Capítulo 14 │Grande Ajuda
A primeira serpente — a menor, a que estava imobilizada desde o começo — viu a irmã morrer. E enlouqueceu.
O corpo se debateu com uma força que Arin nunca tinha visto. Não era luta, não era fuga. Era desespero, era fúria, era medo transformado em violência pura.
As correntes que prendiam a primeira serpente estremeceram. Os elos de metal rangeram — creeeec — esticando até o limite. O garoto sentiu o puxão. Seu corpo pequeno balançou ligeiramente, mas seus pés não se moveram.
A serpente se soltou. Não completamente — as correntes ainda estavam presas no pescoço dela — mas ela conseguiu se libertar o suficiente para avançar. A cabeça veio em direção ao garoto, a boca aberta, os dentes brilhando. O cheiro de enxofre voltou com força total.
O garoto não recuou. Ele girou. O corpo pequeno rodou sobre os calcanhares, o ropão branco abrindo-se como uma nuvem ao redor dele. As correntes que estavam soltas — as que estavam na árvore, as que estavam no chão — voaram com o movimento.
Ele levantou o braço esquerdo. Uma corrente grossa — a mais grossa de todas, tão grossa quanto o pulso do garoto — saiu da manga e voou em direção à cabeça da serpente. Não perfurou, não enrolou. Açoitou.
A corrente bateu na lateral da cabeça da serpente com um som seco e sólido — TOC — como um martelo batendo em ferro. A cabeça da criatura foi jogada para o lado. O corpo enorme se desequilibrou. A serpente caiu de lado, o rabo batendo no chão, levantando uma nuvem de terra e folhas.
O garoto não esperou. Ele levantou o braço direito. Outra corrente grossa saiu da manga direita. Voou em direção à cabeça da serpente — agora exposta, agora vulnerável. A corrente acertou o olho da criatura.
O olho estourou. Um líquido amarelo-esverdeado espirrou em todas as direções. A serpente gritou — um som agudo, estridente, que perfurou os ouvidos de Arin. Ele cobriu as orelhas com as mãos, mas o som atravessou: atravessou a carne, atravessou o osso, atravessou o cérebro.
A serpente se debateu cegamente, o corpo se contorcendo sem controle. O rabo bateu no chão uma vez, duas, três — TOC TOC TOC — cada vez mais fraco.
O garoto andou até ela. As botas brancas pisaram no líquido amarelo da serpente. Não sujaram.
Ele parou na frente da cabeça da criatura. A serpente ainda tentava morder — a boca se abria e fechava, abria e fechava, os dentes estalando no ar — mas não acertava nada. Não enxergava. Não sabia onde o inimigo estava.
O garoto levantou a mão direita. A corrente fina — a que tinha matado a outra serpente — ainda estava na mão dele. Brilhando, limpa, perfeita.
Ele apontou para o olho que ainda estava intacto.
— Descanse — ele disse.
A corrente voou. Perfurou o olho, perfurou o cérebro. A serpente se contraiu uma última vez — um espasmo longo, lento, doloroso — e depois ficou imóvel.
O silêncio voltou. Arin não conseguia respirar.
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O garoto ficou parado no meio da clareira, cercado pelos dois corpos enormes das serpentes rubras. O ropão branco estava impecável — não uma mancha de sangue, não uma escama grudada, não uma dobra fora do lugar. As correntes reluzentes brilhavam na penumbra, refletindo a luz que atravessava as copas.
O garoto suspirou. Foi um suspiro pequeno, infantil, o suspiro de uma criança cansada depois de um dia de brincadeiras.
— Elas nunca aprendem — murmurou, para si mesmo.
Virou-se. Os olhos claros encontraram os de Arin. A curiosidade voltou, a avaliação, o cálculo.
— Você está ferido? — a voz era fina, de criança, mas calma. Profunda demais para a idade.
Arin abriu a boca. Nenhum som saiu. A garganta estava seca, a língua estava presa. O medo ainda apertava o peito. A imagem dos olhos do soldado se apagando ainda queimava na mente. Mas agora havia outra imagem — a dança mortal do garoto de branco, as correntes reluzentes perfurando escamas como se fossem papel, o corpo pequeno se movendo com uma precisão que não parecia humana.
O garoto esperou. Não repetiu a pergunta. Apenas esperou.
— Não… não — Arin conseguiu dizer. A voz saiu estranha, pequena, rouca. — Eu não… quem…
O garoto não respondeu. Ele virou as mãos. As correntes começaram a recuar — algumas se desenroscando dos corpos das serpentes, outras desenterrando do chão, todas voltando para dentro do ropão branco como se nunca tivessem saído. O som era musical novamente — cling, cling, cling — como sinos distantes se afastando.
O garoto andou até Arin. As botas brancas não faziam barulho no chão de folhas. O ropão branco arrastava na terra, mas não sujava. Ele parou a menos de um metro de distância. Agora Arin conseguia ver os detalhes do rosto sob o capuz — a pele pálida, os olhos claros que brilhavam como gelo, os lábios finos e cerrados. Uma criança. Não passava de uma criança. Mas os olhos… os olhos não eram de criança.
