Quando subiu para o quarto, as pernas mal aguentavam. O corpo inteiro doía — cada músculo, cada osso, cada pensamento. Ele lavou o rosto na bacia de barro, a água fria escorrendo pelo pescoço. Comeu um pedaço de pão que Helga deixou no quarto.

    Jasper já estava na cama quando ele chegou. A escama vermelha estava na mesinha ao lado, junto com a vela queimada. O menino dormia de boca aberta, a mão pequena agarrada no travesseiro.

    Arin tirou as botas. A faca que pegou na oficina estava no cinto — ele a colocou no baú, ao lado da outra. Fechou a tampa. Deitou-se ao lado de Jasper, sentindo o colchão de lã afundar sob seu peso.

    O garoto de branco ainda estava em sua mente. As palavras dele ecoavam: “Deve ser mais do que o suficiente.”

    Mais do que o suficiente. Será que era mesmo?

    Os soldados ainda viriam cobrar a taxa. Mas agora eles tinham ouro. O reino ainda cairia. Mas agora eles tinham tempo. E havia um massacre no horizonte — um massacre que Arin não sabia quando aconteceria, mas que sabia que viria.

    Ele fechou os olhos. Ainda havia muito a fazer. Ainda havia um reino prestes a ser destruído. Ainda havia perguntas sem resposta.

    Mas, por enquanto, ele estava em casa. Jasper dormia ao seu lado. Helga estava a salvo. A vila inteira tinha se mobilizado para encontrá-lo.

    Ele não estava sozinho. Não mais.

    O sono veio, pesado e profundo, e Arin não sonhou.

    ━═✧═━

    Arin acordou com o cheiro de pão.

    Não era o cheiro fraco do pão amanhecido que ele tinha comido na noite anterior, frio e duro. Era o cheiro quente, doce, reconfortante de pão assando — aquele cheiro que entra pelas narinas e se espalha pelo corpo inteiro, acordando cada músculo, cada osso, cada pensamento.

    Ele abriu os olhos devagar. O teto de madeira estava mais claro do que de costume, iluminado por uma luz dourada que entrava pela janela. O sol — os dois sóis — já estavam altos.

    Alto demais.

    Arin se sentou de repente, o coração disparando. Quanto tempo ele dormiu? O corpo de Nox estava acostumado a acordar antes do amanhecer, a ajudar no pão, a ir para a oficina…

    Jasper não estava na cama. A escama vermelha ainda estava na mesinha de cabeceira, brilhando na luz da manhã, mas o menino tinha desaparecido. O lugar onde ele dormia ainda estava amassado, a coberta jogada para o lado.

    Arin se vestiu rapidamente — a mesma camisa de linho de sempre, a mesma calça de lã, as mesmas botas surradas. Ele precisava de roupas limpas, precisava de um banho, precisava de várias coisas. Mas agora só precisava descer e ver se estava tudo bem.

    A escada rangeu sob seus pés. Ele já conhecia os degraus que faziam barulho e os que não faziam. O corpo de Nox guiava-o automaticamente.

    A sala estava transformada.

    A mesa não estava mais virada — estava arrumada, com três tigelas de barro, uma jarra de leite e uma cesta de pães ainda soltando vapor. A lareira estava acesa, as chamas dançando alegremente. O chão de pedra estava limpo, os cacos da jarra quebrada tinham desaparecido, e até o ar parecia diferente — mais leve, mais quente, mais casa.

    Helga estava na cozinha, de costas, mexendo uma panela no fogão a lenha. O avental de couro estava no lugar, as mangas arregaçadas até os cotovelos. O cabelo loiro estava preso no coque apertado de sempre, mas algumas mechas escapavam, emoldurando o rosto.

    — Finalmente acordou — ela disse, sem se virar. A voz ainda tinha aquele tom autoritário de sempre, mas havia algo diferente. Um alívio escondido, uma leveza que não estava lá antes.

    — Que horas são? — Arin perguntou, esfregando os olhos.

    — Quase meio-dia. Você dormiu a manhã inteira.

    — Meio-dia?!

