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    Assim que se afastaram da casa do vizinho, Brigitte lançou um olhar para o bloco de notas ainda aberto nas mãos de Gabe, o rapaz revisando o rosto desenhado.

    — Eu não sabia que você desenhava igual à Evelyn. — comentou a luminar.

    Gabe abaixou os olhos para o retrato improvisado de Navarra.

    — Bom, eu não diria que desenho.

    — Mas você acabou de desenhar, fi.

    — Foi só pra investigação.

    — Continua sendo desenho.

    O rapaz soltou um suspiro resignado. Aquilo estava começando a parecer mais complicado do que deveria.

    — Tá bom, tá bom, você me pegou. — disse enquanto guardava o bloco de notas no bolso da calça. — Quando eu e a Evelyn nos conhecemos, ela me ensinou um pouco sobre desenho. Ela tomou essa decisão depois de torcer as duas mãos e não conseguir mais desenhar. Foi trágico, coitada…

    Brigitte cruzou os braços e lançou um olhar seco para ele, já sem o bloco de notas nas mãos.

    — É, parece que isso ajudou bastante.

    — Eu sei.

    — Seu desenho tá acima da média.

    — Eu também sei.

    — Nossa, você aceita elogios muito mal! Custa agradecer direito?!

    Brigitte ficou ainda mais irritada, os braços cruzados com força. Enquanto isso, Gabe sorria de forma irritante.

    — Relaxa, eu agradeço quando o elogio vem de alguém que entende do assunto. Além disso, foram só algumas palavrinhas curtas. Vocês mulheres costumam implicar demais com coisas tão simples.

    Brigitte estreitou os olhos, como se estivesse avaliando a melhor forma de arrancar o sorrisinho daquele pateta. Então ergueu a mão com calma demais para alguém que claramente estava prestes a aprontar alguma coisa e lançou pequenos choquinhos nas costas de Gabe, rápidos e precisos.

    O rapaz se encolheu de imediato, arqueando os ombros em um reflexo involuntário e dando um passo brusco para o lado antes de se virar para encará-la. A reação foi tão repentina que ele quase tropeçou no próprio movimento, levando uma mão às costas enquanto a outra se erguiam num gesto de protesto.

    — Ai, ai, ai! — ele reclamou, ainda meio tenso, esfregando a região atingida com a palma da mão. — Você não precisava fazer isso.

    — Precisava sim. — Brigitte respondeu, agora ela com um sorriso no rosto. — Você tava se achando demais.

    — Eu não tava me achando demais.

    — Tava sim!

    A briga entre os dois foi se distanciando cada vez mais. Niko observou a cena com uma expressão meio impressionada, como se estivesse vendo a pior química possível entre duas pessoas. Gwen, por outro lado, soltou uma risada curta, claramente se divertindo com o desastre.

    A discussão morreu naturalmente enquanto continuavam caminhando pela rua. Com o bloco de notas já guardado no bolso interno do casaco, Gabe voltou ao assunto principal.

    — Certo. Temos uma aparência física razoável. Agora falta descobrir para onde ele foi.

    — Sim. — respondeu Niko imediatamente. — Sem mais informação, não sabemos como agir. Precisamos falar com mais gente. Se alguém viu para onde o Navarra foi, precisamos encontrar essa pessoa.

    — Concordo. — disse Gwen. — Quanto mais gente perguntarmos, maiores as chances de alguém ter visto alguma coisa.

    — Então vamos

    A decisão foi simples e rápida, quase intuitiva. Os próximos minutos foram compostos quase inteiramente por portas e pessoas. Portas fechadas. Portas abrindo. Portas se recusando a abrir. Pessoas confusas. Pessoas irritadas. Pessoas sonolentas…

    Na segunda residência, uma senhora desconfiada levou quase um minuto inteiro para acreditar que eles não estavam tentando aplicar algum golpe — e, quando finalmente abriu a porta de vez, só conseguiu dizer que não tinha visto Navarra naquela noite.

    Na terceira, um homem afirmou categoricamente nunca ter visto Navarra na vida, apesar de morar praticamente ao lado dele.

    Na quarta, uma mulher parecia mais interessada em reclamar do horário do que responder qualquer pergunta. Disse apenas que tinha ouvido passos na rua e uma porta batendo, mas não chegou a ver ninguém.

    Na quinta, Niko permaneceu estranhamente distante. Enquanto Gabe conduzia as perguntas e Brigitte assumia qualquer conversa que ameaçasse sair do controle, ele estava alguns passos atrás dos demais, caminhando lentamente.

