Capítulo 5 │Essa Não é a Minha Mão
A primeira coisa que Arin sentiu foi o coração.
Batendo.
Não uma batida fraca, hesitante, como alguém que acabou de morrer. Uma batida forte, firme, viva.
Ele inspirou.
O ar entrou — quente, seco, com cheiro de fumaça de lenha e pão recém-assado.
Eu estou respirando. Eu estou vivo. Eu não morri.
A segunda coisa que ele sentiu foi a dor.
Não uma dor aguda, localizada — uma dor surda, generalizada, como se ele tivesse corrido uma maratona e depois sido atropelado. Os músculos doíam, as articulações doíam, a cabeça latejava como se alguém estivesse batendo nela com um martelo pequeno e insistente.
O que aconteceu? Onde eu estou?
Ele tentou abrir os olhos. As pálpebras estavam pesadas — não de sono, de cansaço. Como se ele não dormisse há dias.
Conseguiu. Forçou. Abriu.
Madeira.
Não a madeira feia, torta, cheia de nós e rachaduras do quarto anterior. Madeira mais trabalhada, mais limpa. Vigas retas, bem encaixadas. O teto era mais alto também — dava para ver a cumeeira, aquela viga principal que corre no topo do telhado, escura de fuligem e tempo.
A luz entrava por uma janela — uma janela de verdade, com vidro. Vidro grosso, cheio de bolhas e imperfeições, mas vidro. Atrás do vidro, o céu estava alaranjado. Nascer ou pôr do sol, ele não sabia dizer.
Onde…
Arin tentou se sentar. O corpo respondeu — mas não do jeito que ele esperava.
O movimento foi mais leve, mais ágil. Como se ele tivesse perdido uns vinte quilos de uma hora para outra. Os braços responderam rápido demais, como se estivesse acostumado com um peso que não estava mais lá.
Ele se sentou na cama.
A cama rangeu — mas não o rangido agudo de cordas esticadas e palha seca. Era um rangido mais grave, de madeira sobre madeira, de um colchão mais macio — penas? Lã? Ele não sabia, mas era infinitamente melhor do que a palha do quarto anterior.
Arin olhou para baixo.
O corpo era diferente.
Os braços eram mais finos do que os dele — mas não fracos. Havia músculo ali, definido, magro. Músculo de quem trabalha, de quem carrega peso, de quem faz esforço todo santo dia. As mãos eram ásperas. Ele levantou uma delas perto do rosto para examinar.
A palma estava cheia de calos — amarelados, grossos, alguns com pequenas rachaduras. Os dedos tinham cicatrizes pequenas, algumas recentes, outras já brancas de tão antigas. As unhas eram curtas, mal cortadas, com terra preta embaixo de algumas.
A pele era mais clara do que a dele — não muito, mas perceptível. E os pelos dos braços… ele franziu a testa.
Ruivos.
Não vermelho vivo. Ruivo. Um tom de cobre queimado, como folhas secas no outono.
O quê?
Ele levou as mãos ao rosto.
O rosto era diferente. O nariz era mais fino — ele passou os dedos pela ponte, sentindo a cartilagem. O queixo era mais quadrado, mais definido. A pele era mais lisa — muito mais lisa. Sem barba. Ele passou a mão pela mandíbula e sentiu apenas uma penugem fina, quase invisível.
Sem barba? Eu tenho barba. Eu sempre tenho barba. Eu não me barbeio há dias.
E o cabelo… ele passou os dedos pelos cabelos.
Longos. Muito mais longos do que os dele. As pontas chegavam nos ombros. E estavam presos em algo — ele puxou a mão e sentiu uma fita de couro. Um rabo de cavalo. Alguém tinha amarrado o cabelo dele num rabo de cavalo.
Ele puxou a fita. O cabelo caiu solto, espalhando-se pelos ombros e pelas costas.
Arin olhou para o fio que ficou preso entre os dedos.
Ruivo. O mesmo tom de cobre queimado.
Isso não é meu cabelo. Isso não é meu corpo.
O pânico começou a subir — aquele mesmo pânico do quarto anterior, do branco infinito, da escuridão que o engoliu. O coração acelerou, a respiração ficou curta, a visão começou a escurecer nas bordas.
Não. Não. Não. Respira. Respira fundo.
Ele inspirou pelo nariz. O ar cheirava a cera de abelha e madeira limpa. Soltou devagar pela boca. Inspirou. Soltou.
O coração desacelerou. A visão clareou.
Você já passou por isso antes. Você acordou num lugar estranho antes. Você sobreviveu. Você vai sobreviver de novo.
━═✧═━
Foi então que a memória veio.
Não como uma lembrança. Como uma invasão.
Nox. Meu nome é Nox. Nox Siegfried. Tenho quatorze anos.
Arin piscou. A informação estava ali, dentro dele, como se sempre tivesse estado. Mas não era dele. Era de outra pessoa.
