Capítulo 6 │Café com Dúvida
A memória veio. Ontem, Nox prometeu. Depois do trabalho, ia mostrar para Jasper como martelar um prego sem entortar. Jasper estava animado há dias.
Arin suspirou.
Claro que prometeu.
— Hoje não — ele disse. A voz saiu mais dura do que ele queria. Viu o rosto de Jasper cair. O olho castanho perdeu o brilho.
— Por quê?
Porque eu não sei martelar. Porque eu não sei ser ferreiro. Porque eu não sei ser Nox.
— Porque estou cansado — Arin disse, hesitando. Precisava de uma desculpa. Qualquer desculpa. — Trabalhei muito ontem. Acho que peguei peso demais.
Jasper olhou para ele. A preocupação voltou.
— Você está doente?
— Não. Só cansado.
— Você sempre fica cansado.
A frase foi dita sem maldade. Era um fato. Nox sempre ficava cansado. Trabalhava demais, dormia de menos.
Arin sentiu uma pontada de culpa. Não pela mentira, pela verdade. Pela vida de Nox, pelo garoto de quatorze anos que já tinha mãos de trabalhador e olheiras de adulto.
Eu sei como é. Eu também sou assim.
A semelhança entre ele e Nox — entre o escritor cansado e o ferreiro cansado — bateu como um reconhecimento estranho.
— Hoje não — Arin repetiu, mais suave. — Mas amanhã. Prometo.
Jasper não respondeu. Apenas virou as costas e saiu correndo. Os pés descalços bateram no assoalho — TOC TOC TOC — até sumirem no corredor.
Arin ficou sozinho.
Olhou para as próprias mãos. As mãos de Nox. Calejadas, sujas, reais demais.
Onde eu estou? Quem eu sou agora? O que aconteceu com o Arin? O que aconteceu com a minha vida?
Ele não sabia.
━═✧═━
Arin ficou parado no meio do quarto por mais alguns minutos.
Os passos de Jasper já tinham sumido há tempos. O corredor estava silencioso agora. Apenas o rangido distante da porta da cozinha abrindo e fechando, o barulho abafado de vozes — Helga falando alguma coisa, Jasper respondendo em tom de quem está reclamando.
Você não pode ficar aqui para sempre. Tem que descer, tem que comer, tem que agir como se fosse Nox.
Ele olhou para o baú no canto do quarto. Andou até ele. Os pés descalços fizeram um som seco no assoalho — tap, tap, tap. Ajoelhou-se na frente do baú. A madeira era escura, manchada pelo tempo, com as bordas desgastadas. O ferrolho de ferro estava destrancado.
Arin levantou a tampa.
O baú rangeu — um rangido grave, de dobradiças velhas e enferrujadas. Dentro, roupas dobradas. Camisas de linho cru, algumas remendadas nos cotovelos. Calças de lã grossa, escuras. Um par de botas de couro surrado, com a sola gasta. Meias de lã — três pares, todos com remendos nos calcanhares.
No fundo do baú, um objeto chamou atenção.
Uma faca.
Não uma faca de cozinha. Uma faca de trabalho. Lâmina curta, de uns quinze centímetros, levemente manchada de ferrugem na ponta. Cabo de madeira escura, desgastado pelo uso, com pequenas rachaduras. A bainha era de couro velho, com uma costura grossa na lateral.
Arin pegou a faca. O peso era estranho — mais pesado do que ele esperava. A lâmina refletiu a luz fraca do quarto.
A memória veio.
O ferreiro deu a faca para Nox no primeiro dia de trabalho. “Todo ferreiro precisa de uma boa faca”, ele disse. Nox guarda a faca no baú. Não usa. Tem medo de estragar. Mas gosta de saber que está ali.
Arin colocou a faca de volta no baú. Não era dele. Não era para ele.
Pegou uma camisa de linho — a menos remendada — e uma calça de lã. As roupas eram mais grossas do que ele estava acostumado. O linho era áspero contra os dedos, diferente do algodão macio das camisetas dele. A lã coçava um pouco.
Ele se vestiu.
