — Se for gente, não corre também.
— Por que não?
— Porque correr mostra medo. E medo atrai coisas piores.
Arin não perguntou o que eram “coisas piores”. Não queria saber.
Os arbustos à frente se mexeram.
Uma figura emergiu da vegetação.
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Ele era alto — mais alto do que Arin esperava. O corpo era magro, mas não fraco. Havia músculo ali, definido, magro, como cordas sob a pele. Usava roupas de couro escuro, surradas, cheias de remendos, com manchas escuras nos punhos e no peito — suor, talvez. Ou sangue seco. Arin não conseguia distinguir no crepúsculo.
Uma capa verde-musgo cobria os ombros, puída nas bordas, com algumas folhas secas presas nas dobras. Nas costas, um arco curvo de madeira escura — não envernizada, polida pelo uso. A aljava pendia ao lado, cheia de flechas com pontas de metal escuro.
O rosto era moreno, queimado pelo sol, com rugas prematuras nos olhos e na testa — rugas de quem aperta os olhos contra o sol ou contra o vento. A barba era mal feita, rala em alguns lugares, mais grossa no queixo. O cabelo castanho claro estava preso num rabo de cavalo baixo, com algumas mechas soltas caindo sobre a testa.
Os olhos eram verdes.
Não verdes como folha, não verdes como grama. Eram verdes claros, quase translúcidos, como pedaços de vidro. Como gelo derretendo. Como se olhar para eles fosse olhar para algo que não estava ali.
Eles parou quando viu os dois.
Por um momento, ninguém se moveu.
O vento balançou as folhas. O cavalo fungou baixo. As três luas começavam a aparecer no céu — Nyx, a redonda, já brilhando forte; Selene, a oval, mais pálida; Eos, a quase triangular, pequena e distante.
— Vocês estão perdidos — ele disse.
Não era uma pergunta.
Arin sentiu um arrepio na espinha.
A voz do homem era calma — muito calma. Não tinha a urgência de quem encontra estranhos na floresta. Não tinha a curiosidade de quem quer ajudar. Era a voz de quem já sabia o que ia encontrar antes mesmo de encontrar.
Elena ergueu o queixo. A mão ainda estava na capa.
— Estamos.
O homem olhou para ela. Os olhos verdes percorreram o rosto dela — as sardas, o cabelo loiro, os olhos azuis. Demoraram um pouco mais do que deviam.
Arin sentiu a mão apertar a faca.
— Crianças sozinhas na floresta — o homem murmurou, como se estivesse pensando em voz alta. — Isso é perigoso.
— A gente sabe — Arin respondeu. A voz saiu mais firme do que ele se sentia.
O homem olhou para ele. Os olhos verdes brilharam. Não era um brilho de curiosidade. Era outra coisa. Avaliação. Cálculo.
— Você não é daqui — disse.
— Oakhaven.
— Longe. — Ele fez uma pausa. Os olhos desceram para as mãos de Arin — calejadas, sujas — e para a faca no cinto. — Estão indo para onde?
— Graventhal — Elena respondeu.
O homem assobiou baixo. Foi um som longo, grave, que ecoou entre as árvores.
— Mais longe ainda. — Ele olhou ao redor, para as árvores, para o teto verde que mal deixava passar a luz. — E estão perdidos no meio da Floresta Antiga.
— Floresta Antiga? — Arin repetiu.
— É o nome que os caçadores dão a essa parte. — O homem se aproximou um passo. Os passos eram leves, silenciosos, como se ele fizesse parte da floresta. As botas de couro não faziam barulho nas folhas secas. — As árvores aqui são antigas. Os caminhos mudam. Quem não conhece, se perde.
— E você conhece? — Elena perguntou.
O homem sorriu.
Foi um sorriso pequeno, rápido, que não tocou os olhos. Apenas os lábios se curvaram — nada mais.
— Conheço.
— Quem é você? — Arin perguntou.
O homem inclinou a cabeça. A avaliação continuou.
— Me chamo Harry. Caçador. — Ele bateu no arco nas costas. — Sigo as trilhas antigas. Conheço cada riacho, cada clareira, cada árvore caída.
— Mora onde? — Elena perguntou.
— Na vila de Galanis. Fica a dois dias daqui. É a última vila antes das montanhas. Depois de Galanis, é só Graventhal.
Arin e Elena trocaram um olhar.
— A gente precisa chegar em Graventhal — Elena disse.
