Capítulo 13 │Correntes
O impacto não veio.
Em vez disso, Arin ouviu um som diferente. Um som metálico, um som de corrente. Cling. Cling. Cling.
Ele abriu os olhos.
A serpente estava parada. Não porque quisesse, porque não conseguia se mexer.
Correntes. Correntes de metal escuro, grossas como o punho de um homem, envolviam o corpo da serpente. Prendiam a cabeça, prendiam o pescoço, prendiam o corpo. As escamas vermelhas brilhavam sob a pressão do metal. A serpente se debatia — o rabo batia no chão, levantando folhas e terra; a boca se abria e fechava, os dentes estalando no ar — mas as correntes não cediam.
Correntes. De onde vieram as correntes?
Arin olhou para cima.
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Um homem estava ali.
Não era um soldado. Não usava armadura, não usava uniforme. Na verdade, não era nem um homem. Era uma criança.
Usava um ropão. O tecido era claro — branco. O pano era grosso, pesado, caía em pregas largas até os pés. As mangas eram largas, abrindo-se como asas quando ele movia os braços.
O capuz cobria parte do rosto — a testa, os olhos, as sombras do nariz. Mas Arin conseguia ver a mandíbula firme, os lábios cerrados, o queixo quadrado. Uma cicatriz fina cortava o queixo.
Os olhos claros — cinza? azul? Não dava para saber — brilhavam sob o capuz. Fixos em Arin. Avaliando. Calculando.
O garoto estava com os braços estendidos para a frente, as mãos abertas, os dedos ligeiramente curvados. E das mangas do ropão, as correntes saíam — como se fossem extensões do corpo dele, como se fossem parte dele, como se ele fosse feito de metal tanto quanto de carne.
Ele controla as correntes. Ele manipula as correntes. Ele as move como se fossem seus dedos. Ele…
Arin conhecia aquele poder. Ele tinha escrito aquele poder. Para um personagem que só apareceria no futuro, muito no futuro. No livro 12, ou 13. Ele não lembrava qual. Um personagem que ele tinha planejado, esboçado, descrito em anotações soltas.
Como ele está aqui? Como ele existe agora? Ele não deveria existir. Não ainda. Não neste tempo. Não em Oakhaven.
O garoto olhou para Arin. Os olhos claros brilharam na penumbra. Não com ameaça, com curiosidade.
— Você está ferido? — a voz era calma, profunda, controlada. Cada palavra era medida, pesada, como se ele não falasse sem necessidade.
Arin abriu a boca. Nenhum som saiu. A garganta estava seca, a língua estava presa. O medo ainda apertava o peito. A imagem dos olhos do soldado se apagando ainda queimava na mente.
O garoto esperou. Não repetiu a pergunta. Apenas esperou.
— Não… não — Arin conseguiu dizer. A voz saiu estranha, pequena, rouca, como se ele não falasse há horas. — Eu não… quem…
O garoto não respondeu. Ele virou as mãos. As correntes se apertaram. A serpente gemeu — um som grave, gutural, que ecoou na floresta e fez as folhas das árvores tremerem. O corpo enorme se contraiu, as escamas rangendo contra o metal.
— Você precisa sair daqui — o garoto disse. — Esta não é a única.
— A única o quê? — Arin perguntou.
— Serpente. Elas caçam em pares.
O sangue de Arin gelou. Em pares. Ele escreveu isso. Ele escreveu que as serpentes rubras caçam em pares. Onde está a outra? Onde…
O chão tremeu novamente. Do outro lado da clareira, os arbustos se mexeram. Outra cabeça surgiu, outros olhos amarelos, outra boca cheia de dentes.
A segunda serpente era maior que a primeira. Muito maior.
O garoto suspirou. Não parecia surpreso. Apenas… cansado.
— Fique atrás de mim — ele disse. — E não se mova.
A voz era fina, de criança, mas tinha uma autoridade que não combinava com a idade.
Arin obedeceu. Recuou até o tronco de uma árvore caída, encostou as costas na madeira úmida e observou.
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O garoto deu um passo à frente. Ele era pequeno, muito pequeno. Arin estimou uns dez anos, talvez onze. O corpo era magro, os ombros estreitos, os braços finos. A altura não chegava ao peito de Arin — e Arin já era baixo dentro do corpo de Nox.
Mas o ropão que ele vestia era branco. Branco puro, branco como a luz do meio-dia, branco como nada que Arin tinha visto neste mundo sujo de terra e sangue. O tecido era pesado, grosso, caía em pregas largas até os pés do garoto, arrastando no chão coberto de folhas. As mangas eram largas demais para seus braços finos, abrindo-se como asas quando ele movia as mãos.
O capuz cobria a maior parte do rosto — a testa, os olhos, a sombra do nariz. Mas Arin conseguia ver a mandíbula pequena, os lábios finos e cerrados, uma linha de concentração severa demais para uma criança. O queixo era pontudo, quase frágil. A pele era pálida — não pálida como doente, pálida como porcelana, como lua cheia.
