O silêncio pesava.

    Arin ficou parado na soleira da porta por um longo tempo. O céu com dois sóis e três luas continuava lá — imutável, indiferente, real demais para ser um sonho, absurdo demais para ser verdade.

    Dois sóis. Três luas. O emblema do reino. Os soldados. A taxa.

    Ele sabia o que aquilo significava. Sabia no fundo dos ossos, no fundo das memórias que ele mesmo tinha escrito.

    O Reino de Eldoria. O reino que eu criei.

    Mas o resto — o que aconteceria com este reino, quando aconteceria — estava em branco. Um vazio. Um silêncio na mente dele.

    Eu não lembro. Eu escrevi dezoito livros. Milhares de páginas. Centenas de personagens. E agora… Nada. Só pedaços. Só fragmentos.

    — Nox? — a voz de Jasper veio de trás, pequena, trêmula. — Nox, o que você está olhando?

    Arin piscou. O mundo voltou ao foco. A rua de terra, as casas, o cachorro magro debaixo da carroça, as galinhas que já tinham voltado a ciscar, indiferentes ao terror que tinham testemunhado.

    — Nada — ele respondeu. A voz saiu estranha — não era a voz de Arin, não era a voz de Nox. Era uma terceira voz, cansada, velha demais para um garoto de quatorze anos. — Vamos.

    Ele entrou em casa.

    ━═✧═━

    A sala estava um caos.

    A mesa estava virada, os bancos espalhados, o pão pisado no chão. A jarra de água tinha se quebrado em pelo menos três pedaços grandes e vários pequenos, espalhados numa poça que já começava a secar. A água tinha encharcado o chão de pedra, formando manchas escuras que brilhavam na luz da lareira.

    Helga ainda estava de joelhos. Ela não tinha se movido. O cabelo loiro — antes preso num coque apertado — estava solto, bagunçado, caindo sobre o rosto como uma cortina. Os ombros tremiam. As mãos — as mãos fortes que amassavam pão, que carregavam baldes, que limpavam a casa — estavam apoiadas no chão de pedra, os dedos abertos, como se ela estivesse tentando se segurar no mundo.

    Arin foi até ela. O coração batia rápido — não de medo, não mais. De outra coisa. Uma coisa que ele não sabia nomear. Responsabilidade. Culpa. Vontade de consertar.

    Ele se ajoelhou ao lado dela.

    — Mãe.

    A palavra saiu sozinha. Não foi planejada, não foi pensada. Simplesmente aconteceu — como se o corpo de Nox soubesse o que dizer, mesmo quando a mente de Arin ainda estava processando.

    Helga levantou a cabeça.

    O rosto dela estava um estrago. A mancha roxa na maçã do rosto direito já estava quase preta, inchada, feia. O olho direito estava levemente fechado, a pálpebra inchada. O lábio inferior estava rachado no canto, com uma pequena crosta de sangue seco.

    Mas os olhos — os olhos azuis escuros — estavam secos.

    Ela não tinha chorado. Por que ela não chora?

    Nox sabe por quê.

    A memória veio.

    ━═✧═━

    Helga não chora na frente dos filhos. Nunca. Nem quando o caixão do pai foi enterrado. Nem quando a conta da farinha veio mais alta do que o esperado. Nem quando os soldados bateram nela da primeira vez.

    Ela espera os filhos dormirem. Aí ela chora. No silêncio. No escuro. Sozinha.

    ━═✧═━

    Arin sentiu o peito apertar. A dor não era dele — era de Nox. Mas doía do mesmo jeito.

    — Vamos — ele disse, estendendo a mão. — Vamos te levar para o quarto.

    Helga olhou para a mão dele. Por um momento, ela não se moveu. Arin achou que ela ia recusar, ia dizer que estava bem, ia dizer para ele cuidar de Jasper.

    Mas ela não disse nada. Apenas pegou a mão dele. A mão dela estava fria. E tremia.

    Arin ajudou ela a se levantar. Ela gemeu — um som baixo, quase inaudível — quando colocou peso na perna direita.

    Machucou o joelho? O tornozelo? Ela não vai dizer.

    — Jasper — Arin chamou, sem olhar para trás. — Pega a lamparina. E traz um pano limpo. Molha na água da bacia.

    — O quê? — a voz de Jasper era pequena, perdida.

    — O pano. Molha. Traz.

    Jasper não perguntou de novo. Arin ouviu os pés descalços do menino correndo para a cozinha — tap, tap, tap — e depois o barulho de água sendo derramada.

    ━═✧═━

    O quarto de Helga ficava no mesmo andar de cima, no final do corredor.

    A porta era igual às outras — madeira escura, simples, sem pintura. Arin empurrou com o ombro, ajudando Helga a entrar.