O garoto levantou a mão direita. A palma se abriu, os dedos se esticaram. Uma corrente fina — mais fina do que as outras, quase tão fina quanto um fio de cabelo, mas brilhando como prata líquida — saiu da manga do ropão. Ela se moveu devagar, flutuando no ar, e se enrolou no braço direito de Arin.
Arin sentiu o metal frio contra a pele. Não apertou, não machucou. Apenas tocou. Como uma pulseira, como uma promessa.
O garoto fechou a mão. A corrente se soltou do braço de Arin — não caiu, recuou para dentro da manga do ropão, desaparecendo no tecido branco.
O garoto olhou para Arin. Os olhos claros brilharam.
— Eu entendo — ele disse.
A voz era fina, infantil. Mas havia algo nela — uma certeza, uma calma — que não combinava com a idade.
— Entende o quê? — Arin perguntou.
O garoto não respondeu. Apenas virou as costas. Ele andou até o corpo da primeira serpente — a maior, a que ele tinha matado com a corrente fina entre os olhos. Ajoelhou-se na terra molhada. O ropão branco se espalhou ao redor dele como uma nuvem.
Com as mãos pequenas — mãos de criança, dedos finos, unhas curtas — ele tocou a cabeça da serpente. As escamas vermelhas ainda brilhavam, mas agora sem vida. O olho amarelo estava aberto, vazio, apagado.
O garoto enfiou os dedos na boca da serpente. Arin ouviu o som das mandíbulas sendo abertas — um som úmido, de carne esticando, de cartilagem rangendo. O garoto puxou. A cabeça da serpente se moveu com o esforço, mas ele não recuou.
Com um estalo seco — crac — dois dentes se soltaram. Caíram na palma da mão do garoto. Eram grandes — maiores do que o dedo de Arin. Branco-sujo, curvos para dentro, manchados de sangue seco nas pontas.
O garoto olhou para os dentes. Examinou. Aprovou. Guardou-os no bolso do ropão.
Depois, ele se virou para o corpo da serpente novamente. As mãos pequenas tocaram as escamas do pescoço — onde as escamas eram menores, mais finas, mais brilhantes. Ele puxou. As escamas se soltaram uma a uma — ploc, ploc, ploc — como escamas de peixe, como folhas secas caindo de uma árvore. Ele juntou um punhado. Não muitas. Talvez dez, talvez quinze. O suficiente para encher a palma da mão pequena.
As escamas brilhavam na penumbra — vermelhas como brasa, refletindo a luz que atravessava as copas.
O garoto se levantou. Andou até Arin. Estendeu a mão. Os dentes e as escamas estavam ali, na palma aberta. O sangue das serpentes ainda estava úmido — Arin viu o vermelho escuro brilhando na luz, viu o líquido escorrendo entre os dedos do garoto. Mas as mãos do garoto não estavam sujas. O sangue escorria, mas não grudava, não manchava.
— Deve ser mais do que o suficiente — o garoto disse.
— Mais do que o suficiente para quê? — Arin perguntou. A voz saiu estranha, pequena.
— Para resolver o seu problema.
O garoto não esperou resposta. Pegou o braço de Arin — a mão pequena envolveu o pulso de Arin com uma força que não combinava com o tamanho — e colocou os dentes e as escamas na palma da mão de Arin.
O peso era estranho. Os dentes eram pesados — mais pesados do que pareciam. As escamas eram leves, quase sem peso, mas tinham uma textura áspera que arranhava a pele.
— Como você sabe qual é o meu problema? — Arin perguntou.
O garoto olhou para ele. Os olhos claros brilharam sob o capuz.
— Eu sei — foi tudo o que disse.
Virou as costas. O ropão branco balançou com o movimento. As correntes dentro das mangas tilintaram — cling — um som musical, quase bonito.
Ele começou a andar.
— Espere! — Arin gritou. — Se não fosse por você eu estaria morto!
O garoto não parou. Não respondeu. Apenas continuou andando — as botas brancas pisando na terra sem fazer barulho, o ropão branco arrastando no chão coberto de folhas, as correntes tilintando suavemente a cada passo.
— Obrigado! — Arin gritou novamente.
O garoto parou. Não virou o rosto. Apenas ficou parado, de costas, o capuz cobrindo a cabeça, o ropão branco imóvel.
— Cuidado para não se matar neste lugar.
Ele continuou andando.
Arin ficou parado no meio da clareira. Os dentes e as escamas pesavam na palma da sua mão. O sangue das serpentes escorria entre os dedos, quente, pegajoso.
O que aconteceu? Aquele garoto? Como ele sabia do meu problema? Como ele sabia que eu preciso de dinheiro? Como ele sabia que os soldados vão voltar? Como ele… usou aquele poder? Nesta idade?
Arin olhou para a mão. Os dentes. As escamas.
“Deve ser mais do que o suficiente.”
Mais do que o suficiente para quê? Para pagar a taxa? Para salvar Helga e Jasper? Para…
Ele não terminou o pensamento. O silêncio da floresta o envolveu novamente.
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