Nox. Eu sou… Nox?
Não. Ele era Arin. Escritor. Trinta e quatro anos. Morava no Brasil. Tinha um cachorro chamado Tobias.
Outra informação veio, mas não completa — fragmentada, como um vidro quebrado que ele tentava montar.
Mãe. Helga. Loiro. Olhos azuis. Trinta e seis anos. Irmão. Jasper. Oito anos. Cabelo loiro. Barulhento. Pai…
O nome do pai não veio. Só um vazio, uma ausência.
Morreu.
A palavra veio seca, direta, sem emoção. Mas atrás dela, Arin sentiu algo — uma dor pesada, enterrada, que Nox não deixava vir à superfície.
Arin sacudiu a cabeça.
O que está acontecendo comigo? De onde estão vindo essas… coisas?
Ele olhou ao redor do quarto, como se buscando uma resposta nas paredes de madeira.
O quarto era pequeno, mas não miserável. A cama onde ele estava era de madeira escura, com uma coberta de lã grossa, azul desbotada. Uma mesa encostada na parede, com uma vela já gasta no castiçal de ferro. Um baú no canto, com roupas dobradas — dava para ver as mangas de uma camisa branca pendurada para fora.
Uma jarra de água com uma bacia de barro. Uma toalha de linho pendurada num prego.
E a janela.
A janela chamava ele.
━═✧═━
Arin levantou da cama.
Os pés tocaram o chão — madeira. Tábuas largas, bem ajustadas, com poucas frestas. Não era terra batida. Era assoalho. O pé sentiu a textura lisa da madeira, desgastada pelo uso e pelo tempo. Algumas tábuas tinham nós escuros; outras, pequenas lascas soltas.
O corpo dele — o corpo de Nox — era mais baixo do que o seu. Arin sentiu a diferença imediatamente. O chão parecia mais próximo, o teto mais distante. A altura dos objetos estava errada. A mesa, que deveria ficar na altura da cintura, ficava na altura do quadril.
Ele andou até a janela.
Cada passo era estranho — a passada era mais curta, o equilíbrio era diferente, os braços balançavam num ritmo que não era o seu. O corpo de Nox tinha um centro de gravidade diferente, mais baixo, mais estável. Como se ele estivesse pilotando uma máquina que não conhecia.
Isso é assustador. Estar dentro de outra pessoa. Sentir o que outra pessoa sente.
Ele parou na frente da janela. A vidraça era grossa, cheia de bolhas e distorções — vidro soprado à mão, imperfeito. Através dela, o mundo parecia levemente ondulado, como se visto através de água.
Arin olhou para fora.
Uma rua de terra. Não asfalto, não calçada — terra batida, marrom-avermelhada, com marcas de rodas de carroça e pegadas de animais. De um lado, uma fileira de casas simples, de madeira e pedra, com telhados de palha e telha. Do outro, um terreno vazio com algumas galinhas ciscando.
Pessoas andavam pela rua. Uma mulher carregava um balde de madeira em cada mão, a água balançando nas bordas. Um homem empurrava uma carroça carregada de lenha, os braços tensos pelo esforço. Crianças corriam descalças, rindo, perseguindo um cachorro magrelo.
Ao fundo, além das casas, uma floresta densa. Árvores altas, copas fechadas, um verde escuro que parecia engolir a luz. E atrás da floresta, montanhas — picos recortados contra o céu alaranjado.
Onde eu estou? Que lugar é esse? Parece…
Ele não terminou o pensamento.
Porque uma voz veio de trás da porta.
— Nox! Levanta, preguiçoso! O pão está esfriando e Jasper já comeu a sua parte!
A voz era feminina, autoritária mas não brava, cansada mas não derrotada. Uma voz de quem está no comando porque não tem escolha.
Helga. A mãe.
O nome veio sozinho, solto na mente de Arin como se alguém tivesse sussurrado no ouvido dele.
Ele congelou.
O que eu faço? O que eu digo? Eu não sou Nox. Eu não sei ser Nox.
━═✧═━
A porta rangeu.
Antes que ele pudesse decidir, antes que pudesse pensar em uma estratégia, a porta se abriu.
Ela entrou. Helga.
Arin a viu como se fosse a primeira vez — porque, de certa forma, era. A primeira vez que ele via aquela mulher. Mas o corpo de Nox reconheceu. Os olhos de Nox sabiam cada detalhe.
Ela era alta — mais alta do que ele, pelo menos uns dez centímetros. O cabelo loiro estava preso num coque apertado no topo da cabeça, mas algumas mechas escapavam, caindo sobre as têmporas. Olhos azuis — não azul claro, azul escuro, como o céu antes de uma tempestade. A pele era levemente queimada de sol, com sardas espalhadas pelo nariz e pelas maçãs do rosto.
