A manhã chegou sem pedir licença.

    Arin não soube dizer se foi o sol — os dois sóis — que entraram pela fresta da cortina ou se foi o galo que começou a cantar lá fora. Mas alguma coisa o tirou do sono.

    Ele abriu os olhos. O teto de madeira estava mais claro agora. A luz que entrava pela janela não era mais alaranjada — era dourada, forte, direta. Manhã. Bem no início da manhã.

    Que horas são? Não tem relógio. Mas o corpo de Nox sabe. O corpo de Nox sabe que é cedo. Muito cedo. Antes de Helga acordar. Antes de Jasper abrir os olhos.

    É a hora em que Nox geralmente se levanta para ajudar no pão. É a hora em que a casa está silenciosa. É a hora em que ninguém vê.

    Arin virou a cabeça devagar. Jasper ainda estava ao seu lado. O menino dormia de boca aberta, o cabelo loiro espalhado no travesseiro de lã, uma das mãos agarrada na coberta, a outra aberta sobre o peito de Arin. A respiração era lenta, profunda. Ele não ia acordar tão cedo.

    Crianças dormem. Crianças não sabem o que está por vir. Crianças não precisam saber.

    Arin se mexeu com cuidado. Puxou o braço debaixo do corpo de Jasper — o menino resmungou, virou de lado, mas não acordou.

    Arin sentou-se na cama. Os pés tocaram o chão de madeira. Frio. Sempre frio de manhã.

    Ele olhou ao redor do quarto. A cama desfeita, a coberta amassada, o baú aberto, a faca ainda lá dentro — ele viu o brilho do metal na penumbra.

    Não. Ainda não. Não é hora para isso.

    Ele se levantou. As pernas estavam duras — o corpo de Nox ainda não tinha se acostumado com o pouco sono. Mas Arin não podia esperar.

    Você tem uma semana. Uma semana para encontrar um baú escondido numa floresta que você nunca visitou. Baseado numa frase de um livro que você escreveu há anos.

    É a única ideia. Não pode desperdiçar tempo.

    ━═✧═━

    Ele se vestiu em silêncio. A mesma camisa de linho de ontem — não tinha outra limpa. A mesma calça de lã. As mesmas botas de couro duro.

    Os dedos de Nox amarraram os cordões da calça com uma facilidade que ainda o assustava. O corpo sabia. O corpo sempre sabia.

    Arin olhou para o baú novamente. A faca.

    Não. Mas… E se ele encontrar alguma coisa na floresta? Algum animal? Algum perigo? Ele não sabe lutar. Nox não sabe lutar. Mas Nox sabe manusear ferramentas. Uma faca é uma ferramenta.

    Arin hesitou.

    Não. Não é para isso. Pelo menos não hoje. Hoje é só para explorar. Hoje é só para olhar. Hoje é só para… Para começar.

    Ele fechou o baú.

    ━═✧═━

    O corredor estava escuro. A lamparina do andar de baixo já tinha se apagado — o óleo devia ter acabado durante a noite. Arin andou no escuro, a mão direita tocando a parede de madeira para se guiar. A textura era áspera, cheia de nós e lascas.

    Nox conhece este corredor. Nox andou por ele milhares de vezes. Nox sabe onde cada prego range. Nox sabe onde cada tábua está solta. Arin está aprendendo.

    Ele desceu a escada. Os degraus rangeram — ele tentou pisar nos lugares que Nox pisava, mas errou duas vezes. O barulho ecoou na casa vazia.

    Helga vai acordar? Jasper vai acordar?

    Ele parou. Escutou. Silêncio. Apenas o ronco distante de Jasper. A respiração pesada de Helga — ela estava no quarto ao lado do dele, a porta entreaberta. Arin passou rápido, com medo de fazer barulho.

    Ela precisa descansar. Ela machucou o joelho. Ela precisa dormir. Ela não precisa saber que o filho está saindo de casa antes do sol nascer.

    ━═✧═━

    A sala estava vazia. A lareira estava fria — as brasas da noite anterior tinham virado cinza. O cheiro de fumaça ainda estava no ar, misturado com o cheiro de pão dormido e cera de vela.

    Ele olhou para a porta da cozinha. Comida. Ele precisa levar comida. Não sabe quanto tempo vai ficar fora. Não sabe se vai encontrar alguma coisa. Não sabe se vai voltar ainda hoje.

    Ele foi até a cozinha. A despensa era pequena — uma prateleira de madeira presa na parede, com alguns potes de barro e sacos de pano. Arin abriu um saco. Farinha. Não dava para comer farinha crua. Abriu outro. Feijão. Também não. Abriu um pote. Banha. Não.

