Índice de Capítulo

    — Que conveniente, né? — comentou Gwen, inclinando levemente a cabeça enquanto observava Brigitte de cima a baixo. O sorriso torto em seus lábios deixava claro que ela não acreditava em metade da história.

    Brigitte deu de ombros.

    — Eu também achei, huhum. — respondeu com um aceno despreocupado da mão. — Honestamente, foi quase ofensivo o quão fácil tudo acabou sendo.

    — E ninguém tentou te matar?

    Brigitte inclinou a cabeça para o lado em uma expressão pensativa surgiu por alguns segundos, como se realmente estivesse considerando a pergunta.

    — Olha… — começou lentamente. — Não é exatamente “tentou” se eles nunca iriam conseguir.

    O silêncio que veio depois foi imediato. Gwen piscou uma vez, Niko não reagiu a nada e Evelyn apenas encarou Brigitte.

    — … Isso não faz o menor sentido.

    — Tá bom, tá bom. Talvez tenha existido uma divergência profissional extremamente curta envolvendo armas de fogo.

    — Aí está a versão que eu acredito. — respondeu Evelyn, apontando para ela com um gesto preguiçoso.

    Brigitte elevou o indicador para frente, apontando diretamente no rosto de Evelyn.

    — Pois eu prefiro a minha.

    Um pequeno silêncio confortável se instalou entre eles. Pela primeira vez desde que chegaram à praça, parecia que o peso da investigação havia recuado alguns passos. Ainda estava lá. Ainda existiam os operadores para encontrar e um dríade perdido em algum lugar daquela cidade. Mas agora havia informação concreta sobre a mesa.

    Brigitte aproveitou aquele momento para guardar o bloco de notas novamente no bolso interno do blazer. Então uma dúvida fria como o vento da noite surgiu em sua mente e ela franziu a testa.

    — Ué… 

    A luminar girou o corpo para um lado. Depois para o outro.

    — Cadê o outro grupo? — perguntou, apertando os olhos enquanto examinava os caminhos de pedra. — O Gabe, a Tsugumi, o Matteo, o Jakob… aquele pessoal todo.

    Evelyn bocejou tão forte que chegou a fechar os olhos por alguns segundos.

    — Não chegaram até agora. — ela deu outro bocejo. — O que significa que você voltou primeiro. Mais um ponto pra você. — terminou levantando o polegar para cima e dando um sorriso curto com os cantos internos das sobrancelhas puxados para cima e levemente para dentro.

    — Isso é um pouco estranho… — continuou Brigitte, voltando a observar a praça. — Talvez eles tenham encontrado alguma coisa no caminho. Ou estejam investigando mais alguma pista. Por isso da demora.

    — Ou tenham sido presos. — sugeriu Gwen.

    — Ou só se perderam mesmo. — completou Evelyn.

    — Ou foram presos porque se perderam! — completou duplamente Brigitte, levantando o indicador para cima.

    — Isso parece algo que aconteceria com o Gabe.

    — Ei! — respondeu uma voz ao longe.

    Todos se viraram instantaneamente. Do outro lado da praça, quatro figuras caminhavam em direção ao grupo. Gabe vinha na frente, liderando o grupo — como sempre —, Tsugumi ao lado dele, Matteo logo atrás, e Jakob fechando a formação.

    A diferença entre o grupo de Gabe para Brigitte era quase cômica. Enquanto a luminar parecia alguém voltando de férias, os quatro tinham a aparência de pessoas que acabavam de descobrir que o universo possuía algo pessoal contra elas.

    Os ombros de Gabe estavam caídos. Tsugumi arrastava os pés de cansaço. Matteo carregava seu cajado com dificuldade, parecendo até mais pálido do que o normal. Até Jakob, os braços e músculos do grupo, parecia mais fraco.

    — Falando no diabo… — murmurou Evelyn.

    Brigitte cruzou os braços enquanto observava a aproximação deles. O sorriso satisfeito voltou aos poucos.

    — Pela cara deles, eu diria que não encontraram absolutamente nada. 

    — Olha, “nada” é uma palavra muito forte. — respondeu Gabe imediatamente.

