— Arin, se você não entregar esse livro, a editora vai mandar um assassino de aluguel. Estou falando sério.

    Arin não tirou os olhos do teto. Estava deitado no sofá, o controle do streaming pendurado entre os dedos, Tobias — seu vira-lata caramelo de quatorze quilos de pura preguiça — usando sua coxa como travesseiro. Rheiner, seu melhor amigo e também seu mais implacável cobrador de prazos, estava na cozinha, dedilhando a tela do celular com a expressão de quem acabou de ler um e-mail ameaçador.

    — Manda um abraço pra eles — respondeu Arin, sem mover um músculo.

    — Você não está entendendo a gravidade da situação.

    — Eu estou entendendo perfeitamente. A gravidade da situação é que eu pedi pizza há quarenta minutos e ela não chegou. Também estou quase sem ração do Tobias.

    Rheiner apareceu na porta da cozinha, magro, desgrenhado, com uma camisa de botão aberta sobre uma regata surrada. Parecia um professor de filosofia que desistiu da vida acadêmica para tocar numa banda de garagem. Porque era exatamente isso que ele era.

    — A pizza vai chegar. O Livro Dezoito não. 

    Rheiner jogou o celular no balcão.

     — Sabe quantas mensagens eu recebi hoje? Dezessete. Dezessete pessoas perguntando quando você vai finalmente matar o vilão ou revelar que ele é o pai do protagonista ou seja lá o que você planejou.

    — Eu não planejei nada. — Arin suspirou, finalmente virando a cabeça. As olheiras eram fundas o suficiente para plantar batatas. — Esse é o problema. Eu tenho dezoito livros de A Terra das Sombras. Dezoito. Eu nem lembro mais o que eu escrevi no quinto. O que eu vou fazer no décimo oitavo? Criar um décimo nono? Matar todo mundo?

    — Matar todo mundo é uma opção. Final trágico vende.

    — Rheiner, eu estou com trinta e quatro anos, meu joelho estala quando eu agacho, eu tomo remédio pra ansiedade desde os vinte e oito, e o único prazer da minha vida nesse momento é Tobias e pizza. — Arin coçou a orelha do cachorro, que resmungou sem abrir os olhos. — Eu não tenho cabeça pra matar ninguém. Nem fictício.

    Rheiner abriu a boca para responder, mas Tobias levantou a cabeça de repente. Farejou o ar. Olhou para a porta da cozinha. Depois para Arin.

    — Ele quer comer — disse Arin, levantando-se com um gemido. Os joelhos estalaram. — Droga. Tá na hora.

    Foi até o armário. Abriu. Pegou o pote de ração.

    Vazio.

    Ele balançou o pote. Alguns farelos caíram.

    — Merda.

    — Aviso prévio — Rheiner comentou, sem tirar os olhos do celular. — Já te falei pra comprar dois potes quando entra em promoção.

    — Você não é minha mãe.

    — Sua mãe me pagou pra cuidar de você. Tá no contrato.

    Arin revirou os olhos. Pegou a carteira em cima da mesa. Chinelos. Calça de moletom. Não ia trocar de roupa pra comprar ração no mercadinho da esquina.

    — Cinco minutos.

    — Leva o celular.

    — Eu não vou ser sequestrado indo comprar ração.

    — Leva o celular, Arin.

    Arin pegou o celular.

    ━═✧═━

    Arin desceu as escadas do prédio com as mãos nos bolsos. Chinelo estalando em cada degrau.

    Três lances. Sempre os mesmos três lances. Ele já tinha subido e descido essa escada tantas vezes que podia fazer de olhos fechados. Sabia exatamente onde o quinto degrau rangia, onde o corrimão tinha fita isolante segurando uma rachadura, onde alguém tinha escrito “Fora Presidente” com caneta permanente e alguém depois tinha riscado.

    Rua vazia. Horário morto.

    A noite estava morna, dessas que antecedem frente fria. O céu não dava para ver — prédios tapavam tudo — mas Arin sabia que não tinha estrelas. Nunca tinha. Morar na cidade era isso: luz demais, céu de menos.

    Ele começou a andar.

    Trinta e quatro anos, pensou, sem motivo. Às vezes a idade batia assim, do nada, como um lembrete de que o tempo não estava parado só porque ele se sentia parado.

    Arin era baixo. Não o tipo de baixo que as pessoas notam de primeira, mas o tipo que percebe quando fica do lado de alguém. Um metro e sessenta e sete. Calço no tênis quando quer se sentir mais alto, mas hoje estava de chinelo. Foda-se.

    Usava a mesma calça de moletom cinza há três dias. A camiseta preta tinha um buraco na axila. Ele sabia. Não ligava.

    Qual foi a última vez que eu me arrumei para alguma coisa? Não lembrava.

    A rua estava deserta. Um carro passou longe. Uma luz piscava no fim da quadra — mercadinho aberto 24 horas.