Um garoto. Um garoto de dez anos. Como Jasper. Mas Jasper brinca com gravetos e chora quando o irmão não dá atenção. Este garoto… este garoto veio para matar.
As correntes se moveram. Saíram das mangas do ropão branco como cobras despertando de um sono profundo. Não eram correntes comuns — não o ferro escuro e enferrujado que Arin via na oficina do ferreiro. Eram correntes reluzentes, prateadas, brilhando como se tivessem sido polidas naquele mesmo instante. Cada elo era perfeito — redondo, liso, forte — e a luz que atravessava as copas se refletia neles, criando pequenos pontos brilhantes que dançavam no ar como vaga-lumes.
Cling. Cling. Cling.
O som era diferente do que Arin esperava. Não era metálico e seco, não era pesado. Era musical, quase bonito. Como sinos distantes, como água cristalina caindo em pedras polidas.
O garoto levantou a mão direita. As correntes voaram. Não como chicotes — chicotes são selvagens, imprecisos. Voaram como flechas. Retas, rápidas, precisas. Cada corrente sabia exatamente onde ir. Cada corrente tinha um propósito.
A primeira corrente atingiu a cabeça da serpente maior. Não envolveu, perfurou. A ponta da corrente — afiada como uma lança — atravessou a escama vermelha como se fosse papel molhado. O som foi úmido, macio, nauseante — um thud de metal entrando em carne.
A serpente gritou. Não foi o som grave e gutural que Arin tinha ouvido antes. Foi um som agudo, penetrante, um grito de dor que ecoou pela floresta, ricocheteando entre os troncos, fazendo as folhas tremerem nos galhos. Pássaros que estavam escondidos nas copas levantaram voo em todas as direções — dezenas, centenas, asas batendo no ar como uma tempestade de panos brancos.
O corpo enorme da serpente se contorceu. O rabo bateu no chão com força — TOC — levantando uma nuvem de terra, folhas secas, pequenas pedras que voaram em todas as direções. Uma delas acertou o ombro de Arin. Doeu. Ele nem sentiu.
A segunda corrente atingiu a primeira serpente — a que estava imobilizada desde o começo. Essa não perfurou, enrolou. A corrente se enroscou no pescoço da criatura como uma cobra de metal viva. Ela deu três voltas completas — Arin contou, três voltas — e depois apertou. As escamas rubras estalaram sob a pressão. O som foi seco, como galhos quebrando. A serpente abriu a boca, mas nenhum som saiu. A corrente estava apertando demais, não deixava o ar passar, não deixava o grito sair.
O garoto não parou. Ele levantou a mão esquerda. Mais correntes saíram do ropão branco. Não duas, não três. Cinco.
Cinco correntes reluzentes voaram em direções diferentes, cada uma com um propósito claro.
A primeira se prendeu em uma árvore grossa, à direita do garoto. A ponta da corrente perfurou a casca e entrou na madeira como se fosse manteiga. A árvore tremeu com o impacto. Pequenas lascas de madeira voaram no ar.
A segunda se enterrou no chão, à esquerda. A corrente perfurou a terra, as folhas, as raízes, até encontrar algo sólido — uma rocha, talvez, ou o próprio osso da terra — e se prendeu ali.
A terceira envolveu o pescoço da serpente maior — não a cabeça, o pescoço. Deu duas voltas e meias antes de se fixar.
A quarta envolveu o meio do corpo da serpente maior — a parte mais grossa, onde as escamas eram maiores, mais escuras, mais resistentes. A corrente apertou. As escamas estalaram. A serpente se contorceu ainda mais.
A quinta envolveu o rabo da serpente maior. Prendeu a ponta do rabo no chão, imobilizando o único membro que a criatura ainda conseguia mover com liberdade.
A serpente se debateu. O garoto não se moveu. Seus pés — calçados com botas também brancas, também impecáveis — estavam plantados no chão de terra. Seu corpo pequeno estava ereto, os ombros retos, a cabeça erguida. Ele não recuou um centímetro, não tremeu, não hesitou.
— Quieta — ele disse. A voz era fina, infantil. Mas não havia medo nela, não havia hesitação, não havia nada além de certeza.
As correntes apertaram. Todas ao mesmo tempo.
As escamas da serpente maior rangeram — um som agudo, estridente, como unhas em lousa. A criatura tentou se soltar. O corpo enorme se contraiu, os músculos se alongaram, as escamas se arrepiaram. A força era imensa. Arin sentiu o chão tremer sob seus pés.
As correntes não cederam.
A serpente tentou avançar. A cabeça veio em direção ao garoto. A boca estava aberta — aberta o máximo possível. Os dentes brilhavam na penumbra, branco-sujo com manchas escuras de sangue seco. O cheiro de enxofre ficou insuportável — queimava as narinas, arranhava a garganta, fazia os olhos arderem.
Arin quis gritar, quis avisar, quis correr. Não conseguiu.
O garoto se moveu. Não correu, não pulou, não fugiu. Ele apenas deu um passo para o lado. Um passo. Só um. Mas foi o passo perfeito. O corpo da serpente passou raspando no ropão branco — passou a centímetros do peito do garoto, a centímetros do rosto dele. Arin viu as escamas vermelhas roçarem no tecido branco. Não deixaram marca, não deixaram sujeira, não deixaram nada.