    A resposta veio antes mesmo de ele chegar até o grupo. O rapaz apontou um dedo indicador na direção de Brigitte enquanto atravessava os últimos metros da praça.

    — Eu gostaria de deixar registrado, perante todas as testemunhas presentes nesta praça, que encontramos várias coisas ao longo da investigação.

    — Como por exemplo? — perguntou Gwen.

    Gabe abriu a boca. Pensou por um instante. Depois apenas disse a verdade.

    — Decepção, frustração e muitos e muitos documentos inúteis.

    O Gabe foi o primeiro a alcançar os demais. Depois, o resto do grupo finalmente veio. De perto, o estado deles parecia ainda pior. Gabe tinha olheiras mais visíveis do que quando saíram. Tsugumi parecia prestes a deitar em qualquer superfície minimamente horizontal que encontrasse. Matteo carregava o cajado apoiado no ombro como se ele tivesse decidido dobrar de peso durante a investigação. Até Jakob parecia irritado, o que era impressionante. Jakob normalmente possuía a expressividade emocional de uma pedra particularmente educada.

    — Isso continua sendo nada. — respondeu Matteo enquanto diminuía os passos até parar ao lado de Gabe.

    — Matteo.

    — É verdade. Nós não encontramos nada naquele terminal.

    Gabe virou rapidamente a cabeça na direção dele. Então fechou a mão em punho visível. A expressão em seu rosto assumiu um ar de indignação teatral típico do mesmo.

    — Você está destruindo minha introdução dramática!

    — Ela merecia ser destruída mesmo. — respondeu o homem pálido, dando de ombros, com o cajado ainda em mãos. — Além disso, eu prefiro que as pessoas descubram logo que fracassamos.

    — Isso é porque você não aprecia narrativa.

    — Isso é porque eu aprecio honestidade.

    Os dois se encararam por um breve instante. Não hostilidade, nem raiva nessa encarada. Era algo mais casual, que aconteceu tantas vezes que fazia parte da rotina.

    Niko observou a troca em silêncio. Por trás da conversa, sua atenção voltou brevemente para uma constatação. Gwen estava certa de novo. O terminal não tinha levado a lugar nenhum, só o sindicato tinha. Por mais que ainda não soubessem até onde aquela trilha os levaria, a direção estava se tornando cada vez mais clara.

    — Então? — perguntou Brigitte. — O que aconteceu?

    Gabe soltou um longo suspiro. Aquele era o suspiro de alguém que já tinha contado aquela história mentalmente várias vezes e continuava insatisfeito com todas as versões.

    — Certo.

    Ele passou uma das mãos pelos cabelos loiros — mais como forma de se exibir do que qualquer coisa. Depois levantou um dedo.

    — Primeiro de tudo, o nosso plano era excelente.

    — Já começou mentindo. — comentou Gwen.

    — Eu mal comecei a contar a história. Você é cruel… Continuando.

    Ele suspirou novamente. Então apontou para Tsugumi.

    — A habilidade dela funcionou perfeitamente. Nós usamos a sombra da Tsugumi para atravessar partes inteiras do terminal sem sermos vistos. Escritórios, arquivos, corredores administrativos, salas de registro, depósitos, salas dentro de outras salas…

    Gabe começou a enumerar nos dedos.

    — Eu continuo convencido de que aquele prédio foi projetado por um psicopata.

    — Concordo. — respondeu Jakob imediatamente. — Tinha tanta sala que parecia mais um labirinto do que um prédio administrativo.

    O comentário arrancou alguns olhares. Aquilo sozinho já demonstrava o nível de sofrimento envolvido. Por alguns segundos, o grupo permaneceu em silêncio, apenas com o vento passando entre as lanternas acima deles. Então Evelyn inclinou a cabeça.

    Regras dos Comentários:

    • ‣ Seja respeitoso e gentil com os outros leitores.
    • ‣ Evite spoilers do capítulo ou da história.
    • ‣ Comentários ofensivos serão removidos.
    AVALIE ESTE CONTEÚDO
    Avaliação: 0% (0 votos)

    Nota