A floresta o engoliu.

    Arin deu o primeiro passo para dentro da mata e sentiu a mudança imediatamente. O ar ficou mais pesado, mais úmido. A luz do sol — dos dois sóis — diminuiu, filtrada pelas copas das árvores. O chão de terra batida deu lugar a um tapete de folhas secas, agulhas de pinheiro e pequenos galhos que estalavam sob suas botas.

    Crac. Crac. Crac.

    Cada passo era um barulho. Cada barulho era um anúncio. Se há alguma coisa nesta floresta, ela sabe que você está aqui.

    Arin parou por um momento. Respirou fundo. O ar tinha cheiro de terra molhada, madeira podre e algo doce — flores? Frutas? Ele não sabia.

    Você pode fazer isso. Você precisa fazer isso. Helga. Jasper. Os soldados. A queda. Tudo depende de você.

    Ele tirou a corda do ombro. Começou a amarrar a ponta em um galho baixo de uma árvore na entrada da floresta. O nó ficou feio — os dedos de Nox sabiam amarrar, mas as mãos de Arin tremiam.

    Primeira marcação. Se ele se perder, volta para cá. É o início do caminho. É a única certeza que ele tem.

    Arin se levantou. Olhou para dentro da floresta. As árvores se estendiam até onde a vista alcançava — e além. Troncos grossos, cobertos de musgo verde e cinza. Galhos retorcidos que pareciam braços. Sombras que se mexiam com o vento.

    Vamos.

    ━═✧═━

    Ele andou. E andou. E andou.

    A cada vinte ou trinta passos, ele parava, tirava um pedaço da corda, amarrava em um galho. A corda ia ficando mais curta. O caminho ia ficando marcado.

    Norte. Ele está indo para o norte. Ele acha.

    O sol nasce no leste. Ele escreveu isso. Os dois sóis nascem no leste. Então o norte é… Ele olhou para a direita em relação à luz que entrava pelas copas. É para lá. Ele espera. Ele não tem certeza. Não tem como ter certeza.

    As árvores escondem o céu. As sombras são duplas — dois sóis, duas direções, duas incertezas.

    Ele está perdido antes mesmo de começar.

    ━═✧═━

    A floresta ficou mais densa. As árvores ficaram mais próximas. Os galhos se entrelaçavam lá em cima, formando um teto verde que quase não deixava passar a luz. O chão ficou mais macio — folhas secas, agulhas de pinheiro, pequenos fungos brancos que brilhavam no escuro.

    Arin parou.

    Onde ele está? Não sabe. Quanto tempo andou? Não sabe. Para onde está indo? Não sabe.

    Ele olhou para trás. A corda estava ali — pedaços amarrados nos galhos, formando um rastro tênue na penumbra. Pelo menos ele pode voltar. Pelo menos não está completamente perdido.

    Ele ia continuar. Ia dar mais um passo. Ia amarrar mais um pedaço de corda.

    Mas foi nesse momento que ele ouviu.

    ━═✧═━

    Vozes.

    Não vozes da floresta — não o canto dos pássaros, não o farfalhar dos bichos pequenos. Vozes humanas. Vozes de homens. Falando baixo. Falando sério.

    Arin congelou.

    O coração disparou. O suor frio brotou na testa. As mãos começaram a tremer.

    Soldados? Aqui? Tão longe da vila? Tão dentro da floresta?

    Ele se escondeu atrás de um tronco grosso. A casca era áspera contra as costas. A respiração dele estava tão alta que ele tinha certeza de que iam ouvir.

    Calma. Calma. Respira. Respira fundo.

    Ele inspirou pelo nariz. Soltou pela boca. O coração desacelerou — um pouco.

    As vozes estavam mais perto agora.

    — …o comandante disse para varrermos a floresta toda. Ninguém escapa.

    — É muito território. Vamos levar semanas.

    — O comandante não liga para semanas. Ele quer ouro. E ouro está com os rebeldes.

    — Rebeldes? Uns camponeses com forquilhas?

