Capítulo 226 - Garrafa Vazia IV
Niko piscou, pego de surpresa. A pergunta o desarmou por completo, e por um instante ele ficou em silêncio, tentando entender se tinha ouvido direito. Não era exatamente o tipo de coisa que ele esperava ouvir naquele momento. Ainda assim, a curiosidade dela parecia genuína, o que só tornava a situação mais estranha — e mais tensa.
— O quê?
— Não se faça de desentendido. — Brigitte inclinou a cabeça, estreitando os olhos. — Você falou com aquele homem no bar com um luminárico perfeito. Além disso, o seu plano de se separar envolvia conversar com pessoas no bar, então você tinha que saber luminárico de qualquer jeito.
Niko abriu a boca, fechou de novo e desviou o olhar por um instante.
“Droga.”, pensou o albocerno.
Na pressa de conseguir uma resposta, tinha acabado falando sem pensar. Era uma informação pequena, claro. Não era como se tivesse revelado sobre a Skarshyn, mas ainda assim Brigitte tinha percebido que estava guardando segredos. E isso poderia afetar negativamente a relação dos dois.
— Eu… — ele começou, coçando a nuca. — N-não é bem assim.
— Então é como?
Ele soltou um suspiro curto, desviando o olhar por um instante antes de voltar a encará-la. A expressão no rosto dele era de alguém tentando encontrar as palavras certas sem saber se conseguiria.
— Eu entendo um pouco. Só isso.
Brigitte ficou em silêncio por um segundo, como se estivesse avaliando a resposta. O vento frio vindo do rio mexeu de leve nos cabelos dela, mas a luminar não desviou os olhos dele.
— Essa explicação não explica muita coisa.
Niko abriu a boca para responder, mas desistiu antes mesmo de dizer qualquer coisa. No fim, preferiu permanecer em silêncio. Brigitte arqueou uma sobrancelha.
— E mesmo assim você resolveu falar o seu plano, além de conversar com o barista na minha frente como se fosse a coisa mais normal do mundo?
Niko passou a mão pelo rosto, frustrado consigo mesmo. Sabia que tinha agido rápido demais, sem pensar, e, pior, deixado escapar mais do que devia. Agora precisava lidar com a desconfiança de Brigitte antes que ela crescesse e complicasse tudo entre eles.
— É, pois é. Você vacilou bastante.
A resposta veio seca, mas não agressiva. Ainda assim, ele sentiu o peso da própria imprudência. Tinha sido descuidado. Se Brigitte não tivesse notado, talvez tivesse passado despercebido por mais tempo. Mas ela notou. Claro que notou.
Por um instante, Niko ficou em silêncio, sem saber o que dizer. Não queria mentir ainda mais, ao mesmo tempo que também não queria começar a explicar coisas que talvez ainda não estivesse pronto para explicar — ou que não saberia explicar.
Brigitte o observou por mais alguns segundos e então soltou o ar devagar, como se estivesse desistindo de pressioná-lo naquele momento.
— Tudo bem se você não quiser falar disso agora.
Niko ergueu os olhos para ela. A expressão de Brigitte havia suavizado um pouco, embora ainda houvesse firmeza suficiente para mostrar que ela não estava brincando com aquilo, e ele percebeu isso imediatamente ali.
— Sério. — ela continuou. — Eu não vou arrancar isso de você à força.
Ele não respondeu de imediato. Por um instante, Niko ficou em silêncio, confuso com a reação dela. Tinha esperado uma bronca, talvez até uma cobrança mais dura, mas Brigitte não parecia irritada, apenas pontuando algo para o garoto.
— Mas eu preciso que você confie em mim. — disse ela, agora com a voz mais baixa. — Somos amigos, Niko. Se tem alguma coisa acontecendo, eu prefiro saber por você do que descobrir por acidente no meio de uma investigação.
A palavra “amigos” ficou suspensa entre os dois por um instante. Niko sentiu o peito apertar de um jeito estranho, não exatamente desconfortável, mas pesado. Ele sabia que Brigitte tinha razão, e justamente por isso a culpa parecia pior.
— Eu sei. — respondeu por fim, em voz baixa. — Me desculpa.
Brigitte deu de ombros, embora o olhar continuasse sério.
— Só tenta não me deixar no escuro da próxima vez. Eu me importo com você. Além disso, mentir ou guardar a verdade não é algo legal. — Cruzou os braços logo em seguida, como se quisesse deixar claro que não estava brava, mas também não ia fingir que aquilo não importava.
Ele assentiu, curto, ainda sentindo o peso da conversa, mas sem coragem de insistir em mais nada ali, nem ao menos de dizer a verdade.
— Vou tentar. — respondeu ele, em um misto de confiança e receio.
Brigitte permaneceu parada diante dele por mais alguns instantes. Havia várias perguntas que ainda gostaria de fazer, isso era evidente pela forma como os olhos permaneciam fixos no albocerno, mas escolheu não insistir.
— Vamos. Antes que aquele homem resolva desaparecer de novo.
Niko respirou fundo e a acompanhou, ainda com a sensação incômoda de que tinha acabado de abrir uma porta que talvez não conseguisse fechar tão cedo.
As ruas tornaram-se mais largas. As construções começaram a dar lugar a espaços abertos. O cheiro salgado do rio passou a dominar o ar. Pouco depois, alcançaram o calçadão que acompanhava a margem.
Algumas lanternas antigas iluminavam o caminho de forma irregular, deixando longos trechos mergulhados em sombras suaves. Bancos de madeira estavam distribuídos ao longo da orla, quase todos vazios naquela hora da madrugada. O lugar todo estava praticamente vazio.
Brigitte foi a primeira a diminuir o ritmo. O semblante calmo que mantinha desapareceu progressivamente conforme avistava algo que chamou sua atenção.
— Gente, vocês acham que…?
Todos seguiram seu olhar. Sobre um dos bancos voltados para o rio, um homem permanecia sentado completamente imóvel, com os cotovelos repousavam sobre os joelhos.
Entre as mãos, estava segurando uma garrafa de whisky vazia, refletindo a luz amarelada do poste mais próximo. E a postura curvada, como se não se importasse direito em ajustar as costas.
Alto, magro, cabelo meio grisalho, barba rala, meia idade, rosto de quem não dormia direito… Os aspectos físicos correspondiam exatamente à descrição que haviam reunido durante toda a investigação.
Nenhum deles precisou dizer o nome. Nem ao menos era preciso. Depois de horas perseguindo pistas espalhadas por Daurlúcia, finalmente haviam encontrado Eloi Navarra.

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