    — Você precisava. — Helga se virou, uma colher de pau na mão. O rosto ainda tinha marcas do dia anterior — a mancha roxa na maçã do rosto estava mais escura, quase preta nas bordas, mas o inchaço tinha diminuído. O olho ainda estava um pouco fechado. — Sentei aqui e comi com Jasper. Você roncava como um javali.

    — Eu não ronco — Arin protestou, aproximando-se da mesa.

    — Ah, ronca sim. Puxou o pai. Ele também roncava.

    A menção ao pai veio naturalmente, sem peso, sem tristeza. Apenas um fato. Arin sentiu uma pontada no peito — não dele, de Nox. A memória do pai ainda doía, mas a ferida estava cicatrizando.

    Jasper apareceu na porta da cozinha, segurando um ovo em cada mão como se fossem tesouros.

    — Nox! Você acordou! — O menino correu para a mesa, quase derrubando os ovos. — A mãe disse que você tava morto de cansado e mandou eu não te acordar, mas eu queria te acordar porque você perdeu o café e tinha bolo de mel que a mãe fez, mas já acabou…

    — Jasper. — Helga ergueu uma sobrancelha. — Respira.

    — …e eu comi o último pedaço — Jasper terminou, sem respirar.

    Arin riu. Foi um riso baixo, curto, mas genuíno. Quanto tempo fazia que ele não ria de verdade? Não lembrava.

    — Tudo bem. Eu prefiro pão mesmo.

    Ele se sentou à mesa. A madeira ainda estava bamba no lugar onde a perna tinha lascado, mas alguém tinha colocado uma cunha improvisada. Provavelmente Helga.

    A refeição foi simples: pão fresco, manteiga, ovos fritos, leite. Arin comeu como se não comesse há dias — o que, considerando a aventura na floresta, era quase verdade. O pão estava macio, a manteiga derretia no calor, os ovos tinham a gema mole do jeito que ele gostava. O jeito que Nox gostava.

    Jasper falou sem parar durante toda a refeição. Contou sobre o gato que apareceu no quintal (“ele é laranja e tem uma orelha cortada e a mãe disse que ele deve ser de alguém mas eu quero ficar com ele”), sobre a escama vermelha que ele mostrou para o vizinho (“o filho do padeiro disse que era de dragão e eu deixei ele achar que era”), sobre como a mãe tinha feito bolo de mel de manhã (“e você perdeu, Nox, você perdeu o bolo!”).

    Arin ouviu tudo, assentindo nos momentos certos, rindo nos momentos errados. Era estranho. Ele nunca teve um irmão, nunca teve uma família assim — uma mesa de café da manhã, uma mãe que fazia bolo, um irmão que falava sem parar.

    Ele poderia se acostumar com isso.

    ━═✧═━

    Depois do café, Helga mandou Jasper lavar os pratos. O menino reclamou — “por que eu?” — mas obedeceu, carregando as tigelas até a bacia de pedra com uma expressão de profundo sofrimento.

    Helga e Arin ficaram a sós na sala.

    Ela sentou-se no banco à sua frente. Os olhos azuis escuros — os mesmos olhos que tinham visto o marido morrer, que tinham visto os soldados baterem nela, que tinham visto o filho voltar ensanguentado da floresta — fixaram-se nele.

    — Agora — ela disse, a voz calma mas firme. — Você vai me explicar.

    Arin engoliu em seco.

    — Explicar o quê?

    — Tudo. — Helga cruzou os braços. — Como você conseguiu os dentes. Como você sobreviveu a duas serpentes rubras. E principalmente… — Ela fez uma pausa, os olhos estreitando. — Como você desenhou aquele recado no couro.

    O coração de Arin deu um salto.

    — O recado?

    — O recado. — Helga inclinou a cabeça. — Aldric disse que estava escrito “Fui resolver algo. Volto logo. Não deixe Jasper sair. Espera por mim. Te amo.” Ele leu em voz alta, sílaba por sílaba, como se estivesse decifrando um código. E era um código. Porque você nunca aprendeu a escrever, Nox.

    Arin ficou em silêncio. O que ele dizia? Como explicava?