    — Camponeses com forquilhas que mataram três dos nossos na semana passada.

    — Três? Eu ouvi cinco.

    — Três. Cinco. O que importa? Estão mortos. E vamos matar mais.

    Arin sentiu o sangue gelar.

    Soldados. Não os mesmos da vila. Uniformes diferentes? Ele não consegue ver. Só ouve. Mas a cor… ele consegue ver a cor. Azul. Os uniformes são azuis. Não preto. Azul.

    E o símbolo… ele viu o símbolo gravado no peito de um dos soldados quando a luz atravessou as folhas. Um leão. Um leão rampante, de boca aberta, garras estendidas.

    Não é o reino de Eldoria. São invasores. Soldados do reino inimigo. O reino que vai dizimar Eldoria. Eles já estão aqui. Caçando. Matando.

    ━═✧═━

    Arin se afastou do tronco. Devagar. Sem fazer barulho.

    O pé tocou um galho seco.

    Crac.

    Ele congelou.

    As vozes pararam.

    — O que foi isso?

    — Não sei. Parecia…

    — Vamos ver.

    Os passos começaram a se aproximar. Pesados. Firmes. Botas militares pisando em folhas secas. TOC. TOC. TOC.

    Cada passo era um martelo no peito de Arin. Eles vão encontrar ele. Vão ver ele. Vão perguntar o que um garoto está fazendo sozinho na floresta. Vão…

    Arin não esperou para descobrir.

    Ele correu. Sem pensar. Sem planejar. Sem marcar o caminho. Apenas correu.

    ━═✧═━

    As árvores passavam por ele como fantasmas. Os galhos batiam no rosto, arranhavam os braços, agarravam a camisa de linho. As botas de couro escorregavam nas folhas molhadas. A respiração estava curta. O coração estava acelerado. O medo estava no controle.

    Corre. Corre. CORRE.

    Ele correu até não ouvir mais os passos. Correu até não ouvir mais as vozes. Correu até não saber mais onde estava.

    Quando finalmente parou, estava ofegante, suado, com as mãos apoiadas nos joelhos, o peito doendo.

    Onde… Onde ele está?

    Ele olhou para trás. Não viu a corda. Não viu as marcações. Não viu nada além de árvores. Árvores em todas as direções. Todas iguais. Todas verdes. Todas escuras.

    Ele se perdeu. Ele correu sem marcar. Ele não sabe voltar. Ele não sabe para onde foi. Ele não sabe de onde veio. Ele não sabe nada.

    Arin sentiu o pânico subir. A respiração ficou curta novamente. A visão começou a escurecer nas bordas.

    Não. Não. Não agora. Você precisa se acalmar. Você precisa pensar.

    Você tem o mapa. O couro. O prego. Você pode marcar onde está agora. Pode tentar reconstruir o caminho. Pode…

    Ele tirou o couro do bolso. O prego. Começou a riscar. Uma árvore aqui, um riacho ali, uma clareira acolá. Mas ele não sabe onde nada fica. Ele não sabe para onde está indo. Ele não sabe onde está. O mapa está errado. Ele está desenhando uma mentira. Uma mentira que ele mesmo está inventando.

    Como nos livros. Mas livros são mentiras. Mapas mentirosos não salvam ninguém.

    Ele guardou o couro e o prego. Não adianta. Não agora. Primeiro ele precisa saber onde está. Depois desenha. Se conseguir sair daqui. Se conseguir sobreviver.

    ━═✧═━

    Ele andou. Sem direção, sem propósito, sem esperança. Apenas andou. As árvores continuavam iguais. O chão continuava macio. O silêncio continuava pesado.

    Ele está andando em círculos? Não sabe. Não tem como saber. Os dois sóis estão lá em cima, mas ele não vê. Apenas o teto verde. Apenas a escuridão. Apenas o medo.

    ━═✧═━

    Foi então que ele sentiu.