Usava um vestido simples de linho cru, com um avental de couro manchado de farinha e gordura. As mangas estavam arregaçadas até os cotovelos, mostrando braços fortes, musculosos — braços de quem carrega peso, de quem amassa pão, de quem trabalha.
Ela olhou para ele.
Arin sentiu o olhar — o olhar de uma mãe que conhece o filho melhor do que ele mesmo se conhece. Um olhar que varre, que escaneia, que nota cada detalhe fora do lugar.
— Você está estranho — ela disse. Não era uma pergunta.
Arin engoliu em seco.
— Dormi mal — ele respondeu. A voz que saiu não era a dele. Era mais jovem, mais grave do que ele esperava para um garoto de quatorze anos, mas ainda adolescente. Um pouco rouca, de quem não fala muito, de quem passa o dia calado na oficina do ferreiro.
Helga franziu a testa. A linha entre as sobrancelhas se aprofundou.
Por um momento, Arin achou que ela ia questionar, ia perguntar mais, ia descobrir.
Mas ela apenas suspirou. O ar saiu dos pulmões dela num sopro cansado, e de repente Arin viu — por trás da mulher forte, por trás da mãe autoritária — o cansaço, a solidão, a perda.
O pai morreu há três anos. Desde então, Helga trabalha na estalagem. Levanta antes do sol. Dorme depois da lua. Sustenta a casa sozinha.
A memória veio sem aviso. Não era uma imagem, era uma sensação, uma certeza. Arin sabia disso agora. Sabia como se tivesse vivido.
— Você sempre dorme mal — Helga disse, finalmente. A voz perdeu a aspereza. — Vem comer antes que Jasper termine com o resto do pão. Aquele menino come por dois.
Ela saiu. A porta ficou aberta.
Arin ouviu os passos dela no corredor de madeira. TOC. TOC. TOC. O som ecoou por um momento antes de desaparecer na direção da cozinha.
Ele ficou parado, olhando para o vazio da porta.
O que eu faço agora?
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Ele não teve tempo de responder.
Uma sombra pequena passou correndo pelo corredor. Um pé de ouvido. Um grito agudo.
— NOX! ACORDOU!
Um menino apareceu na porta.
Jasper.
Oito anos. Cabelo loiro — não loiro escuro como o da mãe, loiro claro, quase branco em alguns lugares. Olhos castanhos, grandes, curiosos. Sardas no nariz. Faltava um dente na frente — o sorriso tinha um buraco no meio.
Ele estava descalço, com uma camisa suja de mingau e uma calça curta remendada no joelho.
Arin olhou para ele.
E a memória veio — forte, quente, involuntária.
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Jasper adora Nox. Segue o irmão para todo lado. Quando Nox está na oficina do ferreiro, Jasper fica sentado do lado de fora, jogando pedras e conversando sozinho. Quando Nox está em casa, Jasper fica grudado nele, contando histórias que inventa na hora, perguntando coisas sem parar.
À noite, Jasper tem pesadelos. Sonha com o pai — com o pai preso dentro da mina, chamando por ele. Nessas noites, Jasper vai para a cama de Nox. Não pede permissão. Só entra, se enfia debaixo da coberta, e dorme encostado no ombro do irmão.
Nox nunca reclama. Nox deixa. É a única coisa que Nox sabe fazer pelo irmão.
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Arin sentiu os olhos arderem. A emoção não era dele — era de Nox. O amor de Nox pelo irmão, a culpa de Nox por não conseguir fazer mais, a dor de Nox por ter perdido o pai e saber que Jasper sentia falta de uma figura que ele mal lembrava.
Isso é demais. Isso é…
— Nox? — Jasper inclinou a cabeça. O olho castanho brilhou com uma ponta de preocupação. — Você tá chorando?
Arin levou a mão ao rosto. As bochechas estavam molhadas.
Quando?
— Não — ele respondeu, a voz falhando. — É o cheiro da cebola. A mãe está cortando cebola.
Jasper franziu o nariz.
— Não tem cheiro de cebola.
— Tem sim. Você que não sente porque está com o nariz entupido.
Jasper esfregou o nariz com as costas da mão. Cheirou.
— Tá entupido mesmo — ele concordou, sério.
Arin quase riu. Era uma mentira idiota, mas funcionou. Porque Jasper confiava em Nox. Porque Jasper acreditava em tudo que o irmão dizia.
Como vou enganar esse garoto? Como vou enganar todos eles? Eu não sou Nox. Eu não sei ser Nox.
Jasper deu um passo para dentro do quarto. Os pés descalços fizeram um som seco no assoalho de madeira.
— Mãe falou pra te chamar. O pão vai acabar. E eu quero ir com você hoje.
— Ir para onde? — Arin perguntou, sem pensar.
Jasper arregalou os olhos.
— Para a oficina, ué. Você disse que ia me ensinar a martelar.
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