    — Eu… aprendi sozinho — ele disse, devagar. — Na oficina. O ferreiro tem alguns pergaminhos. Ordens de serviço, listas de materiais. Eu ficava olhando, tentando entender. E aos poucos…

    — Você aprendeu a escrever sozinho? — A sobrancelha de Helga subiu. — Em segredo? Sem contar para ninguém?

    — Eu não queria que ninguém soubesse. — A mentira foi se formando enquanto ele falava, mas tinha um fundo de verdade. — Filho de ferreiro não precisa saber ler. Filho de viúva menos ainda. Eu achei que… as pessoas iam achar estranho.

    Helga ficou em silêncio por um longo momento. Os olhos azuis escuros examinaram o rosto do filho, procurando a mentira, procurando a verdade, procurando o menino que ela conhecia no rosto do jovem que estava à sua frente.

    — Eu não acho estranho — ela disse finalmente. — Eu acho incrível.

    Arin piscou.

    — Incrível?

    — Você me deixou um recado. — A voz de Helga ficou mais suave. — Não foi um desenho, não foi um rabisco. Foi um recado de verdade, com palavras, que o Aldric conseguiu ler e me explicar. Se você não tivesse feito aquilo, eu não saberia para onde você foi. Teria achado que os soldados voltaram e levaram você. Teria…

    Ela parou. A voz embargou por um momento, mas ela se recompôs rapidamente.

    — Você me deixou um recado — repetiu. — E isso fez toda a diferença.

    Arin não sabia o que dizer. Ele esperava uma bronca, esperava desconfiança, esperava perguntas que não podia responder. Não esperava… orgulho.

    — Obrigado — ele murmurou.

    Helga assentiu, uma vez, e levantou-se. Foi até a cozinha, onde Jasper ainda lutava contra os pratos, e voltou com um pedaço de couro limpo e um pedaço de carvão.

    — Me ensina — ela disse, estendendo os objetos para Arin.

    — O quê?

    — A escrever. — Helga sentou-se novamente. — Se você aprendeu sozinho, pode me ensinar. Não quero precisar do Aldric para ler os recados do meu próprio filho.

    Arin olhou para o couro, para o carvão, para Helga. E sorriu.

    — Claro — ele disse. — Vamos começar com o seu nome.

    ━═✧═━

    A manhã passou rápido.

    Arin passou quase uma hora ensinando Helga a desenhar as letras do próprio nome. Não era fácil — ela nunca tinha segurado um pedaço de carvão para escrever, e seus dedos, acostumados a amassar pão e carregar baldes, pareciam duros demais para os traços finos. Mas ela insistiu. Apagou, tentou de novo, apagou mais uma vez. Quando finalmente conseguiu escrever “HELGA” em letras tortas mas legíveis, ela sorriu — um sorriso pequeno, tímido, que iluminou o rosto cansado.

    — Está horrível — ela disse, mas ainda estava sorrindo.

    — Está perfeito — Arin respondeu.

    Jasper, que tinha terminado de lavar os pratos, correu para ver. Exigiu aprender também. Em menos de dez minutos, o menino já tinha rabiscado seu nome no couro pelo menos seis vezes, cada uma mais torta que a anterior, e uma delas ao lado de um desenho que ele jurou ser um cavalo, mas que parecia mais uma batata com pernas.

    — Isso é um cavalo? — Arin perguntou, segurando o riso.

    — É um cavalo de guerra! — Jasper defendeu, ofendido. — Ele tá de armadura!

    — Parece uma batata.

    — Você que parece uma batata!

    — Jasper — Helga interrompeu, mas seus lábios tremiam, segurando um sorriso.

    — Ele começou! — Jasper apontou para Arin, indignado.

    — Eu só falei a verdade — Arin respondeu, os olhos brilhando. — É uma batata com pernas. Uma batata de guerra, talvez.

    Jasper jogou um pedaço de couro nele. Arin jogou de volta. Em trinta segundos, os dois estavam rindo, Helga balançava a cabeça fingindo exasperação, e a sala estava cheia de retalhos de couro espalhados pelo chão.

    Foi um bom momento. Um momento simples. Um momento que parecia… família.

    ━═✧═━

    À tarde, Arin e Jasper foram até a venda do Aldric.