    O quarto era pequeno. Uma cama de madeira com um colchão de lã, uma coberta azul desbotada, cheia de remendos. Um baú no canto, menor do que o de Nox. Uma mesa com uma vela queimada até o fim — só restava um nó de cera preta no castiçal de ferro. Uma janela com vidro, como a do quarto de Nox, mas menor.

    Uma cortina de linho separava um canto do quarto — atrás dela, um lavabo simples, uma bacia e uma jarra.

    O quarto de uma viúva. Pobre. Sobrevivente.

    Arin ajudou Helga a sentar na cama. Ela gemeu novamente — dessa vez mais alto — quando a cama rangeu sob seu peso.

    — O que doeu? — Arin perguntou.

    — Nada — ela respondeu.

    Mentira.

    — Mãe.

    O tom da voz dele deve ter sido diferente. Mais firme, mais adulto. Helga olhou para ele — e pela primeira vez, Arin viu algo nos olhos dela que não era cansaço. Era estranhamento.

    Ela está vendo Nox. Mas não está vendo Nox. Está vendo alguma coisa que não reconhece.

    — O joelho — ela disse finalmente. — O joelho direito. Apoiei mal quando… quando caí.

    Quando o soldado empurrou ela. Quando ela caiu de joelhos. Quando Jasper viu.

    Arin não perguntou mais. Ele se ajoelhou na frente dela e, com cuidado, levantou a barra do vestido.

    O joelho estava ralado. A pele estava arrancada num pedaço do tamanho de uma moeda, e o sangue já tinha secado, formando uma crosta escura grudada no tecido do vestido.

    Precisa limpar. Precisa pano limpo.

    — Já volto — ele disse, levantando-se.

    — Nox — Helga chamou.

    Ele parou.

    — Obrigada.

    A voz dela estava estranha. Não era a voz autoritária, cansada, mas firme. Era uma voz mais frágil, mais humana.

    Arin não respondeu. Apenas saiu.

    ━═✧═━

    No corredor, Jasper estava esperando.

    O menino segurava uma lamparina de óleo numa mão e um pano molhado na outra. O pano pingava água no chão de madeira — plic, plic, plic.

    — Tá aqui — Jasper disse. A voz ainda tremia.

    Arin pegou o pano.

    — Obrigado.

    Jasper não respondeu. Apenas olhou para a porta do quarto da mãe, os olhos castanhos brilhando na luz da lamparina.

    — Ela vai ficar bem? — o menino perguntou.

    Ela vai ficar bem? Não sei. Eu não sei nada.

    — Vai — ele respondeu. A voz saiu mais confiante do que ele se sentia. — Vai ficar bem. Vai descansar. Amanhã já vai estar melhor.

    Jasper assentiu. O queixo ainda tremia, mas ele não chorou.

    Que menino forte. Que menino corajoso. Nox sabe disso. Arin está começando a saber também.

    ━═✧═━

    Arin voltou para o quarto da mãe.

    Limpou o joelho dela com cuidado. O pano molhado removeu o sangue seco, e Helga não fez barulho — mas Arin sentiu o corpo dela tenso a cada toque.

    Está doendo. Ela não quer mostrar.

    Quando terminou, Arin enrolou um pedaço de pano limpo em volta do joelho — improvisou uma bandagem, do jeito que Nox lembrava de ter visto o ferreiro fazer quando alguém se machucava na oficina.

    Nox sabe. Nox viu. Nox aprendeu sem perceber.

    Helga olhou para o trabalho dele.

    — Onde você aprendeu isso? — ela perguntou.

    Arin hesitou. Como explicar? Como explicar qualquer coisa?

    — Na oficina — ele respondeu. A mentira saiu fácil, fácil demais. — O ferreiro ensinou.

    Helga não disse nada. Apenas olhou. Aquele olhar. O olhar de quem sabe que algo está errado. O olhar de quem está esperando.

    Ela sabe. Mães sabem. Sempre.

    — Vou arrumar a sala — Arin disse, levantando-se. — Jasper, fica com a mãe.

    — Eu quero ajudar — Jasper protestou.

    — Fica com a mãe.

    A voz não deixou espaço para discussão. Jasper calou a boca.

    Arin saiu.

    ━═✧═━

    A sala estava do mesmo jeito. A mesa virada, os bancos espalhados, o pão pisado, a jarra quebrada, a poça de água secando.

    Arin ficou parado no meio da bagunça.

    Por onde eu começo?

    Nox sabe. Nox já fez isso antes.

    Depois dos soldados. Depois de cada vez.

    A memória veio — não completa, mas suficiente.

    ━═✧═━

    Não era a primeira vez. Soldados. Sempre soldados.