A camisa era larga nos ombros, mas justa no peito. As mangas compridas cobriam os braços até os pulsos. A calça era curta — parava nas canelas, como se esperasse botas. Os cordões na cintura serviam para amarrar.
Arin amarrou. Os dedos — os dedos calejados de Nox — fizeram o movimento com uma facilidade que não era dele. O corpo sabia o que fazer, mesmo que a mente não soubesse.
Estranho. Muito estranho.
Ele calçou as botas. O couro era duro, desconfortável, mas o pé de Nox já estava acostumado. Arin sentiu o calcanhar esfregar contra a sola da bota — um atrito conhecido, uma bolsa que já tinha se formado e cicatrizado muitas vezes.
Pronto.
Ele olhou para a janela mais uma vez. O céu alaranjado de fora parecia convidativo e ameaçador ao mesmo tempo.
Vamos.
━═✧═━
O corredor era estreito.
Arin saiu do quarto e se viu num corredor de madeira escura, com o chão de tábuas largas e irregulares. As paredes eram de madeira também, com algumas rachaduras por onde a luz entrava em filetes finos. Pendurado numa das paredes, um espelho pequeno, de metal polido — não vidro, metal. O reflexo estava embaçado, distorcido.
Ele passou rápido. Não queria ver o rosto de Nox ainda. Não queria encarar os olhos de um garoto de quatorze anos que não era ele.
No final do corredor, uma escada. Escada de madeira, estreita, íngreme, com degraus desgastados no centro — de tanto subir e descer ao longo dos anos.
Arin desceu.
Cada degrau rangia num tom diferente. O primeiro, um rangido agudo. O segundo, grave, quase um gemido. O terceiro, silencioso, como se fosse novo. O corpo de Nox conhecia cada som. Os pés de Nox sabiam onde pisar para evitar o barulho, mas Arin não sabia. Ele pisou onde não devia, e a escada rangeu alto.
— Já vou! — ele disse, antes que Helga gritasse de novo.
Não houve resposta.
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O andar de baixo era diferente.
Arin chegou no final da escada e parou.
A sala era ampla — não grande, mas mais aberta do que ele esperava. O teto era alto, com vigas grossas de madeira aparente. O chão era de pedra — não pedra polida, pedra bruta, com desníveis e manchas escuras de umidade. No centro, uma lareira de pedra, ainda com brasas vivas da noite anterior. O cheiro de fumaça de lenha era forte ali, misturado com o cheiro de pão e de ervas secas penduradas numa corda sobre a lareira.
Uma mesa comprida de madeira ocupava o centro da sala. Simples, sem enfeites, com marcas de faca na superfície e manchas escuras de líquido derramado. Em volta da mesa, bancos de madeira — não cadeiras, bancos. Três bancos. Um para cada.
Sobre a mesa, uma tigela de barro com algumas maçãs murchas. Uma jarra de água. Uma vela queimada até a metade num castiçal de ferro.
E pão.
Pão fresco, ainda soltando vapor, cortado em fatias grossas. Ao lado, um pote de manteiga amarelada e um prato com fatias de queijo branco, levemente amarelado nas bordas.
A cozinha ficava num canto da sala, separada por um balcão baixo de pedra. Arin conseguia ver o fogão a lenha — uma estrutura de ferro preto, com panelas penduradas em ganchos acima. Helga estava de costas para ele, mexendo alguma coisa numa panela. O avental dela estava manchado, mas as mãos dela eram rápidas, eficientes.
Jasper já estava sentado à mesa. A bochecha inchada de pão, os olhos castanhos fixos no irmão. Ainda estava bravo? Talvez. Mas a curiosidade era maior.
— Nox — Jasper disse, com a boca cheia. — Você demorou.
— Eu sei — Arin respondeu.
Sentou-se no banco em frente a Jasper. A madeira do banco era dura, desconfortável, mas o corpo de Nox se ajustou automaticamente. As pernas encontraram a posição certa, as costas se inclinaram levemente para frente, os cotovelos apoiaram na mesa.
Arin olhou para o pão.
A fome veio de repente — forte, urgente, como se ele não comesse há dias. A boca encheu de saliva. O estômago roncou alto o suficiente para Jasper ouvir.