— Eu sei. Todo mundo que passa por Galanis quer chegar em Graventhal.
— E você pode nos levar?
Harry olhou para eles por um longo momento. Os olhos verdes percorreram o rosto de Elena, as sardas, o cabelo loiro. Depois o rosto de Arin, as mãos calejadas, a cicatriz no supercílio, a faca no cinto.
O silêncio se estendeu. As três luas brilhavam lá em cima. O vento balançava os galhos.
— Posso — ele disse finalmente. — Mas não hoje. Está escurecendo. A noite na Floresta Antiga não é lugar para crianças.
— A gente já acampou — Arin disse.
— Acampou onde?
— Numa clareira. Nos primeiros dias.
Harry balançou a cabeça. Foi um movimento lento, como se ele já tivesse ouvido aquilo muitas vezes.
— Clareira de primeira noite é diferente de clareira de Floresta Antiga. Aqui os animais são maiores. E mais esfomeados.
Elena pareceu hesitar. A mão dela, que estava na capa, relaxou um pouco.
— O que você sugere? — ela perguntou.
— Conheço uma pousada. Não fica longe. É um lugar… diferente. Mas é seguro.
— Diferente como? — Arin perguntou.
Harry sorriu.
Dessa vez, o sorriso tocou os olhos.
Mas não foi um sorriso que deixou Arin aliviado.
Foi um sorriso que o fez apertar a faca com mais força.
— Você vai ver.
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Harry caminhava na frente.
Não guiava o cavalo — apenas andava, com passos largos e seguros, como se conhecesse cada centímetro da floresta. O arco nas costas balançava no ritmo da caminhada. A aljava tilintava baixo — as pontas de metal das flechas se encostando umas nas outras.
Arin e Elena seguiam no cavalo, atrás.
— Não gosto dele — Elena sussurrou, sem mover os lábios.
— Também não — Arin respondeu.
— Mas não temos escolha.
— Eu sei.
Harry não se virou. Mas Arin teve a impressão de que ele tinha ouvido.
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A pousada surgiu do meio das árvores como uma miragem.
Era uma construção antiga — muito antiga. As pedras eram escuras, quase pretas, cobertas de musgo verde e cinza. Trepadeiras grossas como braços subiam pelas paredes, algumas entrando pelas frestas das janelas. O telhado era de telhas vermelhas, desbotadas pelo sol e pela chuva, com algumas substituídas por tábuas de madeira escura. A chaminé era torta, como se estivesse prestes a cair — mas não caía.
Uma placa de madeira pendia acima da porta, balançando lentamente com o vento. O nome estava desbotado, quase ilegível, mas Arin conseguiu ler:
“POUSADA DO VIAJANTE PERDIDO”
— Criativo — ele murmurou.
— O dono tem senso de humor — Harry disse, amarrando o cavalo em um poste de madeira podre. — Ou falta de esperança. Depende do dia.
Elena olhou para a pousada com uma expressão estranha. Não era medo. Era curiosidade. Mas uma curiosidade cautelosa, como quem está entrando em um lugar que não deveria existir.
— Lugar místico? — ela perguntou.
— As pessoas dizem que sim. — Harry deu de ombros. — Eu só sei que o quarto é seco, a comida é quente e o dono não faz perguntas.
— Parece bom o suficiente — Arin disse.
Entraram.
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A porta rangeu — um rangido grave, familiar.
Arin sentiu um calafrio.
Lembrou da primeira porta. No quarto estranho. No Entre-meio.
Não pensa nisso agora.
O interior da pousada era acolhedor — mas de um jeito estranho.
Uma lareira enorme ocupava a parede do fundo. As chamas dançavam alegremente, lançando sombras nas paredes de pedra. O cheiro de madeira queimada e ensopado de carne enchia o ar — um cheiro quente, reconfortante, que fazia a barriga roncar.
Mesas de madeira escura estavam espalhadas pela sala, algumas ocupadas por viajantes, outras vazias. Os viajantes eram poucos — um homem com capa cinza, encostado na parede, comendo sopa; uma mulher com cabelos grisalhos, mexendo em um mapa; um casal jovem, trocando palavras baixas.
Ninguém olhou para eles quando entraram.
Ninguém.
No balcão, um homem.