    O sol maior brilhava forte, lançando sombras duplas na rua de terra. As pessoas estavam nas ruas novamente — não muitas, mas mais do que no dia anterior. Uma mulher carregava um cesto de roupas lavadas. Um homem consertava uma cerca. Crianças corriam descalças, rindo, perseguindo o mesmo cachorro magro de sempre.

    A vila parecia viva novamente.

    A venda estava como sempre: escura, cheirosa, abarrotada de sacos e potes e barris. Aldric estava no balcão, o cachimbo aceso no canto da boca, uma pluma de fumaça subindo lentamente até o teto de madeira.

    — Ah, os heróis da floresta! — O velho abriu um sorriso quando viu os meninos entrarem. Os dentes eram amarelados pelo tabaco, mas o sorriso era genuíno. — O javali selvagem e o matador de serpentes!

    — Javali? — Jasper franziu o nariz.

    — Você comeu o último pedaço do bolo de mel da sua mãe. Isso é comportamento de javali.

    Jasper abriu a boca para protestar, mas não encontrou argumentos. Fechou a boca, abriu de novo.

    — Pelo menos eu não fumo cachimbo fedido.

    — Jasper! — Arin repreendeu, chocado.

    Aldric soltou uma gargalhada tão alta que o cachimbo quase caiu da boca. As cinzas voaram, e ele bateu no balcão com a palma da mão.

    — Esse menino é uma peste! — O velho riu, os olhos brilhando. — Vai longe, garoto. Vai longe.

    Arin aproveitou a pausa na risada para perguntar o que realmente importava.

    — Aldric, sobre o mercador…

    — Ah, sim, sim. — O velho recuperou a compostura, limpando as cinzas do balcão com a mão. — Mandei o mensageiro hoje de manhã. O homem que compra esses itens é um mercador de Eldoria, da capital. Ele viaja entre as vilas, mas tem uma rota fixa.

    — Quanto tempo ele vai demorar? — Arin perguntou.

    Aldric coçou a barba branca, pensativo.

    — Três dias. Talvez quatro. Depende de quanto ele se atrasar no caminho. O mercador é um homem gordo que odeia viajar — vai parando em cada estalagem, em cada venda, em cada poça d’água. Mas é justo. Paga bem. E é discreto. Não vai fazer perguntas sobre a origem dos dentes.

    Três ou quatro dias. Os soldados tinham dado uma semana. Hoje era o segundo dia. Se o mercador chegasse em quatro dias, ainda estaria dentro do prazo — mas por pouco.

    — Você acha que o dinheiro vai cobrir a taxa? — Arin perguntou.

    — Já cobri — Aldric disse simplesmente. — Mandei o mensageiro para a fortaleza também. Os soldados vão receber o pagamento ainda hoje. Sua mãe não precisa mais se preocupar com eles.

    Arin sentiu um peso imenso sair de seus ombros.

    — Obrigado — ele disse. A voz saiu mais embargada do que ele esperava.

    Aldric olhou para ele por um longo momento. Os olhos escuros eram bondosos, mas também astutos, como se lessem muito mais do que as palavras que Arin dizia.

    — Garoto — ele disse, abaixando um pouco a voz. — O que quer que tenha acontecido naquela floresta, não me interessa. Você voltou vivo. Trouxe o suficiente para salvar sua família. Isso é o que importa.

    Arin assentiu, a garganta apertada.

    — Agora vão embora — Aldric disse, voltando ao tom alegre. — E leva esse javali com você antes que ele me roube os doces de mel.

    — Eu não ia roubar! — Jasper protestou, mas seus olhos tinham ido diretamente para o pote de vidro na prateleira alta.

    Aldric revirou os olhos, mas estendeu a mão e pegou dois doces do pote. Jogou um para Jasper, que agarrou no ar com uma agilidade surpreendente. O outro ele ofereceu a Arin.

    — Vocês merecem — disse o velho. — Agora vão. Tenho fregueses de verdade para atender.

    Não tinha freguês nenhum na venda. Mas Arin entendeu o recado. Pegou o doce, agradeceu com um aceno, e saiu puxando Jasper pela mão.

    ━═✧═━

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