CAPÍTULO 61 – O TRUNFO
“O-o quê?”
Alexander olhou, incrédulo, para o que acabara de presenciar.
A técnica que acabara de lançar não era complexa.
Mas isso não a tornava fraca.
A força de um mago sempre residira em sua versatilidade. Magia possuía incontáveis usos. Mesmo quando um mago se especializava em determinada escola, ainda conservava acesso a uma variedade enorme de recursos, ofensivos, defensivos, utilitários, sensoriais e ritualísticos. Em compensação, havia uma fraqueza clássica nesse caminho: combate físico.
Num confronto real, um mago preferia distância.
Preferia tempo.
Preferia espaço para conjurar sem interrupções.
Se fosse forçado ao corpo a corpo, a prioridade quase sempre seria escapar em vez de prolongar a troca. Quanto mais tempo permanecesse naquele terreno, maior seria sua desvantagem.
Um artista marcial era o oposto.
Seu corpo era a própria arma. Aura reforçava músculos, ossos, velocidade, resistência e impacto. Numa luta entre artista marcial e mago, a vantagem tendia a pender para o primeiro assim que a distância fosse encurtada.
Alexander, porém, nem precisara se aproximar.
Ele havia investido aura em uma técnica simples da Academia Berserker. Simples, mas brutal. A lâmina de aura gerada por aquele golpe era poderosa o bastante para matar um mago comum de 5º ciclo se o atingisse em cheio. Alexander não havia se segurado. Aproximadamente 30% de sua reserva de aura fora despejada naquele ataque.
Assim como a mana, a aura também possuía limites.
E ainda assim Orson parara o golpe com a mão nua.
Desde o instante em que usara a habilidade de assinatura [Assimilação de Alma], tudo havia mudado. Sua alma se fundira à do dragão, e a estrutura dracônica que antes o envolvera de modo instável agora se condensava sobre o corpo do necromante como uma armadura espectral amarela. Não era metal. Não era carne. Não era um espírito separado. Era uma fusão entre almas.
Orson não desviara.
Não recuara.
Não tentara amortecer o impacto fugindo da linha do golpe.
Apenas o parara.
Isso era inconcebível para Alexander.
Victor estava ainda mais abalado do que ele.
O feitiço de 5º ciclo [Idade Imposta], lançado um instante antes sobre o necromante, parecia não ter produzido efeito algum. Aquilo, por si só, já era absurdo. Magias da escola do tempo podiam falhar, mas não daquele jeito. Não depois de já terem começado a agir sobre o alvo.
Além disso, a aparência de Orson havia melhorado visivelmente.
Momentos antes, o necromante parecia um velho de 90 anos, curvado, ressecado e à beira do colapso. Agora já não dava essa impressão. Continuava envelhecido, sim, mas muito menos. Parte da decrepitude desaparecera. Sua postura parecia mais firme. O corpo, mais preenchido. O simples ato de permanecer de pé deixara de transmitir a sensação de que ele poderia tombar a qualquer momento.
E havia os olhos.
Duas esferas inumanas e completamente vermelhas sem pupila.
Victor e Alexander se sentiram intimidados.
Não foi uma decisão racional construída passo a passo.
Foi instinto.
Os dois souberam, no mesmo instante, que não seriam capazes de matar Orson enquanto aquela assimilação permanecesse ativa.
Na verdade, Orson não estivera realmente preocupado com os executores desde a primeira vez que os vira.
Possuía esse trunfo.
[Assimilação de Alma] era uma habilidade de assinatura excepcionalmente útil, mas demonstrava seu verdadeiro valor apenas quando aplicada a uma alma poderosa. No caso de Orson, dificilmente poderia haver uma parceira melhor. A alma do dragão nutria seu corpo de forma absurda, preenchendo músculos gastos, estabilizando carne exaurida e empurrando suas capacidades físicas para um patamar que jamais lhe pertenceria naturalmente.
O resultado estava diante deles.
Um mago frágil, antes decrépito, acabara de parar com uma mão o ataque de um artista marcial de rank 5.
A nutrição anímica era tão intensa que Orson parecia até mais jovem.
Ainda assim, um poder daquela magnitude jamais viria sem preço.
E Orson, mais cedo ou mais tarde, pagaria por ele.
A lâmina de aura presa entre seus dedos espectrais começou a ranger.
Fissuras amareladas se espalharam pela técnica de Alexander como rachaduras sobre vidro sob pressão. Então Orson apertou a mão, e o golpe se despedaçou em fragmentos de aura que se dissiparam no ar.
“E então?” A voz do velho saiu diferente, mais grave, mais cheia, contaminada por um eco dracônico que parecia vibrar nas ruínas ao redor. “Ainda acham que podem me matar?”
Victor e Alexander recuaram involuntariamente um passo ao ouvir aquilo.
Os dois perceberam o que haviam feito no mesmo momento em que seus pés tocaram o chão atrás deles.
Orson sorriu.
Havia crueldade, cansaço e desdém naquele sorriso.
Em seguida, avançou na direção de Victor.
A escolha do alvo não era aleatória.
Alexander era a ameaça mais direta em combate físico, mas Victor era o homem que podia manipular o tempo, rastrear movimentos, alterar ritmo e transformar uma abertura mínima em condenação inevitável. Orson sabia disso. Se fosse eliminar um dos dois primeiro, seria ele.
Victor também sabia.
Por isso ergueu o cajado de imediato, preparando a próxima magia antes mesmo de terminar de processar o avanço do necromante.
…
Em um telhado próximo, uma figura invisível observava o desenrolar da luta.
Grim mantinha distância, agachado sobre as telhas, com o item mágico de rank 3 ainda ocultando sua presença. Daquela posição, tinha visão privilegiada da rua devastada, das casas destruídas e do confronto que havia escalado para um nível muito acima do que esperara encontrar em Corval.
“Caramba…” pensou, sem desviar os olhos da cena. “Quem imaginaria que o mendigo era um mago tão poderoso?”
Continuou acompanhando tudo em silêncio por alguns instantes.
“Bom… tanto faz. Isso não parece ter relação alguma com os esquemas de Balthazar, mas ainda é melhor observar por precaução.”
Grim apoiou o queixo na mão, como se estivesse assistindo a um espetáculo de rua particularmente violento.
“Ah, cara… se eu tivesse uma pipoca, isso seria perfeito.”

Regras dos Comentários
Para receber notificações, ative o sininho ao lado do botão de Publicar.