    O que Nox come quando sai para trabalhar? O que Nox leva na sacola?

    A memória veio.

    ━═✧═━

    Pão. Sempre pão. Helga faz pão extra para Nox levar para a oficina. Ele come no meio da manhã, quando o ferreiro não está olhando. Pão e queijo. Quando tem queijo.

    ━═✧═━

    Arin olhou para a mesa. O pão de ontem — o que sobrou — estava numa tigela de barro, coberto com um pano limpo. Alguns pedaços estavam amanhecidos, mas ainda dava para comer.

    Ele pegou três fatias. Enrolou no pano. Colocou no bolso da calça.

    Queijo. Não tinha queijo.

    Água. Ele pegou a jarra da mesa — a que não tinha quebrado — e encheu uma cantimplora de couro que estava pendurada na parede da cozinha. Nox usava para levar água para a oficina nos dias quentes.

    Nox sabe. Nox sempre sabe. Arin está aprendendo.

    ━═✧═━

    Ele ia sair. Ia abrir a porta. Ia ir para a floresta.

    Mas parou.

    Helga. Ela vai acordar. Ela vai ver que ele não está. Ela vai se preocupar. Ela vai mandar Jasper procurar. Jasper vai entrar na floresta sozinho. Jasper vai se perder. Jasper vai…

    Arin apertou a cantimplora contra o peito.

    Ele precisa deixar um recado. Alguma coisa. Qualquer coisa. Mas não tem papel. Não tem pena. Não tem tinta. Não tem nada.

    Ele olhou ao redor da cozinha. Os olhos percorreram as paredes de madeira, os potes de barro, os sacos de pano, a lareira fria, o balcão de pedra.

    Nada. Nada que sirva para escrever.

    Espera.

    Ele viu. Pendurado na parede, ao lado da porta da cozinha, um pedaço de couro. Não era grande — do tamanho da mão de um adulto. Devia ser um retalho que sobrou de algum conserto. As bordas eram irregulares, mal cortadas.

    Couro. Dá para escrever em couro? Com quê?

    Ele olhou para a lareira. As brasas da noite anterior tinham virado cinza. Mas no canto, perto da base da lareira, havia um pedaço de carvão. Pequeno. Preto. Chamuscado.

    Carvão. Carvão escreve. Carvão escreve em couro. Talvez.

    Arin pegou o carvão. Os dedos de Nox — calejados, ásperos — seguraram o pedaço preto com cuidado para não esmagar.

    Ele ajoelhou no chão de pedra. Colocou o retalho de couro no chão. Respirou fundo.

    O que ele escreve? “Fui para a floresta.” Não. Helga vai surtar. “Fui ajudar.” Também não. “Não se preocupe.” Pior ainda.

    Ele começou a escrever. As letras saíram tortas — o carvão era frágil, o couro era áspero, a superfície era irregular. Mas dava para ler.

    ━═✧═━

    MÃE.

    FUI RESOLVER ALGO.

    VOLTO LOGO.

    NÃO DEIXE JASPER SAIR.

    ESPERA POR MIM.

    NOX

    ━═✧═━

    Arin leu de novo. Estava horrível, estava torto, estava ilegível em alguns lugares. Mas era melhor do que nada.

    Helga vai entender. Helga precisa entender.

    Ele levantou-se. Olhou para a mesa da cozinha. Colocou o couro em cima da mesa, pesando com a jarra de água para não voar.

    Ela vai ver quando acordar. Ela vai ler. Ela vai esperar.

    Espera.

    Ele pegou o carvão novamente. Escreveu mais uma linha no couro, embaixo das outras.

    ━═✧═━

    TE AMO.

    ━═✧═━

    Arin olhou para as palavras.

    Te amo. Nox nunca escreveu isso para Helga. Nox nunca disse isso para Helga. Não desse jeito. Não por escrito. Não tão… definitivo.

    Mas Arin sentia. Arin sentia por Helga. Pela mulher que trabalhava até cair, pela mulher que limpava o sangue do rosto do filho sem chorar, pela mulher que dormia com o joelho machucado e não reclamava.

    Pela mãe de Nox. Pela mãe que ele nunca teve. Ou que ele tinha. Mas não lembrava. Não agora.

    Ele deixou o carvão em cima da mesa. Ao lado do couro.

    Pronto. Ela vai ver. Ela vai entender. Ela vai esperar.

    ━═✧═━

    Ele saiu da cozinha. Atravessou a sala. Chegou na porta da frente.

    Mas parou de novo.

