Capítulo 12 │Gosto de Morte
Arin, sentado no computador. Madrugada. O café já estava frio. A tela do monitor brilhava no escuro. Ele estava escrevendo. Os dedos voavam sobre o teclado. A cena era de luta — a primeira aparição da criatura.
“A serpente rubra ergueu a cabeça, suas escamas vermelhas brilhando como brasa recém-tirada do fogo. Seus olhos amarelos, verticais, fixaram-se no herói. Não havia medo neles. Não havia hesitação. Apenas fome.”
Arin parou de escrever. Leu de novo. Sorriu. “Bom. Isso vai dar medo nos leitores.”
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O reconhecimento veio como um soco no estômago.
Ela existe. Ela é real. Ele criou ela. Ele escreveu cada escama, cada dente, cada olho amarelo. E agora ela está aqui. Na frente dele. Olhando para ele. Com fome.
Arin sentiu a boca seca. Os olhos arderam. O coração batia tão rápido que ele mal conseguia distinguir os batimentos.
O que ele faz? O que Nox faria? Nox nunca viu uma serpente rubra. Nox nunca viu nada maior do que um coelho. Nox não sabe. Arin não sabe. Ninguém sabe.
Ele escreveu aquela cena há anos. Ele pesquisou comportamento de serpentes. Ele leu que serpentes atacam quando se sentem ameaçadas, que fogem quando podem, que preferem evitar confronto. Mas esta não é uma serpente comum. Esta é uma serpente rubra, uma criatura que ele criou para ser um desafio, para ser perigosa, para ser mortal.
Ela não vai fugir. Ela vai atacar.
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A serpente se moveu. Não foi rápido, não foi devagar. Foi num intervalo entre os dois — um movimento tão fluido que parecia líquido, que parecia dança, que parecia inevitável. O corpo enorme deslizou entre as árvores, contornando os troncos como se fossem galhos finos. As escamas raspavam na casca com um som seco, áspero — shhhhh — como mil facas sendo afiadas ao mesmo tempo.
E quando a cabeça se aproximou, quando a boca se abriu um pouco mais, Arin viu.
Dentro da boca da serpente. Um homem.
Não um corpo inteiro. Apenas a metade de cima — do peito para cima. O resto havia sido engolido, triturado, comprimido pelas mandíbulas poderosas. A cintura do homem desaparecia entre os dentes curvos para dentro, presa ali como um rato na mandíbula de um gato.
O uniforme era azul. Azul como o céu antes da tempestade, azul como as veias saltadas na testa do homem. O mesmo azul dos soldados que ele tinha ouvido na floresta. A mesma cor, o mesmo tecido, o mesmo emblema do leão rampante bordado no peito — agora rasgado, manchado de sangue escuro, quase preto, que brilhava úmido sob a luz que atravessava as copas.
O leão. O leão de boca aberta. O leão que devorava reinos.
O homem estava vivo.
Arin viu os olhos dele. Eram azuis — ou verdes, não dava para saber direito — vidrados, dilatados, cheios de lágrimas e sangue. A pupila estava contraída, não pela luz, pela dor. A dor insuportável de ter a parte inferior do corpo sendo esmagada, digerida, dissolvida.
O rosto do homem estava pálido — pálido como cera, como leite, como a morte que se aproximava a cada segundo. Veias azuis saltavam na testa, nas têmporas, no pescoço. A mandíbula tremia. Os lábios estavam roxos, rachados, cobertos de sangue seco — e sangue novo, que escorria de um corte fundo na bochecha.
O capacete de ferro tinha caído em algum momento. O cabelo do homem — castanho escuro, curto, encharcado de suor e sangue — grudava na testa em mechas desgrenhadas. Uma das orelhas estava rasgada, pendurada por um fio de carne.
Os braços do homem estavam livres. Moviam-se lentamente, desesperadamente. As mãos — as mãos que Arin tinha visto antes, com as luvas de couro preto e detalhes em prata — estavam abertas, os dedos arranhando o ar, tentando se agarrar em alguma coisa, em qualquer coisa, em nada.
A mão direita segurava uma espada. Não, não segurava mais. A espada estava caída no chão da floresta, a poucos metros dali. A mão do homem tentava alcançá-la, mas os dedos só fechavam o ar. O braço se esticava, se contraía, se esticava novamente — um movimento automático, involuntário, de quem não aceita o fim.
— Ajuda…
A voz saiu estrangulada. Não era um grito, não era um sussurro. Era um som que Arin nunca tinha ouvido antes — o som de alguém que está sendo consumido vivo, de dentro para fora, e ainda assim se recusa a morrer.