    A mente de Niko continuava reorganizando possibilidades, mas agora todas convergiam para o mesmo ponto: o instante em que finalmente encontrasse o dríade. Como ele estaria depois de tudo o que havia acontecido? Ainda o reconheceria? Será que o perdoaria? Um arrepio lhe percorreu a espinha ao pensar que talvez fosse tarde demais, que talvez já não houvesse ninguém para encontrar. E, se ainda estivesse vivo, o que diria quando o visse de novo? Será que…

    — Ei. — a voz de Gwen apareceu ao seu lado.

    Niko piscou. Só então percebeu que estava alguns metros atrás do grupo, enquanto Gabe e Brigitte já conversavam com o próximo vizinho.

    — Você vai até os outros ou o que?

    — Já estava indo.

    — Bom saber.

    Ela apontou para frente com o polegar.

    — Olha, tenta continuar existindo na mesma realidade que o resto da equipe.

    Antes que ele respondesse, a voz de Brigitte ecoou alguns metros adiante.

    — Acho que temos alguma coisa!

    Os dois aceleraram o passo parando na frente da porta de entrada. O homem que os atendia parecia muito mais disposto a colaborar do que os anteriores. Depois de ouvir a descrição de Navarra, ele assentiu quase imediatamente.

    — Sim. Eu vi ele.

    O grupo inteiro prestou atenção.

    — Quando? — perguntou Gabe.

    — Faz um tempo já. Talvez quarenta minutos. Talvez mais. — disse o homem. — Sempre quando eu não consigo dormir eu leio um livro ao lado da janela. Vi um homem com essa mesma descrição física.

    — E pra onde ele estava indo?

    O homem apontou para além das casas.

    — Parecia que ele tava indo para o centro.

    Silêncio.

    — O… centro? — repetiu Brigitte.

    — Tem certeza? — perguntou Gabe.

    — É o que parecia. Ninguém vira a rua em direção ao Norte se não quer ir para o centro.

    Aquilo confundiu o grupo inteiro. Navarra estava fugindo, então por que caminhar justamente na direção da parte mais movimentada da cidade?

    O homem não tinha mais nada para acrescentar. Depois de agradecerem pela ajuda, voltaram para a rua, iluminada pelas poucas janelas acesas e os postes negros. O silêncio durou alguns segundos.

    — Isso não faz sentido. — murmurou Gabe.

    — Talvez faça. — respondeu Gwen.

    Todos olharam para ela. A esotérica enfiou as mãos nos bolsos do manto.

    — Se eu fosse um homem de cinquenta anos entrando em crise existencial durante a madrugada…

    Ela apontou para frente e, antes que pudesse continuar a fala, Niko se lembrou do comentário do primeiro homem que interrogaram: “Se não tava trabalhando, tava no bar.”

    — Eu iria beber. — continuou Niko, pegando o raciocínio de Gwen.

    — Exatamente. — Gwen confirmou, dando de ombros.

    Gabe soltou um suspiro curto e passou a mão pela nuca, olhando na direção do centro como se tentasse imaginar o caminho mais provável que Navarra teria seguido.

    — Não posso dizer que é uma má teoria. Agora acredito que Eloi foi realmente pro centro.

    Brigitte já estava se virando para a rua, como se a conclusão tivesse sido óbvia desde o começo. Ela ajeitou a postura, pronta para seguir em frente sem perder mais tempo com discussão.

    — Então vamos parar de discutir e começar a procurar bares.

    — Finalmente uma sugestão sensata. — Gabe respondeu, já retomando a caminhada com passos mais firmes. — Vamos encontrar esse cretino logo!

    — Vamooooss!!! — respondeu Brigitte, erguendo os braços e cerrando os punhos com entusiasmo. Ela praticamente vibrou no lugar antes de se virar para o albocerno. — Niko, eu vou para o centro em uns 30 segundos. Usa seu Portal depois desse tempo.

    Sem esperar por resposta, Brigitte se lançou para frente e desapareceu entre as ruas em um rastro de eletricidade roxa que cortou a escuridão por um instante antes de sumir.

    — Eu não esperava por essa. — comentou Gabe, ainda olhando na direção em que ela tinha ido.

    Gwen soltou um meio sorriso.

    — Garota esperta. A gente vai poupar bons minutos assim.

    Niko respirou fundo e ficou esperando. Os trinta segundos pareceram mais longos do que realmente eram, mas ele manteve o foco até o momento certo. Então ativou a Alma. Em um piscar de olhos, os três desapareceram, deixando para trás apenas a rua fria e silenciosa.

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