    O mapa. Ele precisa marcar o caminho. Não pode se perder. Não conhece a floresta. Nox não conhece a floresta. Nunca foi sozinho. Nunca foi longe.

    Se ele entrar sem saber para onde está indo… Pode andar em círculos. Pode se perder. Pode nunca mais voltar. E Helga vai ficar esperando. E Jasper vai ficar esperando. E os soldados vão voltar. E…

    Não. Não vai acontecer. Ele vai se preparar. Ele vai fazer um mapa.

    Ele precisa de pergaminho. Não tem pergaminho. Ele precisa de tinta. Não tem tinta. Ele precisa de…

    Espera.

    Nox trabalha na oficina do ferreiro. O ferreiro tem coisas. Couro. Ferramentas. Pregos. Fios. Cordas. Talvez… Talvez tenha alguma coisa que sirva para desenhar um mapa.

    E mesmo que não tenha… Ele pode pegar uma faca. Uma ferramenta. Alguma coisa para se defender. Alguma coisa para marcar as árvores. Alguma coisa para…

    Ele não terminou o pensamento. Virou as costas para a porta da frente. Atravessou a sala novamente. Passou pela cozinha. Chegou na porta dos fundos.

    A porta dos fundos dava para o quintal. E o quintal dava para a rua de trás. E a rua de trás levava para a oficina do ferreiro.

    O ferreiro mora ao lado da oficina. Ele vai estar dormindo. É muito cedo. Ninguém vai estar trabalhando. Mas a oficina fica destrancada?

    Nox sabe.

    A memória veio.

    ━═✧═━

    O ferreiro nunca tranca a oficina. Diz que “quem quer roubar ferro tem mais é que levar — o peso quebra as costas”.

    Nox já chegou antes do ferreiro muitas vezes. Acendia o fogo, preparava as ferramentas, deixava tudo pronto para quando o velho chegasse.

    A chave fica pendurada num prego atrás da porta. Ninguém usa.

    ━═✧═━

    Arin abriu a porta dos fundos.

    O quintal era pequeno — terra batida, algumas galinhas dormindo num canto, uma pilha de lenha coberta com uma lona. O céu ainda estava escuro, mas já começava a clarear no horizonte.

    Cedo. Muito cedo. Perfeito.

    Ele atravessou o quintal. Pulou a cerca baixa de madeira — as pernas de Nox eram ágeis, mesmo cansadas. Caiu na rua de trás.

    A oficina ficava a três casas de distância.

    ━═✧═━

    A oficina do ferreiro era um galpão de madeira escura, com um telhado de telhas quebradas e uma chaminé de pedra. O cheiro era forte — ferro, carvão, graxa, suor velho. Mesmo de fora, Arin sentiu.

    Ele andou até a porta. Empurrou. Rangeu.

    Alguém vai ouvir?

    Ele esperou. Silêncio.

    Entrou.

    ━═✧═━

    Dentro, a oficina era escura. A luz entrava por duas janelas pequenas, sujas de fuligem. O chão era de terra batida, mas mais dura do que a da casa — pisoteada por anos de trabalho. No centro, a bigorna. Pesada, escura, silenciosa. Ao lado, a forja. Fria agora. As brasas da noite anterior estavam apagadas há horas.

    Ferramentas penduradas nas paredes. Martelos de vários tamanhos, tenazes, limas, cinzéis, um arco de serra, um maçarico de couro para soprar o fogo.

    Arin olhou para tudo.

    O que ele precisa? Um mapa. Precisa de alguma coisa para desenhar. Pergaminho. Não tem pergaminho. Couro. Tem couro.

    Ele foi até um canto da oficina, onde o ferreiro guardava os retalhos de couro — sobras de aventais, tiras para cabos de ferramentas, pedaços para consertos. Pegou o maior que encontrou. Do tamanho de duas mãos abertas. Irregular, grosso, escuro.

    Couro. Dá para desenhar em couro. Com quê? Carvão. Carvão vai borrar. Carvão vai sair. Precisa de outra coisa.

    Ele olhou para as ferramentas. Tinta. Não tem tinta. Sangue?

    Não. Não. Não.

    Ele balançou a cabeça.

    Prego. Pode marcar o couro com prego. Riscar. Fazer furos. Não é um desenho. Mas é um mapa. Furos para os lugares. Riscos para os caminhos. Árvores marcadas. Talvez. Talvez funcione.

    Ele pegou um prego fino da parede. Pequeno, pontudo, fácil de manusear.

    Prego. Couro. E…

    Ele olhou para as cordas.

    Corda. Precisa de corda. Para marcar o caminho. Amarrar nos galhos. Não se perder.