— Você está com fome mesmo — Jasper disse, rindo.
— Cala a boca — Arin respondeu, mas sem veneno.
A voz saiu diferente, mais leve, mais irmão.
De onde veio isso? Eu não sou irmão de ninguém. Eu não tenho irmão.
Mas o corpo de Nox sabia. O corpo de Nox sabia como falar com Jasper. E Arin, dentro do corpo, apenas deixou acontecer.
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Ele pegou uma fatia de pão. A casca era crocante, estalou entre os dedos. O miolo era macio, quente, quase derretia na boca. Ele passou manteiga — a faca raspou a superfície amarela, espalhando uniformemente — e mordeu.
O sabor era simples. Pão, manteiga, sal. Nada mais. Mas era o melhor pão que Arin já tinha comido. Talvez porque ele estivesse com fome, talvez porque fosse pão de verdade, feito em fogão a lenha, com farinha moída na mão.
Eu não sei fazer pão. Eu nunca fiz pão. Mas Nox sabe.
A memória veio.
Nox acorda antes do sol. Ajuda Helga a acender o fogão. Amassa o pão enquanto ela prepara o queijo. É a única coisa que ele sabe fazer na cozinha. O resto é com ela. Ele gosta do ritual, do silêncio, do cheiro da farinha misturada com a água, de ver o pão crescer. É a única hora do dia em que ele não pensa no pai.
Arin mastigou em silêncio. A emoção de Nox — a ausência do pai, a rotina vazia, a tristeza contida — pulsou dentro dele como uma ferida que não cicatriza.
Helga virou-se do fogão.
Ela segurava uma frigideira de ferro com três ovos fritos. As gemas estavam inteiras, alaranjadas, brilhando com gordura. Ela colocou um ovo no prato de Jasper, um no prato de Arin, um no dela.
— Come — ela disse. Não era um convite. Era uma ordem.
Arin obedeceu.
O ovo estava quente, a gema líquida escorrendo pelo pão. Ele molhou a fatia na gema, como se soubesse exatamente o que fazer. O corpo sabia. Os dedos de Nox sabiam.
O que está acontecendo comigo? Eu não estou apenas dentro do corpo dele. Eu estou… virando ele? Ou ele está virando eu?
Helga sentou-se no banco ao lado dele. O banco rangeu com o peso dela. Ela pegou uma fatia de pão, passou manteiga, comeu em silêncio.
Por um momento, ninguém falou.
Apenas o barulho da mastigação, o crepitar das brasas na lareira, o vento lá fora batendo nas telhas.
Jasper foi o primeiro a quebrar o silêncio.
— Nox disse que não vai me ensinar a martelar hoje.
Helga olhou para Arin. A sobrancelha esquerda subiu um milímetro.
— Disse?
Arin engoliu o pão. A garganta de Nox — a garganta dele agora — estava seca.
— Estou cansado — ele repetiu. — Trabalhei demais ontem.
Helga não respondeu imediatamente. Ela apenas olhou. Os olhos azuis escuros de Helga — os mesmos olhos que já tinham visto o marido morrer, que já tinham visto a família passar fome, que já tinham visto de tudo — examinaram o filho.
Arin sentiu o peso daquele olhar.
Ela sabe. Ela sabe que algo está errado. Mães sabem.
Eu li isso em algum lugar. Em algum livro. Em algum… No meu livro. Eu escrevi isso. Uma mãe sempre sabe quando o filho não é o mesmo. Foi num dos livros de A Terra das Sombras. Uma personagem disse isso.
Por que eu estou pensando nisso agora?
Helga desviou o olhar.
— Hoje você não vai para a oficina — ela disse. A voz era calma, mas não deixava margem para discussão. — Vai descansar. Amanhã você volta.
— Mãe… — Arin começou.
— Não discute, Nox.
A autoridade na voz era absoluta. Arin calou a boca.
Jasper olhou para a mãe, depois para o irmão. Um sorriso pequeno apareceu no rosto do menino — o sorriso de quem acabou de ganhar uma batalha sem nem lutar.
