Capítulo 2 │Noite da Pizza
O banho foi rápido. Não tanto quanto ele queria.
A água quente escorreu pelas costas. Os olhos fechados. O cabelo molhado grudando na testa. E no meio do vapor, o pensamento intruso — o short curto, a camiseta larga, o cheiro de coco, o sorriso rápido.
Para com isso.
Não parou.
A mão desceu. Ele suspirou. A água escorria, o vapor subia, e ele pensou na vizinha, no short, na coxa, no lindo sorriso, no que ele nunca teria coragem de fazer.
Começou ali, em pé, apoiado na parede fria do box. Não demorou. A excitação veio fácil demais — porque era proibido, porque era só imaginação, porque ela nunca saberia. A mão fechou. O ritmo acelerou.
E ali tudo acabou.
Ficou por mais um minuto, encostado, o coração desacelerando. A culpa não veio — nunca vinha mais. Era só um homem de trinta e quatro anos, sozinho, com uma vizinha bonita e pouca esperança de mudar isso.
Desligou o chuveiro. Se secou. Vestiu o shorts.
Abriu a porta do banheiro.
— A pizza chegou — Rheiner gritou da sala.
— Já vou.
A pizza era de calabresa com cebola, borda recheada de catupiry, e estava perfeitamente quente. Arin suspirou de felicidade ao abrir a caixa.
— Eu te amo — disse para a pizza.
— Já pensou em fazer terapia? — Rheiner perguntou, pegando um pedaço.
— Terapia não tem borda recheada.
Eles se instalaram no sofá. Tobias, que até então fingia que dormia, magicamente acordou e colocou a cabeça no colo de Arin. Os olhos brilhavam.
— Não é pra você — disse Arin.
Tobias lambeu os lábios.
— É pra ele — disse Rheiner.
— Não é.
— É claramente pra ele.
Arin rasgou um pedaço da borda — o triângulo perfeito, crocante por fora, grudento por dentro — e entregou para o cachorro, que engoliu sem mastigar.
— Você é fraco — Rheiner observou.
— Eu sou um homem de bom coração.
— Você é um escritor de fantasia que não consegue dizer não pro próprio cachorro. Como é que você vai matar o vilão?
— O vilão não tem olhos de filhote.
Rheiner colocou O Senhor dos Pasteis. A tela escureceu. O logotipo antigo apareceu. Arin imediatamente relaxou os ombros, como se tivesse chegado em casa depois de uma viagem longa.
— Você já viu esse filme quarenta e duas vezes — Rheiner lembrou.
— Quarenta e três após hoje. Aperta o play.
O filme começou. Plano aberto. Uma paisagem campestre, colinas verdes, uma estrada de terra. A música tema — aquele acordeão melancólico — encheu a sala.
— Essa música me faz querer chorar — disse Arin, de boca cheia.
— Ela te faz querer chorar porque você tem problemas não resolvidos com seu pai.
— Meu pai gostava de forró.
— Exatamente.
O protagonista, Elmar, apareceu na tela. Barba por fazer, avental sujo de farinha, carregando um tabuleiro de pastéis recém-saídos do forno. Ele parecia cansado. Arin se identificou imediatamente.
— Olha só ele — disse Arin. — Um herói que eu posso acreditar.
— Ele é um pasteleiro.
— Pasteleiro, escritor, mesma coisa. A gente passa o dia enfiando coisas dentro de outras coisas e esperando que fique bom.
Rheiner riu — um riso sincero, desses que escapavam sem aviso.
O filme continuou. Elmar descobriu que a guilda dos padeiros malignos estava roubando fermento mágico das vilas vizinhas. A confraria dos pasteleiros se reuniu em segredo. Houve um discurso.
— Agora vem a melhor parte — disse Arin, se inclinando para frente.
Na tela, Elmar subiu em uma mesa de madeira. A câmera fechou no rosto dele. Suor, farinha, determinação.
— Eles podem ter o fermento. Eles podem ter os fornos. Mas eles não vão levar a nossa receita de família — disse o personagem.
— Isso é muito idiota — Rheiner comentou.
— É inspirador.
— É uma fala sobre fermento.
— É uma fala sobre resistência. Sobre identidade. Sobre não deixar o sistema moer a sua alma.
— Ele é um pasteleiro, Arin.