    A primeira vez, Nox tinha oito anos. Helga tentou explicar que não tinha dinheiro. O soldado bateu nela. Nox correu. O soldado bateu nele também.

    Depois que eles foram embora, Helga limpou o sangue do rosto de Nox. Não chorou. Não disse nada. Apenas limpou.

    Nox nunca esqueceu.

    ━═✧═━

    Arin sentiu o braço doer — o braço de Nox, onde uma cicatriz velha marcava a pele.

    Oito anos. Ele tinha oito anos quando um soldado bateu nele. E agora ele tem quatorze. E nada mudou. Os soldados continuam vindo. Helga continua apanhando. Jasper continua vendo.

    Ele virou a mesa primeiro. A madeira era pesada — mais pesada do que ele esperava. Os braços de Nox tremeram com o esforço, mas ele conseguiu. A mesa voltou ao lugar, as pernas apoiadas no chão de pedra. Estava bamba — uma das pernas tinha lascado na queda. Arin enfiou uma lasca de madeira debaixo dela, do jeito que Nox lembrava de ter visto Helga fazer.

    Nox viu. Nox aprendeu. Arin está usando.

    Depois os bancos. Três bancos. Dois estavam intactos. Um tinha rachado no assento — ainda dava para usar, mas precisava de cuidado.

    Depois o pão. Arin juntou os pedaços do chão. Alguns estavam sujos demais para comer — esses ele colocou num pano para dar para as galinhas. Os que ainda estavam limpos, ele colocou numa tigela.

    Depois a jarra quebrada. Arin juntou os cacos com cuidado. Os dedos de Nox — calejados, ásperos — seguraram os pedaços de cerâmica sem se cortar.

    Nox sabia manusear cacos. Por quê?

    A memória veio.

    ━═✧═━

    O pai quebrou uma jarra uma vez. Bêbado. Nox tinha cinco anos. O pai gritou. Helga chorou. Nox juntou os cacos.

    ━═✧═━

    Arin engoliu em seco.

    O pai não era bom. O pai bebia. O pai batia?

    A memória não veio. Apenas um vazio, um silêncio.

    Nox não quer lembrar. Nox enterrou. Arin não vai desenterrar. Não agora.

    Ele terminou de juntar os cacos. Colocou num balde no canto da cozinha. Depois pegou um pano seco e enxugou a poça de água no chão.

    A sala voltou ao normal.

    Ou pelo menos, parecia normal.

    Mas nada estava normal. Nada nunca mais ia estar normal.

    ━═✧═━

    O sol estava se pondo.

    Arin viu pela janela. O maior dos dois sóis — Ael, ele sabia agora — estava descendo atrás das montanhas, pintando o céu de laranja e vermelho. O menor — Solis — ainda estava alto, pálido, quase invisível contra o brilho do irmão.

    Dois sóis. Ele ainda não se acostumou. Talvez nunca se acostume.

    Ele olhou para a escada, para o andar de cima, para os quartos.

    Helga está descansando. Jasper está com ela. Eu deveria subir. Eu deveria dormir. Eu deveria…

    Ele não terminou o pensamento. O cansaço veio de repente — um cansaço que não era só físico. Era emocional, mental, existencial.

    Eu fui transportado para dentro do meu próprio livro. Eu vi dois sóis. Eu vi três luas. Eu enfrentei soldados. Eu limpei uma jarra quebrada. Eu estou exausto.

    Arin subiu a escada. Os degraus rangeram sob seus pés — agora ele já sabia quais evitar. O corpo de Nox estava ensinando. Aos poucos.

    ━═✧═━

    O quarto estava como ele tinha deixado. A cama desfeita, a coberta de lã amassada, o baú aberto.

    Arin fechou a porta. Sentou-se na cama. A lã chiou sob seu peso. Ele tirou as botas. Os dedos dos pés se espreguiçaram, agradecidos. O couro duro tinha deixado marcas vermelhas nos calcanhares.

    Deitou de costas.

    O teto de madeira olhou para ele. As vigas escuras, as rachaduras, a infiltração no canto.

    Eu estou em A Terra das Sombras. Eu estou dentro do meu próprio livro. Eu estou no corpo de Nox Siegfried.

    Eu tenho uma semana para conseguir dinheiro. Ou os soldados voltam. E eles não vão pedir.

    Arin fechou os olhos.

    O que eu faço? Eu conheço este mundo. Eu criei este mundo. Deve ter alguma coisa que eu possa usar. Alguma informação. Algum segredo. Alguma…

    A memória não veio como as outras. Não veio completa, não veio clara. Veio como um sussurro, como um eco, como uma imagem borrada no canto do olho.

    ━═✧═━

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