— Então você vai ficar em casa? — Jasper perguntou.
— Parece que sim — Arin respondeu, a voz seca.
— Então você pode me ensinar a martelar aqui.
— Aqui não tem bigorna.
— A gente pode improvisar.
— Jasper — Helga interrompeu. — Deixa seu irmão descansar.
Jasper bufou. Enfiou o resto do pão na boca e mastigou com raiva.
Arin olhou para a janela da sala. Era maior do que a do quarto, com vidro mais limpo. Através dela, ele via a rua de terra, as casas, as pessoas, a floresta ao fundo.
Onde eu estou? Que lugar é esse? Isso não parece o Brasil. Isso não parece nenhum lugar que eu conheço.
Parece… parece algo que eu escreveria.
O pensamento foi rápido, fugaz, e Arin o empurrou para longe antes que pudesse terminar.
Não agora. Agora ele precisava sobreviver.
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Helga terminou de comer. Levantou-se, pegou os pratos vazios e levou até uma bacia de pedra no canto da cozinha. A água da bacia estava morna — ainda quente da manhã. Ela começou a lavar os pratos em silêncio.
Arin observou.
Os ombros dela estavam tensos. As mãos dela se moviam rápido, quase agressivas, esfregando a louça com uma esponja de fibras vegetais. O cabelo loiro — algumas mechas soltas do coque — balançavam a cada movimento.
Ela está preocupada. Preocupada com Nox. Preocupada com alguma coisa que ele não está contando.
Arin sentiu uma pontada de culpa. Não era culpa dele — era culpa de Nox. Ou talvez fosse culpa dele. Ele estava ali, ocupando o lugar do filho dela, enganando-a.
Eu não pedi para estar aqui. Eu não quero estar aqui. Mas estou. E enquanto estou, preciso fazer o que Nox faria.
O pensamento foi assustador.
O que Nox faria? Eu não sei o que Nox faria. Eu não sei quem Nox é. Eu só tenho pedaços, fragmentos, memórias que vêm quando não espero.
Ele olhou para as próprias mãos novamente. As mãos de Nox. As mãos calejadas de Nox.
Quem é você, Nox? O que você quer? O que você sente? O que você esconde?
A memória não veio. Apenas o silêncio. E o cheiro de pão. E a luz da manhã entrando pela janela.
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O café da manhã terminou em silêncio.
Helga lavou os últimos pratos e enxugou as mãos no avental. Sem olhar para os filhos, ela disse:
— Eu vou para a estalagem. Volto no final da tarde. Jasper, você cuida do Nox.
— Eu não preciso de cuidado — Arin respondeu, a voz saindo mais áspera do que ele queria.
Helga finalmente olhou para ele. Os olhos azuis escuros brilharam por um momento — não com raiva, com algo mais próximo de cansaço.
— Eu sei. Cuida dele do mesmo jeito.
Ela pegou uma capa de lã pendurada na parede, enrolou nos ombros, e saiu pela porta da frente. A porta rangeu ao fechar. Os passos dela na rua de terra foram ficando mais distantes até sumirem.
Arin ficou sentado à mesa por um longo momento.
Jasper estava ao lado, balançando as pernas no banco, os pés descalços batendo na madeira — tap, tap, tap. O garoto não falava, mas os olhos castanhos estavam fixos no irmão.
Ele sabe que algo está errado. Crianças sabem. Elas sentem.
Arin levantou-se.
— Vou para o quarto — disse, sem olhar para Jasper.
— Por quê?
— Preciso pensar.
Jasper franziu o nariz.
— Pensar no quê?
Em como eu vim parar aqui. Em como eu vou voltar. Em quem eu sou agora. Em quem era antes.
— Em coisas — Arin respondeu. — Coisas de gente grande.
Jasper fez careta.
— Coisas de gente grande são chatas.
— São.
Arin subiu a escada. Os degraus rangeram sob seus pés — agora ele já sabia quais evitar. O corpo de Nox estava ensinando. Aos poucos.
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O quarto estava como ele tinha deixado.
A cama desfeita, a coberta de lã amassada, o baú aberto, a faca ainda dentro, brilhando fracamente na penumbra.