Ele era velho — muito velho. O cabelo era branco, ralo, penteado para trás, deixando ver a testa enrugada. A barba era comprida, também branca, manchada de amarelo no canto da boca — talvez tabaco, talvez gordura, talvez os dois. Os olhos eram escuros, pequenos, mas brilhantes — inteligentes. Vivos. Como se estivessem rindo de alguma piada que só ele conhecia.
Usava um avental de couro manchado de gordura, vinho, farinha e outras coisas que Arin não conseguia identificar. As mangas da camisa estavam arregaçadas até os cotovelos, mostrando braços finos, mas musculosos — braços de quem já carregou muito peso.
— Harry! — o velho exclamou, abrindo os braços. A voz era rouca, mas calorosa. — Trouxe mais almas perdidas?
— Trouxe — Harry respondeu, sentando-se no banco do balcão com um rangido de couro. — Eles estão indo para Graventhal.
O velho olhou para Arin e Elena.
Os olhos escuros os examinaram de cima a baixo. Demorou um pouco mais em Elena. Nas sardas. No cabelo loiro.
— Crianças — ele disse. — Sozinhas?
— Estamos acompanhadas — Elena respondeu, o queixo erguido.
O velho sorriu. Mostrou os dentes — amarelados, alguns faltando.
— Gosto dela. Tem atitude. — Ele bateu no balcão com a palma da mão. O som foi seco, alto, ecoou na sala vazia. — Dois quartos?
— Um — Arin disse. — A gente divide.
— Econômico. Ou sem dinheiro?
— Os dois.
O velho riu. Foi uma gargalhada rouca, que sacudiu a barriga por baixo do avental.
— Sinceridade. Gosto disso também. — Ele pegou duas chaves de um gancho na parede. As chaves eram grandes, de ferro escuro, com etiquetas de couro presas com barbante. — Quarto 7. No final do corredor. A sopa já já fica pronta. Sentem-se.
— Quanto custa? — Elena perguntou.
O velho olhou para ela. Os olhos escuros brilharam.
— A gente conversa amanhã. Agora vocês comem e descansam.
Ela abriu a boca para insistir. Arin tocou o braço dela.
— Amanhã — ele disse, baixo.
Ela fechou a boca.
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O quarto era pequeno, mas limpo.
Duas camas de madeira escura, com colchões de lã e cobertores grossos. Uma janela redonda dava para os fundos da pousada — um quintal com galinhas ciscando e um poço de pedra. Uma mesa encostada na parede, com uma jarra de água e duas canecas de barro. Um castiçal de ferro com uma vela queimada pela metade.
Arin sentou-se na cama. O colchão afundou sob seu peso — não muito, o suficiente.
Elena sentou-se na outra.
— Esse Harry — ela começou.
— O que tem ele?
— Não sei. — Ela franziu a testa. A linha entre as sobrancelhas se aprofundou. — É estranho.
— Todo mundo aqui é estranho.
— Você também é estranho. Mas é diferente.
Arin não soube o que responder.
— Desconfio dele — Elena disse. — Não sei por quê. Mas desconfio.
— Desconfiar não é ruim. Mantém a gente vivo.
Ela olhou para ele. Os olhos azuis brilharam na penumbra.
— Quando você ficou tão sábio?
— Não sou sábio. Só estou cansado.
Ela quase sorriu.
O silêncio se estendeu. Lá fora, a floresta sussurrava. Dentro da pousada, vozes abafadas, risadas, o tinir de canecas.
— Nox? — Elena chamou.
— Hum?
— Obrigada.
— Pelo quê?
— Por não ter desistido. Por estar aqui.
Arin deitou de costas. O teto de madeira olhou para ele. Vigas escuras, rachaduras, uma teia de aranha no canto.
— Não desisti — ele disse. — Ainda não.
Elena se deitou também.
— Acha que vamos chegar?
— Vamos.
— Como você sabe?
— Porque não temos escolha.
Ela riu — uma risada baixa, cansada, mas real.
— Você é estranho mesmo.
— Já disseram isso.
Ela não respondeu.
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O sono veio devagar, como uma maré enchendo.
Arin ouviu Elena respirando. A respiração dela foi ficando mais lenta, mais regular. Primeiro ela dormiu. Depois, ele.
E antes de apagar completamente, Arin pensou em Harry.
No sorriso que não tocou os olhos.
Na pausa antes de responder.
Na forma como ele olhou para Elena — um pouco demais.
Cuidado, pensou. Cuidado com esse homem.
O pensamento não terminou.
Ele dormiu.
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