— E eu sou um escritor de fantasia que não consegue terminar o livro. A gente luta com as armas que tem.
A cena do pão de alho chegou. Minuto 47. Arin já estava com a boca aberta.
— Olha, olha, olha — ele apontou para a TV. — O pão de alho. Na mesa. Lado esquerdo. Repara.
Na cena, Elmar discutia com a padeira-chefe. A câmera cortava. Voltava. A discussão esquentava. Corte. Volta.
O pão de alho tinha sumido.
— EU TE FALEI — Arin gritou, quase jogando pizza no chão. — EU TE FALEI POR QUARENTA E DUAS VEZES.
— Isso não faz diferença na trama — Rheiner argumentou, mastigando calmamente.
— FAZ TODA A DIFERENÇA. O pão de alho representa a estabilidade doméstica que Elmar perdeu quando decidiu lutar contra a guilda. Quando ele some, é a representação visual do colapso da vida comum dele.
— Você acabou de inventar isso agora.
— Sim. Mas funcionou, né?
Rheiner balançou a cabeça, mas estava sorrindo. Tobias roncava entre os dois.
A cena final chegou. Elmar, sozinho na padaria ao amanhecer, preparava o último pastel. A câmera mostrava suas mãos enrugadas pela farinha, o cuidado com que fechava as bordas, o silêncio antes do forno.
— Essa cena me quebra — Arin disse, mais baixo agora.
— Por quê?
— Porque ele não tá fazendo aquilo pelos outros. Não pela guilda, não pela revolução. Ele tá fazendo porque é o que ele sabe fazer. Porque é a única coisa que faz sentido.
Arin olhou para a TV. A luz azul dançava nos olhos cansados dele.
— Às vezes eu penso se escrever é isso. Não os livros, não os fãs, não o dinheiro. Só… enfiar uma palavra atrás da outra porque é o que eu sei fazer.
Rheiner ficou em silêncio. O filme terminou. Os créditos subiram.
— Você vai terminar o Livro Dezoito — Rheiner disse, sem olhar para ele. — Não porque a editora quer. Porque é o que você faz.
Arin não respondeu. Só coçou a orelha de Tobias.
A pizza acabou.
Rheiner se despediu com um tapinha nas costas e um “tenta dormir, velho. A criatividade não vem no desespero.”
Arin concordou com a cabeça, sabendo que Rheiner estava certo, mas também sabendo que provavelmente passaria mais uma hora olhando para o teto antes de conseguir apagar.
— Vai dormir mesmo ou vai ficar pensando na vizinha? — Rheiner perguntou da porta, já com a chave na mão.
— Vai pra casa, Rheiner.
— Estou em casa. Moro aqui, lembra?
— Então vai pro seu quarto.
Rheiner riu — um riso baixo, desses que Arin conhecia há doze anos.
— Boa noite, velho. E termina esse livro, porra. Não vou aguentar mais um mês ouvindo a editora chorar.
— Boa noite.
A porta fechou.
O apartamento ficou silencioso. Não um silêncio vazio. Um silêncio cheio — da geladeira zumbindo na cozinha, do cano pingando no banheiro, do ronco ritmado de Tobias que já tinha se instalado no sofá. Arin ficou parado no meio da sala por um momento, olhando para as coisas. A luz amarela do abajur. Os livros empilhados. O monitor do computador preto, dormindo.
É o que você sabe fazer. Rheiner tinha razão. Como sempre.
Ele puxou a cadeira. Sentou.
O monitor acordou com um toque no teclado. A tela de volta — abas abertas, documentos sem título, uma planilha de royalties que Rheiner insistia que ele olhasse, e a pasta do Livro Dezoito. Clicou sem pensar.
Documento vazio.
Cursor piscando. Três semanas para escrever o final de uma saga de quinze anos. Três semanas para descobrir como matar o maldito vilão — ou não matar, ou trair, ou redenção, ou…
Ele fechou o documento.
Abriu o navegador.
As redes sociais estavam um caixa de ressonância. A última publicação dele, feita há quatro dias, tinha três mil comentários. Arin nunca lia todos — Rheiner dizia pra não ler nenhum — mas hoje, por algum motivo, ele rolou.
“Cadê o livro 18? Estou esperando há dois anos.”
“Arin, por favor, não mata o Kaelen. Se ele morrer eu juro que vou te processar.”