Arin fechou a porta. Sentou-se na cama. O colchão de lã chiou sob seu peso — melhor do que palha, mas ainda desconfortável para quem estava acostumado com molas e espuma.
Ele deitou de costas.
O teto de madeira olhou para ele.
O que aconteceu? Vamos pensar. Desde o começo.
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Eu estava no apartamento. Rheiner estava lá. Tobias estava no meu colo. A gente comeu pizza. Assistimos O Senhor dos Pasteis. Rheiner foi dormir. Eu fui para o computador. Li e-mails. Uma fã mandou uma mensagem. “Alguém que acredita.”
Depois fui para a cama. Tobias já estava nela. Centro do colchão. Tirano peludo.
Eu pensei em alguma coisa. “E se eu acabasse com tudo no dezoito? Um final que ninguém espera. Um final que nem eu espero.”
Depois… depois a sensação estranha. Um cheiro, um som, uma presença. E eu dormi.
Arin fechou os olhos.
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Acordei num quarto diferente. Madeira feia, chão de terra, cama de palha, uma vela acesa, uma janela com pano no lugar do vidro. Olhei pela janela. Branco. Nada. Vazio. Olhei pela porta. Branco. Nada. Vazio.
Andei. Andei muito. Meus pés sangraram. Meu corpo doeu.
Uma esfera apareceu. Ela falou comigo. Disse que eu estava no “Entre-meio”. Disse que eu não terminei o que comecei. Disse que essa era a minha chance de fazer a vida que eu realmente gostaria de ter.
Depois…
Arin sentiu o coração acelerar.
Depois meu coração parou. A escuridão veio. E eu morri. Ou quase. Ou não. Eu não sei.
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Ele abriu os olhos.
O teto de madeira continuava ali. As vigas escuras, as rachaduras, a infiltração no canto.
Acordei aqui. Neste quarto. Neste corpo. Corpo de Nox. Nox Siegfried. Quatorze anos. Ruivo, mãos calejadas, mãe loira, irmão pequeno, pai morto. Ferreiro. Vila. Floresta. Montanhas.
Isso parece…
O pensamento veio, mas ele o empurrou para longe.
Não. Ainda não. Primeiro preciso entender onde estou. Depois penso no resto.
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Arin ficou deitado por um longo tempo.
Os pensamentos vinham e iam. A memória da escuridão — a sensação de ser consumido, de deixar de existir — voltava em ondas, fazendo seu estômago embrulhar. Ele respirava fundo. Inspirava pelo nariz, soltava pela boca.
Você está vivo. Você está aqui. Você está em algum lugar. Você vai descobrir o que aconteceu.
A porta rangeu.
Arin levantou a cabeça.
Jasper estava na soleira. O cabelo loiro estava mais bagunçado do que antes — provavelmente tinha passado a mão várias vezes. Os olhos castanhos estavam sérios.
— Nox.
— O quê?
— A mãe mandou a gente comprar mantimentos.
Arin sentou-se na cama.
— Mantimentos?
— Uhum. — Jasper entrou no quarto. Os pés descalços fizeram tap, tap, tap no assoalho. — Ela disse que antes de ir para a estalagem, deixou uma lista na cozinha. Disse que a gente vai na venda do Tio Aldric.
O nome ecoou na mente de Arin.
Aldric. Venda. Mantimentos.
A memória veio.
Aldric é o dono da venda. Velho, barbudo, sempre com um cachimbo no canto da boca. Conhece todo mundo na vila. Sabe o nome de cada criança. Deixa Jasper escolher um doce de graça às vezes, quando Helga não está olhando. Nox gosta de Aldric. É um dos poucos adultos que não olha para ele com pena.
— Tio Aldric — Arin repetiu, testando o nome na boca.
— É. — Jasper já estava impaciente. — Vamos logo? Eu quero ver se ele tem aqueles doces de mel.
Arin levantou-se. As botas de couro estavam perto da cama. Ele calçou. Os dedos de Nox se ajustaram ao couro duro com uma facilidade que ainda o assustava.
— Vamos.
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