CAPÍTULO 42 - NEGÓCIOS
Oliver e Jonathan estavam sentados no campo de treinamento, desta vez já acordados.
Archibald havia administrado pequenas porções de uma poção de cura nos dois. Como eram crianças e os ferimentos que haviam sofrido eram leves, ou quase inexistentes, aquilo bastou para despertá-los.
“Qual era exatamente o objetivo de espancar duas crianças?” Oliver se perguntava em silêncio. A luta havia sido completamente unilateral e, pior ainda, Archibald claramente não mostrara todo o poder que possuía.
Ao olhar para o mestre, Oliver viu satisfação tanto em seu rosto quanto em sua alma.
“Foi terapêutico bater em duas crianças?” pensou de novo, ainda mais insatisfeito.
Sebastian permanecia por perto, também com um leve sorriso no rosto, como se tivesse apreciado bastante o espetáculo.
Archibald observou os dois discípulos por um momento antes de quebrar o silêncio.
“Parabéns. Vocês saíram inteiros do batismo.” Seu tom era leve e divertido. “O objetivo disso é mostrar o quão fracos vocês ainda são. Não fiquem arrogantes só porque agora são oficialmente magos de 1º ciclo. Se algum dia chegarem ao 3º ciclo, aí sim podem ficar um pouco arrogantes. HAHAHAHA.”
Ele gargalhou com a própria piada.
Oliver continuou encarando o mestre com frieza, nitidamente insatisfeito com a experiência, mas soltou um suspiro e decidiu aceitar aquilo como parte do processo.
Archibald apontou para ele.
“Você, garoto. O que foi aquilo que jogou em mim? Era vinho?”
Por milênios, Cerveja e Vinho eram feitos através de um processo de fermentação, mas a compreensão do álcool etílico como uma substância química distinta só surgiu muito mais tarde no planeta Terra. Aqui nesse mundo, as pessoas não possuíam esse conhecimento, então Archibald confundiu o odor com o de um vinho forte.
Oliver optou por uma meia verdade.
“Sim, Mestre Archibald. Uma vez eu vi alguém acender fogo usando vinho como combustível, então tive essa ideia.”
Seria complicado demais tentar explicar álcool puro para ele.
Archibald assentiu devagar, claramente satisfeito com a resposta e com o que viu em combate.
“Sua imaginação é muito boa. Criar uma magia irregular não é algo simples. Quanto mais distante da realidade for aquilo que você imagina, mais mana consome. E ainda existe toda a questão da velocidade de conjuração. Muitas vezes, quando a imaginação é pobre ou incompleta, a magia simplesmente não toma forma.”
Oliver ouviu em silêncio. Aquilo fazia sentido.
Archibald então fez um gesto displicente com a mão.
“Estão dispensados por hoje. Teremos mais aulas práticas na semana que vem.”
Oliver foi embora. Jonathan, por sua vez, entrou novamente na casa.
Mesmo depois do teste, Jonathan continuava ansioso. Mas a luta em si não era a principal causa de sua inquietação. Ele sempre soube que o pai o observava, e queria impressioná-lo.
Andando pela casa com a cabeça cheia, acabou trombando em alguém mais alto do que ele.
“Cuidado por onde anda, garoto.”
Jonathan levantou os olhos e estremeceu no mesmo instante.
Era Grim.
O homem havia retornado recentemente a Corval depois de uma viagem à capital, Eldravin. Era um homem de meia-idade, vestido de preto, com um capuz cobrindo parte do rosto. Havia nele uma presença pesada e opressora, algo que fazia Jonathan se encolher sem pensar.
“P-Perdão, Sr. Grim. Eu não sabia que já tinha voltado.”
Grim riu e lhe deu dois tapas aparentemente amistosos no ombro, embora Jonathan não conseguisse relaxar nem assim.
“Não precisa ficar tão tenso, garoto. Eu estava assistindo com o seu pai no primeiro andar. Vocês dois levaram uma surra e tanto, mas foi divertido.”
Jonathan ignorou a provocação e foi direto ao que importava para ele.