    Ele passou pela padaria que faliu. Pelo prédio onde uma mulher gritava com o marido toda terça. Pelo ponto de ônibus onde Rheiner uma vez discutiu com um cobrador porque não tinha troco.

    Arin gostava daquela vizinhança. Não era bonita, não era segura, não era cara. Era o que dava para pagar. E depois de dezoito livros publicados, dezenas de milhares de exemplares vendidos, traduções para o espanhol e um prêmio de literatura fantástica que ele nem foi buscar, ainda era o que dava para pagar.

    Fama não é dinheiro, pensou, rindo sozinho. E dinheiro não é felicidade. E felicidade não é um final de semana sem pensar no Livro Dezoito.

    Ele nunca tinha pedido para ser escritor.

    Não foi um chamado. Não foi uma visão. Aos quinze anos, ele só estava entediado numa aula de matemática e começou a escrever uma história num caderno. Um garoto que encontrava uma espada numa caverna. O básico. O clichê. O que todo mundo escreve.

    Mas ele continuou.

    Aos dezoito, mostrou para a professora de português. Ela disse que era “interessante”. Aos vinte, mandou para uma editora pequena. Eles disseram “não”. Aos vinte e dois, mandou para outra. Disseram “talvez”. Aos vinte e quatro, autopublicou o primeiro livro digitalmente.

    Vendeu trezentas cópias.

    No ano seguinte, lançou o segundo. Mil cópias.

    No terceiro ano, uma editora grande comprou os direitos dos três primeiros. Relançaram com capa nova. E aí… pegou.

    A Terra das Sombras explodiu.

    Não foi um fenômeno mundial. Não foi Harry Potter. Mas foi o suficiente para ele largar o emprego de auxiliar administrativo e viver só de escrever. Foi o suficiente para Rheiner largar a faculdade de filosofia e virar seu “gerente” não oficial. Foi o suficiente para ele comprar esse apartamento — pequeno, velho, mas dele.

    Dezoito livros depois, o brilho tinha acabado.

    Não a paixão. A paixão ainda estava ali, enterrada em algum lugar, respirando fraco. O que tinha acabado era a urgência. A necessidade. Ele não precisava mais provar nada para ninguém — e esse era o problema.

    Rheiner apareceu na vida dele por acaso.

    Faculdade de filosofia. Uma festa de república. Arin estava num canto, tímido, segurando um copo de cerveja que não bebia. Rheiner chegou perguntando se ele tinha um isqueiro. Arin não fumava. Rheiner também não. Os dois riram da situação e passaram o resto da noite discutindo se heróis de fantasia precisavam mesmo de uma espada mágica ou se bastava ter atitude.

    Isso foi há doze anos.

    Rheiner viu o primeiro rascunho horrível de A Terra das Sombras. Leu em voz alta rindo. Depois leu sério. Depois disse “isso tem potencial” e Arin quase chorou.

    Quando o dinheiro começou a entrar, Rheiner largou a filosofia e virou empresário. Abriu uma microempresa só para gerenciar os direitos do Arin. Negociava contratos, respondia e-mails, lidava com editora para que Arin só precisasse escrever.

    E Arin escrevia. Escrevia muito. Escrevia até não aguentar mais.

    — Você é a parte criativa — Rheiner dizia. — Eu sou a parte chata.

    Arin nunca teve coragem de dizer que a parte chata era tão importante quanto. Talvez mais.

    Tobias veio depois.

    Numa tarde de chuva, há cinco anos. Arin estava no auge do sucesso do sétimo livro — o que todo mundo diz ser o melhor da saga — e se sentindo um lixo. Vazio. Falso. Como se cada palavra que escrevesse fosse uma mentira que os fãs aceitavam porque não sabiam melhor.

    Ele foi caminhar sem rumo. Passou por uma feira de adoção.

    Tobias era um filhote magrelo, tremendo numa caixa de papelão, com olhos grandes e assustados. A plaquinha dizia “vira-lata – 3 meses – muito carente”.

    Arin sentou no chão da feira e ficou olhando para o cachorro. O cachorro olhou para ele.

    — Você também não sabe o que está fazendo aqui? — Arin perguntou.

    Tobias lambeu a mão dele.

    Ele levou o cachorro para casa na mesma hora.

    O veterinário disse que Tobias tinha ansiedade de separação. Arin riu. “Parece com o dono”, Rheiner repetiu pela primeira vez. Não seria a última.

    Dezoito livros depois, o brilho tinha acabado.

    Não a paixão. A paixão ainda estava ali, enterrada em algum lugar, respirando fraco. O que tinha acabado era a urgência. A necessidade. Ele não precisava mais provar nada para ninguém — e esse era o problema.

    Quando você não precisa provar nada, fica difícil provar alguma coisa para si mesmo.

    O bloqueio criativo não veio de repente.

    Foi um processo lento, como água subindo numa sala. Primeiro os tornozelos: ele demorava mais para começar a escrever. Depois os joelhos: os parágrafos não fluíam. Depois a cintura: ele reescrevia a mesma página cinco vezes.

    Agora a água estava no peito.