    Não ouviu nada. Não viu nada. Apenas sentiu. Um arrepio na espinha. Não era frio, não era medo — não o medo que ele já sentia há horas, aquele companheiro constante, surdo, pesado. Era outra coisa. Um arrepio que começou na base da coluna e subiu devagar, vértebra por vértebra, até a nuca. Como se alguém tivesse passado um dedo gelado pela sua espinha.

    O que foi isso?

    Ele parou. O coração, que já batia rápido, acelerou mais um pouco. A respiração ficou curta.

    Algo está errado. Muito errado.

    Ele sentiu o cheiro antes de ver qualquer coisa. Não o cheiro da floresta — terra, madeira, flores doces, fungos leitosos. Um cheiro diferente. Forte, ácido, metálico. Como ferro queimado, como enxofre, como sangue velho.

    O que é isso? Ele conhece este cheiro. Ele escreveu este cheiro. Onde? Em que livro? Em que cena?

    Ele não teve tempo de lembrar.

    O chão tremeu. Não um tremor de terremoto — um tremor de impacto. Algo pesado caindo. Uma árvore, não muito longe, desabou com um estrondo que ecoou entre os troncos. Galhos se quebraram. Folhas voaram. Pássaros levantaram voo em todas as direções.

    Crac. TOC.

    O som era grave, profundo, pesado.

    Outra. Crac. TOC. Outra. Crac. TOC.

    Árvores caindo em sequência, como se alguém — ou alguma coisa — estivesse derrubando uma a uma. O chão vibrava levemente com cada impacto.

    Não são machados. Machados fazem um som diferente — um corte seco, uma lasca voando. Isso é força bruta. Algo está derrubando árvores com o próprio corpo. Algo grande. Algo perto. Algo…

    Arin se escondeu atrás do tronco mais grosso que encontrou. A casca era áspera contra as costas. A respiração dele estava tão alta que ele tinha certeza de que iam ouvir.

    Calma. Calma. Respira. Respira fundo.

    Ele inspirou pelo nariz. O cheiro de enxofre encheu as narinas. Soltou pela boca. O coração desacelerou — um pouco.

    O som de árvores caindo continuou. Cada vez mais perto. Cada vez mais rápido. Crac. TOC. Crac. TOC. Crac. TOC.

    Está vindo na direção dele. Está vindo direto. Está…

    Os arbustos à sua frente se mexeram.

    ━═✧═━

    Ela surgiu do meio da folhagem como um pesadelo tomando forma.

    Arin não entendeu o que via nos primeiros segundos. Seu cérebro se recusava a processar. Era grande demais, vermelha demais, errada demais.

    Escamas. Escamas vermelhas que brilhavam como brasa, mesmo na penumbra da floresta. Cada escama era do tamanho de uma mão de homem — não, maiores. Do tamanho de um prato. Sobrepostas como as telhas de um telhado, mas móveis, vivas, respirando. Cada movimento do corpo fazia as escamas se arrepiarem e se aplainarem, como se o animal estivesse constantemente se ajustando, se preparando para atacar ou fugir.

    O corpo era grosso como o tronco de uma árvore velha. Mais grosso do que a perna de Arin, mais grosso do que o braço de Helga, mais grosso do que o próprio tronco atrás do qual ele estava escondido. Arin não conseguia ver o final do corpo — a serpente se perdia na vegetação, entre os troncos, entre as sombras. Era como se a floresta estivesse pariando um pesadelo.

    A cabeça era triangular, larga na base, afunilando para o focinho. As mandíbulas eram poderosas — Arin conseguia ver os músculos se movendo sob as escamas, contraindo, relaxando, prontas para abrir. Quando a boca se abriu ligeiramente, ele viu os dentes. Fileiras e fileiras de dentes, curvos para dentro, afiados como agulhas, branco-sujo com manchas escuras de sangue seco.

    Os olhos eram amarelos. Amarelos como o segundo sol, amarelos como brasa, amarelos como a morte. Verticais. Fixos nele.

    Arin não conseguiu se mexer. Não conseguiu respirar. Não conseguiu pensar. Apenas olhou.

    E foi então que a memória veio — não como um sussurro, como um grito.

    ━═✧═━

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