O garoto girou. O ropão branco rodou com ele, abrindo-se como uma flor gigante. As mangas largas se esticaram, e as correntes que estavam presas na árvore e no chão se soltaram — não porque ele tivesse soltado, porque ele as puxou.
As correntes vieram com o movimento. A que estava na árvore saiu da madeira com um estalo — crac — levando lascas de casca e um pedaço de carne de árvore. A que estava no chão emergiu da terra como uma serpente de metal, sacudindo as folhas e a terra de suas dobras.
Agora as duas correntes estavam livres. E estavam voando em direção à cabeça da serpente.
O garoto cruzou os braços sobre o peito. As correntes se cruzaram também. Uma veio da esquerda, outra da direita. As duas se encontraram na frente da cabeça da serpente — não na lateral, na frente — e se enrolaram no focinho da criatura. Uma por cima, outra por baixo.
Elas puxaram. A boca da serpente fechou com um estalo seco — toc — os dentes batendo uns nos outros. A língua bifurcada ficou presa para fora, entre os dentes, tremendo.
O garoto descruzou os braços. As correntes se separaram — uma foi para a esquerda, outra para a direita — puxando a cabeça da serpente em duas direções opostas. O pescoço da criatura esticou. As escamas se separaram, deixando ver a carne pálida por baixo.
A serpente tentou recuar, tentou puxar a cabeça de volta, tentou se soltar. Não conseguiu.
O garoto levantou as duas mãos acima da cabeça. Todas as correntes se apertaram ao mesmo tempo — as que estavam no pescoço, as que estavam no corpo, as que estavam no rabo, as que estavam no focinho. Todas.
A serpente maior parou de se mexer. Não morta, imobilizada. Os olhos amarelos se arregalaram — mais do que já estavam. As pupilas verticais se contraíram até virar linhas finas. A língua bifurcada se retraiu para dentro da boca. O corpo inteiro da criatura tremia — um tremor fino, rápido, involuntário.
Medo. O predador está com medo.
O garoto baixou as mãos. Ele andou até a serpente. Devagar. Cada passo era medido, calmo, sem pressa. As botas brancas pisavam na terra sem fazer barulho — não toc, toc, toc, apenas silêncio. O ropão branco arrastava no chão coberto de folhas, mas não sujava, não pegava terra, não pegava nada.
Ele parou na frente da cabeça da serpente. Agora Arin conseguia ver o tamanho. O garoto não chegava à altura do olho da serpente. A cabeça da criatura era maior do que o corpo inteiro dele. Os dentes — mesmo com a boca fechada — eram mais longos do que o braço do garoto.
Mas o garoto não recuou. Ele inclinou a cabeça. O capuz escorregou ligeiramente, revelando mais do rosto. Arin viu a testa lisa, sem rugas. Viu as sobrancelhas escuras, finas, ligeiramente franzidas. Viu os olhos claros — cinza? azul? Não dava para saber — que brilhavam na penumbra como gelo. Viu o nariz pequeno, reto. Viu os lábios finos, ainda cerrados.
Ele é só um garoto. Ele é só um garoto de dez anos. Mas os olhos… os olhos não são de garoto. Os olhos são de alguém que já viu demais.
— Você escolheu a presa errada — ele disse.
A voz era baixa, apenas para a serpente ouvir. Mas Arin ouviu cada palavra, cada sílaba. O tom não era de ameaça, era de constatação. Como se ele estivesse apenas registrando um fato.
Ele levantou a mão direita. A palma se abriu, os dedos se esticaram — dedos finos, pequenos, de criança. As unhas eram curtas, limpas.
Uma corrente saiu da manga do ropão. Não era como as outras. Era mais fina, muito mais fina, quase tão fina quanto um fio de cabelo. Mas brilhava mais — brilhava como uma estrela, como um pedaço de luar sólido. A corrente se moveu devagar, quase preguiçosamente, flutuando no ar como se não tivesse peso.
Ela foi até a cabeça da serpente. Tocou a escama vermelha entre os olhos amarelos. Ali, bem no centro da testa da criatura, onde as escamas eram menores, mais finas, mais vulneráveis.
A serpente tremeu. O corpo enorme se contraiu — um espasmo que percorreu a criatura da cabeça ao rabo. O chão tremeu com o movimento. Folhas voaram. Arin sentiu a vibração através das botas.
O garoto fechou a mão. A corrente perfurou. Atravessou a escama, atravessou a carne, atravessou o osso. O som foi úmido, macio, final — thud.
A serpente não gritou. Não teve tempo. O corpo enorme se contraiu uma última vez — um espasmo, um soluço, um adeus. O rabo bateu no chão uma vez, fracamente, como um soluço final. A cabeça caiu no chão de terra com um baque surdo — TOC — e ficou imóvel.
Os olhos amarelos se apagaram. As pupilas verticais se dilataram, abrindo-se para sempre.
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