    O Livro Dezoito era o fim. O ponto final de uma jornada de dezoito livros, quinze anos de escrita, centenas de personagens, milhares de páginas. Os fãs esperavam. A editora esperava. Rheiner esperava.

    E Arin não sabia como terminar.

    Não porque faltasse ideia. Tinha várias. O problema era escolher, o medo de errar e a certeza de que, qualquer que fosse o final, metade dos leitores odiaria.

    — Você não pode agradar todo mundo — Rheiner dizia.

    — Eu sei.

    — Então escreve o que você quiser.

    — E se eu não souber o que eu quero?

    Rheiner nunca respondia essa pergunta.

    Solidão. Palavra feia. Arin evitava usar.

    Ele tinha Rheiner. Tinha Tobias. Tinha dezenas de milhares de leitores que mandavam mensagens nas redes sociais. Não era solidão no sentido de “não tem ninguém”.

    Era outra coisa.

    Era chegar em casa depois de um evento e não ter ninguém para contar os bastidores. Era acordar no meio da noite e o único som ser o ronco do cachorro. Era olhar para a parede e saber que do outro lado mora uma mulher bonita cujo nome ele não sabe — e provavelmente nunca vai saber.

    Ele queria mudar isso? Não sabia.

    Às vezes sim. Às vezes não. Às vezes a preguiça de tentar era maior que a vontade de ter.

    — Você precisa sair mais — Rheiner dizia.

    — Eu saio.

    — Sair para comprar ração não conta.

    Arin ria. Porque Rheiner estava certo. Mas também porque Rheiner não entendia. Ou entendia e fingia que não.

    O que ele queria? Essa era a pergunta que ele se fazia há meses e nunca respondia. Terminar o livro, óbvio. Mas e depois? Outra saga? Parar de escrever? Viajar? Namorar? Morrer?

    Não sabia.

    A única coisa que ele sabia com certeza era que, naquele momento, queria comprar a porra da ração e voltar para casa para comer pizza. O resto que se foda.

    O mercadinho apareceu. Luz branca, portas de vidro sujas, um letreiro piscando com duas letras queimadas: “MERCADIN O 24 HOR S”.

    Ele entrou. O ar condicionado gelado bateu no rosto suado. Cheiro de detergente, carne velha, plástico queimado.

    O atendente era o mesmo de sempre: um rapaz novo, tatuagem de cobra no pescoço, sempre no celular. Nunca trocaram mais do que “boa noite” e “obrigado”.

    Arin foi direto ao corredor dos pets. Sacos de ração empilhados. Ele pegou o de quinze quilos — o maior — sem hesitar. Aprendeu depois de ficar sem três vezes. Tobias comia muito para um cachorro do tamanho dele. O veterinário disse que era ansiedade. “Parece com o dono”, disse Rheiner.

    No caixa, o rapaz nem olhou para ele.

    — Vai ficar pesado — comentou, passando o código de barras.

    — Eu sei.

    — Tem sacola?

    — Não precisa.

    Arin pagou no cartão — três vezes sem juros, porque ô ração cara pra caralho. Pegou o saco. Apoiou no ombro. O peso já era familiar.

    — Boa noite.

    — Boa noite.

    Ele saiu.

    A volta foi mais difícil.

    A subida do prédio. Sem elevador. Três lances. Arin xingou baixo em cada degrau. O saco de quinze quilos batia na perna a cada passo. Suor escorria pela testa. A camiseta já estava manchada.

    Chegou no andar. Ofegante.

    Ela estava na porta ao lado.

    Arin nunca tinha descoberto o nome dela. Sabia apenas que se mudara há uns seis meses, que trabalhava em algum lugar com horário comercial, e que era — como ele mesmo admitiu para Rheiner uma vez, bêbado — “o tipo de mulher que faz você acreditar em Deus só pra ter alguém pra agradecer”.

    Ela estava de short curto e uma camiseta larga, cabelo molhado, cheirando a xampu de coco. Segurava um saco de lixo.

    Olhou para ele.

    — Oi — disse.

    — Oi — Arin respondeu, tentando não parecer que tinha acabado de carregar quinze quilos de ração por três lances de escada. Falhou. Estava vermelho, suando, com a camiseta manchada.

    Ela sorriu. Rápido. Educado.

    Desceu as escadas.

    Arin ficou parado por três segundos.

    Cacete.

    Entrou no apartamento.

    — Já vol… — começou Rheiner, do sofá.

    — Tô indo tomar banho — Arin cortou, deixando o saco de ração no chão da cozinha com um baque surdo.

    — Mas a pizza…

    — Depois.

    Ele trancou a porta do banheiro.

    ━═✧═━

    Regras dos Comentários:

    • ‣ Seja respeitoso e gentil com os outros leitores.
    • ‣ Evite spoilers do capítulo ou da história.
    • ‣ Comentários ofensivos serão removidos.
    AVALIE ESTE CONTEÚDO
    Avaliação: 0% (0 votos)

    Nota