— Ajuda… por favor… ajuda…
O homem tossiu. Sangue escorreu dos lábios, escorreu pelo queixo, escorreu pelo pescoço, misturando-se com o suor e a terra. Os olhos vidrados procuraram Arin. Encontraram Arin.
— Por favor… me tira daqui…
A serpente moveu a cabeça ligeiramente. O homem gemeu — um gemido gutural, profundo, que não parecia humano. Os dentes da serpente se apertaram um pouco mais. Arin ouviu o estalo dos ossos, ouviu o rangido da armadura sendo amassada como papel, ouviu o ar saindo dos pulmões do homem num chiado úmido.
— AHHHHHH — o grito foi curto, cortado, afogado em sangue.
O homem arfou. Os olhos se arregalaram ainda mais. As mãos se abriram e fecharam, abriram e fecharam, como se estivessem tentando agarrar a própria vida.
— Pelo amor de Deus… — a voz agora era um fio, um fio prestes a se romper. — Eu tenho família… tenho filhos… por favor…
Arin viu lágrimas misturadas com sangue escorrendo pelas bochechas do homem. Viu o terror absoluto nos olhos dele. Viu a esperança — a última centelha de esperança — se apagando enquanto ele olhava para Arin e percebia que ninguém vinha, que ninguém podia fazer nada.
Os braços do homem caíram. Não de uma vez: primeiro o esquerdo, depois o direito. As mãos bateram na lateral da cabeça da serpente com um som macio, quase inaudível. Os dedos ainda se mexeram por alguns segundos — um espasmo, um último comando do cérebro que não queria desistir.
Os olhos do homem se fixaram em Arin.
E pararam de se mover.
A boca ainda estava aberta. Os lábios ainda formavam palavras que não saíam. O peito ainda subia e descia — não por respiração, por espasmo.
A serpente engoliu. Arin viu o corpo do homem ser puxado para dentro, viu os ombros desaparecerem entre os dentes, viu o pescoço, viu o queixo, viu os olhos — aqueles olhos azuis ou verdes ou cinza — sendo cobertos pela carne vermelha da boca da serpente.
E então o homem sumiu.
Apenas uma bota caiu no chão da floresta. Uma bota preta, de couro, com fivelas de latão. Ela caiu de lado, vazia, leve demais para ter um pé dentro.
O silêncio voltou.
Arin não conseguia respirar. Não conseguia piscar. Não conseguia pensar.
Ele viu. Ele viu um homem morrer. Ele viu um homem ser comido vivo. Ele viu a esperança nos olhos do homem. Ele viu a morte. E não fez nada. Não podia fazer nada. Não podia. Não podia…
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A cabeça da serpente virou. Os olhos amarelos encontraram os dele. Ela o viu.
Não houve hesitação, não houve avaliação, não houve aquela pausa que os animais fazem quando decidem se atacam ou fogem. A serpente já sabia o que queria. Ela atacou.
Arin não teve tempo de pensar. Não teve tempo de planejar. Não teve tempo de respirar. O corpo agiu sozinho.
Ele pulou para o lado — para a esquerda, para trás de uma árvore mais grossa, para longe da visão direta da serpente. As botas de couro escorregaram nas folhas molhadas, mas ele se agarrou no tronco, as unhas arranhando a casca, as pontas dos dedos doendo com o esforço.
A cabeça da serpente passou raspando onde ele estava. O vento do movimento bateu no rosto — quente, úmido, com cheiro de enxofre e sangue. Arin sentiu o bafo, sentiu a morte, sentiu o gosto do horror na boca.
Corre. CORRE. CORRE.
Ele correu. Não sabia para onde, não importava. Apenas corria. Os braços bombeavam, as pernas esticavam, o coração disparou mais rápido do que nunca.
Atrás dele, árvores caíam. Crac. TOC. Crac. TOC. A serpente não estava correndo atrás dele — estava atravessando a floresta. Não desviava dos troncos. Passava por cima, empurrava, derrubava. O corpo enorme se movia como uma avalanche viva, destruindo tudo no caminho.
Cada árvore caindo era um segundo mais perto. Cada árvore caindo era um lembrete do que acontecia quando ela alcançava.
Arin virou à direita, depois à esquerda, depois à direita novamente. Não sabia se estava fugindo ou correndo em direção, não sabia se estava fazendo progresso ou apenas se cansando.