“O que meu pai achou?”
Grim inclinou levemente a cabeça antes de responder.
“Ele disse que tinha algumas coisas para conversar com Archibald. Não falou nada diretamente sobre o seu desempenho.”
Jonathan baixou os olhos, visivelmente decepcionado. Ele esperava alguma reação mais clara do pai, qualquer sinal de aprovação, mesmo que mínimo.
…
No escritório da casa Venn, Balthazar estava sentado confortavelmente em uma cadeira aveludada.
Diante dele, com uma xícara de chá nas mãos, estava Archibald.
Balthazar foi direto ao ponto.
“E então? Seria possível aumentar a reserva de mana do meu filho?”
Archibald hesitou por um instante antes de responder. Sabia que Balthazar tinha dinheiro, mas também sabia que riqueza nenhuma era infinita.
“Como eu lhe disse antes, é possível. Alquimistas verdadeiramente competentes criaram poções capazes de aumentar a mana até certo ponto. O problema é que isso é extremamente caro.”
Balthazar ergueu levemente uma sobrancelha.
“Estamos falando de quanto, exatamente?”
Archibald pousou a xícara com calma antes de responder.
“Poções que concedem 1 ponto de mana adicional a alguém com reserva de até 5 pontos custam em torno de 500 peças de ouro. Já as que funcionam na faixa acima disso, até 10 pontos, custam em torno de 5000 peças de ouro.”
Mesmo para Archibald, era um valor absurdo.
Para efeito de comparação, ele fora contratado para ensinar durante um ano inteiro em troca de 10 moedas de platina e diversas joias valiosas. Cada moeda de platina equivalia a 100 moedas de ouro, e as joias somavam cerca de outras 1000 peças de ouro. Em outras palavras, um ano de serviço de um mago de 3º ciclo custou algo próximo de 2000 peças de ouro. Já uma única poção capaz de elevar a reserva de mana para além da faixa dos 5 pontos custava 5000. Era um valor exorbitante até mesmo para alguém como Balthazar.
Pela primeira vez durante a conversa, Archibald viu o homem realmente reagir ao assunto dinheiro.
Ainda assim, Balthazar não hesitou por muito tempo.
“É um valor exorbitante, mas tudo bem. Encomende duas poções de 500 peças de ouro e uma dessas de 5000.”
Sua expressão permaneceu praticamente neutra.
Archibald ficou sinceramente surpreso com a resposta, mas assentiu de imediato.
“Ele realmente está disposto a investir pesado no garoto…”
Sem prolongar mais a conversa, despediu-se e deixou a sala. Havia providências a serem tomadas.
Assim que Archibald saiu, uma figura de capuz preto se revelou.
Grim estava na sala o tempo todo, mas passou despercebido durante a conversa entre Balthazar e Archibald.
“Vai ser difícil para você sustentar um gasto desse tamanho.” Grim sentou-se na poltrona que Archibald acabara de deixar. “Seus negócios tendem a ficar mais escassos, não mais abundantes. Você já fugiu da capital para evitar vigilância constante. Além disso, alguns pontos de coleta parecem ter sido descobertos.”
Balthazar sorriu de leve.
“Esse item mágico de Rank 3 é realmente interessante. Ele consegue te deixar invisível com bastante eficiência.”
Grim soltou um resmungo curto.
“Sim, mas continua sendo meio inútil se comparado a outros itens do mesmo rank. Enfim, eu não estava falando disso.”
Balthazar recostou-se na cadeira, sem demonstrar qualquer preocupação aparente.
“Agradeço pelos seus serviços, mas não precisa se preocupar. Contanto que ainda existam alguns pontos de coleta, isso será suficiente para pagar por esse tipo de investimento no meu filho.”
Grim soltou um suspiro cansado.
“Tudo bem. Se é o que você diz, não vejo problema, contanto que continue me pagando bem. Posso fazer quase qualquer coisa.”

Regras dos Comentários:
Para receber notificações por e-mail quando seu comentário for respondido, ative o sininho ao lado do botão de Publicar Comentário.