“A Terra das Sombras salvou minha vida. Obrigado por existir.”
“Se o final for ruim eu vou queimar meus livros.”
“Você consegue, Arin! Confia no seu taco!”
“Já leu outras sagas? Tá muito atrasado. Perdeu o timing.”
Ele parou nesse último.
Perdeu o timing.
Três palavras que doeram mais do que deveriam. Não porque fossem verdade, mas porque pareciam. O mercado de fantasia tinha mudado. Novos autores, novas séries, novas fórmulas. A Terra das Sombras ainda vendia, mas não era mais a novidade. Não era mais o fenômeno.
E se o final for ruim? E se ninguém se importar? E se todo mundo se importar pelo motivo errado?
Arin fechou a aba.
Abriu o e-mail.
Editora: três mensagens não lidas. Agência: duas. Rheiner: quinze, a maioria com assuntos como “RESPONDE ISSO”, “URGENTE” e “PRAZO”. Arin ignorou todas.
Uma mensagem chamou atenção. Caixa de entrada principal, remetente desconhecido, assunto vazio. Ele abriu.
“Olá, Arin. Sou fã desde o livro 4. Sei que você deve receber muitas mensagens, mas queria dizer algo: não importa o final que você escolher, vai estar certo. Você criou esse mundo. Ninguém sabe o que é melhor para ele além de você. Confie. Ass: alguém que acredita.”
Arin leu três vezes.
Não respondeu.
Mas sentiu algo — um aperto no peito que não era exatamente ruim. Era como se alguém tivesse posto a mão no ombro dele sem ele ver.
Fechou o e-mail. Fechou o navegador. O monitor voltou à tela inicial. O cursor piscava no campo de busca, esperando.
Confie. Em quê? Em quem?
Ele empurrou a cadeira para trás. O barulho rangou no piso.
Tobias levantou a cabeça, olhou para ele com um olho só, e voltou a roncar.
Arin andou até a janela da sacada. Empurrou a cortina. Lá fora, a rua deserta, os postes, o céu alaranjado de poluição. E, do outro lado do pequeno pátio interno, a janela da vizinha.
A luz estava acesa.
Uma silhueta passou rápido — ela, indo de um lado para o outro, talvez arrumando a casa, talvez se preparando para dormir. Arin não conseguia ver detalhes. Só a forma, o movimento, a certeza de que ela existia ali, a poucos metros, vivendo a vida dela, completamente alheia à existência dele.
Quantas vezes a gente cruza com alguém que poderia mudar tudo e nem percebe?
Ele se afastou da janela. Não respondeu a própria pergunta.
Foi até o quarto.
Tobias já estava na cama. Centro do colchão. Tirano peludo. Arin suspirou fundo, mas não teve coragem de mover o cachorro. Deitou-se na beirada, o braço esquerdo pendurado para fora, o direito servindo de travesseiro improvisado.
O teto do quarto era branco. Ele encarou o branco por um longo minuto.
Os pensamentos vieram em ondas. A vizinha. O Livro Dezoito. Rheiner. A pizza. O pão de alho que sumiu no minuto 47. A primeira vez que mostrou o manuscrito para Rheiner. O cheiro de xampu de coco. O prazo que vencia em três semanas. O olho de Tobias pedindo um pedaço da borda.
E se eu simplesmente… acabasse com tudo no dezoito?
O pensamento voltou. Um final que ninguém espera. Um final que nem eu espero.
Arin piscou para o teto. O que significava “acabar com tudo”? Matar o protagonista? Destruir o mundo? Revelar que tudo não passou de um sonho? Ele não sabia. Era só um pensamento solto, como uma folha seca que o vento carrega sem destino.
Mas ficou ali. Plantado. Pequeno. Incomodando.
Ele bocejou.
Virou de lado. Tobias rosnou baixo em protesto, mas não se moveu. Arin fechou os olhos. O cano pingou no banheiro. A geladeira zumbiu. O mundo lá fora continuava girando, indiferente.
O sono veio devagar, como uma maré enchendo.
E antes de apagar completamente — no limite entre estar acordado e sonhar — Arin teve a sensação estranha de que algo estava diferente. Um cheiro. Um som. Uma presença.
Estranho…
O pensamento não terminou.
Ele dormiu.
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