As árvores passavam por ele como fantasmas. Os galhos batiam no rosto, arranhavam os braços, agarravam a camisa de linho. Um galho mais grosso acertou o peito — a dor foi aguda, ofegante. Arin quase caiu, as pernas tropeçando nas próprias botas.
Não. NÃO.
Ele continuou correndo. O som das árvores caindo estava mais perto. Ela é mais rápida, mais forte, maior. Ela vai pegar ele. Ela vai…
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Um galho. Arin viu.
No chão, caído entre duas árvores. Não era um galho fino — era grosso, pesado, quase um tronco jovem. Mais grosso do que o braço dele, mais pesado do que ele podia carregar.
Mas é alguma coisa. É melhor do que nada. É o que ele tem.
Ele parou. Abaixou-se. Guardou a faca de volta na bainha com uma mão enquanto a outra agarrava o galho. A madeira era áspera, cheia de lascas. Uma delas entrou na palma da mão — uma dor aguda, localizada — mas ele não sentiu. A adrenalina bloqueava tudo. O horror bloqueava tudo. A imagem dos olhos do homem se apagando bloqueava tudo.
O peso era imenso. Os braços de Nox tremeram, os ombros doeram, os tendões esticaram. Arin sentiu os músculos das costas gritando, as articulações estalando.
Levanta. LEVANTA.
Ele levantou. O galho apontou para a serpente como uma lança improvisada. A ponta era irregular, quebrada, afiada o suficiente para machucar. Talvez. Se ele acertasse. Se tivesse força. Se tivesse sorte.
A serpente parou. Os olhos amarelos olharam para o galho, para Arin, para o galho novamente. A boca se abriu ligeiramente. Arin viu os dentes ainda sujos de sangue, viu um pedaço de tecido preto preso entre duas fileiras de dentes — o uniforme do soldado. Viu algo brilhante — uma fivela? um botão? um pedaço de metal da armadura? — sendo lentamente empurrado para dentro da garganta da serpente.
Ela está avaliando. Ela está decidindo. Ela está…
Ela atacou.
Arin não pensou. Não planejou. Não respirou. Ele apenas avançou.
O galho encontrou a cabeça da serpente — não a ponta, o lado. A madeira bateu nas escamas vermelhas com um som seco, sólido, como um martelo batendo em ferro. A serpente recuou. Não ferida, não assustada. Surpresa.
Os olhos amarelos piscaram. Uma vez. Duas vezes.
Arin não esperou. Correu para a direita, para as árvores, para a escuridão.
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Ele correu até não aguentar mais.
As pernas queimavam — cada passo era uma agulha na coxa, uma faca no músculo, um prego no joelho. Os pulmões queimavam — cada respiração era fogo, era vidro moído, era areia grossa descendo pela traqueia. A vista estava turva — suor, lágrimas, terra, sangue de um corte na testa que ele nem lembrava de ter feito.
O coração batia tão rápido que ele achava que ia explodir.
Não para. Não para. Se você parar, ela te pega. Se ela te pegar, você morre. Se você morrer, Helga e Jasper morrem. NÃO PARE.
Ele não parou.
Mas a serpente era mais rápida. Arin sentiu o bafo quente no pescoço, sentiu o cheiro de enxofre, sentiu a morte.
Ela está ali. Atrás de mim. Tão perto. Vou virar? Vou enfrentar? Vou…
Ele tropeçou. O pé direito prendeu em uma raiz — grossa, retorcida, coberta de musgo. Arin não viu. Não tinha como ver. Estava escuro, estava cansado, estava com medo. A visão estava turva demais para enxergar o chão.
Ele caiu.
O chão bateu no joelho, depois no cotovelo, depois no queixo. A boca encheu de terra e folhas secas. O gosto era amargo — terra, fungos, algo podre, algo doce, algo metálico. Sangue. Ele mordeu a língua na queda.
Levanta. LEVANTA.
Ele tentou. As pernas não respondiam. Os braços tremiam. O corpo não obedecia.
A serpente estava sobre ele.
Arin viu a cabeça triangular contra o teto verde. Viu os olhos amarelos brilhando. Viu a boca se abrindo. Viu os dentes — fileiras e fileiras de dentes, curvos para dentro, afiados como agulhas. Viu o pedaço de tecido preto ainda preso entre os dentes.
Viu a morte.
É o fim. Não teve jeito. Ele tentou. Não foi suficiente.
Ele fechou os olhos. E esperou.
Morte. Morte. Morte.
Ele sentiu o calor da boca da serpente se abrindo. E…
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