    Ele pegou um pedaço de corda fina — dessas que o ferreiro usava para amarrar ferramentas. Enrolou em volta do ombro.

    Pronto. Couro. Prego. Corda. É o melhor que ele tem. É o suficiente. Tem que ser.

    ━═✧═━

    Ele ia sair. Ia voltar para casa. Ia pegar o pão e a água. Ia finalmente ir para a floresta.

    Mas parou.

    Olhou para a parede. As ferramentas. Martelos, tenazes, limas. Facas. Facas de trabalho, facas de cortar couro, facas de aparar metal. Facas…

    Arin estendeu a mão. Pegou uma faca.

    Não era grande. Lâmina de uns quinze centímetros, ponta levemente curvada. Cabo de madeira escura, desgastado pelo uso. A bainha era de couro preto, com uma costura grossa na lateral.

    Não é uma espada. Não é uma lança. É uma ferramenta. É para se defender. É para cortar corda. É para marcar árvores. É para…

    Ele não terminou o pensamento. Prendeu a faca no cinto. O couro da bainha encostou na perna.

    Peso estranho. Peso novo. Peso de quem vai fazer alguma coisa. Ou de quem vai morrer tentando.

    Ele saiu da oficina. A porta rangeu ao fechar.

    O céu estava mais claro agora. O primeiro sol — Ael — já estava nascendo atrás das montanhas, pintando o horizonte de laranja e rosa.

    Cedo. Muito cedo. Perfeito.

    ━═✧═━

    Arin voltou para casa. Atravessou o quintal. Pulou a cerca. Entrou pela porta dos fundos.

    A casa estava silenciosa. Helga ainda dormia. Jasper ainda dormia. O recado de couro ainda estava em cima da mesa da cozinha, pesado pela jarra de água.

    Ela vai ver quando acordar. Ela vai ler. Ela vai esperar. Ele espera.

    Ele pegou o pão do bolso. A cantimplora. O couro para o mapa. O prego. A corda.

    Pronto. Não esqueceu nada. Tudo o que precisa. Tudo o que tem.

    Ele olhou para a porta da frente.

    É agora.

    ━═✧═━

    Ele abriu a porta.

    O ar da manhã bateu no rosto — fresco, limpo, com cheiro de terra molhada e folhas verdes. O céu ainda estava claro — os dois sóis estavam baixos, um quase escondido atrás das montanhas, o outro já despontando sobre as copas das árvores.

    Dois sóis. Ele ainda não se acostumou. Talvez nunca se acostume.

    Arin saiu. A porta rangeu ao fechar — ele tentou segurar para não fazer barulho, mas o metal enferrujado rangeu do mesmo jeito.

    Helga vai ouvir? Jasper vai ouvir?

    Ele esperou. Nada. Apenas o canto dos galos, o farfalhar das galinhas começando a sair do galinheiro, o vento nas folhas das árvores.

    Ninguém acordou. Ninguém viu. Ninguém sabe.

    ━═✧═━

    A rua de terra estava deserta.

    As casas estavam fechadas. As janelas, tapadas. As pessoas ainda estavam dormindo — ou fingindo que dormiam, com medo de que os soldados voltassem.

    Arin andou.

    As botas de couro fizeram um som seco na terra batida — toc, toc, toc. O som ecoava nas paredes das casas vazias.

    Para onde ele vai? Para a floresta. Qual parte da floresta? Ele não sabe. Ele só sabe que é ao norte.

    “Na floresta ao norte de Oakhaven.”

    É tudo o que ele tem. Um pedaço de frase. Uma lembrança de um livro que ele escreveu há anos. É o suficiente? Tem que ser.

    ━═✧═━

    Ele chegou no final da rua.

    A floresta começava ali — não de repente, com uma muralha de árvores. Começava devagar: primeiro uns arbustos, depois umas árvores mais espaçadas, depois mais árvores, depois a escuridão verde.

    Arin parou na última casa da vila.

    Olhou para trás.

    A vila de Oakhaven estava ali. Pequena, pobre, silenciosa. As casas de madeira e pedra, os telhados de palha e telha, a rua de terra que levava para lugar nenhum.

    Helga está naquela casa. Jasper está naquela casa. Dormindo. Esperando. Sem saber que ele foi. Sem saber o que ele vai fazer. Sem saber se ele vai voltar.

    Arin apertou a cantimplora contra o peito. A faca no cinto pesava.

    Ele vai voltar. Ele precisa voltar. Não pode deixar eles esperando. Não pode deixar eles sozinhos. Não pode deixar eles…

    Morrerem.

    Ele virou as costas para a vila.

    A floresta o esperava.

    ━═✧═━

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